Amores Materialistas é fútil e previsível, mas, ainda sim, realista

Aviso: este texto contém spoilers

Cena do filme Amores Materialistas. A cena retrata um casal, Pedro Pascal e Dakota Johnson, em um ambiente urbano, com estilo casual e foco nas expressões e interações sutis entre eles. O homem, mais alto, tem cabelos castanho-escuros, bigode e veste casaco bege com camisa castanho-alaranjada, exibindo expressão neutra. A mulher, de cabelos castanho-escuros em camadas com franja, veste um casaco de couro preto e apresenta semblante levemente sério. O enquadramento é próximo, destacando o casal contra um fundo urbano desfocado, criando profundidade e realce visual. A iluminação natural e difusa indica uma cena ao ar livre durante o dia, com tons neutros e abordagem realista, sem efeitos estilísticos marcantes.
Os três protagonistas do filme já participaram da Marvel (Foto: Killer Films)

Marcela Jardim

Vendido como uma comédia romântica charmosa e leve, Amores Materialistas chega aos cinemas embalado por cartazes luminosos, diálogos espirituosos e a promessa de um romance improvável. No entanto, sob a direção de Celine Song, a obra se revela muito mais próxima de um estudo sociológico do que de um escapismo açucarado. Ao centro da trama está Lucy (Dakota Johnson), cuja construção é deliberadamente marcada por uma frieza controlada e uma beleza comum. Ela é a síntese da protagonista superficial: elegante, discreta, previsível e incapaz de se despir da persona que criou para si. A personagem atua como casamenteira em uma agência que trata encontros como transações de mercado — uma espécie de ‘Tinder humano’ em que o amor é reduzido a compatibilidades de status, aparência e renda.

A crítica de Song à futilidade contemporânea é certeira. A produção escancara um modelo de relacionamento em que o parceiro ideal é escolhido como se fosse um produto premium, avaliado por atributos tangíveis e descartáveis diante de uma opção mais vantajosa. O retrato é cruel justamente por ser reconhecível: há, no filme, uma acuidade incômoda em mostrar o quanto relações afetivas hoje são atravessadas por lógicas de consumo. Lucy, nesse sentido, é menos uma heroína romântica do que um espelho polido — e vazio — de nossa era de afetos calculados.

Cena do filme Amores Materialistas. A cena mostra Pedro Pascal e Dakota Johnson dançando de mãos dadas em um ambiente festivo, casamento. O foco está no casal, com o fundo desfocado, reforçando a intimidade do momento. O homem, de terno escuro, e a mulher, com um vestido azul, exibem expressões gentis e afetuosas. A iluminação suave e o uso da profundidade de campo criam um tom romântico e caloroso, transmitindo a atmosfera alegre e acolhedora do evento.
A cena do casamento precisou ser gravada em 4 locais diferentes pela alta procura (Foto: Killer Films)

Parte do desconforto causado pelo longa vem da maneira como foi divulgado. O marketing se apoiou em um enquadramento típico de romcom: luz natural, cores quentes, diálogos rápidos e um triângulo amoroso sugerido. O resultado foi a expectativa de um enredo leve e reconfortante. No entanto, Song subverte essa promessa, entregando uma narrativa fria, com ritmo contido e ausência de grandes momentos catárticos. Não há antagonismos caricatos, nem reviravoltas milagrosas. A aparente previsibilidade, longe de ser um defeito, é incorporada como parte do comentário social: no universo do filme, já sabemos de antemão quem ficará com quem, porque os papéis sociais, os padrões de beleza e as convenções emocionais determinam o desfecho antes mesmo que ele aconteça.

O longa também é incisivo ao tratar a aparência como valor social absoluto. Em Amores Materialistas, a beleza não é apenas desejável: ela é determinante de status e poder. Isso se materializa no personagem Harry (Pedro Pascal), cuja perfeição física é resultado de intervenções estéticas, e se reflete no ambiente em que os personagens circulam — apartamentos milionários, restaurantes de linhas limpas e paleta neutra, onde tudo é milimetricamente planejado para transmitir bom gosto. É um espaço elegante, mas sem calor humano, como se a vida fosse mais um cenário instagramável.

Cena do filme Amores Materialistas. A cena mostra um homem de maduro, Pedro Pascal, vestido com smoking preto e gravata borboleta, sentado em uma sala social de evento formal. Ele aparece em plano médio, centralizado no enquadramento, com expressão de concentração ou observação. O cenário sugere uma pausa ou conversa, reforçada pela presença de outros indivíduos ao fundo e à esquerda, incluindo uma mulher de vestido azul-turquesa. A fotografia tem estilo narrativo, com iluminação suave e natural, sem sombras marcantes, destacando o homem como foco principal. O ambiente, de decoração elaborada, indica um espaço formal, possivelmente retratado em filme ou televisão, transmitindo a atmosfera de um encontro social sofisticado.
Song enfatiza que a obra é uma crítica ao capitalismo, mostrando como somos levados a nos enxergar e nos relacionar como mercadorias (Foto: Killer Films)

A crítica aos estereótipos femininos também é evidente, ainda que a obra não escape completamente deles. Lucy encarna a figura da mulher moderna, independente e bem-sucedida, porém emocionalmente blindada. Ela é sedutora e inacessível, consciente de seu valor e de como capitalizá-lo, mas igualmente presa às expectativas que diz questionar. Paralelamente, enquanto aponta a superficialidade das regras que regem o mercado amoroso, a personagem as reproduz, reforçando padrões rígidos de gênero e classe.

Em um momento quase lateral, entretanto narrativamente potente, o filme aborda a violência doméstica. Ao recomendar uma cliente para um homem abusivo, Lucy é obrigada a encarar os limites e consequências de um sistema que valoriza atributos superficiais acima de qualquer profundidade moral. A cena, ainda que breve, rompe a leveza controlada do restante da narrativa e insinua uma produção mais densa que Song opta por não explorar integralmente. Essa escolha mantém o tom contido, mas também frustra quem esperava um mergulho mais profundo nas camadas dramáticas da trama.

Cena do filme Amores Materialistas. A cena mostra Chris Evans e Dakota Johnson sentados diante de uma estrutura de madeira, envolvidos em uma conversa tranquila. O homem, à esquerda, veste camisa xadrez e jeans escuros, com expressão contemplativa; a mulher, à direita, usa camisa branca e jeans claros, transmitindo serenidade. Ambos estão voltados um para o outro, em postura relaxada, sugerindo intimidade e naturalidade. O estilo é fotográfico e naturalista, com tons terrosos e iluminação suave, criando uma atmosfera calma e cotidiana, reforçada pelo fundo rústico e discreto da cerca.
O filme não é baseado em uma história real, mas é inspirado na experiência de Celine Song como casamenteira (Foto: Killer Films)

Entre os dois interesses amorosos que orbitam Lucy, a oposição é menos sobre personalidade e mais sobre o que cada um simboliza. De um lado, Harry encarna o ideal estético absoluto: belo, seguro, socialmente validado, quase uma vitrine de padrões de beleza contemporâneos — um ‘produto final’ pronto para consumo. Do outro, John (Chris Evans) surge com um carisma mais sutil, marcado por vulnerabilidade, imperfeições e uma relação menos performática com o mundo. Ainda que a narrativa sugira uma disputa entre opostos, o longa deixa claro que, no universo regido por aparências e capital simbólico, a balança dificilmente pende para o lado menos lapidado. 

Se o final segue a fórmula — Lucy acaba ao lado de quem o público já intuiu desde os primeiros minutos —, é justamente aí que Amores Materialistas revela seu ponto mais agudo. A previsibilidade não é falha, porém diagnóstica. Ao encenar uma história de amor que parece escrita antes mesmo de começar, Song expõe como as estruturas sociais, os padrões estéticos e as expectativas comportamentais moldam nossas escolhas a ponto de eliminar o acaso. Não se trata de acreditar ou não no amor, mas de aceitar que, neste jogo de performances e aparências, o roteiro raramente muda.

O resultado é um filme que combina frieza calculada com estética, emocionalmente estéril e intelectualmente provocador. Amores Materialistas talvez não conquiste o coração de quem busca o conforto de uma comédia romântica tradicional, mas certamente inquietará quem está disposto a encarar o espelho que ele oferece. Fútil e previsível? Sim. Mas também realista a ponto de incomodar — e é exatamente o ponto alto do longa, um dos únicos.

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