
Guilherme Moraes
O Mensageiro do Diabo (1955) de Charles Laughton é uma obra estranha dentro da Era de Ouro de Hollywood. Criado na transição para o Cinema Moderno, o filme preserva certos elementos que podem caracterizá-lo como Cinema Clássico, mas também conserva particularidades capazes de colocar isso em questão. Há fortes inspirações no Expressionismo Alemão, além de não conseguir se eternizar como seus pares de Hollywood – muito provavelmente porque o diretor não seguiu carreira atrás das câmeras após o fracasso de público e crítica. Em um mar tomado por John Ford, Orson Welles e Howard Hawks, não houve espaço para Charles Laughton. Entretanto, 70 anos depois, é preciso reconhecer a obra-prima única do inglês sobre dois orfãos, uma boneca, um padre e dez mil dólares.
Na trama os pequenos John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce) herdam de seu pai, Ben Harper (Peter Graves), uma ‘grana’ conquistada por meio de um crime. Na cadeia, Ben divide cela com Harry Powell (Robert Mitchum), um ‘homem de Deus’, e acaba deixando escapar que o dinheiro não foi recuperado. Tomando como um sinal divino e com um canivete no bolso, o padre ruma em direção às crianças e do tesouro escondido.

Harry Powell é transformado em um ser quase mitológico pelo diretor. A busca pelo Cinema alemão da década de 1920 não é gratuita, há intencionalidade por trás. Charles Laughton o torna uma criatura misteriosa e perigosa só pela mise-en-scène. Os planos estranhos, os cenários em formatos geométricos, o tom pessimista e macabro – por meio do jogo de luz e sombra e da névoa –, característicos do Cinema expressionista, estão sempre rodeando a figura do vilão, fazendo todas as suas aparições serem místicas.
Além desses jogos cênicos, Powell tem um canto que anuncia sua chegada, como se fosse uma canção da morte. Seguindo a lógica do misticismo de sua figura, é parecido com as canções das sereias, que atraem marinheiros levando-os ao perigo; a ideia geral em The Night of Hunter, no nome original, não fica muito distante. A música Leaning on the everlasting arms, de Alan Jackson, é sobre encontrar um lugar seguro e tem uma certa pegada infantil, entretanto, quando entoada pelo caçador, ganha um aspecto medonho.
Ainda sobre o vilão, é intrigante a relação dele com Deus. Apesar de suas maldades, ele não parece agir por interesse no que é mundano e material, e, sim, pelo divino. Após se casar com Willa Harper (Shelley Winters), ambos tem a sua noite de núpcias e o personagem, não apenas recusa o sexo, como repreende a esposa por querer. Mesmo que a narrativa se baseie em sua caça aos dez mil dólares, não há qualquer menção do que irá fazer com quando conseguir, aliás, no início da obra, quando rouba a viúva – em uma cena breve em que só é possível ver os pés dela – e deixa seu corpo para trás, Powell fala sozinho, como se estivesse se reportando à uma divindade depois de uma missão e aguardando a próxima. É claro que o padre não estava a serviço de Deus realmente, aliás, a tradução dá a sua interpretação no título ‘O Mensageiro do Diabo’, mas o que torna essa obra especial é o fato de que ele acredita que agia em nome do Senhor.

“Será que ele nunca dorme?”
Em certo momento, enquanto fugia de seu algoz, John o vê chegando no horizonte entoando sua clássica canção e se pergunta se ele nunca descansava. Uma pergunta simples, todavia, demonstra que Charles Laughton sempre soube o que gostaria de representar. Powell é a maldade, e o Mal nunca dorme. Montado em seu cavalo, com o canivete no bolso e sendo observado ao longe, em frente ao sol, como uma sombra, ele se torna um cavaleiro, que irá caçá-los incansavelmente.
A atuação de Robert Mitchum é arrebatadora, sua postura intimidadora, somada ao falar manso, envolvente e cínico que se intercalam na trama, de acordo com a intenção do personagem, exalam a maldade, independente do que é dito. Contudo, há algo a mais; sua feição inexpressiva lembra um pouco o que seria feito com o Michael Myers em Halloween (1978). O maior medo está no fato de não haver ódio ou desejo, é um rosto pálido e sem emoção, o puro Mal.
Talvez nos anos 1950 não houvesse espaço em meio a tantos diretores geniais, no entanto, com certeza haveria lugar para ele hoje, afinal, não são todos que conseguem trazer esse espiritualismo em um mundo de ordem, hegemonicamente, naturalista. O Mensageiro do Diabo não se consagrou em seu tempo, porém, ganhou novos olhares décadas depois e agora seus valores estão sendo notados. É uma pena que Charles Laughton não tenha seguido carreira atrás das câmeras, mas ficará marcado por fazer uma obra-prima e se aposentar da direção.
