Nas Terras Selvagens, sobrevive o Predador que melhor se adapta

Aviso: esse texto contém spoilers

Cena de Predador: Terras Selvagens. Um close-up frontal e intenso do Predador. Ele ruge, mostrando suas mandíbulas abertas e presas afiadas. Seus olhos amarelados estão focados à frente, e ao fundo, uma cena de batalha com fogo e fumaça aparece desfocada.
Dan Trachtenberg também dirigiu O Predador: A Caçada (2022) que saiu diretamente no Disney+ (Foto: Disney)

Guilherme Moraes

Um dos grandes desafios para as franquias decenais não é de se reinventar, mas de inserir uma ideia original dentro da mesma fórmula. A necessidade do estúdio de lucrar sempre irá se sobrepor ao do artista na indústria americana, dessa forma, a reinvenção vira apenas um discurso, pois apostar no conhecido se paga e ainda faz dinheiro – aliás, é exatamente por esses motivos que esses filmes são refilmados ou recebem uma continuação. O que resta para alguns cineastas é fazer um trabalho de artesanato e criar algo singular dentro desse sistema. Longe de dizer que Dan Trachtenberg é um artesão da Sétima Arte, porém, pelo menos em Predador: Terras Selvagens, o diretor consegue instaurar uma relação entre os personagens e o ambiente de maneira criativa.

A trama é um pouco diferente de seus pares, pois, desta vez, o protagonista não é um humano que será perseguido por um alienígena, e sim o próprio Yautja. Dek (Dimitrius Schuster-Koloamatangi) é enviado para um outro planeta com uma missão: levar a cabeça de um grande predador para seu clã. A falha da missão significa a sua morte.

O aspecto cultural como base para a história já está se tornando uma marca de Dan Trachtenberg. Em O Predador: A Caçada, uma guerreira Comanche precisa provar o seu valor e salvar a sua tribo, e para isso ela precisa enfrentar o alien. Neste, o irmão do herói é assassinado pelo próprio pai, por mostrar misericórdia com o mais fraco – no caso, Dek –, um crime imperdoável entre os Yautja. No entanto, o que torna essa característica especial é como o cineasta toma cuidado em não julgar tais culturas, ao mesmo tempo que dá liberdade aos seus personagens para se entenderem dentro delas. O herói do filme não adquire um ódio contra seu clã, apenas começa a se compreender fora dele a partir do contato com outros seres e dessa maneira ele conquista sua liberdade.

Cena de Predador: Terras Selvagens. Em um cenário ao ar livre, a atriz Elle Fanning, com cabelos loiros curtos e o rosto sujo, olha para a esquerda com uma expressão séria. Ela está de costas para um Predador, que por sua vez está de perfil e olha para a direita, criando uma composição de costas com costas.
“O alfa não é aquele que mais mata, mas o que melhor cuida da sua alcateia”(Foto: Disney)

Mais do que a cultura modificando o indivíduo, a obra também coloca o ambiente como peça fundamental nessa mudança. Agora, o Yautja se encontra em um lugar desconhecido, sempre tensionando ele entre predador e presa; ele é apenas um animal precisando sobreviver. No final de Planeta dos Macacos: A Guerra (2017), uma avalanche mata todos os humanos, restando apenas os macacos, que se penduram nas árvores para se proteger; na natureza se perdura aquele que melhor se adapta. Predador: Terras Selvagens segue essa mesma linha; Dek, ao perder suas armas, precisa usar seus conhecimentos sobre aquele planeta para criar novos equipamentos, que se tornam mais vantajosos que os seus antigos, afinal a tecnologia também é contextual.

Nesse sentido, a presença de Thia e Tessa (ambas interpretadas por Elle Fanning) é fundamental. As personagens são uma máquina que detém as informações de todas as criaturas daquele universo, entretanto, a primeira – que se torna aliada do protagonista – se humaniza, não apenas pelos sentimentos e pensamentos próprios que ela passa a adquirir, como também pela sua capacidade de observação e interpretação do mundo. Thia e Dek começam a compreender as criaturas a partir do contato e das experiências – como quando eles descobrem a familiaridade da criatura que estava com eles com o grande predador daquele mundo –; Tessa tem dados programados, e sua incapacidade de entender a interrelação de diferentes espécies é o que leva a sua ruína.

Alguns pontos, ainda assim, causam incômodo, como o final que deixa um gancho para a sequência, porém, parece mais uma cena pós-créditos, tirando um pouco a unicidade da obra. As cenas de ação também não são tão marcantes como as da saga John Wick, mas, pelo menos, a franquia parece estar trilhando um caminho interessante nas mãos de Dan Trachtenberg, sempre relacionando ser, natureza e cultura, de maneira própria.

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