
Ana Beatriz Zamai
O que você estava fazendo aos 18 anos? Independente da resposta, nada será tão interessante quanto o que Mac Miller fez. Quinze anos atrás, o rapper estava em Point Breeze, Pittsburgh, iniciando a vida adulta, quando lançou K.I.D.S., sua quarta mixtape. Foi o primeiro trabalho de Mac após assinar contrato com a Rostrum Records, gravadora americana com quem trabalhou até 2014, quando firmou parceria com a Warner Records.
Miller se inspira com muita sensibilidade no polêmico filme Kids, de 1995, drama que mostra o conturbado mundo dos adolescentes e o perigo de ser um jovem sem orientação. Na primeira música, Kickin Incredibly Dope Shit [intro], Mac usa um monólogo de Telly, um dos personagens principais da obra, para introduzir o ouvinte ao álbum, trazendo uma sensação de nostalgia mesmo para quem ainda não assistiu. O cantor faz o ouvinte se sentir acolhido, abraçado, pois diz o que pensamos sobre algo que amamos – no caso dele, a música – mas que não conseguimos por em palavras.
“Quando somos jovens, muita coisa não importa / Quando você acha algo que você se importa / Isso é tudo que você tem / Quando você vai dormir de noite você sonha com [música] / Quando você acorda, é a mesma coisa / Está ali na sua cara, você não pode fugir / Às vezes quando você é jovem, o único lugar para ir é para dentro / [Música], é o que eu amo, tire isso de mim e eu realmente não tenho nada”
A mixtape foi a responsável por lançar Mac Miller aos holofotes do rap. Na época, as redes sociais estavam começando a crescer e influenciar pessoas, e foi através delas que Mac divulgou muito de seu trabalho. Ele mesmo diz na primeira música que não foi ‘normal’ um rapper atingir o sucesso que ele conquistou tendo apenas 18 anos. Ainda na música introdutória, Miller canta “O garoto mais trabalhador da América / jogando com os profissionais”. Apesar de estar feliz com a situação, o cantor ainda não está satisfeito. “Quero a capa da [revista] Time, Homem do Ano, tem minha imagem presa em sua mente”.
Contando com duas de suas 10 músicas mais ouvidas, The Spins – que ganhou um sucesso ainda maior com o crescimento do TikTok – e Nikes On My Feet, K.I.D.S. mostra de forma certeira a visão de um jovem sonhador que ainda quer conquistar o mundo. Mac sabe que a vida é boa agora e que deve ficar mais difícil no futuro, por isso tenta aproveitar ao máximo o momento e não quer envelhecer. “Ser jovem é tão legal / Não quero nunca envelhecer”.
A vida realmente ficou mais difícil para o cantor quando ele cresceu. Nas obras lançadas após a mixtape, Mac Miller já demonstra maturidade, talvez um cansaço pela ‘vida de adulto’, lidando com a depressão e o vício nas drogas. O contrário acontece em K.I.D.S.: o céu é muito baixo para ser considerado um limite para o rapper, nada pode lhe parar. Mac demonstra isso em Get Em Up, dizendo que independente do que falem ou façam, ele ainda estará aqui, crescendo. “Costumava ser o palhaço da sala / Mas agora eu rio por último”.

No geral, os temas das 16 músicas são quase sempre os mesmos: a vontade de ser criança para sempre; a responsabilidade que está tendo com seu sucesso; a superioridade com os haters, ter várias garotas no seu pé e não se preocupar com mais nada. Porém, com sua originalidade e domínio musical, Mac Miller consegue fazer cada uma se destacar individualmente, com ritmos diferentes e batidas contagiantes. Em Ride Around, por exemplo, a letra é comum e sem significados profundos, mas é a sonoridade que a diferencia das outras músicas.
“Abaixe as janelas / aumente o sistema / Nós estamos apenas tentando andar por aí / porque nós não ligamos / Temos um tanque cheio de gasolina e alguma merda para fumar / Ei, vamos pegar a estrada”
Apesar do tom animado na maior parte do álbum, Mac também expõe seus sentimentos em All I Want Is You e Poppy. A primeira é uma música de amor, dedicada a apenas uma garota, e não ‘todas as garotas me querem’, presente em várias músicas da mixtape. “Me falaram para nunca me apaixonar / Isso nunca funciona com você”. A canção já traz referências do que Miller faria em Divine Feminine, um de seus futuros álbuns, na qual se dedica mais a expressar seu amor.
Já Poppy é dedicada para o avô do cantor, em que Mac parece estar em um diálogo com ele. É uma música mais emocional, já mostrando que o rapper sabe fazer mais do que falar sobre as delícias da vida adolescente, como fez em seus futuros trabalhos Circles e Swimming, álbuns muito mais profundos e que expressam os sentimentos mais íntimos do cantor. “Mas me sinto tão sozinho tentando lidar com sua morte / Segurando minha respiração, querendo que eu tivesse mais um dia / Querendo que você estivesse lá quando eu me formar”.

O fato de Mac ter feito este trabalho com apenas 18 anos é um grande destaque. Kendrick Lamar, rapper americano de muito sucesso, por exemplo, teve seu destaque em 2012, com 25 anos. Kendrick inclusive era uma das inspirações de Miller e os dois artistas chegaram a trabalhar juntos em algumas ocasiões, como nas músicas Fight the Feeling, da mixtape Macadelic e God is Fair, Sexy Nasty, de Swimming. Eminem, outro artista de grande sucesso, começou a brilhar aos 27 anos. Como diz na contagiante The Spins, parceria com a banda Empire Of The Sun, Mac Miller ainda era um adolescente se formando no ensino médio: “Eu me formei / oh yes / eu acabei de me formar no ensino médio / haha”.
Assim como todos os outros trabalhos do artista, K.I.D.S. conquista os corações dos ouvintes, principalmente por trazer uma vibe de nostalgia, de ser criança, e até por ver Mac tão feliz e animado. Este maravilhoso trabalho faz Mac Miller se diferenciar dos demais, mostrando desde o início da carreira que ainda teria um grande futuro pela frente, com obras ainda mais pessoais e bem produzidas.
