Springsteen: Salve-me do Desconhecido foge do clichê de cinebiografias e mostra como nunca é tarde demais para procurar ajuda

Homem branco com cabelos escuros, sentado no chão apoiado na cama com um violão de frente para uma janela
Abertura com Jeremy Allen White como Bruce Springsteen, sentado diante de um violão olhando para horizonte (Foto: 20th Century Studios)

Clara Morais

O filme Springsteen: Salve-me do Desconhecido, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é dirigido por Scott Cooper e inspirado no livro de Warren Zanes, Deliver Me from Nowhere (2023). A obra se inicia com o fim da turnê The river do disco que estava colocando Springsteen ao estrelato. Mesmo estando no auge da sua carreira Bruce decide que é o momento para fazer uma pausa e se concentrar no processo de criação de Nebraska, álbum de 1982 gravado em sua residência e com um gravador caseiro, o longa transforma esse recorte íntimo da vida do cantor em um drama sobre memória, dor e reinvenção. A narrativa se ancora em um período contraditório de sua vida: o auge do reconhecimento público e, simultaneamente, o aprofundamento de suas crises emocionais.

A força do longa está, justamente, na construção de Bruce como personagem. Interpretado por Jeremy Allen White, o ator mais conhecido pela série The Bear (2022) não mostra similaridade alguma com ‘Carmy’ O intérprete passa por uma transformação e preparo técnico para viver o protagonista, Jeremy consegue transparecer muito bem o conflito emocional que Bruce sofria na época sem forçar uma performance caricata, clássicas de cinebiografias. Um elemento importantíssimo da narrativa é o pai do cantor, vivido por Stephen Graham, ator que atualmente escreveu e estrelou a série Adolescência (2025) é a peça central para a construção da narrativa. Um pai agressivo, como é possível ver nas cenas de flashbacks, que influencia por completo a vida adulta de Bruce.

Outra performance que rouba a cena é a de Jeremy Strong, de Succession (2018),  que vive Jon Landau, o qual traz um personagem com muito carisma e bom humor, com cenas divertidas e engraçadas, muitas vezes quebrando a melancolia do filme. Sem contar sua química com Jeremy Allen, transformando todas as suas cenas juntos em algo magnético. Em entrevistas e análises prévias, muito se falou sobre a intenção de Cooper em evitar o biográfico tradicional, apostando em um retrato mais emocional do que cronológico. O resultado é uma obra que prefere silêncios, pausas e tensões familiares aos grandes marcos da carreira.

Dois homens brancos sentados em uma mesa de um restaurante, homem da esquerda de camisa de flanela vermelha e homem da esquerda de suéter verde os dois estão conversando
Cena entre Bruce e seu empresário Jon Landau, interpretado por Jeremy Strong (Foto: 20th Century Studios)

A cinematografia de Masanobu Takayanagi cria essa atmosfera concentrada: ambientes estreitos, luz baixa, poucos movimentos de câmera e uma paleta que nos ambienta na rusticidade do próprio Nebraska. A estética minimalista encontra eco no desenho de som, que recria o ambiente precário das gravações caseiras e dá peso simbólico ao gravador de quatro faixas, quase uma pessoa na narrativa. A trilha sonora (Jeremiah Fraites), ancorada nas composições do álbum, intensifica o clima de distanciamento e melancolia, reafirmando a importância desse período para a identidade artística de Springsteen. 

Se tecnicamente o filme é sólido, narrativamente ele aposta numa progressão lenta, por vezes contemplativa demais. A escolha de Cooper de construir a história como um estudo psicológico pode afastar quem espera os grandes marcos da carreira do cantor ou momentos grandiosos típicos de cinebiografias musicais. Isso acaba se tornando exatamente o que enriquece a história; o diferencial não tanto obcecado por adular e romantizar a jornada do protagonista é exatamente o que traz conforto e realidade à narrativa. Além disso, alguns personagens – como o interesse romântico fictício ‘Faye’ – misturam fatos e imaginação, algo já destacado em comparações entre realidade e ficção publicadas pela imprensa americana. Ainda assim, mesmo essas liberdades criativas funcionam tematicamente, reforçando a jornada emocional proposta.

No conjunto, Springsteen: Salve-me do Desconhecido é uma obra que se mantém fiel ao espírito de Nebraska: simples, crua, melancólica e profundamente humana. É um retrato de um artista tentando sobreviver a si mesmo, atravessando memórias dolorosas enquanto constrói algo bonito do lado de fora – e destrutivo do lado de dentro. Longe de oferecer soluções, o longa propõe reflexão, e é justamente nisso que encontra sua força. Ele não quer explicar Bruce Springsteen; quer ouvi-lo.

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