Bailarina (2025) dança bem, mas não escolhe sua própria coreografia

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme BailarinaNa imagem, a personagem Eve Macarro, interpretada por Ana de Armas, está centralizada em um plano médio com enquadramento frontal. Ela se encontra em um corredor iluminado por luzes de néon rosa e roxa, que formam linhas paralelas ao fundo. Há pessoas ao redor, criando um efeito visual que remete a uma festa em uma boate. Eve é uma mulher branca, magra, de cabelos pretos, e está vestindo um casaco com gola de pelos e uma roupa brilhante em tons de vermelho.
Eve Macarro não é a versão feminina de John Wick (Foto: Lionsgate)

Marcos Henrique

O Cinema de ação hollywoodiano jamais foi o mesmo após a estreia de John Wick – De Volta ao Jogo (2014). O longa chamou atenção não apenas pelo ícone que o personagem interpretado por Keanu Reeves se tornou, mas também pelo seu esmero técnico, que trouxe novas formas de filmar ação e dirigir coreografias de lutas hipnotizantes. Mérito de Chad Stahelski e David Leitch, dois ex-dublês que sabiam exatamente o que estavam fazendo ao escolherem dirigir a obra. Assim surgiu o vasto — e rico — universo de John Wick, que rendeu alguns spin-offs, como a minissérie The Continental (2023) e o mais recente, Bailarina (2025), o primeiro filme derivado da franquia.

Com a direção de Len Wiseman (Anjos da Noite) e escrita de Shay Hatten (Army of the Dead), acompanhamos a jornada de vingança de Eve Macarro, interpretada por Ana de Armas. Quando criança, a garota presenciou o violento assassinato de seu pai, organizado por uma seita misteriosa de assassinos habilidosos. Após ser acolhida e treinada por anos pela Ruska Roma — uma organização criminosa que integra a Alta Cúpula —, Eve decide confrontar seu passado e resolver assuntos pendentes. A trama se passa entre John Wick 3: Parabellum (2019) e John Wick 4: Baba Yaga (2023).

Cena do filme BailarinaNa imagem, Eve está em um banheiro de boate. Há manchas de sangue espalhadas na parede ao lado junto ao corpo de um homem morto, sugerindo que ela deixou um rastro de caos. Diante do espelho, ela se encara intensamente, como se buscasse recuperar as forças antes de seguir com a matança. A personagem veste uma regata preta, calça da mesma cor e um coldre, compondo um visual tático.
O treinamento de Ana de Armas foi intenso, com 4 meses de preparação, incluindo dieta e treinos específicos com armas, dublês e Keanu Reeves (Foto: Paris Filmes)

A escolha de Len Wiseman na direção é curiosa. A franquia nunca se destacou pela profundidade de seus personagens ou pela capacidade de inovar o Cinema com grandes histórias. Na verdade, sua força sempre esteve na apreciação da técnica, nas ótimas cenas de ação e na maneira como elas influenciaram o gênero. Ainda assim, o diretor, que nunca se destacou por essas qualidades, consegue manter a excelência dos filmes anteriores e dirigir bons momentos. A interação com o cenário, as sequências sem cortes e a fluidez, tratada como prioridade, são características marcantes da ação em Bailarina.

Existem rumores de que Chad Stahelski refilmou boa parte da obra devido à péssima recepção do público nas exibições-teste realizadas em 2024. A Lionsgate ainda não se pronunciou sobre o assunto e, talvez, esteja esperando a reação do público após a estreia para então revelar essa curiosidade dos bastidores. Dito isso, não seria surpresa se os boatos forem confirmados. Stahelski deixou bem clara sua marca na franquia ao longo de quatro filmes, e qualquer apreciador de seu trabalho pode reconhecer sua influência neste também.

Cena do filme BailarinaNa imagem, Eve Macarro luta intensamente contra um homem loiro em um ambiente industrial em chamas. Os dois disputam com um lança-chamas, ambos em funcionamento, lançando fogo para o alto. Eve veste um casaco escuro e seu rosto está ferido. O fundo está tomado por fogo e sombras, criando uma atmosfera tensa e caótica.
Ana de Armas revela que chorou após enfrentar o desafio de usar um lança‑chamas pela primeira vez (Foto: Lionsgate)

No entanto, se por um lado o longa mantém o ótimo nível técnico na direção da ação, por outro, se desprende do vazio narrativo enraizado desde o primeiro John Wick ao nos apresentar uma protagonista muito mais cativante. Eve Macarro, embora compartilhe a jornada vingativa com Wick, age de forma contrária ao personagem. Enquanto ele busca deixar a vida de assassino, ela tenta desesperadamente fazer parte dela, uma pupila em ascensão, buscando a vingança, o pecado, criando uma clara analogia com Eva, que renegou o paraíso ao escolher desobedecer o seu criador. Porém, a expulsão do Jardim do Éden não é punição aqui, longe disso, a negação do divino e a aceitação do perverso é o que a torna atrativa.

Ana de Armas é perspicaz ao valorizar a intensidade corporal como parte essencial de sua performance. A dedicação da atriz, que treinou severamente por quatro meses, é notável e muito bem aproveitada. Não se faz necessário uma carga dramática, afinal, o longa nunca se propôs a isso. O que realmente importa é a brutalidade, o improviso e o dinamismo da personagem entregue durante as cenas de ação. Além disso, é reaproveitado, de forma positiva, um único conceito de seu antecessor. Se em John Wick temos o Baba Yaga, em Eve conhecemos a Kikimora, mais uma figura do folclore eslavo, um espírito feminino conhecido por assombrar lares em crise.

Cena dos bastidores de BailarinaAo lado esquerdo da imagem, vemos Ana de Armas caracterizada como Eve, segurando uma submetralhadora apoiada em seu ombro direito e apontando-a para frente. À direita, o diretor Len Wiseman observa atentamente a cena, vestindo um gorro e um casaco escuros, como se orientasse ou acompanhasse a ação. Len é um homem branco, com cabelos levemente grisalhos.
A direção é um deleite visual com lutas extremamente inventivas (Foto: Lionsgate)

Em uma Hollywood ideal, os criadores teriam investido fortemente no desenvolvimento solo da nova estrela, deixando de lado as conexões entre filmes e o endeusamento do antigo protagonista. Mas ainda não chegamos lá, e as decisões comerciais tomadas em Bailarina acabaram se tornando grandes obstáculos. Desde seu anúncio, a produção já procurava se ancorar no personagem de Keanu Reeves, intenção evidente nos trailers, pôsteres e até no título oficial: Bailarina – Do Universo de John Wick. Do ponto de vista mercadológico, a decisão faz sentido e deve gerar o efeito comercial esperado. Ainda assim, até que ponto escolhas voltadas ao lucro podem comprometer a liberdade criativa de um projeto? A verdade é que não deveriam. O excesso de John Wick impacta negativamente o crescimento da nova protagonista, criando momentos que, muitas vezes, soam como a voz do estúdio dizendo: “Espere um pouco, este filme também é sobre ele”.

Em Bailarina, John Wick não era necessário, sua presença foi fruto do medo dos produtores de apostar no novo, no diferente, e de, a partir disso, visar algo maior do que uma boa bilheteria. Ainda assim, o filme abre portas para novas histórias com Eve Macarro e, mais uma vez, para um possível crossover entre Ana de Armas e Keanu Reeves. Fato é que este não era o momento para isso e, por consequência, a oportunidade de enriquecer os personagens deste universo, acaba se limitando ao apego ao original e à falta de confiança em trazer novos ares para a franquia.

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