Aviso: este texto contém spoilers

Marcela Jardim
Vendido como uma comédia romântica charmosa e leve, Amores Materialistas chega aos cinemas embalado por cartazes luminosos, diálogos espirituosos e a promessa de um romance improvável. No entanto, sob a direção de Celine Song, a obra se revela muito mais próxima de um estudo sociológico do que de um escapismo açucarado. Ao centro da trama está Lucy (Dakota Johnson), cuja construção é deliberadamente marcada por uma frieza controlada e uma beleza comum. Ela é a síntese da protagonista superficial: elegante, discreta, previsível e incapaz de se despir da persona que criou para si. A personagem atua como casamenteira em uma agência que trata encontros como transações de mercado — uma espécie de ‘Tinder humano’ em que o amor é reduzido a compatibilidades de status, aparência e renda.
A crítica de Song à futilidade contemporânea é certeira. A produção escancara um modelo de relacionamento em que o parceiro ideal é escolhido como se fosse um produto premium, avaliado por atributos tangíveis e descartáveis diante de uma opção mais vantajosa. O retrato é cruel justamente por ser reconhecível: há, no filme, uma acuidade incômoda em mostrar o quanto relações afetivas hoje são atravessadas por lógicas de consumo. Lucy, nesse sentido, é menos uma heroína romântica do que um espelho polido — e vazio — de nossa era de afetos calculados.

Parte do desconforto causado pelo longa vem da maneira como foi divulgado. O marketing se apoiou em um enquadramento típico de romcom: luz natural, cores quentes, diálogos rápidos e um triângulo amoroso sugerido. O resultado foi a expectativa de um enredo leve e reconfortante. No entanto, Song subverte essa promessa, entregando uma narrativa fria, com ritmo contido e ausência de grandes momentos catárticos. Não há antagonismos caricatos, nem reviravoltas milagrosas. A aparente previsibilidade, longe de ser um defeito, é incorporada como parte do comentário social: no universo do filme, já sabemos de antemão quem ficará com quem, porque os papéis sociais, os padrões de beleza e as convenções emocionais determinam o desfecho antes mesmo que ele aconteça.
O longa também é incisivo ao tratar a aparência como valor social absoluto. Em Amores Materialistas, a beleza não é apenas desejável: ela é determinante de status e poder. Isso se materializa no personagem Harry (Pedro Pascal), cuja perfeição física é resultado de intervenções estéticas, e se reflete no ambiente em que os personagens circulam — apartamentos milionários, restaurantes de linhas limpas e paleta neutra, onde tudo é milimetricamente planejado para transmitir bom gosto. É um espaço elegante, mas sem calor humano, como se a vida fosse mais um cenário instagramável.

A crítica aos estereótipos femininos também é evidente, ainda que a obra não escape completamente deles. Lucy encarna a figura da mulher moderna, independente e bem-sucedida, porém emocionalmente blindada. Ela é sedutora e inacessível, consciente de seu valor e de como capitalizá-lo, mas igualmente presa às expectativas que diz questionar. Paralelamente, enquanto aponta a superficialidade das regras que regem o mercado amoroso, a personagem as reproduz, reforçando padrões rígidos de gênero e classe.
Em um momento quase lateral, entretanto narrativamente potente, o filme aborda a violência doméstica. Ao recomendar uma cliente para um homem abusivo, Lucy é obrigada a encarar os limites e consequências de um sistema que valoriza atributos superficiais acima de qualquer profundidade moral. A cena, ainda que breve, rompe a leveza controlada do restante da narrativa e insinua uma produção mais densa que Song opta por não explorar integralmente. Essa escolha mantém o tom contido, mas também frustra quem esperava um mergulho mais profundo nas camadas dramáticas da trama.

Entre os dois interesses amorosos que orbitam Lucy, a oposição é menos sobre personalidade e mais sobre o que cada um simboliza. De um lado, Harry encarna o ideal estético absoluto: belo, seguro, socialmente validado, quase uma vitrine de padrões de beleza contemporâneos — um ‘produto final’ pronto para consumo. Do outro, John (Chris Evans) surge com um carisma mais sutil, marcado por vulnerabilidade, imperfeições e uma relação menos performática com o mundo. Ainda que a narrativa sugira uma disputa entre opostos, o longa deixa claro que, no universo regido por aparências e capital simbólico, a balança dificilmente pende para o lado menos lapidado.
Se o final segue a fórmula — Lucy acaba ao lado de quem o público já intuiu desde os primeiros minutos —, é justamente aí que Amores Materialistas revela seu ponto mais agudo. A previsibilidade não é falha, porém diagnóstica. Ao encenar uma história de amor que parece escrita antes mesmo de começar, Song expõe como as estruturas sociais, os padrões estéticos e as expectativas comportamentais moldam nossas escolhas a ponto de eliminar o acaso. Não se trata de acreditar ou não no amor, mas de aceitar que, neste jogo de performances e aparências, o roteiro raramente muda.
O resultado é um filme que combina frieza calculada com estética, emocionalmente estéril e intelectualmente provocador. Amores Materialistas talvez não conquiste o coração de quem busca o conforto de uma comédia romântica tradicional, mas certamente inquietará quem está disposto a encarar o espelho que ele oferece. Fútil e previsível? Sim. Mas também realista a ponto de incomodar — e é exatamente o ponto alto do longa, um dos únicos.
