
Iris Italo Marquezini
Esperança é um dos principais temas e também a palavra que fecha o roteiro de Rogue One: Uma História Star Wars (2016), dirigido por Gareth Edwards. Com um terceiro ato inesquecível, o filme apresentou o protagonista da que viria a ser, anos depois, uma das séries mais, inesperadamente, revolucionárias e politicamente radicais dos últimos anos: Andor. Olhando agora, fica difícil imaginar essa saga sem Cassian (Diego Luna). Se qualquer linha do tempo dentro dessa franquia é marcada pelo antes e depois da Batalha de Yavin – confronto final de Uma Nova Esperança (1977) – então a história dessas Guerras nas Estrelas já possuem um antes e depois de Andor.
A segunda temporada não perde nada em relação à primeira, que surpreendeu os fãs indiferentes à proposta de aprofundar a história do piloto pouco explorado anteriormente. Os novos episódios se situam um ano após o final emotivo do episódio Rix Road, com Cassian e os outros rebeldes cada vez mais temerosos quanto às opressões do Império. Dedra Meero, interpretada pela atriz Denise Gough com um trabalho primoroso nas linguagens corporais, ganha destaque como a antagonista definitiva da série. A supervisora aparece como uma líder com uma sede de poder imparável e focada em planejar um genocídio no planeta Ghorman.
A trama não possui pressa na hora de preparar a audiência para os eventos apresentados em Rebels (2014), Rogue One e Uma Nova Esperança. Por meio de um elenco de personagens criados exclusivamente para essa história, os fãs agora descobrem o destino de cada um deles no meio de uma narrativa delimitada por meio de arcos de três episódios, focada em espionagem e reflexões políticas. Esse aspecto, particularmente, a diferencia das outras produções recentes do novo cânone dessa saga. Enquanto vemos Obi-Wan (2022), Ahsoka (2023) e até mesmo The Mandalorian (2019) dependerem demais do investimento emocional e estético estabelecido antes, Andor vai no caminho contrário e cria abordagens novas.

Sem homenagens diretas ao universo Star Wars, a série busca referências em eventos históricos fora da ficção, em obras de espionagem e na ficção científica do século XX. Essas ideias se refletem em uma direção e produção que valorizam equipamentos analógicos, tecnologias retrofuturistas e figurinos exuberantes, adequados para cada classe social representada. A sonoplastia e a trilha sonora também se destacam, tornando-se um dos produtos com a melhor ambientação do cânone. Essa decisão torna todo o universo mais tátil e palpável, com menos uso de tela verde e a produção do volume de The Mandalorian, o que explica as diversas indicações ao Prêmio Emmy 2025 em todas as categorias técnicas mencionadas.
Locais como o planeta Coruscant e a lua Yavin 4, já apresentados em outros filmes, ganham novos contornos exuberantes. Os novos cenários propostos, como Ghorman e Chandrila, não decepcionaram nem um pouco. A cinematografia (Christophe Nuyens) não deixa escapar esses detalhes, criando aqui alguns dos visuais mais criativos desde Os Últimos Jedi (2017) e garantindo uma indicação ao Emmy Awards 2025. Fica o destaque para a desesperadora e sensível cena de dança eufórica da Senadora Mon Mothma (Genevieve O’Reilly), que parece engolir berros de negação que explodem para fora do corpo, implorando para que os sacrifícios tão presentes na vida dela parem de uma vez.
E aqui entra o maior mérito do seriado: o roteiro (Tony Gilroy, Dan Gilroy, Beau Willimon e Tom Bissell), que foi mais uma categoria a receber uma indicação do Emmy. Com diálogos cheios de nuances e sutileza característicos, os espectadores são confrontados com diversos pontos de vista tanto do Império quanto da Rebelião sobre os eventos brutais que caracterizam a trama. A franquia sempre contou com exemplos de obras maduras e repletas de comentários sociais relevantes e criativos, mas Andor muda essas referências políticas tangenciais e as trazem como foco. A maior parte dos diálogos envolvendo Luthen (Stellan Skärsgard), Mon Mothma e Saw Guerrera (Forest Whitaker) – este último, inclusive, indicado ao prêmio de Ator Convidado em Série Dramática –, são os que trazem maior impacto para o público, sem precisar apelar para respostas fáceis ou reflexões vazias.

Grande parte da razão de Andor alcançar essa maturidade na escrita é o fato de que Tony Gilroy, o showrunner da série, substitui a própria falta de conhecimento e até mesmo respeito pelo universo de Star Wars com um repertório vasto sobre história político-militar. Assim, a história de Cassian e dos rebeldes passa a ganhar paralelos com a Revolução Haitiana, Revolução Russa, resistência palestina e Revolução Francesa, por exemplo. Essa mesma filosofia por trás da produção, positiva para criar novas perspectivas para a franquia, também foi realizada em The Acolyte (2024), mas em Andor parece ter casado de forma mais orgânica com o que foi estabelecido antes.
Sem apelar para imagens conhecidas do público, como Jedis e os sabres de luz, essa liberdade criativa trouxe um foco maior para fazer um alerta sobre políticos fascistas da vida real. Essa atitude ajudou até mesmo a subverter recursos fáceis de fan service que a audiência já familiarizada com esse universo poderia esperar. Um exemplo foi a oportunidade clara de inserir a equipe de heróis da animação Rebels sendo deixada de lado. Vale citar também a interpretação do indicado ao Emmy 2025 em Melhor Performance de Voz – Personagem, Alan Tudyk, na introdução do droide K-2SO de forma completamente inusitada e chocante em comparação ao que poderíamos esperar do droide engraçadinho e sarcástico de Rogue One.
O episódio Quem é você?, indicado em sete das 14 categorias em que Andor concorre no Emmy, incluindo melhor direção (Janus Metz), alcança o ápice narrativo da temporada e das metáforas políticas diretas. Há referências, agora nada sutis, sobre violência policial, ascensão do neofascismo e depois usa o termo genocídio sem medo algum para se referir a uma das cenas que remete às repressões sofridas por diversos países da América Latina e do mundo todo. Efeitos sonoros de metralhadoras presentes em jogos como Star Wars: Battlefront II (2018) e os droides K-2, tão simples de eliminar em Jedi: Fallen Order (2019), aparecem em um contexto aterrorizante aqui, já que, a estética fantasiosa se mistura com a violência palpável da vida real.

Em Bem-vinda à Rebelião, os fãs ouvem um discurso icônico para a saga. Andor lembra que fora das telas a pós-verdade reina e que enxergar Star Wars como mero escapismo é ser conivente com a realidade brutal que governos necropolíticos no mundo todo buscam ter apoio. Nem mesmo George Lucas ignorou o potencial político da narrativa, com a frase memorável de Padmé em A Vingança dos Sith (2005), e deixando claro anos atrás que o clássico de 1977 sempre foi uma alusão à Guerra do Vietnã. É um sentimento único ver Mothma, finalmente, se expressar de forma verdadeira no Senado após o público acompanhar uma atuação tão contida até então, interpretada pela primorosa Genevieve O’Reilly, que sucede Caroline Blakiston na pele da personagem.
Dois grandes acertos da série são as performances de Diego Luna como Cassian Andor e Kyle Soller como o infiltrado Syril Karn. Ambos os protagonistas ficam cada vez mais afetados com os massacres apresentados em tela, quase recriando o olhar traumático do ator Aleksei Kravchenko no final de Vá e Veja. Assim, a ternura aparece como um dos pontos centrais do seriado. A forma como ambos amam as pessoas próximas de si mostra o quanto o Império é frio nas relações e a Aliança Rebelde, por outro lado, “possui amigos em todos os lugares”, parafraseando o próprio seriado.
Esse amor também aparece na maior surpresa dos novos episódios: Kleya Marki (Elizabeth Dulau). O seriado coloca a responsável pelas comunicações como uma das protagonistas da temporada, levando-a a campo no episódio Faça isso parar, com, possivelmente, a melhor direção da série por Alonso Ruizpalacios. Kleya se destaca como uma personagem profunda e cheia de semelhanças com o próprio Luthen. Skarsgärd dá mais um show de atuação aqui junto à Dulau, ambos mostrando que a relação deles é bastante única em comparação a outras duplas de mestre e aprendiz presentes em outros capítulos da saga. Kleya é sensível e possui uma determinação pela Rebelião comparável às atitudes da Princesa Leia.

Acontece que, da mesma forma que os heróis bem desenvolvidos ficam claros, os mal explorados também ficam nítidos para a audiência. Bix Caleen, por exemplo, é interpretada pela brilhante e intensa Adria Arjona. A atriz consegue entregar todas as nuances da mulher que protagoniza, tanto a cena mais brutal da série – quiçá de todo o universo –, quanto a mais estilosa da temporada. Ainda assim, Bix parece nunca alcançar o potencial prometido de ser uma aliada bastante próxima de Cassian junto às missões. O desfecho da personagem parece até contradizer outros momentos sanguinários dela de maior entrega à causa da Rebelião, tornando um trabalho de atuação sensível em um arco desenvolvido a conta-gotas, interrompido porque Andor não teria mais o número de episódios planejado.
Cinta Kaz (Varada Sethu) e Vel Sartha (Faye Marsay) são, talvez, o melhor exemplo desse aspecto. O roteiro parece autoconsciente da importância de ter o primeiro casal sáfico com genuíno destaque nas obras live-action de Star Wars. Há arcos bons, diálogos importantes para ambas e momentos genuinamente tocantes entre elas, que traçam paralelos com a relação cercada de sacrifícios de Bix e Andor também. Entretanto, as cenas do casal nesta temporada aparecem de forma apressada e com resoluções óbvias para uma narrativa com tantos pontos de vista diferentes que, de repente, precisa parar tudo para desenvolver mais um romance. Por que acelerar logo o ritmo delas se supostamente sempre houve espaço para representatividade?

Um dos maiores criticismos de Andor por uma parcela da audiência é o ritmo mais parado e entediante por causa do foco menor nas tramas aventurescas características desse universo. A série, infelizmente, se torna isso quando muitos dos personagens secundários do núcleo dos rebeldes pecam em não terem quase nenhuma característica que os tornem únicos, salvo raras exceções. É quase como se Gilroy tivesse usado a estratégia de The Walking Dead (2010) e Game of Thrones (2011) de apresentar dezenas de caras novas de uma vez, apenas para ter alguns rostos reconhecíveis nas cenas chocantes.
Essa lacuna leva até a, possivelmente, maior ausência temática da série: a raça. Desde a primeira temporada, fãs apontam que, para uma produção de ficção-científica situada em uma galáxia tão vasta, pouco se vê de espécies alienígenas em tela. Enquanto o gênero das protagonistas é um ponto chave para trazer discussões importantes para a narrativa, Gilroy peca ao afirmar que raça é um aspecto do qual não quis se aprofundar, ignorando a interseccionalidade possível do assunto. Outro potencial desperdiçado, pois esse tema já foi abordado, inclusive, por meio das histórias de um dos personagens mais conhecidos do universo expandido de Star Wars, o Grão-Almirante Thrawn, interpretado por Lars Mikkelsen em Ahsoka.

Se era para abraçar a metáfora e fazer com que Andor ganhasse essa característica genuinamente distópica e sem medo de tocar nas feridas da realidade, essa ausência parece mais presente por ignorância do que por falta de liberdade, espaço e orçamento para desenvolver comentários pertinentes nesse caminho. Não contribui o fato de que muitos corpos não brancos são os que sofrem maiores violências explícitas ao longo da narrativa, enquanto uma maioria de personagens de etnia branca sobrevive no final. Com uma equipe com tanto talento quanto Gilroy, a impressão que fica é que ninguém teve a iniciativa de desenvolver tramas nesse caminho ou há uma ausência grave de diversidade dentro da sala de roteiristas para não notarem a importância desses assuntos.
Esses detalhes auxiliam para a impressão agridoce do final. Ainda que com problemas, Andor já ganhou a retórica dos fãs de ser um dos melhores conteúdos live-action de Star Wars desde O Império Contra-Ataca (1980). Há sim um desfecho, todavia um que ainda depende muito de Rogue One para funcionar, um filme com ritmo e tom bastante diferente do que foi observado ao longo das duas temporadas. O último episódio – Jedha, Kyber, Erso –, por sua vez, é melancólico e reflexivo, com a Aliança Rebelde formada e os heróis traumatizados por tudo que tiveram que enfrentar para chegar nesse avanço.

A produção ainda continua o costume da saga em fazer grandes retcons, trazendo outras camadas para conteúdos que vieram anteriormente. Assistir Rogue One após Andor é uma experiência fantástica, pois houve o retorno de Orson Krennec (Ben Mendelsohn), General Draven (Alistair Petrie) e Melshi (Duncan Pow) para os últimos episódios. Além disso, as referências à obra de Gareth Edwards são bem mais sutis em comparação a outras prequelas da franquia.
O seriado ainda ajudou a criar um paralelo grande entre Cassian e Jyn Erso (Felicity Jones) como duas pessoas profundamente traumatizadas desde a infância pelo Império, quase como se a Força tivesse dado alguém para o lembrar o piloto da irmãzinha abandonada do planeta natal dele, e não um romance para substituir Bix. Pensar que o final de Andor é fazer uma alusão ao que seria o equivalente à Bomba de Hiroshima e Nagasaki do universo de Star Wars, quase faz a história toda se assemelhar a um Oppenheimer (2023) de 20 horas, ainda mais somando os livros Catalyst (2016) de James Luceno, Rebel Rising (2017) de Beth Revis e Leia: Princesa de Aldeeran (2017), de Claudia Gray neste combo.

O legado que Andor deixa é de um novo caminho estético, temático e maduro para os conteúdos dessa saga. Um sinal disso é o lançamento do livro Reign of the Empire: Mask of Fear (2025), de Alexander Freed, autor da aclamada trilogia do novo cânone, Alphabet Squadron (2021), e da novelização de Rogue One (2017). A nova obra aborda mais da história de Mon Mothma, Saw Guerrera e Bail Organa (Benjamin Bratt) no estilo do que a série apresentou. O gênero da espionagem veio para ficar nesta franquia, enquanto as aventuras pulp de piratas da fofíssima Skeleton Crew (2024) e a trama de detetives de The Acolyte parecem, infelizmente, não ter tido a mesma sorte por enquanto.
Andor marca Star Wars para sempre, mas marca também a televisão de ficção científica moderna, somando 14 indicações ao Prêmio Emmy 2025, incluindo a categoria principal de Melhor Série. Com um roteiro que não subestima o público, a série traz reflexões marcantes sobre poder e momentos emocionantes com um elenco de protagonistas único. Na melhor das hipóteses, Andor talvez crie mais empatia entre os fãs e ajude a afastar as vozes responsáveis há decadas por hostilizar diversos profissionais presentes nessa saga. O seriado de Tony Gilroy toca na ferida e força a parte tóxica do fandom a pensar menos em simplesmente consumir produtos, reclamar na internet e atacar minorias. Quem sabe, no fim, após as aventuras de Cassian audiência passe a prestar mais atenção nas violências presentes em uma galáxia tão tão perto do nosso cotidiano.
