F1 surpreende com adrenalina e megaprodução mas grita sexismo

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Fotografia dos atores Damson Idris, homem negro de olhos e cabelo pretos e bigode, e Brad Pitt, homem branco e loiro dos olhos azuis, vestindo macacões de corrida brancos com laterais pretas e patrocinadores por toda sua extensão, no set de filmagem ao lado de um dos produtores, homem de boné verde e preto, e o diretor Joseph Kosinski, homem de boné cinza com ‘Bell’ escrito em vermelho.
Antes de iniciarem as filmagens, Brad Pitt e Damson Idris passaram por um período de testes e treinos com carros de Fórmula 2 e Fórmula 3 (Foto: Apple Original Films)

Livia Queiroz 

No final de junho, F1: O filme estreou nos cinemas com o objetivo de ser aclamado pelos fãs do esporte, mas teve uma surpresa: a imensa adesão de curiosos da narrativa extremamente eletrizante mostrada no trailer. Prometendo e cumprindo uma história completamente focada no automobilismo, o diretor Joseph Kosinski conseguiu alcançar um grande público para a estreia, atingindo um recorde de audiência de 293,6 milhões de dólares na bilheteria mundial. Estrelando Brad Pitt como piloto veterano, o desenvolvimento baseia-se em sua falta de vínculo com as competições das quais participa depois de ter sofrido um grave acidente nas pistas. 

F1 é, com absoluta certeza, uma amostra de possibilidades cinematográficas para os novos filmes esportivos. A exploração de jogos de câmera durante toda a sua extensão, criando diversos pontos de visão do carro e das corridas com outros pilotos, envolve o telespectador, fazendo a sensação de adrenalina ainda mais real.  Além de buscar um trabalho mais sensorial com os sons ambientes, indo desde a aceleração do carro até a instalação dos pneus em um pit stop. A fotografia da obra é, ao mesmo tempo, repetitiva por trabalhar o tempo todo com o ambiente de dentro das corridas, e confortável, impressionante aos detalhes muitas vezes não perceptíveis nem mesmo pelos fãs, como o foco no assoalho do carro da APX GP

Fotografia dos dois carros de Fórmula 1, pretos por toda sua extensão com exceção do nariz da asa frontal e a aresta inferior da asa que estão destacadas em dourado, enquanto seus patrocinadores estão espalhados estrategicamente pelo automóvel em branco, nos lugares mais analisados pela audiência, em uma cena do filme, ambientada em uma pista de corrida cinza escuro com marcas de pneus em preto.
O carro usado no filme é de Fórmula 2 modificado com elementos aerodinâmicos de F1 e foi desenvolvido em colaboração entre a Mercedes-AMG Petronas e a Carlin Motorsport (Dan Mullan/ Apple Original Films)

Um fator que contribuiu para uma melhor ambientação do cenário foi a participação do grid dos anos de 2023 e 2024, desde seus pilotos até os diretores de equipe. Esse feito foi manejado especialmente devido a participação de Lewis Hamilton e Toto Wolff como produtores. Além disso, as gravações de Silverstone, Monza, Suzuka, Yas Marina, Daytona, entre outras, ocorreram de fato nos circuitos, proporcionando um conforto maior para os fanáticos e até facilitando sua edição para o menor uso de CGI possível, usado somente para aprimorar as filmagens em câmeras 4K anexadas no carro. Tudo isso graças a um tremendo esforço dos atores principais, Brad Pitt e Damson Idris, para treinar como pilotos reais e se adaptar o máximo possível à força G em pouco tempo. 

Outro ponto positivo na cinematografia foram os paralelos com as lendas do esporte. Por Sonny Hayes (Brad Pitt) ser um veterano na narrativa, e ter corrido na Fórmula 1 no início dos anos 90, nada mais condizente do que ter corrido com Ayrton Senna, Michael Schumacher e Alain Prost. Inclusive, Senna teve um grande destaque, sendo envolvido na competição dos anos de juventude do protagonista. Dentro do campeonato de 1993, ambos estavam em uma disputa pelo título de pilotos do ano, porém, a competição foi interrompida por um terrível acidente de Sonny na pista de Jerez la Frontera, na Espanha. 

A batida e a cena do piloto desacordado, mostradas com câmeras antigas, ocorreram na realidade com o norte-irlandês Martin Donnelly, e aquelas são as gravações transmitidas na época de 1990. Diferentemente da história competitiva do filme, o carro da Lotus 99T não se equiparava com o início do grid, apenas sobrevivia. Durante um dos treinos livres, uma falha na suspensão levou o piloto a colidir e ter seu veículo partido ao meio e deixá-lo desacordado. Felizmente, Donnelly sobreviveu assim como Sonny Hayes na obra. Senna é visto nas filmagens saindo de seu carro para auxiliar no acidente e acompanhar o que havia passado. A partir desse recorte, é possível interpretar a genialidade do diretor ao utilizar essa amarração da ficção com um verdadeiro momento do esporte.

Fotografia de Brad Pitt, homem branco, loiro e de olhos azuis, e Damson Idris, homem negro, de bigode e cabelo preto, atuando em meio a uma multidão vestindo seus macacões brancos com detalhes em preto nas laterais e nos adesivos de seus patrocinadores distribuidos pelo torso. Ao lado, ainda em primeiro plano, Carlos Sainz, homem branco de cabelo preto liso, vestindo uma blusa comprida vermelha.
F1 é a segunda participação do produtor Jerry Bruckheimer com filmes de esportes automotor, pois em 1990, ele produziu Dias de Trovão, clássico sobre a NASCAR (Sam Bagnall/ Apple Original Films)

Porém, a adrenalina não dura por muito tempo. A cinematografia tem diversas quebras de narrativa esportiva, como o contrato do personagem principal, por exemplo. Além disso,  a permissividade da equipe APX GP com Sonny Hayes sendo inconsequente, quebrando o carro em quase todas as corridas que participou, nunca seria real, devido aos altos custos do maquinário e a fiscalização da FIA (Federação Internacional de Automobilismo). Esta, que não permitiria esse comportamento do veterano já que, em teoria, deveria receber punições severas por protocolos de corrida e por colocar a si mesmo e outros pilotos em perigo com suas batidas propositais e manobras extremas. Mas tudo pode ser justificável por tratar-se de uma história fictícia da qual não precisa conter veracidade. 

O que não é e nem pode ser justificável é o sexismo gritante apresentado na obra. Apesar de serem poucas cenas – colocadas de forma suave e concisa para o público – o romance entre a engenheira chefe Kate McKenna (Kerry Condon) e o piloto Sonny Hayes torna-se somente mais um exemplo da reafirmação do preconceituoso e frequente estereótipo de que as mulheres estão no automobilismo pelos homens. Especialmente com a presença de um roteiro tão irônico sobre tal situação, como as falas “eu não tenho relações no trabalho” prosseguindo para um flerte, ou “eu não me relaciono durante a temporada”, seguindo para a cena do beijo dos dois que aparece durante o trailer, e, principalmente, “eu sei muito bem diferenciar o ambiente profissional do pessoal” em tom de deboche. Todas essas falas vêm justamente da personagem mulher, um claro descuido e falta compreensão da má colocação na hora de escrever o filme. 

Além dessa insensibilidade, também é notável e desconfortável que o único, e duplo, erro da equipe em um pit-stop, mostrado em câmera, foi de uma engenheira mulher, Jodie (Callie Cookie), novamente, abrindo espaço para interpretações sexistas. Também repete o erro de inserção de par romântico com essa mesma engenheira, interpretado com uma cena de olhares e sorrisos cúmplices dela com o piloto Joshua Pearce. Porém, para fora dessa visão crítica, é essencial encontrar representatividade feminina para maior alcance e incentivo de sua presença na F1, especialmente, em cargos tão fundamentais. 

Fotografia do carro, preto com desenhos em fitas também pretas e pintura dourada nas suas extremidades e seus pneus cobertos pelas capas pretas e identificação em amarelo, nas gravações do filme F1, estacionado em sua posição de largada enquanto seis engenheiros da equipe, vestidos em macacões com as mesmas cores, se posicionam nas laterais do veículo em meio a uma pista cinza desgastada e ao fundo arquibancadas para os fãs do esporte.
O filme contou com patrocinadores reais tanto para a equipe fictícia quanto para os custos de produção, como as marcas EA Sports, Tommy Hilfiger, Expensify, MSC Cruises e Shark Ninja (Gongora/Apple Original Films)

Então, o principal medo dos fãs de Fórmula 1, de que o longa não trata-se sobre o esporte em si, mas que seria só um pretexto para uma outra narrativa, não se concretizou, agradando e até excedendo expectativas. Porém, peca ao reforçar negatividades sociais dentro do esporte. Poderia ter sido interessante ver Kate dando um ‘fora’ em Sonny para contrariar a obviedade de um par romântico e não ceder a estereótipos que formam barreiras para mais participação e aceitação das mulheres no automobilismo. Além dos fatores narrativos, a megaprodução de mais de 300 milhões de dólares surpreendeu. A qualidade cinematográfica para um filme com cenas de adrenalina e velocidade, poucas vezes foram tão bem exploradas, especialmente com a maior, mais famosa e mais veloz competição.  

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