15 anos de K.I.D.S.: uma carta de amor à juventude de Mac Miller

Capa da mixtape K.I.D.S. (Kickin' Incredibly Dope Shit) do rapper Mac Miller, lançada em 2010. A imagem mostra quatro jovens sentados em arquibancadas de madeira ao ar livr. Mac Miller está ao centro, em primeiro plano, com expressão relaxada e olhar direto para a câmera. Ele veste camiseta branca, boné azul para trás, bermuda bege e tênis branco com meias altas. À esquerda, um dos rapazes, sem camisa e com uma bandana vermelha, segura um microfone e está ao lado de um grande boombox. À direita, outros dois jovens conversam, um deles com uma camiseta cinza e o outro usando uma regata com a frase "Loose Lips". No topo da imagem, há uma faixa de papel rasgado escrito “ROSTRUM RECORDS & MOST DOPE PRESENT:” em letras pequenas, seguido pelo título "K.I.D.S" em letras grandes e coloridas. Cada letra com uma textura ou imagem diferente, incluindo fotos e arte gráfica. Abaixo, em letras azuis, amarelas e verdes, lê-se "KICKIN INCREDIBLY DOPE SHIT". À direita da palavra “SHIT”, há uma ilustração do personagem Baby Mario (da Nintendo). No canto inferior esquerdo está escrito “MAC MILLER” em letras vermelhas com sombra amarela, em uma tipografia estilizada.
K.I.D.S. foi a responsável por lançar Mac Miller ao sucesso (Foto: Rostrum Records)

Ana Beatriz Zamai

O que você estava fazendo aos 18 anos? Independente da resposta, nada será tão interessante quanto o que Mac Miller fez. Quinze anos atrás, o rapper estava em Point Breeze, Pittsburgh, iniciando a vida adulta, quando lançou K.I.D.S., sua quarta mixtape. Foi o primeiro trabalho de Mac após assinar contrato com a Rostrum Records, gravadora americana com quem trabalhou até 2014, quando firmou parceria com a Warner Records

Miller se inspira com muita sensibilidade no polêmico filme Kids, de 1995, drama que mostra o conturbado mundo dos adolescentes e o perigo de ser um jovem sem orientação. Na primeira música, Kickin Incredibly Dope Shit [intro], Mac usa um monólogo de Telly, um dos personagens principais da obra, para introduzir o ouvinte ao álbum, trazendo uma sensação de nostalgia mesmo para quem ainda não assistiu. O cantor faz o ouvinte se sentir acolhido, abraçado, pois diz o que pensamos sobre algo que amamos – no caso dele, a música – mas que não conseguimos por em palavras. 

“Quando somos jovens, muita coisa não importa / Quando você acha algo que você se importa / Isso é tudo que você tem / Quando você vai dormir de noite você sonha com [música] / Quando você acorda, é a mesma coisa / Está ali na sua cara, você não pode fugir / Às vezes quando você é jovem, o único lugar para ir é para dentro / [Música], é o que eu amo, tire isso de mim e eu realmente não tenho nada”

A mixtape foi a responsável por lançar Mac Miller aos holofotes do rap. Na época, as redes sociais estavam começando a crescer e influenciar pessoas, e foi através delas que Mac divulgou muito de seu trabalho. Ele mesmo diz na primeira música que não foi ‘normal’ um rapper atingir o sucesso que ele conquistou tendo apenas 18 anos. Ainda na música introdutória, Miller canta “O garoto mais trabalhador da América / jogando com os profissionais”. Apesar de estar feliz com a situação, o cantor ainda não está satisfeito. “Quero a capa da [revista] Time, Homem do Ano, tem minha imagem presa em sua mente”.

Contando com duas de suas 10 músicas mais ouvidas, The Spins – que ganhou um sucesso ainda maior com o crescimento do TikTok – e Nikes On My Feet, K.I.D.S. mostra de forma certeira a visão de um jovem sonhador que ainda quer conquistar o mundo. Mac sabe que a vida é boa agora e que deve ficar mais difícil no futuro, por isso tenta aproveitar ao máximo o momento e não quer envelhecer. “Ser jovem é tão legal / Não quero nunca envelhecer”. 

A vida realmente ficou mais difícil para o cantor quando ele cresceu. Nas obras lançadas após a mixtape, Mac Miller já demonstra maturidade, talvez um cansaço pela ‘vida de adulto’, lidando com a depressão e o vício nas drogas. O contrário acontece em K.I.D.S.: o céu é muito baixo para ser considerado um limite para o rapper, nada pode lhe parar. Mac demonstra isso em Get Em Up, dizendo que independente do que falem ou façam, ele ainda estará aqui, crescendo. “Costumava ser o palhaço da sala / Mas agora eu rio por último”.

Capa do álbum Swimming (2018) do rapper Mac Miller. A imagem é minimalista, com fundo totalmente branco. No centro, Mac Miller está sentado descalço dentro de um compartimento vertical e retangular de cor preta, semelhante ao interior de uma cabine de avião. Acima de sua cabeça, há uma janela de avião, por onde se vê um céu azul claro. Mac Miller veste um terno rosa claro com uma camisa branca e uma gravata estampada com tons escuros e coloridos. No canto inferior direito da imagem há o selo de “Parental Advisory Explicit Content”, indicando conteúdo explícito no álbum.
wimming (2018) é um dos álbuns em que Mac Miller se abre sobre sua depressão (Foto: REMember Music)

No geral, os temas das 16 músicas são quase sempre os mesmos: a vontade de ser criança para sempre; a responsabilidade que está tendo com seu sucesso; a superioridade com os haters, ter várias garotas no seu pé e não se preocupar com mais nada. Porém, com sua originalidade e domínio musical, Mac Miller consegue fazer cada uma se destacar individualmente, com ritmos diferentes e batidas contagiantes. Em Ride Around, por exemplo, a letra é comum e sem significados profundos, mas é a sonoridade que a diferencia das outras músicas. 

“Abaixe as janelas / aumente o sistema / Nós estamos apenas tentando andar por aí / porque nós não ligamos / Temos um tanque cheio de gasolina e alguma merda para fumar / Ei, vamos pegar a estrada”

Apesar do tom animado na maior parte do álbum, Mac também expõe seus sentimentos em All I Want Is You e Poppy. A primeira é uma música de amor, dedicada a apenas uma garota, e não ‘todas as garotas me querem’, presente em várias músicas da mixtape. “Me falaram para nunca me apaixonar / Isso nunca funciona com você”. A canção já traz referências do que Miller faria em Divine Feminine, um de seus futuros álbuns, na qual se dedica mais a expressar seu amor. 

Poppy é dedicada para o avô do cantor, em que Mac parece estar em um diálogo com ele. É uma música mais emocional, já mostrando que o rapper sabe fazer mais do que falar sobre as delícias da vida adolescente, como fez em seus futuros trabalhos Circles e Swimming, álbuns muito mais profundos e que expressam os sentimentos mais íntimos do cantor. “Mas me sinto tão sozinho tentando lidar com sua morte / Segurando minha respiração, querendo que eu tivesse mais um dia / Querendo que você estivesse lá quando eu me formar”.

Fotografia de estúdio que mostra Mac Miller com sua família, posando juntos diante de um fundo neutro. Ao centro da imagem, sentada, está uma senhora idosa de expressão gentil, vestindo uma jaqueta estampada colorida com detalhes em rosa, verde e dourado, colares de pérolas e uma blusa preta. Ela segura as mãos de Mac Miller, que está logo atrás, à esquerda. Mac Miller aparece sentado parcialmente atrás dela, com as mãos cruzadas sobre os joelhos. Ele usa uma camiseta branca, uma corrente prateada e um casaco vermelho. À esquerda dele está um homem jovem de camiseta cinza e calça preta, com os braços apoiados nas pernas. À direita da senhora, também sentada, está uma mulher ruiva de óculos, blusa azul e expressão sorridente. Em pé atrás dela está um homem mais velho, de óculos, cabelos grisalhos e camisa azul-escura, sorrindo levemente com uma mão apoiada no ombro da mulher à sua frente.
Miller McCormick (irmão), Mac McCormick, Marcia Weiss (avó), Karen Meyer (mãe) e Mark McCormick (pai) [Foto: Karen Meyer]
Mesmo com duas músicas carregadas de emoção, Mac Miller faz um brilhante trabalho com K.I.D.S., deixando todas as músicas com batidas alegres e contagiantes. Sabe aquela sensação quando você está escutando uma música e ela te dá vontade de sair por aí cantando? De quando você coloca uma música no rádio do carro e quer fazer uma cena ‘à láAs vantagens de ser invisível, subir no teto solar e cantar para a cidade toda ouvir enquanto alguém dirige? É exatamente isso que define a mixtape. É o sair da adolescência para o descobrimento do desconhecido mundo adulto

O fato de Mac ter feito este trabalho com apenas 18 anos é um grande destaque. Kendrick Lamar, rapper americano de muito sucesso, por exemplo, teve seu destaque em 2012, com 25 anos. Kendrick inclusive era uma das inspirações de Miller e os dois artistas chegaram a trabalhar juntos em algumas ocasiões, como nas músicas Fight the Feeling, da mixtape Macadelic e God is Fair, Sexy Nasty, de Swimming. Eminem, outro artista de grande sucesso, começou a brilhar aos 27 anos. Como diz na contagiante The Spins, parceria com a banda Empire Of The Sun, Mac Miller ainda era um adolescente se formando no ensino médio: “Eu me formei / oh yes / eu acabei de me formar no ensino médio / haha”

Assim como todos os outros trabalhos do artista, K.I.D.S. conquista os corações dos ouvintes, principalmente por trazer uma vibe de nostalgia, de ser criança, e até por ver Mac tão feliz e animado. Este maravilhoso trabalho faz Mac Miller se diferenciar dos demais, mostrando desde o início da carreira que ainda teria um grande futuro pela frente, com obras ainda mais pessoais e bem produzidas.

 

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