Aviso: Este texto contém alguns spoilers

Ana Beatriz Zamai
Inspirado na obra de mesmo nome, Se Não Fosse Você (2019) é mais uma adaptação literária da controversa Colleen Hoover, autora de best-sellers como É Assim que Acaba (2016) e Verity (2018), que também saíram do papel para as telonas, em 2024 e, futuramente, 2026, respectivamente. Porém, para quem não leu o livro, provavelmente não irá associar o filme à escritora, visto que essa não é uma de suas obras mais famosas – e os fatores negativos da adaptação não são somente associados ao desenvolvimento da trama, como no longa estrelado por Blake Lively.
A história é entrelaçada por três mulheres da mesma família, Clara Grant (Mckenna Grace), sua mãe Morgan Grant (Allison Williams) e Jenny Davidson (Willa Fitzgerald), irmã de Morgan e tia/melhor amiga/confidente de Clara. Morgan e Jenny namoram seus amores de adolescência, Chris Grant (Scott Eastwood) e Jonah Sullivan (Dave Franco); mas, 17 anos depois, a mãe e o tio de Clara descobrem que talvez os pares estejam invertidos: Jenny e Chris sofrem um acidente trágico juntos e os viúvos descobrem que os dois mantinham um caso secreto há anos.

Em uma das primeiras atuações de Mckenna Grace como uma adolescente vivendo a ‘vida de jovem’ – aqui entende-se o momento da descoberta dos primeiros amores, o fortalecimento de grandes amizades, e as discussões com os pais, típicas de adolescentes incompreendidos –, a atriz exemplifica muito bem a importância de ter feito tantos bons papéis enquanto ainda era criança. Grace entrega mais uma ótima personagem, com uma atuação leve e natural.
Essa leveza é muito facilitada pela parceria com Mason Thames, intérprete de Miller Adams, um colega de escola de Clara que se aproxima aos poucos, sem saber que a menina já nutria uma paixão por ele há um tempo. Seja pela direção de Josh Boone ou pelo conhecimento de Mason em ser um adolescente conquistador – conhecimento esse que aparentemente conquistou a própria Mckenna Grace –, Miller Adams é muito bem representado como um galã romântico de filmes adolescentes clichês, um tipo de personagem que estava longe dos últimos romances das telonas. A química dos jovens atores é muito evidente e muitos dos momentos de afeto entre o casal soam naturais, e não mecanizados.
Entretanto, a naturalidade é vista, infelizmente, apenas nos mais jovens. A grande maioria das cenas entre os adultos são constrangedoras, principalmente as que envolvem Morgan e Jonah. É como se o telespectador estivesse na sala de ensaios do filme, escutando Allison Williams e Dave Franco apenas lendo o roteiro, sem qualquer tipo de emoção, seja nos momentos felizes, apreensivos ou tristes. Há uma ressalva para Williams nas cenas em que a personagem expressa raiva: mãe e filha brigam com certa frequência, e é nessa hora que vemos um brilho de esperança na atuação. Seja nas discussões com Clara ou nos momentos em que sente raiva do falecido esposo, Allison consegue expressar muito bem a irritação da mulher através de gritos dignos de filmes de terror e expressões faciais e corporais. Mas essa raiva não é o suficiente para convencer o público a gostar do casal viúvo recém formado. Enquanto Clara e Miller exalam química mesmo em conversas casuais, Morgan e Jonah não chegam perto disso nem quando se esforçam muito.

Outro fator negativo, novamente relacionado à Alisson, Dave, Scott e Willa, é o fato deles também interpretarem a versão mais jovem de seus personagens. Como já mencionado, os casais estão juntos desde a adolescência, e a produção achou de bom tom colocar o quarteto com roupas, acessórios e penteados ‘de jovens’ para os momentos de flashback, além de um filtro no rosto, como se tivessem sido gravados através de stories do Facebook. O filme tenta, e falha, induzir o leitor a acreditar que a Allison ‘personalizada’ dela mesma no passado teria a mesma idade que Mckenna no presente.
A divulgação do longa o define como uma mistura de drama e comédia romântica, e a adaptação é, de fato, dramática, mas se sai muito melhor quando assume o lado cômico. As cenas de drama, além de serem rasas e não aprofundadas, seja pelo roteiro de Susan McMartin ou por seguir fielmente ao livro – Colleen Hoover é produtora executiva, garantindo aos fãs seguir precisamente a obra escrita, seja isso bom ou ruim – são prejudicadas pela atuação do elenco mais velho, como já comentado.
Os momentos em que o roteiro tenta criar cenas engraçadas são as que fazem o telespectador criar um carinho pela produção – além de, óbvio, o romance jovem. A cena em que Morgan encontra a filha em um carro com Miller, descobre que a garota havia usado maconha durante o funeral do pai e a deixa na porta de casa é um acontecimento emoldurado perfeitamente nas clássicas comédias românticas, além de mostrar uma boa química e atuação conjunta de Williams e Grace. Essas cenas podem ser responsabilizadas por Josh Boone, diretor de A Culpa é das Estrelas (2014), um profissional acostumado a lidar com romances em acontecimentos trágicos e a dirigir momentos de alívio cômico nestas situações. Além disso, a adição da personagem Lexie (Sam Morelos) foi uma boa escolha: a melhor amiga de Clara convive com a família Grant como se fosse uma segunda filha, e não tem medo de pesar o clima com frases cômicas.
No geral, Se Não Fosse Você é um bom passatempo, uma comédia romântica típica de agradar o coração e logar com 3,75 estrelas no Letterboxd – 3,5 é pouco, mas 4 já é demais. O longa peca em alguns fatores, como na atuação dos adultos e na pressa para terminar: depois que os dois casais passam pela ‘tempestade’ e ambos estão bem, é como se dissessem para a produção que eles só tinham mais dez minutos para finalizar o longa. Dois fatores deixam essa impressão: deixar apenas um mês como espaço de tempo entre a calmaria e o final clichê – Morgan e Jonah sequer mencionaram os falecidos esposos, já estavam juntos e felizes, com Clara, que, de repente, aceitou a situação sem questionamentos – e a escolha em não contar para a garota que o filho de sua tia com, supostamente, seu tio, na verdade é com seu pai. Seja pela pressa em fechar a história, por furo no roteiro ou por opção dos produtores, foram decisões que prejudicaram o que seria um final agradável.
Entretanto, os fatores que conquistam o público são maiores que os desanimadores: a atuação de Mckenna Grace e Mason Thames conquistam pela química natural e atraente e a história em si é boa, mesmo que não tão bem explorada. Os fãs de comédia romântica lidaram com a falta de obras (boas) do gênero no mercado cinematográfico, mas agora podem ir aos cinemas se deleitar de um bom clichê que te dá esperanças no amor – se ignorarem a tentativa falha de dramatizar o filme.
