Lar reconstrói o conceito de família e traz à luz histórias que o mundo insiste em esquecer

Quatro pessoas estão sentadas em volta de uma mesa de café da manhã. Ao lado esquerdo, há um homem com camiseta branca e um jovem adulto de camiseta preta. Do lado oposto da mesa, há um menino com camiseta preta e um homem de camiseta salmão. Todos estão com expressões felizes e encaram a criança mais nova, sentada à ponta direita. Em cima da mesa há uma bacia de pipoca, pão de queijo, garrafa de café, caixa de leite, pratos e canecas.
Em Lar, o amor não segue fórmulas pré-estabelecidas pela sociedade (Foto: Embaúba Filmes)

Vitória Mendes

Você já se questionou sobre o significado de ‘lar’ e o que ele representa para cada pessoa? Ou talvez sobre como cada família constrói sua própria forma de amor através de suas peculiaridades? Em Lar, documentário de Leandro Wenceslau, essa pergunta ganha corpo e emoção. Distribuído pela Embaúba Filmes, o longa acompanha o cotidiano de três famílias LGBTQIAPN+ e, sob a perspectiva dos filhos, retrata a complexidade dos laços familiares com delicadeza, realismo e profundidade, tornando-se identificável para grande parte do público brasileiro.

As noções de família estão em constante mutação. Novas configurações de relações domésticas surgem a partir do afeto e da convivência e, ao longo do tempo, têm se consolidado como parte legítima da sociedade brasileira. Ainda assim, a presença desses núcleos nas produções audiovisuais continua sendo rara, e é nesse contexto que a obra se destaca. Ao ampliar o olhar sobre o que significa pertencer e amar, o filme mostra que sempre há espaço para o amor em suas mais diversas formas. O acompanhamento dos grupos familiares de Sarah (Sarah Siqueira), Hael (Hael Machado Pontela) e Wallace (Wallace Félix) revela a história de três crianças que vivenciaram traumas e resistiram, enquanto sonhavam com futuros melhores. 

Questões como o uso de álcool, o abandono, a discriminação e os processos de adoção atravessam as narrativas, compondo um mosaico de experiências que expõem as cicatrizes e revelam as delicadas reconstruções do afeto. Ao longo da produção, Wenceslau também se vê diante de suas próprias perdas, desafios e memórias, inserindo-se no longa não apenas como observador, mas como alguém que busca compreender o conceito de pertencimento. O resultado é um retrato humano e sensível, em que o pessoal e o coletivo se entrelaçam de forma orgânica. Lar acolhe como um abraço que diz muito mesmo no silêncio.

Duas mulheres estão sentadas em uma cama. A direita está a mais velha, com cabelos cacheados castanhos e com luzes. A esquerda está a adolescente que tem cabelos lisos castanho escuros. Ambas encaram o celular que está na mão da mais nova. Um cachorro caramelo está deitado nos braços da mulher mais velha e um gato cinza repousa aos pés da cama. Ao fundo, há uma cortina branca e dourada. É possível ver na parte superior a luz através das cortinas.
“Família é isso: era um compromisso de amor e cuidado, mesmo quando desafia as conveniências e os padrões” (Foto: Embaúba Filmes)

Um dos pontos mais tocantes é a forma como o documentário aborda a culpa que assombra os jovens que vivem em abrigos e a sensação de que foram responsáveis pela ausência do núcleo familiar ou pelo abandono. Ao revisitar crianças e adolescentes que foram adotados ou enfrentaram problemas pessoais, o longa apresenta uma nova camada da história. As dúvidas e os ‘e se’ que permeiam essas histórias ganham força e tornam-se parte da narrativa. E se não tivessem sido adotados? E se não tivessem apoio hoje? Essas perguntas ecoam, trazendo uma nova camada de reflexão sobre pertencimento, perda e reconstrução.

Visualmente, a estética exala a brasilidade de cada vínculo e contexto social. A câmara analógica, que marca presença no início e no final, contribui para a ambientação memorialística e emocional. O trabalho de Ícaro Moreno, diretor de fotografia, registra com ternura o dia a dia das famílias, desde as brincadeiras até as tarefas de casa, criando uma harmonia que aproxima o espectador dos personagens. É como se todos estivessem imersos na mesma rotina, compartilhando gestos, silêncios e redescobrindo juntos o significado de lar.

Há uma grande área verde plana com uma trave de madeira no centro. Ao fundo há muitas árvores e vegetação densa. Ao lado do gol, uma criança segura a bola de futebol com os pés enquanto encara a trave.
Explorando laços afetivos, Lar dá voz a histórias que raramente chegam às telas (Foto: Embaúba Filmes)

Em um trabalho íntimo e significativo, a trilha sonora e a edição de som de Matheus Fleming se destacam. A música, ou o silêncio que a substitui de forma precisa, evidencia os sons ambientes e os ruídos da vida real, aproximando o público dessa realidade. É no som da água corrente e dos pássaros cantando que a obra se solidifica. Entre as vidas que se tocam, erram e aprendem, a narrativa ganha força e, através da escuta sensível, explora o cotidiano dos grupos. Apesar de se estender além do necessário, o ritmo se mantém estável e conduz o espectador com leveza até o desfecho.

Desafiando convenções e padrões, Wenceslau redefine o conceito de lar sem seguir fórmulas pré-determinadas, apenas guiado pela empatia e pela verdade. Por meio de seu olhar para essas famílias, o cineasta glorifica a beleza que há na vida real e na simplicidade. Lar é, acima de tudo, um gesto de resistência e ternura. É um lembrete de que cada pessoa é formada por afeto, feridas e resiliência, e de que o amor não precisa seguir rótulos para existir, crescer e prosperar abundantemente.

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