Em Fancy Some More?, PinkPantheress convida uma constelação de nomes para brincar com suas faixas

 

 A imagem é a capa do álbum Fancy Some More, de PinkPantheress. Nela, a cantora aparece em frente a um fundo azul vibrante, vestindo meia-calça vermelha, sapatos pretos e um body preto com detalhes vermelhos. Ela segura um quadro pintado com traços expressivos em preto e vermelho, com um recorte central que revela seu rosto, criando a ilusão de que a pintura se prolonga em seu corpo. No chão, uma pequena mancha de tinta preta reflete parte da cena. A composição mistura arte e moda de maneira ousada, traduzindo o estilo visual experimental e criativo da artista.
A artista britânica transforma o conceito de álbum em celebração coletiva (Foto: Warner Records)

Nathalia Helen

Em um momento em que sua música deixa de ser apenas um fenômeno digital para ocupar um lugar mais sólido na indústria, PinkPantheress chega ao Grammy 2026 com indicações que ajudam a enquadrar sua fase atual. Fancy That concorre a Best Dance/Electronic Album, enquanto Illegal aparece entre as indicadas a Best Dance Pop Recording, colocando oficialmente o som etéreo e acelerado da artista britânica no centro das discussões do pop e da eletrônica contemporâneos. É a partir desse reconhecimento — que valida um projeto originalmente curto, fragmentado e quase experimental — que Fancy Some More? surge como uma resposta direta: maior, mais aberta e consciente de seu próprio impacto.

Se Fancy That, de PinkPantheress, era um disco curtíssimo de 20 minutos com nove faixas – quase uma mixtape condensada de ideias e emoções –, sua nova versão chega com fôlego de sobra: são 31 músicas distribuídas em dois volumes digitais e três CDs, incluindo remixes de DJs e produtores de peso, além de colaborações com vocalistas pop. A proposta, ambiciosa, soa como um exercício de expansão do próprio universo sonoro da cantora: um mundo de batidas aceleradas, vocais etéreos e nostalgia do início dos anos 2000, agora reinterpretado sob dezenas de olhares.

Fancy Some More? não é apenas um relançamento; é quase uma reescrita do próprio mito em torno da cantora. Desde que surgiu no TikTok com canções que pareciam fragmentos de sonhos pop, PinkPantheress construiu uma estética tão precisa que se tornou um gênero em si mesma. Aqui, ela brinca com essa autoimagem, e o resultado é um trabalho que funciona tanto como celebração quanto como experimento.

A segunda imagem faz parte de um ensaio fotográfico para a i-D Magazine. PinkPantheress aparece sentada no chão com as pernas cruzadas, diante de um fundo cinza neutro. Ela veste uma camisa preta de manga comprida com o nome “Palace” escrito em vermelho, combinada com uma calça jeans clara e sapatilhas brancas. Seu cabelo é longo, liso e com franja. O olhar é sereno e voltado diretamente para a câmera, transmitindo calma e autenticidade.
Após viralizar no TikTok, PinkPantheress se firmou como uma das vozes mais originais do pop atual (Foto: i-D Magazine)

Entre os nomes mais empolgantes, um grupo de brasileiros se destaca: Anitta, DJ Caio Prince, Adame DJ e Mochakk. A presença deles não é mero detalhe – é um sinal de que o som da artista britânica começa a dialogar diretamente com o calor e a criatividade latino-americana. Agora, ela abre as janelas para o mundo, permitindo que outras vozes e ritmos invadam o seu espaço.

Há uma sensação constante de curiosidade e desprendimento que percorre o disco. PinkPantheress nunca parece querer agradar a todos, mas sim ver até onde seu som pode chegar. Ela dá espaço para outros artistas reinterpretarem suas faixas com total liberdade, e esse risco – de perder o controle sobre a própria identidade musical – é justamente o que torna o projeto tão instigante. Fancy Some More? é um convite para observar o que acontece quando um estilo tão particular é exposto à pluralidade global.

Apesar de tantos acertos, Fancy Some More? é um projeto difícil de ler como um todo. As faixas não foram feitas para serem ouvidas de ponta a ponta – e a própria artista já questionou a importância da ‘ordem’ de um álbum. Mais do que narrativa, ela oferece um mosaico: fragmentos que o ouvinte pode e precisa montar por conta própria. 

PinkPantheress – Stateside + Zara Larsson (Official Audio)

O desafio é garimpar seus favoritos entre tantas versões de uma canção (quatro só de Stateside). Zara Larsson, por exemplo, entrega uma das melhores surpresas com sua leitura da faixa: ela injeta peso e emoção a um dos momentos mais marcantes do disco, até mesmo fazendo uma referência bem-humorada à polêmica envolvendo sua recente turnê com Tate Mcrae: Estou em turnê pelos Estados Unidos / Beijando meu garoto sueco pelo FaceTime / Quem diria que abrir me tornaria manchete?

Infelizmente, nem tudo brilha com a mesma intensidade. Colaborações com nomes como Oklou, JADE e Bladee ficam aquém do impacto esperado, e o remix de Joe Goddard para Tonight soa mais como uma interferência do que reinvenção criativa. Ainda assim, há calor o bastante para justificar a empreitada – e alguns remixes chegam a superar as versões originais.

Por outro lado, há instantes em que o excesso de produção e o polimento digital diluem o charme minimalista que sempre definiu a artista. Parte de sua força vem justamente da timidez, da economia e das canções curtas que soam como rabiscos sonoros – suas faixas mais populares no Spotify mal passam de dois minutos e meio. Como ela mesmo já afirmou, “uma música não precisa ter mais de dois minutos e trinta segundos; não precisamos repetir um verso, nem de uma ponte, nem de um final longo”. Essa concisão, que faz dela uma figura tão singular e interessante no pop, acaba se perdendo no meio da grandiosidade do projeto.

Nessa imagem, também do ensaio para a i-D Magazine, a artista surge sorridente, de olhos fechados, com as mãos apoiadas na cabeça. Ela usa uma jaqueta de couro vermelha aberta sobre um vestido ou blusa preta. O fundo permanece cinza, destacando o contraste entre o vermelho vibrante da jaqueta e o preto do figurino. A pose descontraída e o sorriso espontâneo capturam um momento de alegria genuína, revelando um lado leve e divertido de PinkPantheress, em contraste com a estética mais conceitual da capa do álbum.
PinkPantheress conquistou o mundo com faixas curtas, nostálgicas e cheias de identidade (Foto: i-D Magazine)

Ainda assim, há um mérito em ver PinkPantheress explorando novas texturas e camadas. Se antes ela era vista como uma artista de nicho, agora se coloca no centro do diálogo global do pop alternativo. Ela parece consciente de que seu som é um reflexo de uma geração hiperconectada – aquela que consome e descarta em questão de segundos –, e responde a isso criando uma obra que também se comporta como uma timeline infinita, onde tudo coexiste ao mesmo tempo.

O álbum também funciona como um estudo sobre autoria e controle artístico. Ao abrir mão da centralidade, a compositora desafia o conceito tradicional de ‘dona da obra’. Em vez de proteger seu catálogo, ela o oferece como matéria-prima, permitindo que outros o distorçam, reinventem e, às vezes, até o superem. É um gesto de coragem e desprendimento raro na indústria atual, onde a imagem e o som costumam ser rigidamente protegidos por contratos e egos.

Mesmo assim, Fancy Some More? é uma celebração do agora – um gesto de abertura e curiosidade que confirma o status da cantora como uma das artistas mais inventivas de sua geração. Ao revisitar e remixar seu próprio repertório, ela testa os limites da sua estética e convida o público a fazer o mesmo. O resultado é um banquete irregular, mas generoso: pode não haver coerência perfeita, entretanto, há algo para todos os gostos – e, acima de tudo, a sensação de que o universo de PinkPantheress está só começando a se expandir.

https://spotify.link/6oDy6OcmOXb

 

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