Alerta: este texto contém alguns spoilers

Guilherme Moraes
Sirât é o nome de uma ponte que supostamente liga o inferno ao paraíso. Louis (Sergi López) está procurando sua filha mais nova, junto com seu filho, Esteban (Bruno Nuñez Arjona); Jade (Jade Oukid), Tonin (Tonin Janvier), Bigui (Richard Bellamy), Stef (Stefania Gadda) e Josh (Joshua Liam Henderson) estão indo em direção a outra festa no deserto, porém, a travessia até ela será complicada. Dessa forma, os sete se juntam para atravessá-la. Oliver Laxe busca materializar o Sirât nessa jornada, no entanto, o filme esquece do destino, foca na trajetória e acaba em lugar nenhum.
O longa tem algumas semelhanças com algumas obras de Kelly Reichardt, principalmente pela maneira como tenta evocar o discurso político. Pelo cenário desértico e pelo grupo pequeno que se torna uma pequena sociedade e vai se reestruturando conforme os problemas e decisões aparecem – temática que vem desde No Tempo das Diligências (1939) de John Ford – lembra O Atalho (2010); a maneira como o panorama político social aparece e os personagens aparentam estar alheios a ele, remete à The Mastermind, lançado ano passado. Apesar de um pouco similar, o que torna a fita de Oliver Laxe muito inferior para as duas de Reichardt é a diferença gigantesca entre ambos os diretores.
Em The Mastermind, o protagonista vive em uma época turbulenta na história dos Estados Unidos, os anos 1970, a propaganda militar, os panteras negras, movimentos anti-guerras, etc. Josh O’Connor, no papel principal, está alienado de tudo o que está à sua volta, pensando estar protegido por sua condição financeira, vivendo o American Way of Life. No entanto, a realidade o alcança de qualquer maneira. Sirât tem uma pegada parecida. Os militares rondando, os jornais, o que é dito no rádio, os pequenos comentários dos personagens, etc. Contudo, o filme não faz nada quanto a isso, Louis e Esteban estão em uma jornada familiar e os outros estão a caminho de um evento social. Nada ali indica um discurso político, seus motivos são precários narrativamente, a construção de contexto é pobre, tudo leva a lugar nenhum.

O diretor também parece ter a falsa ideia de que a técnica cinematográfica vale por si só; que os sentimentos artificiais se bastam. Laxe e as engenheiros de som (Amanda Villavieja e Laia Casanovas) se aproveitam da experiência cinematográfica para criar uma ambientação diferente para o público, com as batidas das músicas vindo de diferentes lugares, como se estivéssemos dentro do universo. A ideia pode ser boa, mas não tem objetivo. O momento em que os personagens dançam no campo minado, enquanto estão numa situação terrível é uma das piores sequências do longa.
Para efeito de comparação, em Onde Começa o Inferno (1959), antes da batalha final, os quatro que estão defendendo a cadeia tocam My Rifle, My Pony and Me de maneira que amenize a tensão e os una, tornando o confronto e a possível morte mais aceitável. É a tentativa de ser feliz uma última vez. Em Sirât, a música, a engenharia de som e o movimento dos atores – que parecem estar em transe – só reforçam a alienação, até do próprio público. Essa tomada só não é pior que a das explosões no final. As dinâmicas entre os personagens são tão fracas, que no momento derradeiro do filme não há qualquer preocupação com eles. Sem conexão, a construção de suspense e tensão vira apelativa e artificial; não tem sensação de ameaça, é apenas incômodo. A obra parece acreditar que essas emoções valem por si só, mas não valem.
Sirât compete nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som no Oscar de 2026. Pensando da campanha que vem fazendo desde Cannes, não é nenhuma surpresa a nomeação para a categoria internacional, assim como também não causa nenhum espanto a indicação para a categoria técnica, entretanto, é triste ver como o Oscar olha para esse prêmio apenas pela sua engenharia e complexidade de produção, não por sua intenção e utilidade narrativa. No final, Oliver Laxe também mostrou que é tão alienado quanto seu longa, ao fazer um comentário infeliz e ignorante sobre a presença dos brasileiros na Academia. Quem tem telhado de vidro não atire pedras na do vizinho.
