Extermínio: A Evolução encontra beleza ao contemplar a morte

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Extermínio: A Evolução Ao centro da imagem, existe uma pilha de crânios humanos reforçada por hastes de madeira horizontais. Ao fundo, há uma floresta densa e diversas colunas, também feitas de ossos. O céu está parcialmente nublado, compondo uma atmosfera sombria e perturbadora.
Danny Boyle e Alex Garland retornam para a franquia depois de 23 anos (Foto: Sony)

Marcos Henrique

Através do cenário político dos EUA nos anos 60 e de referências do folclore eslavo, George Romero, o ‘pai dos zumbis’, desenvolve conceitos que desenharam o que hoje conhecemos como apocalipse zumbi: um cenário onde os mortos se levantam de suas covas famintos por carne humana e sem nenhum resquício de humanidade. Apesar de, ao longo das décadas, o subgênero ter se modificado para algo muito mais ‘pipoca’ e focado no horror — o que não é negativo —, é importante lembrar que ele sempre foi rico em pautas sociais, procurando, em meio a um mundo dominado por seres canibais, criticar a sociedade materialista e, principalmente, o instinto de sobrevivência dos seres humanos, que os tornava tão violentos quanto aqueles que combatiam.


Em 2002, Alex Garland (Ex_Machina: Instinto Artificial – 2014) escreveu a história de 28 Days Later, erroneamente traduzido no Brasil como Extermínio. O roteirista resgata as raízes do subgênero estabelecidas por Romero, mas também utiliza o horror como peça fundamental na construção da ambientação. Ao lado de Danny Boyle, que, mesmo com limitações técnicas e um baixo orçamento, dirige como um mestre do Cinema, experimentando novos estilos de filmagem que moldaram o que o longa viria a se tornar. A produção recebeu uma continuação em 2007, chamada 28 Weeks Later, ou Extermínio 2, que não contou com o envolvimento dos criadores originais da franquia. Até que, em 2025, Boyle e Garland retornam para um terceiro longa: 28 Years Later, ou Extermínio: A Evolução, uma continuação direta do primeiro filme, que promete resgatar a franquia e os zumbis de forma tão inovadora quanto na obra original.

Cena do filme Extermínio: A Evolução Na imagem, há um infectado de aparência cadavérica encarando a câmera, com olhos arregalados e expressão perturbadora. A figura tem o corpo extremamente magro e ossudo, com marcas de sangue seco e machucados. Ao fundo, há um campo com flores amarelas desfocadas sob um céu claro.
O título 28 Years Later, ou 28 Anos Depois em português, faz referência a passagem de tempo em relação ao surto do vírus (Foto: Sony)

28 anos após a infestação da variante do vírus da raiva pela Grã-Bretanha, acompanhamos a história de Spike (Alfie Williams), um garoto de 12 anos, e seus pais: Jamie (Aaron Taylor-Johnson), um homem violento e impulsivo, e Isla (Jodie Comer), uma mulher em condição de saúde delicada. A família vive em uma lugar isolado, onde sobreviventes conseguiram encontrar refúgio e começar uma nova sociedade. Isso se deve ao abandono da ilha, que foi colocada em quarentena e deixado à mercê da própria sobrevivência, gerando um cenário propício para o surgimento de diferentes comunidades e para a adaptação dos infectados. A trama gira em torno do amadurecimento de Spike, que, para salvar sua mãe, precisa confrontar o pai e partir rumo ao território proibido, onde acredita poder encontrar ajuda médica.

Se, em 2002, a franquia reinventou o gênero e abriu um novo caminho para as obras de zumbis, agora é ela quem se beneficia dos conceitos desenvolvidos por suas sucessoras, como The Walking Dead (2010) e The Last of Us (2013), em um processo de retroalimentação. A escolha de ambientar a história anos à frente, em um mundo apocalíptico dominado por infectados e diferentes grupos de resistência, além de um maior cuidado com a psique dos personagens humanos, são bons exemplos dessa influência. A evolução dos infectados, que passaram a se adaptar ao ambiente e se dividir em diferentes classes, como rastejantes e alfas, é resultado direto da abordagem biológica introduzida por The Last of Us em seu universo.  

Boyle, mais uma vez, inova em suas técnicas de condução de histórias, ao mesmo tempo em que homenageia sua trajetória no início da franquia. Se em 2002 as filmagens foram feitas com uma Canon XL1, que deu ao longa aquela ambientação suja e desagradável, no de 2025 o diretor optou por utilizar o iPhone 15 Pro Max. Na verdade, vários deles, adaptados com lentes DSLR e combinados com câmeras tradicionais e GoPros, o que dá um senso de continuidade e evolução em relação ao original, além de criar um estilo bruto de extremo bom gosto. Dizer que Extermínio: A Evolução é um filme experimental talvez seja um exagero, no entanto, a inventividade da direção na realização das cenas e na forma como são testados movimentos de câmera e enquadramentos deixa claro que o longa flerta com essa ideia.

Cena dos bastidores de Extermínio: A EvoluçãoNo centro da imagem, um ator caracterizado como infectado aparece com o corpo coberto de sangue e lama, cercado por uma estrutura semicircular equipada com vários iPhones 15 Pro Max, usados para capturar imagens em 180 graus. Técnicos de produção ajustam o equipamento enquanto capturam a cena de perseguição em uma floresta sombria, cercada por árvores altas.
O diretor utilizou cerca de 20 iPhones 15 Pro Max simultaneamente, apoiados em estruturas customizadas para criar cenas de ação em 180° com uma pegada visceral (Foto: Sony)

A fotografia de Anthony Dod Mantle (127 Horas – 2010), parceiro de longa data de Boyle, passeia por uma Grã-Bretanha devastada e, ao mesmo tempo, deslumbrante. Em meio a toda a sujeira, violência e perigo, excepcionalmente ambientados ao longo de locações reais, encontramos momentos de contemplação genuína, desde as montanhas da Escócia a lugares intimidadores, como o templo de ossos criado por um dos sobreviventes na ilha dos infectados. Um local que, a princípio, é nojento e perturbador, mas que, com o desenrolar da trama e o aprofundamento da mensagem, revela-se como um espaço de aprendizado e esperança. É nessa sensibilidade escondida em um universo tão violento que encontramos o coração da história.

Garland desenvolve bons personagens, resultados claros de um mundo pós-apocalíptico e de uma sociedade preparada para o pior, mesmo após terem encontrado conforto em suas vidas na ilha. Spike é um retrato vivo do afeto camuflado dentro da narrativa, um personagem cuja criação se deu a partir de uma masculinidade opressora que o pressiona a se tornar homem por meio da violência. No entanto, ele não aceita que, para amadurecer, precise se submeter a tamanha escuridão. É a partir desse confronto interno que Spike se conecta com a fotografia de Dod Mantle, pois, assim como ela, encontra forças em sua sensibilidade, provando a si mesmo que o amadurecimento também pode vir da compaixão. O roteirista ainda foi capaz de encaixar temas como a inevitabilidade da morte, cravada em fortes mantras estoicistas, e críticas às forças militares corrompidas pelo poder.

Cena do filme Extermínio: A EvoluçãoNa imagem, vemos um campo aberto com uma enorme árvore ao centro, posicionada ao fundo. Ao redor dela, várias silhuetas de infectados aparecem ao longe, correndo em direção à câmera. O céu azul claro ocupa grande parte da composição, reforçando o contraste entre a serenidade do ambiente e a ameaça iminente.
Em uma entrevista à Empire, Jodie Comer revelou o terror que sentiu ao gravar as cenas de fuga no set, segundo ela, os intérpretes dos infectados não aliviaram na velocidade (Foto: Sony)

Extermínio: A Evolução é um ótimo retorno para a franquia e um resgate necessário dos zumbis nas telonas. Alex Garland assinou o roteiro para uma trilogia de filmes; a sequência, 28 Years Later: The Bone Temple, ou Extermínio: O Templo de Ossos, está prevista para o primeiro semestre de 2026, com direção de Nia DaCosta (A Lenda de Candyman – 2021). Um terceiro capítulo, com o retorno de Danny Boyle, será lançado caso os dois primeiros sejam bem recebidos. Se as continuações seguirem o caminho de uma narrativa rica em temas humanitários e ousadia técnica, como neste primeiro, já se pode considerar a trilogia um dos maiores acertos do cinema de horror.

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