
Davi Marcelgo
Tanto já foi feito com o Drácula e suas variações na mídia, que talvez haja um esgotamento criativo. Nos brinquedos, Monster High criou sua Draculaura; na literatura, Stephenie Meyer fez adolescentes suspirarem com seu Edward e só na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo há três filmes que adaptam histórias de vampiro: Nosferatu, Love Kills e Dracula. Este último é dirigido por Radu Jude, diretor romeno que tem em sua carreira obras ácidas, como Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021). Ao ser o primeiro cineasta da Romênia (país de origem do mito) a adaptar a história para as grandes salas, Jude encara o dilema de produzir mais uma história sobre Vlad III, mas encontra uma saída rápida: a Inteligência Artificial.
O longa, que faz parte da Seção Perspectiva Internacional no festival, usa a ferramenta contra si mesma: o que é regurgitado pelo software se torna instrumento para zombaria e crítica. A premissa consiste em um filmmaker (Adonis Tanta) que pede à IA fictícia uma série de histórias sobre o Dracula, o resultado é uma antologia obscena, esquisita e por muitas vezes desinteressante, uma ode ao mau gosto. Entre os gêneros e temáticas exercidas na obra, há uma sátira envolvendo um vampiro capitalista, comédias falocêntricas, outra burlesca e pequenos comerciais que tiram sarro da obra de F. W. Murnau – um Monty Python desregulado.
Enquanto a IA faz seu medíocre trabalho, Jude e o elenco fazem outro tão porco quanto. Mecânico, desengonçado e monstruoso, como se estivesse sendo feito 100% pelo artificial. Em certos momentos, enquanto os atores no primeiro plano dão continuidade à trama, os do segundo plano ficam sem ter o que fazer: fingem uma conversa qualquer ou repetem o mesmo movimento, quantos minutos forem necessários. Algumas cenas reservam o amadorismo consigo, quando as lâmpadas do estúdio ficam dentro do quadro ou a câmera quebra a magia do Cinema ao deixar escapar a aparição de automóveis em um conto situado muito antes da invenção dos veículos.

O roteiro de Radu Jude usa o personagem cineasta para interagir com o dispositivo e conversar com o público, demonstrando autoconsciência em seu humor. Entre tantas histórias amarradas, há uma que adapta o primeiro romance vampiresco feito na Romênia, ciente de sua natureza excessiva, tanto que a IA vai alertar seu usuário de que esta durará em média 50 minutos. Com a tragédia anunciada, Jude persiste na adaptação desastrosa, que serviu de exemplo no parágrafo acima. A peça é tão enfadonha que usa um narrador para explicar o que está acontecendo em tela ou falar algo que não encaixa com o que está sendo mostrado.
Há figurantes feitos de papelão em um bar e erros de continuidade, tudo para causar incômodo e transmitir a ideia de incoerência dos simuladores de inteligência. A incapacidade de criar sentimentos surge em uma história sobre amor que não tem nenhuma ligação com o conde Vlad III e, acima de tudo, não esboça amor algum. Os personagens se comportam mecanicamente e o enredo simula uma paixão não correspondida que se desenvolve do mesmo jeito que imagens geradas pelo computador se movimentam.
Por meio do estranho, Dracula olha para tudo que já foi feito sobre o mito romeno e o reproduz pela lógica da ferramenta plagiadora, evidenciando na forma, todo conteúdo ordinário que ela faz. É a Arte em sua capacidade provocativa e desconfortável, não no sentido de lhe tirar de ideias consoladoras, mas tensionando o físico por meio do tédio e da estupidez, sendo difícil continuar na poltrona enquanto aquelas imagens grotescas continuam a rolar e… deveríamos?
