
Mariana Bezerra
Imigracao e envelhecimento são temas extremamente delicados, que constroem o enredo de Querido Trópico, o filme que marca a estreia da diretora panamenha Ana Endara na ficção. O longa passou por eventos importantes como o Festival do Rio em 2024 e o Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2025 antes de chegar aos cinemas brasileiros. Além disso, essa foi a obra escolhida para representar o Panamá no Oscar de 2026.
A sensibilidade é o ponto chave dessa narrativa protagonizada por Mercedes (Paulina Garcia), uma senhora chilena muito privilegiada, e por Ana María (Jenny Navarrete), uma imigrante colombiana grávida, que logo no início assume a função de cuidadora da mais velha. O abismo entre as realidades das duas mulheres se apresenta como uma forma de contar histórias de duas pessoas que saíram de seus países para o Panamá em condições muito diferentes. No entanto, o que o roteiro explora, de fato, é a amizade e cumplicidade que podem surgir de formas inesperadas.
Enquanto a personagem de Paulina atravessa a velhice e lida com a demência e suas consequências, Ana María é quase como uma âncora da realidade, alguém que a enxerga como um ser humano como qualquer outro, apesar dos cuidados extras que demanda. Esse cenário revela que Mercedes se sente acolhida e vista, talvez como nunca em muito tempo e isso permite que a sua personalidade e a sua história de vida sejam ressaltadas ainda que dentro dos limites da sua condição. Esse aspecto é o resultado de performances brilhantes e extremamente sensíveis de Paulina Garcia (Narcos) e, também, de Jenny Navarrete. Por outro lado, há uma relação de hierarquia entre as duas protagonistas, que não é ignorada, mas que, na verdade, é muito mais clara entre Ana María e a filha de Mercedes, que foi quem a contratou.

Endara se aproveita dessas relações para explorar o tema do ‘cuidado’ como um assunto geracional e fortemente associado às mulheres. Apesar da função de Ana Maria ser, de fato, laboral, o roteiro (Ana Endara Mislov e Pilar Moreno) abre espaço para que se reflita sobre esse assunto de forma geral. Em determinado momento, Ana María comenta também ter cuidado de sua própria mãe durante a velhice; diante disso, Mercedes diz: “Sua filha será uma mulher para que ela possa cuidar de você, assim como voce cuidou dessa senhora”.
Nesse sentido, as relações de cuidado se apresentam quase como um círculo vicioso, uma vez que a responsabilidade desse trabalho parece sempre recair sobre as mulheres, o que é representado em outro momento do filme, só que, dessa vez, de forma mais sútil: na cena de aniversário de Mercedes, seus filhos se reúnem em sua casa para a comemoração e a única filha mulher é justamente a responsável por atender às suas demandas, ainda que indiretamente. Na mesma cena, Paulina transmite a alegria e a confusão de sua personagem, que parece, simultaneamente, anestesiada e em êxtase; a composição dos cenários e a coreografia criam uma atmosfera estranha. Essa, por um lado, pode expressar a dinâmica mental de Mercedes, mas também um contexto familiar que parece tornar-se cada vez mais indiferente aos indivíduos à medida que eles envelhecem.

A lente de Endara diz muito sobre o seu histórico profissional como documentarista. As imagens são construídas a partir do que parece uma distância segura, que faz as interações parecerem orgânicas e fluídas, sem a necessidade de uma dramatização extrema, com exceção dos momentos que Mercedes apresenta sintomas de sua condição, o que por vezes, parece apenas uma repetição de uma situação constrangedora para ela e que toma espaço do que poderia ser uma cena mais importante para sua personagem.
Além disso, a natureza ganha um destaque muito grande em sua câmera; as gotas de água, os detalhes das folhas e os pequenos insetos ocupam o quadro de cena e ressaltam a atenção da diretora aos detalhes que compõem os cenários do longa. A cada momento, há a sensação de que íntimas memórias estão sendo construídas nesse universo paralelo criado pelas personagens principais. Esse aspecto rende cenas repletas de ternura como quando Mercedes descobre que, na verdade, Ana María (Jenny Navarrete) não está grávida, mas usa uma barriga de enchimento ou mesmo quando elas estão passeando em um parque e uma chuva intensa banha as emoções que talvez nenhuma das duas tenha sido capaz de chorar.
Essa maneira de criar essa narrativa faz com que o filme pareça, de fato, passar devagar. No entanto, existe um ar de tranquilidade que, para muitos espectadores, pode se sobressair a sensação de lentidão. Assim, Querido Trópico consegue fazer um retrato de uma intimidade que simplesmente acontece, sem muita explicação, apesar de não ser imediata. Endara explora temas sensíveis que, muitas vezes, parecem intocáveis, no entanto, aqui, é a própria narrativa e as relações que orquestram as discussões sem deixar deixar de dar a devida atenção a história de amizade genuína que se desenvolve no enredo. É com coisas ditas pelo olhar e captadas sem intromissão que esse longa cativa e emociona com mensagens múltiplas sobre diversos assuntos, e sim com uma principal que trata de amor e afeto.
