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	<title>Arquivos Literatura Brasileira &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Em A Hora da Estrela, Macabéa representa a busca da própria identidade</title>
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		<pubDate>Thu, 16 May 2024 18:15:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Machado Leal A Hora da Estrela, filme de 1985 baseado no livro homônimo escrito por Clarice Lispector, conta a história da datilógrafa Macabéa, que pouco da vida conhece, mas vive com o mínimo porque foi ensinada dessa maneira. Dirigido por Suzana Amaral, o longa-metragem ganhou uma nova versão remasterizada com o apoio da Sessão &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-hora-da-estrela-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em A Hora da Estrela, Macabéa representa a busca da própria identidade"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_33407" aria-describedby="caption-attachment-33407" style="width: 750px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-33407" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image3-3.png" alt="Foto da atriz Marcélia Cartaxo, uma mulher branca de cabelos cacheados e castanhos. Ela está correndo e usa um vestido branco. A foto está em preto e branco." width="750" height="452" /><figcaption id="caption-attachment-33407" class="wp-caption-text">Marcélia Cartaxo dá vida à Macabéa, protagonista do livro e da adaptação cinematográfica de A Hora da Estrela (Foto: Sessão Vitrine Petrobras)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Machado Leal</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Hora da Estrela</span></i><span style="font-weight: 400;">, filme de 1985 baseado no livro homônimo escrito por Clarice Lispector, conta a história da datilógrafa Macabéa, que pouco da vida conhece, mas vive com o mínimo porque foi ensinada dessa maneira. Dirigido por </span><a href="https://jornal.usp.br/cultura/a-trajetoria-de-suzana-amaral-no-cinema-e-na-usp/"><span style="font-weight: 400;">Suzana Amaral</span></a><span style="font-weight: 400;">, o longa-metragem ganhou uma nova versão remasterizada com o apoio da Sessão Vitrine Petrobras como distribuidora e foi lançado nos cinemas em 2024, sendo a chance do público brasileiro conhecer ou revisitar uma das histórias nacionais mais emocionantes já feitas. </span></p>
<p><span id="more-33404"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama da narrativa escrita pela ucraniana é simples: a protagonista alagoana vai para o Rio de Janeiro trabalhar como datilógrafa, algo comum no século XX, visto que o trabalho daria chances de melhores condições de vida para a migrante. Após o falecimento da tia, Macabéa vai morar em uma espécie de pensão com outras três mulheres. Com 19 anos, um estômago ruim e uma alimentação que nada a favorece, a jovem apenas existe sem entender a tamanha dificuldade que a permeia. Nos cinemas, a personagem é vivida brilhantemente pela atriz </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2024/05/10/marcelia-cartaxo-eu-estava-fresquinha-assim-como-macabea"><span style="font-weight: 400;">Marcélia Cartaxo</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esguia, desnutrida e curiosa são três das palavras que definem a protagonista e, infelizmente, a forma como a veem. Mesmo não tendo terminado a escola, Macabéa arruma um emprego como datilógrafa, que dá a ela algo menor do que um salário mínimo. No entanto, embora esteja cercada por inúmeros obstáculos, há algo que desperta chamas em seu coração, a </span><a href="https://memoria.abert.org.br/radio-relogio-voce-sabia/"><span style="font-weight: 400;">Rádio Relógio</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ao ouvir os ensinamentos da programação radiofônica, a alagoana aprende os significados daquilo que tanto a aflige: as palavras.</span></p>
<figure id="attachment_33405" aria-describedby="caption-attachment-33405" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-33405" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image1-2.png" alt="Foto da atriz Marcélia Cartaxo, uma mulher branca de cabelos cacheados e castanhos. Ela veste uma blusa bordada com as cores cinza e branco e utiliza uma presilha branca no lado esquerdo do cabelo. Ela está cabisbaixa e olha com tristeza para baixo." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image1-2.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image1-2-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image1-2-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image1-2-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image1-2-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image1-2-1200x675.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33405" class="wp-caption-text">A primeira edição de A Hora da Estrela foi publicada em 1977, mesmo ano da morte de Clarice Lispector (Foto: Sessão Vitrine Petrobras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos pontos cruciais para o entendimento da história é a identificação do público com sua protagonista. Dessa forma, o trabalho de Cartaxo é fundamental para que o espectador entenda a nordestina e, assim, tenha empatia por ela. Macabéa não é exclusiva, nem apenas uma persona evocada por </span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/por-que-obras-de-clarice-lispector-continuam-sendo-adaptadas-para-o-cinema-e-seguem-relevantes-1.3511543"><span style="font-weight: 400;">Clarice Lispector</span></a><span style="font-weight: 400;">. A alagoana é como todo e qualquer ser humano que já se sentiu minimamente descartável e perdido no mundo. A vida, para ela, é normal. Entretanto, para aqueles que a acompanham nas telas do Cinema, a jovem possui um passado trágico, um presente cinza e um futuro assustador. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em certo ponto da trama, a protagonista conhece o operário Olimpo de Jesus (José Dumont), por quem ela prontamente se apaixona. Com anseio de viver e sentir algo diferente de sua vida monótona, a garota sente as primeiras faíscas do amor (não correspondido). No diálogo de Macabéa com o pretendente, há o desenvolvimento dela enquanto </span><a href="https://vermelho.org.br/coluna/a-estrela-e-a-invisibilidade-social/"><span style="font-weight: 400;">ser pensante</span></a><span style="font-weight: 400;">: à medida em que entende-se a ganância do metalúrgico, compreende-se a inocência da personagem, uma vez que, por não ter acesso a direitos básicos – como educação, saúde e alimentação – pouco do mundo ela conhece.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Virgem, fã de coca-cola e datilógrafa, Macabéa não tem tempo de se sentir triste. No sistema capitalista, pensar em sentimentos é um luxo que ela não se pode deixar levar, ainda mais aqueles que a mostrariam a situação deplorável em que a alagoana vive. Além de suas colegas de pensão, a jovem possui uma amiga no trabalho, a carioca Glória, vivida por </span><a href="https://tvhistoria.com.br/musa-anos-80-anima-festas-infantis-sobreviver/"><span style="font-weight: 400;">Tamara Taxman</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é tudo o que ela não é: provocativa, desejada por homens e namoradeira. Viciada em superstições, a coadjuvante rouba o namorado da protagonista a fim de ter o homem que realmente ama. Após a atitude, a loira sugere que a personagem principal faça o mesmo para que sua vida mude.</span></p>
<figure id="attachment_33406" aria-describedby="caption-attachment-33406" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-33406" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image2-2.png" alt="Foto da atriz Fernanda Montenegro, uma mulher branca de cabelos cacheados, e a atriz Marcélia Cartaxo, uma mulher branca de cabelos cacheados e castanhos. Elas estão sentadas olhando para as cartas que estão na mesa." width="700" height="466" /><figcaption id="caption-attachment-33406" class="wp-caption-text">Com um trabalho de tirar o fôlego, Fernanda Montenegro é a coadjuvante perfeita para A Hora da Estrela (Foto: Sessão Vitrine Petrobras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir da ida da datilógrafa à cartomante Madame Carlota, interpretada pela brilhante </span><a href="https://www.folhabv.com.br/variedades/conheca-cinco-filmes-que-marcaram-carreira-de-fernanda-montenegro/"><span style="font-weight: 400;">Fernanda Montenegro</span></a><span style="font-weight: 400;">, Macabéa entende a sua própria vida e existência. Nunca foi amada e muito menos desejada, mas aprendeu a viver assim, pois pensava que esse era o normal: não ser. Em uma interpretação caricata na dose certa, Montenegro traz mais uma carta de humor utilizada pelos escritos de Lispector e pelo roteiro adaptado de Alfredo Oroz e Suzana Amaral. Através da consulta, a alagoana confessa que tem medo de palavras, mas escuta atentamente todas as previsões feitas pela ex-prostituta. Assim, a percepção da protagonista de sua humanidade representa o ponto mais alto da narrativa</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por esse lado, o filme apresenta um dos diálogos mais importantes da história: a análise da vida trágica de Macabéa. A cena reúne tudo o que o público viu ao longo da trama e, com as atuações de Cartaxo e Montenegro, há um anseio por um futuro menos amargo para a protagonista. Após o término da sessão com a profissional, Macabéa se despreende do presente e do passado terrível e olha em direção ao futuro. Vívida por sensações novas e experiências que possam tirá-la do estado automático em que permaneceu por 19 anos, a recém descoberta de sua autonomia serve como a ‘cereja do bolo’ do desenvolvimento perfeito da personagem enquanto arco narrativo. Ancorada na maestria dos </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/10/cultura/1544426497_594113.html#:~:text=Clarice%20Lispector%20%C3%A9%20considerada%2C%20junto,a%20primeira%20pessoa%20na%20narrativa."><span style="font-weight: 400;">escritos</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Clarice Lispector, o longa-metragem dá um ‘gostinho de quero mais’, levando o espectador a consumir a obra original para entender ainda mais a datilógrafa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Baseando-se em um clássico nacional, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Hora da Estrela</span></i><span style="font-weight: 400;"> é competente ao adaptar uma das histórias mais cruas e delicadas escritas pela ucraniana. Ao mesmo tempo em que Macabéa tem a Rádio Relógio como sua melhor amiga, sempre aprendendo um termo novo e informações que não conhecia, a datilógrafa possui medo dessas próprias palavras. Traçando um paralelo com o amargor e doçura que é viver, o longa-metragem escancara os dilemas da vida humana: com medo de não ter sido ninguém, a protagonista foi e muito, assim como Clarice Lispector significou tanto para a </span><a href="https://www.portugues.com.br/literatura/clarice-lispector.html#:~:text=Clarice%20Lispector%20(1920%2D1977),as%20mais%20lidas%20no%20pa%C3%ADs."><span style="font-weight: 400;">Literatura brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;">.  </span></p>
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		<title>Estante do Persona – Setembro de 2022</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Oct 2022 19:38:17 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28990" aria-describedby="caption-attachment-28990" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28990 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28990" class="wp-caption-text">Em Setembro, o Clube do Livro do Persona completou sua 12ª leitura sob os cuidados da Pediatra, de Andréa del Fuego (Foto: Companhia das Letras/Arte: Nathália Mendes/Texto de abertura: Raquel Dutra)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Ainda é tempo de morrer amanhã, que será o ontem de depois de amanhã, se eu então continuar vivo.&#8221;</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8211; Javier Marías</span></em></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro ano do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Clube do Livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> está chegando: em Setembro, completamos nossa 12ª edição, preparados para encerrar um ciclo que nos fez próximos da </span><a href="https://personaunesp.com.br/category/literatura/"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> como nunca antes havia acontecido. Iniciando as comemorações desse marco tão especial, trouxemos </span><i><span style="font-weight: 400;">A Pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Andréa del Fuego, para deixar suas impressões sobre o tão saudável projeto caçula do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que encontramos a partir daí, no entanto, foi um procedimento nada convencional. A obra da autora paulistana se concentra em </span><a href="https://valkirias.com.br/a-pediatra-de-andrea-del-fuego-e-o-fascinio-pelo-detestavel/"><span style="font-weight: 400;">Cecília</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma pediatra que é o exato oposto do estereótipo que lhe é associado. Longe da imagem maternal e paciente evocada pela sua profissão, a personagem é munida de uma frieza incorrigível, o que a faz, nem tão surpreendentemente assim, uma médica muito bem-sucedida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com essa narrativa peculiar, as palavras concisas de </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/colunas/pagina-cinco/2022/03/18/entrevista-andrea-del-fuego-a-pediatra.htm"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;"> permeiam um humor perspicaz no cenário da classe média alta de São Paulo. Pelo fluxo de consciência de Cecília e suas peripécias cirurgicamente calculadas, a autora não precisa de mais de 160 páginas para propor reflexões nada pretensiosas sobre papéis de gênero, relacionamentos familiares e desigualdades sociais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 2021, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> é somente a mais recente demonstração dos méritos da mestra em Filosofia laureada com o prêmio José Saramago em 2011. Na ocasião, a obra tratava-se apenas de seu primeiro romance: </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/andrea-del-fuego-e-a-convidada-de-setembro-do-encontro-de-leituras.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Os Malaquias</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, drama familiar que carrega a referência do Nobel de Literatura português, tido como </span><a href="http://artecult.com/ac-encontros-literarios-andrea-del-fuego/"><span style="font-weight: 400;">a principal referência</span></a><span style="font-weight: 400;"> da autora. Enquanto a nova edição do livro integra novamente o título ao catálogo da </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">, o último romance de Andréa del Fuego faz seu nome integrar novamente a lista do </span><a href="https://www.premiojabuti.com.br/10-finalistas/"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Jabuti</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/aline-bei-e-silviano-santiago-sao-finalistas-do-premio-sao-paulo-de-literatura-veja-lista.shtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio São Paulo de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do </span><a href="https://associacaooceanos.pt/premio-oceanos-2022/"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Oceanos</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas nem só de comemorações são feitos os inícios e fins de ciclos. No 9º mês do ano, também houve a despedida de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/morre-javier-marias-escritor-espanhol-de-coracao-tao-branco-aos-70.shtml"><span style="font-weight: 400;">Javier Marías</span></a><span style="font-weight: 400;">, escritor, tradutor e editor espanhol considerado um dos contemporâneos mais importantes da língua. Com apenas 20 anos, iniciou seus trabalhos literários com </span><i><span style="font-weight: 400;">Os domínios do lobo</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1971), se consolidando na Literatura da Espanha com os romances </span><i><span style="font-weight: 400;">O homem sentimental</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1986) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Todas as almas</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1989). O cenário internacional veio em 1992, quando </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-marco-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Coração tão branco</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> rompeu todas as barreiras ao vender 1 milhão de exemplares e ser traduzido para mais de 40 idiomas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de se destacar entre os romances, cujo </span><i><span style="font-weight: 400;">hall</span></i><span style="font-weight: 400;"> de sucessos ainda engloba </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13196"><i><span style="font-weight: 400;">Os enamoramentos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2011) e a trilogia – considerada sua obra-prima – </span><i><span style="font-weight: 400;">Seu rosto amanhã</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2002-2007), o autor também era conhecido pelos seus contos e artigos, sempre alinhados pela sua perspectiva de formação e experiência como docente em Filosofia e Letras, primeiro pela Universidade Complutense de Madrid, depois na Universidade de Oxford. No dia 11 de Setembro, Javier Marías faleceu aos 70 anos, em decorrência de uma pneumonia. Sua extensa produção literária angariou respeito e admiração pela crítica e pelos leitores, sendo um eterno favorito ao </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/10/saiba-as-principais-apostas-ao-nobel-de-literatura-de-rushdie-a-murakami.shtml#:~:text=Com%20o%20trof%C3%A9u%20mais%20prestigioso,Murakami%20e%20o%20franc%C3%AAs%20Michel"><span style="font-weight: 400;">Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> – mas isso é assunto para o mês que vem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as idas e vindas do meio, parte fundamental do nosso radar afiado desde </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-outubro-de-2021/"><span style="font-weight: 400;">Outubro de 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">, introduzimos mais um </span><b>Estante do Persona</b><span style="font-weight: 400;">. Na companhia de outros trabalhos literários louváveis que a nossa Editoria selecionou para as indicações do mês, finalizamos o primeiro ano do Clube do Livro de olho no que vai terminar de definir a Literatura em 2022.</span></p>
<p><span id="more-28956"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_28981" aria-describedby="caption-attachment-28981" style="width: 681px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28981 size-large" style="font-weight: bold; background-color: transparent; text-align: inherit;" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-681x1024.jpg" alt="" width="681" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-681x1024.jpg 681w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-532x800.jpg 532w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-768x1155.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-1021x1536.jpg 1021w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2.jpg 1702w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28981" class="wp-caption-text">Publicado em 2021, A pediatra é finalista na categoria Romance Literário no Prêmio Jabuti deste ano (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Andréa del Fuego &#8211; A pediatra (160 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559213481/a-pediatra"><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, terceiro romance de Andréa del Fuego, a superficialidade das relações e a ética envolta no cotidiano são colocadas em xeque. Cecília, a protagonista, é o oposto do que se imagina de uma pediatra: uma mulher sem “espírito maternal”, quase nenhum interesse por crianças e mínima paciência para outros adultos. Ao desenrolar da trama, ela fará, então, um mergulho investigativo na vida das mulheres que seguem o caminho do parto natural e da medicina alternativa, práticas que despreza profundamente. Em paralelo, vive uma relação com um homem casado, Celso, cujo filho, Bruninho, ela acompanhou o nascimento como neonatologista. É esse menino que irá despertar sentimentos nunca antes experimentados por ela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span><a href="https://escotilha.com.br/literatura/ponto-virgula/livro-a-pediatra-andrea-del-fuego-companhia-das-letras-resenha-critica/"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;"> retoma, com este romance, sua escrita áspera, direta e seca. Nesse livro, o seu cuidado com a linguagem reflete a personalidade de Cecília, que tende a ser pragmática e realizar seus interesses acima dos demais. Ironicamente, é toda essa sua força, sarcasmo e ironia que demonstram, posteriormente, o quanto é uma pessoa frágil. Como um dos fortes concorrentes ao </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/25/premio-jabuti-divulga-finalistas-de-2022.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Jabuti</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2022, o romance evidencia toda sua força através de uma escrita intensa. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu não estava livre do Bruninho, como tinha me livrado de tudo que ousava me extorquir</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: A pediatra - Clube do Livro Setembro de 2022" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/2M1IJ7NhlH2N6dtrxa3QOX?si=LWDoLX6NSY6oLgA216tYkw&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_28978" aria-describedby="caption-attachment-28978" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28978 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-683x1024.jpg" alt="" width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28978" class="wp-caption-text">Marcado pela voz dos oprimidos através da colonização, Sobrevidas foi um dos recebimentos do Persona através da parceria com a editora Companhia das Letras em 2022 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Abdulrazak Gurnah &#8211; Sobrevidas (336 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Sobrevidas</span></i><span style="font-weight: 400;"> chegou ao Brasil em Março de 2022, sob tradução de Caetano W. Galindo, e graças a parceria com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/companhia-das-letras/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> pôde ter acesso ao primeiro livro do tanzaniano Abdulrazak Gurnah – vencedor do prêmio </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1446162399069884427"><span style="font-weight: 400;">Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2021 – a ser publicado por aqui. O lançamento deu início a série de publicações do autor que a editora deve entregar futuramente. Entre elas, além de </span><i><span style="font-weight: 400;">Afterlives</span></i><span style="font-weight: 400;">, estão </span><i><span style="font-weight: 400;">Paradise </span></i><span style="font-weight: 400;">(finalista do </span><i><span style="font-weight: 400;">Booker Prize</span></i><span style="font-weight: 400;"> de 1994), </span><i><span style="font-weight: 400;">Desertion</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://loja.taglivros.com/kit-tag-curadoria-a-beira-mar-abdulrazak-gurnah-jul-22/"><i><span style="font-weight: 400;">À beira-mar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(já entregue através da </span><i><span style="font-weight: 400;">TAG Curadoria</span></i><span style="font-weight: 400;"> aos seus assinantes em Julho). </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobrevidas</span></i><span style="font-weight: 400;">, porém, é a obra mais recente de Gurnah, publicada originalmente em 2020, e trata-se de uma narrativa apoteótica dos </span><a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/resenhas/literatura/a-narrativa-dos-sobreviventes"><span style="font-weight: 400;">sobreviventes</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientada no começo do século XX, sob a África Oriental Alemã – no interior do que hoje é a Tanzânia –, a obra centra-se em Ilyas, Khalifa e Hamza – centra-se principalmente nos dois últimos –, que se encanta por Afiya (irmã de Ilyas) após chegar na cidade em busca de emprego, depois de ser vendido pelo próprio pai a um fazendeiro e fugir. Ao mesmo tempo em que Gurnah cria personagens fortes, ele evidencia suas vulnerabilidades originadas na opressão do colonialismo – a qualquer momento, tudo pode ruir. Partindo de histórias comuns, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/abdulrazak-gurnah-em-sobrevidas-destaca-o-humano-ante-o-colonial.shtml"><span style="font-weight: 400;">Abdulrazak Gurnah</span></a><span style="font-weight: 400;"> joga luz sobre as consequências devastadoras da violência na vida cotidiana de todo um continente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo escrito originalmente em inglês, o escritor mantém elementos de uma abordagem descolonial ao inserir palavras “não traduzidas” para o idioma (</span><i><span style="font-weight: 400;">schwein </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">washenzi</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo). Essa estranheza é um dos objetivos estéticos do autor, e é respeitada na tradução de Galindo, que as mantém como a forma original. É, porém, ao fim que toda a potência de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559212286/sobrevidas"><i><span style="font-weight: 400;">Sobrevidas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é catarticamente revelada: o encontro entre Hamza e Khalifa humaniza indivíduos que foram massiva e historicamente desumanizados. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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<figure id="attachment_28982" aria-describedby="caption-attachment-28982" style="width: 680px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28982 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-680x1024.jpg" alt="Capa do livro A Seleção da escritora Kiera Cass. A capa é composta pela fotografia de uma mulher branca e ruiva. Ela veste um enorme vestido azul que a encobre do torso até os pés. Ela posa de perfil para a câmera, enquanto posiciona os braços de uma forma que encobre metade de seu rosto. Ao fundo, uma série de espelhos refletem a sua imagem, mas em posições diferentes. Na parte superior da capa está escrito em azul escuro: “Trinta e cinco garotas e uma coroa”. Do meio da capa até a parte inferior há alguns elementos, são eles: um desenho de uma coroa em branco; o título do livro “A Seleção” em branco; o nome da autora “Kiera Cass” em branco e o logo em preto e branco da editora “Seguinte”." width="680" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-680x1024.jpg 680w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-532x800.jpg 532w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-768x1156.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-1021x1536.jpg 1021w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-1361x2048.jpg 1361w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-1200x1806.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1.jpg 1648w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28982" class="wp-caption-text">10 anos desde o seu lançamento, A Seleção continua na <a href="https://www.publishnews.com.br/ranking/anual/0/2021/20/0">lista anual</a> dos livros mais vendidos pelo Grupo Companhia das Letras (Foto: Seguinte)</figcaption></figure>
<p><b>Kiera Cass &#8211; A Seleção (363 páginas, Seguinte)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">America Singer é aquela menina diferente que nunca sonhou em ser princesa ou disputar o coração de um homem pela coroa, mas ela também é alguém que faria qualquer coisa para agradar a sua mãe, até mesmo se inscrever em um concurso ao lado de 34 garotas ambiciosas pela chance de se tornar a esposa de um futuro rei. Sem acreditar na possibilidade de ser escolhida como participante, a protagonista de </span><a href="https://capricho.abril.com.br/comportamento/blog-da-galera-8-questoes-atuais-e-relevantes-nos-livros-de-a-selecao/"><i><span style="font-weight: 400;">A Seleção</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> vive um dos melhores clichês da Literatura juvenil que, com a sagacidade de </span><a href="https://g1.globo.com/sao-paulo/bienal-do-livro/2014/noticia/2014/08/autora-do-best-seller-selecao-kiera-cass-anuncia-mais-dois-livros.html"><span style="font-weight: 400;">Kiera Cass</span></a><span style="font-weight: 400;">, impactou permanentemente uma </span><a href="https://br.vida-estilo.yahoo.com/dia-nacional-da-leitura-relembre-10-livros-que-marcaram-os-anos-2000-e-2010-144540650.html"><span style="font-weight: 400;">geração</span></a><span style="font-weight: 400;"> de leitoras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 2012, o livro completa 10 anos de ampla presença no mercado editorial, afinal, graças ao grande público, o feito de Cass se tornou uma </span><a href="https://muraldoslivros.com/ordem-dos-livros-a-selecao/"><span style="font-weight: 400;">saga</span></a><span style="font-weight: 400;"> composta por 9 livros e alguns contos, todos ambientados no mesmo contexto utópico pós-Quarta Guerra Mundial. Ainda que as obras sucessoras não tenham o mesmo mérito de seu original ou que a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wUZ71EMdHuk"><span style="font-weight: 400;">adaptação</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o audiovisual seja uma incógnita constante, uma coisa é certa: com </span><i><span style="font-weight: 400;">A Seleção</span></i><span style="font-weight: 400;">, histórias de princesa nunca foram tão populares e, depois dela, as trajetórias de jovens leitoras pela Literatura não foram mais as mesmas. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_28984" aria-describedby="caption-attachment-28984" style="width: 677px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28984 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-677x1024.jpg" alt="Capa do livro Meu coração &amp; outros buracos negros. Na imagem, um fundo branco guarda as palavras “Meu coração &amp; outros buracos negros”. As letras são grandes e estão grafadas em preto. No lugar do coração e da última letra “O” há as cores rosa, amarelo, laranja e azul para representar o buraco negro. Na parte inferior está o nome da autora em vermelho. No canto inferior direito está o nome da editora." width="677" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-677x1024.jpg 677w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-529x800.jpg 529w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-768x1162.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L.jpg 857w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28984" class="wp-caption-text">Falando sobre a depressão com empatia e delicadeza, Meu coração &amp; outros buracos negros mostra que pequenas coisas mudam caminhos inteiros (Foto: Rocco Jovens Leitores)</figcaption></figure>
<p><b>Jasmine Warga &#8211; Meu coração &amp; outros buracos negros: Uma faísca pode mudar tudo (312 páginas, Rocco)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Meu coração &amp; outros buracos negros</span></i><span style="font-weight: 400;"> conta a história de Aysel, uma adolescente de 17 anos que não consegue mais ver sentido na vida. Oprimida por um crime cometido pelo pai há anos, a personagem sente culpa e medo por um erro que não é seu. Encurralada por caminhos sem saída, a jovem vê no </span><a href="https://personaunesp.com.br/13-reasons-why-segunda-temporada/"><span style="font-weight: 400;">suícidio</span></a><span style="font-weight: 400;"> a resposta para todos os seus problemas. Na busca por um jeito de morrer, sua trajetória acaba sendo iluminada por sentimentos doces e uma nova perspectiva. Traduzido no Brasil por Petê Rissatti, a obra traz a tona tópicos sensíveis do cuidado com a saúde mental, enquanto deixa um rastro de esperança no coração dos leitores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É em um fórum de internet que Aysel encontra Ronan, e os dois definem uma data para cometerem o ato juntos: 7 de abril. A partir disso, a narrativa começa uma contagem regressiva em que os dois se encontram regularmente. Os encontros são marcados pelas confissões de Ronan e, para Aysel, ver um garoto bonito e popular com dores tão profundas quanto as dela é um impacto. Quando a personagem finalmente se sente confortável para expor seus fantasmas, os dois acabam em uma aventura para resolver histórias mal terminadas. O clichê dos protagonistas se apaixonando toma conta do enredo, mas mantém o foco nas transformações íntimas e essencialistas de cada um. Com um texto leve e sensível, o livro de </span><a href="https://lithub.com/jasmine-warga-the-relationship-between-language-and-her-hyphenated-identity/"><span style="font-weight: 400;">Jasmine Warga</span></a><span style="font-weight: 400;"> mostra que em volta de todo buraco negro existem milhares de estrelas brilhantes. </span><b>&#8211;</b> <b>Jamily Rigonatto</b></p>
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<figure id="attachment_28985" aria-describedby="caption-attachment-28985" style="width: 701px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28985 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-701x1024.jpg" alt="" width="701" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-701x1024.jpg 701w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-548x800.jpg 548w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-768x1121.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-1052x1536.jpg 1052w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-1403x2048.jpg 1403w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1.jpg 1618w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28985" class="wp-caption-text">O lugar foi um dos livros que lançou a autora, laureada pelo <a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/06/annie-ernaux-escritora-francesa-ganha-premio-nobel-de-literatura-2022.ghtml">Prêmio Nobel de Literatura</a> e presença confirmada na 20ª edição da <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/flip-traz-annie-ernaux-e-tem-maria-firmina-dos-reis-como-1a-homenageada-negra.shtml">Flip</a>, ao cânone literário francês</figcaption></figure>
<p><b>Annie Ernaux &#8211; O lugar (72 páginas, Fósforo)</b></p>
<p><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/autores/annie-ernaux/"><span style="font-weight: 400;">Annie Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem um compromisso visceral com a memória. Em um exercício que ressoa em sua prática de revisitação de arquivos em </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-anos-do-super-8-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Os Anos de Super 8</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> — </span></i><span style="font-weight: 400;">sua estréia enquanto co-diretora</span><i><span style="font-weight: 400;"> — </span></i><span style="font-weight: 400;">inaugurado nas telas brasileiras graças à </span><span style="font-weight: 400;">46ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo,</span> <span style="font-weight: 400;">o romance </span><i><span style="font-weight: 400;">O lugar </span></i><span style="font-weight: 400;">repassa fotografias, corrige-se e remonta-se diante do leitor em uma tentativa da autora de destrinchamento de uma relação após a sua morte de seu pai. Ernaux e seu estilo autosociobiográfico já passaram pelo </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-julho-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">radar do Persona</span></a><span style="font-weight: 400;">, no entanto, em </span><i><span style="font-weight: 400;">La Place — </span></i><span style="font-weight: 400;">título original do livro — tal estilística é intensificada na análise do abismo de classe que a separa do patriarca, um homem da classe operária francesa. Com seus parágrafos curtos, o texto é uma visualização não linear de diversas imagens que constituem um </span><i><span style="font-weight: 400;">supercut </span></i><span style="font-weight: 400;">literário de memórias e reflexões sobre os mundos que apenas alguns podem pertencer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na escolha por uma narração que se intercede o tempo inteiro no seu próprio contar, para se esclarecer de uma metodologia da qual utiliza — de imparcialidade e sem intromissão de nostalgia —, surge em um ímpeto não de inibir a emoção, como pode parecer. Mas sim de tentar ao máximo não contornar a verdade, e trazê-la com toda sua potência para tentar capturar o espaço vazio que assola as principais personagens, mesmo com a ação antagônica do esquecimento. No livro, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> discursa sobre a intersecção das relações de classe com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">esfera íntima</span></a><span style="font-weight: 400;">, psicológica e emocional; algo não comum diante de uma atual generalização de perspectivas macroscópicas no pensar dessas tensões. Em </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">O lugar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> reside uma brutal incomunicabilidade, onde a escrita se constrói enquanto uma prática de se dizer no silêncio, um não-diálogo entre dois mundos distantes em tortuosa tentativa de aproximação. </span><b>&#8211; Enzo Caramori</b></p>
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<figure id="attachment_28986" aria-describedby="caption-attachment-28986" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28986 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Manifesto: Sobre nunca desistir. O fundo da capa é uma pintura de Bernardine Evaristo, do peito para cima. Ela é uma mulher negra, aparentando cerca de 40 anos, com cabelos cacheados e vestindo uma camisa rosa e um casaco vinho. Na parte superior central, lemos as palavras &quot;da autora de garota, mulher, outras&quot; em uma fonte sem serifa, em caixa alta e em branco. Na parte inferior , ao centro, lemos &quot;MANIFESTO&quot; e &quot;SOBRE NUNCA DESISTIR&quot; na linha de baixo, ambas frases em caixa alta e em branco. Abaixo do título, lemos &quot;BERNARDINE&quot; e, na linha de baixo, &quot;EVARISTO&quot;, ambas palavras alinhadas à esquerda na capa, em caixa alta, em uma fonte sem serifa esverdeada. Alinhado ao canto inferior direito, vemos o logo da Companhia das Letras em branco." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-768x1151.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1.jpg 1500w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28986" class="wp-caption-text">Em 2019, Bernardine Evaristo se tornou a primeira mulher negra a vencer o Booker Prize, importante prêmio da Literatura a nível mundial (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Bernardine Evaristo &#8211; Manifesto: Sobre nunca desistir (232 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Bernardine Evaristo levou para casa o Prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">Booker</span></i><span style="font-weight: 400;"> em 2019, dividindo o troféu com Margaret Atwood, a vitória era mais do que sonhada: a escritora sempre desejou ganhar a honraria, mas nunca deixou seus trabalhos se </span><a href="https://br.noticias.yahoo.com/entenda-como-bernardine-evaristo-ganha-001300899.html?guccounter=1&amp;guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&amp;guce_referrer_sig=AQAAACyFQuZiQhxcv6m4bUUIGoGvgpLkkCaqEiKkM7X_c3hmHB45PpQjau18i2uD0a2QvkrmBFjIY7UsUvOnFXfMPHATaXpKDg8j4cy9ey2Ku5ahL-XsLh0aOEPC6a1JVjgA8jBPSGr-oN70JEOgUtj7HAZxFgn8tI8_ifskzrgNe1nW"><span style="font-weight: 400;">encaixarem em um molde</span></a><span style="font-weight: 400;"> apenas para fazê-lo. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Manifesto: Sobre nunca desistir</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 2022, a autora remonta sua trajetória da infância até se encaixar nos mais altos escalões da Literatura mundial, em um livro de memórias que mistura relatos pessoais e suas conclusões práticas, baseadas em suas vivências.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Filha de mãe inglesa e pai nigeriano, e vivendo em uma casa de classe média baixa em uma vizinhança branca na Inglaterra, Bernardine narra seu processo de amadurecimento, experienciando a vida apesar do racismo e do machismo, e refletindo sobre sua própria origem e identificação. Os sete capítulos de </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2022/09/09/%E2%80%98Manifesto%E2%80%99-a-trajet%C3%B3ria-de-uma-escritora-negra"><i><span style="font-weight: 400;">Manifesto</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">se dividem entre os temas que norteiam a trajetória da autora. Construindo pontes entre os tópicos que levanta, a responsável pelo elogiado </span><a href="http://personaunesp.com.br/garota-mulher-outras-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Garota, Mulher, Outras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> destrincha a história de sua família e infância, os lugares pelos quais passou e morou e “</span><i><span style="font-weight: 400;">as mulheres e os homens que vieram e se foram</span></i><span style="font-weight: 400;">”, em uma seção dedicada a explorar a descoberta da sexualidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Adiante, Evaristo adentra o terreno do seu próprio trabalho. Arte e política, sua própria Literatura não convencional e em constante transformação, educação e influências, </span><a href="https://brasil.elpais.com/babelia/2020-06-12/bernardine-evaristo-o-black-lives-matter-e-o-metoo-ja-mudaram-a-sociedade.html"><span style="font-weight: 400;">ativismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e seu Eu após os anos de caminhada fazem da obra um verdadeiro panorama de quem é e o que pensa uma das escritoras mais importantes da contemporaneidade. Com a tradução de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211616/manifesto"><span style="font-weight: 400;">Camila von Holdefer</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Manifesto: Sobre nunca desistir </span></i><span style="font-weight: 400;">oferece mais uma das camadas da linguagem da inglesa, que, tendo passado pela ficção e pela poesia, encontra solo fértil em suas memórias, tão reais quanto podem ser. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
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<figure id="attachment_28987" aria-describedby="caption-attachment-28987" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28987 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1-712x1024.jpg" alt="Capa do livro Fogo &amp; Sangue - Volume 1, do autor George R. R. Martin. A capa é laranja e mostra a ilustração de um grande dragão cinzento cuspindo fogo em um exército. Ao fundo, vemos a sombra vermelha de um castelo. Em letras brancas, no topo da capa está o nome do escritor, George R. R. Martin, e o nome do livro, Fogo &amp; Sangue. Em letras menores, no meio à esquerda, lemos “300 anos antes de A Guerra dos Tronos, dragões governavam Westeros”. No canto inferior direito, está o logo da editora Suma." width="712" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1-712x1024.jpg 712w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1-556x800.jpg 556w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1.jpg 751w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28987" class="wp-caption-text">A Dança dos Dragões, período coberto pela adaptação da HBO, é contada na íntegra no livro, ao longo de duzentas páginas recheadas de labaredas dos monstros voadores (Foto: Suma)</figcaption></figure>
<p><b>George R. R. Martin &#8211; Fogo &amp; Sangue &#8211; Volume 1 (664 páginas, Suma)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2018, pouco antes da adaptação televisiva de sua grande saga literária chegar ao fim, George R. R. Martin resolveu reeditar um material já publicado: a história da dinastia Targaryen. Antes reunida no enciclopédico </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mundo de Gelo e Fogo</span></i><span style="font-weight: 400;">, os pormenores do reinado dos valirianos, que durou duzentos anos, ganham roupagem mais encorpada em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sdRE-73Nb9M"><i><span style="font-weight: 400;">Fogo &amp; Sangue</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, livro que cobre a ascensão de Aegon, o Conquistador até o início do governo de Aegon III, Desgraça dos Dragões. Uma eventual continuação já está nos planos do escritor, dando seguimento aos anos históricos até a morte de Aerys II, o Rei Louco e a Rebelião de Robert, que dá o pontapé para </span><i><span style="font-weight: 400;">As Crônicas de Gelo e Fogo</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo adaptado pela </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;"> através do seriado </span><i><span style="font-weight: 400;">A Casa do Dragão</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">House of the Dragon</span></i><span style="font-weight: 400;">), o livro voltou à boca do povo, em especial pelas </span><a href="https://www.coxinhanerd.com.br/mudancas-livro-serie-fogoesangue/"><span style="font-weight: 400;">mudanças na produção</span></a><span style="font-weight: 400;"> para as telinhas. Acontece que, como bom compilado histórico, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fogo &amp; Sangue </span></i><span style="font-weight: 400;">é contado pela narração de uma quantidade pequena de fontes, longe do material denso que Martin despeja na </span><i><span style="font-weight: 400;">Guerra dos Tronos</span></i><span style="font-weight: 400;"> e seus capítulos em ponto de vista. Aqui, sob tradução de Leonardo Alves e Regiane Winarski, os acontecimentos são contados como numa apostila de História, sem a emoção e a garra de eventos memoráveis da saga mãe. Martin faz uso da impessoalidade para enriquecer sua vasta mitologia e, no caminho, brincar com os dragões que criou no passado que, na </span><a href="http://personaunesp.com.br/game-of-thrones-setima-temporada-critica/"><span style="font-weight: 400;">trama de Dany, Jon e Cersei</span></a><span style="font-weight: 400;">, não passam de lendas distantes. </span><b>&#8211; Vitor Evangelista</b></p>
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		<title>Persona Entrevista: Daniel Galera</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2022 20:33:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022 Bruno Andrade  No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-daniel-galera/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Daniel Galera"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"><i>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022</i></span></p>
<figure id="attachment_28717" aria-describedby="caption-attachment-28717" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28717" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg" alt="Arte quadrada de fundo vermelho. No lado esquerdo, foi adicionado o texto " width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28717" class="wp-caption-text">“Minha carreira de escritor não foi exatamente uma coisa planejada desde cedo”, diz Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho e Companhia das Letras/Arte: Henrique Marinhos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni virtualmente com </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://danielgalera.info/">Daniel Galera</a></span><span style="font-weight: 400;"> para bater um papo sobre sua trajetória literária e os 10 anos de lançamento de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;">, romance que ganha uma </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.amazon.com.br/Barba-ensopada-sangue-Edi%C3%A7%C3%A3o-especial/dp/6559211282/ref=tmm_hrd_swatch_0?_encoding=UTF8&amp;qid=1663270910&amp;sr=8-22">edição especial comemorativa</a></span><span style="font-weight: 400;"> com lançamento previsto para 4 de Novembro de 2022. Vencedor do Prêmio Machado de Assis, duas vezes 3º colocado no Prêmio Jabuti e já publicado na prestigiosa revista </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.theparisreview.org/blog/2021/12/22/the-god-of-ferns/">The Paris Review</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, Galera desponta como um dos grandes nomes da Literatura brasileira contemporânea, relacionado a uma “nova geração de escritores”, mesmo que “nova” já não seja bem a palavra que defina sua carreira. Escrevendo e publicando desde os anos 1990, o escritor paulistano radicado em Porto Alegre construiu um sólido percurso em torno da Literatura, e veio ao </span><b><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/">Persona Entrevista</a></b><span style="font-weight: 400;"> compartilhar suas experiências, visões de futuro e revelar mais sobre suas obras.</span></p>
<p><span id="more-28680"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535921878/barba-ensopada-de-sangue">Barba ensopada de sangue</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> narra a história de um protagonista sem nome – por vezes chamado de “nadador” –, um professor de Educação Física que, após o suicídio do pai, se muda para Garopaba, cidade litorânea de Santa Catarina. Esse personagem possui uma condição peculiar (porém existente além da ficção): não é capaz de memorizar rostos. Sob esse contexto, se esquece também de suas próprias feições, percebendo posteriormente que são similares à do seu avô, supostamente assassinado no passado, cujas circunstâncias do crime seguem obscurecidas. A verdade é que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba</i></span><span style="font-weight: 400;"> é um livro distinto, potente ao revelar as diversas situações e condições que se somam para constituir a identidade dos indivíduos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A edição comemorativa do romance foi uma sugestão que o próprio autor fez à </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sugeri que a editora fizesse uma edição especial, que sai em Setembro</i></span><span style="font-weight: 400;">”, revela Galera. O livro já está em </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211289/barba-ensopada-de-sangue-edicao-especial-de-10-anos">pré-venda</a></span><span style="font-weight: 400;"> no </span><span style="font-weight: 400;"><em>site</em></span><span style="font-weight: 400;"> da editora. Em Janeiro e Fevereiro o escritor ministrou um curso, promovido pela </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/rogerlerina/literatura/livraria-baleia-promove-oficinas-com-daniel-galera-e-marilia-f-kosby/">Livraria Baleia</a></span><span style="font-weight: 400;">, no qual revisitou a obra em uma espécie de leitura guiada junto à companhia do autor. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Também foi uma releitura minha – a primeira vez que eu próprio reli o livro inteiro assim, atentamente, desde a época da publicação</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foi uma forma de revisitar o livro e perceber o que ele significa pra mim dez anos depois, ver o que eu penso sobre ele e compartilhar essa leitura com o grupo de participantes que se inscreveu. É um ano de comemoração desses dez anos</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete. Após uma década, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue </i></span><span style="font-weight: 400;">segue como referência na Literatura brasileira pós virada do milênio.</span></p>
<figure id="attachment_28682" aria-describedby="caption-attachment-28682" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg" alt="Capa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem, há um fundo vermelho com pequenas manchas em cor branca, simulando fios de barba. À direita, está escrito “Barba ensopada de sangue” em fonte de cor branca. Abaixo, está o logo da editora Companhia das Letras, em fonte de cor branca, e à esquerda está escrito “Daniel Galera”, também em fonte de cor branca." width="686" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1029x1536.jpg 1029w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1200x1792.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS.jpg 1664w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28682" class="wp-caption-text">Barba ensopada de sangue foi eleito o Livro do Ano no Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Em 2022, <i>Barba ensopada de sangue</i> completa 10 anos de lançamento. Qual a importância dele na sua trajetória? Considera esse livro um marco na sua carreira?</b></p>
<p><b>Daniel Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sem dúvidas. Ele foi um marco no sentido de que foi meu livro mais bem recebido, desde o início. É o livro que mais vendeu, ganhou um prêmio importante, o </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/daniel-galera-e-o-grande-vencedor-do-premio-sao-paulo-de-literatura-2013/">Prêmio São Paulo de Literatura</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, em 2013, e foi um livro que também foi publicado no exterior muito rapidamente, traduzido para 15 idiomas… Então, sim, no contexto da carreira de qualquer autor, é um fenômeno. Foi de longe o livro mais bem sucedido e me colocou num outro patamar de reconhecimento. Até hoje, dez anos depois, é a obra mais comentada e mais lida. A que mais é referenciada quando as pessoas falam de mim, inclusive novos leitores. Continua vendendo aos pouquinhos, mas constantemente. O primeiro capítulo do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> saiu antes do livro ficar pronto, na revista </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://granta.com/">Granta</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, na edição dos </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2012/07/06/69286-granta-divulga-selecao-de-20-escritores-brasileiros#:~:text=S%C3%A3o%20eles%20(com%20os%20respectivos,na%20pra%C3%A7a%E2%80%9D)%2C%20Emilio%20Fraia">20 Melhores Jovens Escritores Brasileiros</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2012)</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que tem fãs, pessoas que gostam muito, que entram em contato às vezes em eventos literários ou pela </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>; sei que essas pessoas existem. Tem muita gente nova que começa a me ler por causa dele, porque é um livro que as pessoas indicam umas pras outras no boca a boca também. Já os livros que eu publiquei depois do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> vão em direções diferentes; não é que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span> <span style="font-weight: 400;">ensopada de sangue </span><span style="font-weight: 400;"><i>tenha marcado o meu trabalho no sentido de eu continuar escrevendo livros como ele. Os meus livros posteriores são diferentes. É um marco, mas também não sei se em termos de estilo, de escrita, ele estabeleça um ‘antes e depois’.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28683" aria-describedby="caption-attachment-28683" style="width: 1750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28683" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma jaqueta de frio com capuz, em cor preta. " width="1750" height="1750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg 1750w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1536x1536.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28683" class="wp-caption-text">Como tradutor, Daniel Galera já verteu para o português obras de <a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/">David Foster Wallace</a>, Simon Stalenhag e Chris Ware (Foto: Tonatiuh Ambrosetti/Fondation Jan Michalski)</figcaption></figure>
<p><b>Como surgiu a ideia para o enredo do <i>Barba</i>? A condição do protagonista, por exemplo, de não reconhecer rostos, me parece algo bastante singular, algo que torna as descrições dos ambientes muito relevantes na obra. Parece haver também uma certa influência do Cormac McCarthy.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Um romance como o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>, com a extensão que ele tem, com a quantidade de assuntos, temas e elementos que estão incluídos nele, sempre tem múltiplas origens e influências; dificilmente é uma coisa só. Nesse caso, tem algumas que podem ser destacadas como as mais importantes. Talvez a maior de todas seja o fato de que, em 2008, eu fui viver em Garopaba, e isso foi determinante. Me mudei pra lá e fui morar sozinho, assim como o protagonista do livro. Quando eu me mudei, já tinha alguns dos elementos que eu estava planejando incluir no próximo romance, mas ainda não estava formado.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i> </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Antes de me mudar pra lá, ainda em 2007, eu tinha lido um livro do neurocientista português António Damásio, chamado </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925906/o-misterio-da-consciencia">O mistério da consciência</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1999)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu pela </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Nesse livro, ele trata de casos de </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/entenda-o-que-e-a-cegueira-facial-ou-prosopagnosia-que-afeta-o-ator-brad-pitt/#:~:text=A%20prosopagnosia%20%C3%A9%20um%20dist%C3%BArbio,como%20focar%20em%20sua%20voz.">prosopagnosia</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que são indivíduos com uma lesão cerebral que, como resultado, não conseguem reconhecer ou gravar bem o rosto das outras pessoas e, às vezes, em casos muito severos, o próprio rosto. Eu fiquei fascinado com essa ideia. Guardei isso de um dia colocar como uma característica de algum personagem de livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ao mesmo tempo, antes de me mudar pra Garopaba, eu tinha começado a ler os livros do </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/apos-longo-hiato-cormac-mccarthy-publica-dois-romances-em-2022/">Cormac McCarthy</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, um escritor que fez muito a minha cabeça, fiquei realmente obcecado pela obra dele. Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro dele que eu li, mas foi ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556520463/todos-os-belos-cavalos">Todos os belos cavalos</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1992)</span><span style="font-weight: 400;"><i> ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788560281268/a-estrada">A estrada</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2006)</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Em Garopaba, li todos os livros dele – comprei todos em sebos e livrarias. A obra completa. O que não tinha em português, comprei em inglês. Foi uma influência muito forte, principalmente </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://open.spotify.com/episode/0dcQPLfu3FnNRyEYxukzMk?si=vePR85MDQuK0Ud0WzAST5A">A Travessia</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1994)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o segundo livro da </i></span><span style="font-weight: 400;">Trilogia da Fronteira</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://blogdoims.com.br/lost-in-translation-por-daniel-galera/">Suttree</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1979)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é um romance que não foi traduzido pro português e que, inclusive, </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://danielgalera.info/#traducoes">eu vou traduzir</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, mas no segundo semestre deste ano. Já estou em tratativas com uma editora. Esses livros foram bastante importantes também pra definir um pouco o estilo de narração do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> – o tipo de ambientação, de estilo narrativo e de linguagem. A obra do Cormac McCarthy influenciou bastante.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><figure id="attachment_28684" aria-describedby="caption-attachment-28684" style="width: 1257px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28684" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/The-Passenger-by-Cormac-McCarthy-cover.webp" alt="Foto colorida dos livros The Passenger e Stella Maris, respectivamente. Na primeira imagem vemos um céu laranja e, à borda, um rosto de criança em cor azul, com os olhos fechados. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito The Passenger. Na imagem seguinte, está em destaque o rosto em cor azul da criança, o mesmo da imagem anterior, enquanto à borda esquerda está um pedaço do céu laranja também da imagem anterior. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Stella Maris. " width="1257" height="900" /><figcaption id="caption-attachment-28684" class="wp-caption-text">Após 16 anos de hiato, Cormac McCarthy lançará em 2022 dois romances inéditos (<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521590/o-passageiro">O Passageiro</a> e <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521620/stella-maris">Stella Maris</a>), que chegarão às prateleiras brasileiras no final do ano pelo selo <a href="https://www.instagram.com/p/Ca40MAYtuCY/?igshid=YmMyMTA2M2Y=">Alfaguara</a>, do Grupo Companhia das Letras [Foto: Penguin Random House]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Um dos principais elementos que marcaram a concepção do romance – além das referências literárias e vivência do autor na cidade – foi o fato de que, embora tenha se mudado para Garopaba em 2008, Daniel Galera já conhecia o município como visitante. Seus pais, no período de juventude dos anos 1970, também frequentaram a região, e relataram experiências relacionadas às viagens. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Uma das histórias que eu me lembrava do meu pai ter falado foi que, uma vez, contaram a eles sobre uma figura da cidade que tinha causado problemas e assassinaram essa pessoa num baile dominical</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Galera.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A história diz que, com todos os habitantes da pequena cidade no baile, apagaram-se as luzes e esfaquearam o indivíduo; somente depois a iluminação foi restabelecida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Isso foi uma espécie de justiçamento da comunidade</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Daniel. Não é absurdo pensar que a aura mítica em torno do protagonista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhe forma além da ficção, embora a veracidade da narrativa se perca no emaranhado de meias-verdades que constituem todas as tramas da vida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>É uma história que contaram aos meus pais, e meu pai contou pra mim – nem dá pra saber se isso realmente aconteceu ou não, pode ser um causo sem fundamento. Mas o fato é que eu guardei essa história, e quando me mudei pra Garopaba eu me lembrei dela. Comecei a imaginar, se essa história fosse real, quem teria sido a pessoa que foi morta, e o motivo de terem matado</i></span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Daniel Galera responde perguntas dos leitores" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/w65nfdv6Nkk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Juntei todos esses elementos que eu te contei e começou a vir a história desse professor de Educação Física que se muda pra cidade depois que o pai dele se mata, só que antes o pai dele conta sobre a morte do avô, morto em circunstâncias misteriosas em Garopaba, nos anos 1960. Todo esse embrião do romance, da história propriamente dita, vem dessa combinação de coisas. Aí entra o Cormac McCarthy, como um elemento de estilo, entra a prosopagnosia como uma característica definidora desse protagonista, que afeta a história tanto no nível do enredo como no nível da linguagem, do estilo como a história é contada. Como tu falou, essa atenção quase excessiva mesmo pros detalhes tem a ver com a forma desse personagem enxergar o mundo, relacionada também com a prosopagnosia.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu voltei para Porto Alegre, no final de 2009, comecei de fato a escrever o livro. Eu escrevi só o primeiro capítulo lá em Garopaba – que foi o capítulo que saiu na revista </i></span><span style="font-weight: 400;">Granta</span><span style="font-weight: 400;"><i> –, o restante do romance eu escrevi já em Porto Alegre. O resto é junção de várias histórias, coisas que eu inventei e outros interesses como questões filosóficas sobre o determinismo; meu interesse, na época, pela filosofia da religião budista; meu interesse pela natação – esse aspecto do protagonista do livro, de ser apaixonado por nadar no oceano, é uma coisa minha. Eu sempre gostei muito de fazer isso, participava de travessias e tinha uma paixão por nadar no mar… Então, é um livro que, como uma esponja, absorve dúzias e dúzias de influências, leituras, relatos de coisas que eu ouvi falar, experiências pessoais. Um romance dessa magnitude – digo de extensão, complexidade – acaba pegando elementos dos mais variados tipos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28688" aria-describedby="caption-attachment-28688" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28688" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa de cor verde com botões pretos. O fundo da imagem é cinza." width="1400" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-597x800.jpeg 597w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-765x1024.jpeg 765w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-768x1029.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1147x1536.jpeg 1147w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1200x1607.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28688" class="wp-caption-text">“Os personagens não vêm assim de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos” (Foto: Suhrkamp Verlag/The Paris Review)</figcaption></figure>
<p><b><i>Barba ensopada de sangue </i>está sendo adaptado para o Cinema pelo diretor <a href="https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2022/08/barba-ensopada-de-sangue-livro-de-daniel-galera-vai-ganhar-adaptacao-para-o-cinema.ghtml">Aly Muritiba</a>. No filme mais recente dele, <a href="https://personaunesp.com.br/deserto-particular-critica/"><i>Deserto Particular</i></a>, chama atenção a existência de uma certa importância das paisagens, enquanto se mantém uma violência implícita, um fundo de mistério e um tom mítico que cerca a reconstrução de histórias comuns – características que eu consigo relacionar com o <i>Barba</i>. Queria que você comentasse um pouco sobre isso e essas relações.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu não vejo muita ligação entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o trabalho anterior do Muritiba num nível de tema, de enredo, necessariamente. Mas eu acho que tem outras ligações muito interessantes de se pensar. A maneira como ele trata os personagens, e a construção de espaço que ele faz nos filmes dele, eu acho que tem muito a ver com o que acontece no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>. É algo muito interessado nessa textura da vida real e numa psicologia dos personagens que não é maniqueísta, que não busca ninguém exatamente bom ou mau. As pessoas são complicadas, e tem aspectos iluminados e bacanas, mas aspectos também sombrios e, às vezes, desagradáveis. Ele é muito bom em construir personagens desse tipo e eu fiz muito esforço pra que no romance os personagens fossem assim.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O livro tem um protagonista que não é um cara legal, em todos os aspectos. Ele é muito estranho, complicado e às vezes uma pessoa que não necessariamente causa coisas boas aos outros. Acho que o Aly tem muita sensibilidade pra ver isso. E esse aspecto do romance que tem a ver com o retrato de um lugar e dos efeitos do progresso contemporâneo, das mudanças políticas e econômicas na vida de uma comunidade pequena, é uma coisa muito importante e eu acho que o Aly é muito bom também em olhar pra isso.” </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>“O que as pessoas fazem? Como elas vivem? À medida em que uma mudança ecológica, uma mudança política ou uma história do passado, uma superstição, afeta, de fato, o que as pessoas precisam fazer pra viver no seu dia a dia, pra tocar suas vidas. Eu acho que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> é muito feito dessas perguntas e desse olhar pra esses elementos da vida prática das pessoas, e acho que o Aly é muito bom nisso. Eu sou um grande fã do trabalho dele, então estou com expectativa de que ele vai produzir um ótimo filme.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28686" aria-describedby="caption-attachment-28686" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28686" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg" alt="Cena do filme Deserto Particular, do diretor Aly Muritiba. Na imagem, à direita, vemos um homem branco de costas, com uma faixa branca enrolada no braço direito, vestindo camiseta e calça de cor preta. Ele está num lugar que se parece com um deserto, repleto por terra, galhos e pequenos arbustos. O céu está acizentado, e ao longe é possível ver postes de luz e fios que os interligam." width="1024" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-800x449.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-768x431.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28686" class="wp-caption-text">Exibido na <a href="https://personaunesp.com.br/tag/45-mostra/">45ª Mostra</a> Internacional de Cinema em São Paulo, Deserto Particular foi a submissão do Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2021 (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Tem algum trecho do <i>Barba </i>que é o seu favorito? Ou alguma característica desse romance que, como autor e escritor, você considera mais importante?</b></p>
<p><b>Galera:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu certamente tenho vários trechinhos que eu gosto muito até hoje, mas lembro de dois que consigo compartilhar assim, no calor da hora. Um deles é toda sequência da caminhada do protagonista pelos morros, quando ele ouve falar que o avô dele pode talvez estar vivo, como um ermitão meio louco que é visto, às vezes, nos morros da região de Garopaba, e resolve sair caminhando pra ver se por acaso encontra o avô ou pelo menos pra se sentir um pouco na pele dele. Gosto de toda a sequência dessa caminhada, que é justamente no mês de outubro de 2008, período em que houve chuvas muito fortes na região de Santa Catarina. Ele faz a caminhada bem nessa época.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>E existe um parágrafo bem curtinho do livro, não sei dizer em que página, mas que comenta sobre as matilhas de cachorros de raça, cachorros grandes, que vivem soltas em Garopaba e ficam meio que circulando à noite, como cachorros meio espectrais. É só um parágrafo curtinho e é baseado um pouco em uma coisa real também. Muitos desses cachorros grandes, de raça, estão abandonados naquela região, e deve ser uma coisa que acontece em muitas praias e locais de férias. As pessoas levam cachorros pras férias e, às vezes, aproveitam pra se livrar deles, quando não aguentam mais cuidar. Fazem a crueldade de simplesmente deixar o cachorro e ir embora.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O resultado disso é que a gente vê </i></span><span style="font-weight: 400;">rottweilers </span><span style="font-weight: 400;"><i>e pastores alemães transformados nesses cachorros meio magros, andando em matilhas. É um parágrafo só, que quem ler o livro ou procurar talvez encontre, mas é um trecho curtinho que me chamou atenção, e tem vários outros. Gosto da maioria das partes do livro. Eu mudaria algumas coisinhas pequenas, se eu fosse escrever ele hoje, mas não muito. Sou muito feliz com o resultado dele.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28687" aria-describedby="caption-attachment-28687" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28687" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg" alt="Capa da edição inglesa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem colorida, está escrito Blood drenched beard, a novel, de forma centralizada. Blood e Beard estão escritos em cor preta, e Drenched e A novel em cor vermelha. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Daniel Galera em fonte de cor branca. À direita, está o logo da editora Penguin Books, que consiste em um penguim branco e preto dentro de uma forma oval em cor laranja. O fundo da imagem é um borrão de cores cinza, azul e sépia. " width="668" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg 668w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-522x800.jpg 522w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-768x1178.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1001x1536.jpg 1001w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1335x2048.jpg 1335w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1200x1841.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L.jpg 1650w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28687" class="wp-caption-text">A edição em inglês de Barba ensopada de sangue foi saudada pelo jornal <a href="https://www.nytimes.com/2015/01/20/arts/daniel-galeras-blood-drenched-beard.html">The New York Times</a> (Foto: Penguin Books)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As incursões literárias de Daniel Galera se iniciaram ainda nos anos 1990, como editor e colunista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines</i></span><span style="font-weight: 400;"> literários. Ele se formou em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – não porque se interessava em propaganda, mas porque, à época, era o curso que concentrava as pessoas interessadas em “</span><span style="font-weight: 400;"><i>trabalhar com Cinema, com Artes Visuais, com Design, e acabavam indo parar no curso de Publicidade porque havia menos cursos especializados nessas áreas mais artísticas ou técnicas</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Interessado em computação, o autor acreditava que seria </span><span style="font-weight: 400;"><i>web designer</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu mexia com computador, sabia usar programas de </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> gráfico, de programação de </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>, achava que seria o que na época se chamava </i></span><span style="font-weight: 400;">web designer</span><span style="font-weight: 400;"><i>, ou que trabalharia com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> de produto ou com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> visual. Era isso que eu achava que iria fazer quando prestei vestibular</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas foi durante o período universitário que Galera começou a lapidar seu interesse pela Literatura. Ainda na graduação, uma disciplina chamada “Criação em Língua Portuguesa” foi, na prática, uma oficina literária dada pelos professores de Letras. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Me interessei imediatamente por escrever ficção – até pra conseguir os créditos, inicialmente, mas porque era uma coisa que eu gostava. Acho que foi ali que, conhecendo esses professores e conhecendo outros alunos da faculdade que também estavam interessados por escrever ficção – mas sobretudo escrevendo e mostrando os meus textos pra colegas e professores –, percebi que achava que tinha uma vocação e um interesse muito grande em escrever Literatura</i></span><span style="font-weight: 400;">”, conta o autor.</span></p>
<div class="tumblr-post" data-href="https://embed.tumblr.com/embed/post/t:woNz66R949rnURLENv3ruQ/666662303877496832/v2" data-did="8996aefe2a1826db5133ad43955c266792b43f9b"  ><a href="https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas">https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas</a></div>
<p><script async src="https://assets.tumblr.com/post.js?_v=38df9a6ca7436e6ca1b851b0543b9f51"></script></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meados de 1997 – momento de popularização da </span><span style="font-weight: 400;"><i>internet</i></span><span style="font-weight: 400;"> no Brasil –, Daniel Galera começou efetivamente a participar como colaborador e editor de uma série de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines </i></span><span style="font-weight: 400;">eletrônicos e revistas digitais. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“Teve uma que eu editei, chamada </i></span><span style="font-weight: 400;">Proa da Palavra</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que era só de Literatura. Pra mim, a escrita veio junto com essa prática de publicar os outros e se auto-publicar na </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>”</i></span><span style="font-weight: 400;">, compartilha Galera. Então, em parceria com colegas de faculdade, criou o </span><span style="font-weight: 400;"><i>mail-zine </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="http://cabrapreta.org/COL/">CardosOnline</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(COL), que foi um pequeno fenômeno. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“O </i></span><span style="font-weight: 400;">CardosOnline</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi famoso na época, a gente tinha milhares de assinantes no Brasil inteiro e isso me deu um público inicial. Tinha um pessoal que acompanhava esse </i></span><span style="font-weight: 400;">fanzine</span><span style="font-weight: 400;"><i> e acompanhava o meu trabalho desde o início. Foi um incentivo grande”.</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pouco tempo depois, em 2001, em parceria com Guilherme Pilla e com o também escritor </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535922899/digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendido">Daniel Pellizzari</a></span><span style="font-weight: 400;">, Galera criou a editora </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/37422">Livros do Mal</a></i></span><span style="font-weight: 400;">. A ideia era publicar em livro “</span><span style="font-weight: 400;"><i>alguns autores dessa nova geração que estavam surgindo na época</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Além de publicar nomes como </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://todavialivros.com.br/livros/o-riso-dos-ratos">Joca Reiners Terron</a></span><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/paulo-scott-e-indicado-ao-international-booker-prize-por-marrom-e-amarelo.shtml">Paulo Scott</a></span><span style="font-weight: 400;">, os seus primeiros livros também saíram pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Livros do Mal</i></span><span style="font-weight: 400;">: a estreante coleção de contos </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-tobias-carvalho/">Dentes Guardados</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2001) e o romance </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535909876/ate-o-dia-em-que-o-cao-morreu">Até o Dia em que o Cão Morreu</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2003), que foi posteriormente relançado pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;"> e adaptado para o Cinema. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foram livros que eu publiquei de maneira independente; minha carreira começou assim. Não foi planejado, foi acontecendo organicamente. Vários caminhos e encontros que me fizeram perceber que era isso que eu queria fazer. Senti que eu tinha talento pra isso e comecei a vislumbrar que era uma profissão também</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<figure id="attachment_28685" aria-describedby="caption-attachment-28685" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28685" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-1024x1024.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera, com as duas mãos no bolso de trás de sua calça. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa xadrez em cores rosa e branco. Ao fundo vemos diversas plantas de cor verde espalhadas em vasos. " width="840" height="840" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28685" class="wp-caption-text">“A Literatura é uma coisa da minha vida. Um gosto, um hobby, uma coisa muito importante”, compartilha Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho)</figcaption></figure>
<p><b>Como funciona o seu processo de escrita?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Em geral, envolve um período bastante longo em que eu fico só pensando e tomando notas esporádicas dos assuntos que eu acho que podem virar ficção, um período muito longo de pensar no que escrever. Isso envolve, claro, um pouco de pesquisa, procurar leituras que tenham a ver com assuntos ou com estilos que estão me interessando, mas envolve, também, dar um tempo pra imaginação ficar gestando histórias e personagens. Os personagens não vêm de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu começo a escrever, em geral, já sei bastante bem o que eu quero fazer. A escrita do livro em si não costuma ser muito demorada, eu levo em torno de um ano pra fazer um romance. É o período que envolve escrever bastante mesmo, diariamente, e fazer bastante pesquisa que ainda não foi feita, ler muita coisa. Conversar com pessoas, visitar lugares. A gente precisa de subsídios pra aprender sobre um tema ou vivenciar algumas coisas que vão ser úteis pro processo criativo e pra composição da trama.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Digamos que, entre um livro e outro, tem um tempo médio de três, quatro anos, dos quais metade, pelo menos, eu não estou trabalhando no manuscrito, estou procurando a minha história por meio de exercício de imaginação, de anotações, de leitura, de pesquisa. É o momento que eu me encontro agora, por exemplo. Eu publiquei meu último livro </i></span><span style="font-weight: 400;">[O Deus das Avencas] </span><span style="font-weight: 400;"><i>em junho do ano passado. Desde então, não escrevi quase nada, mas estou no processo de procurar o meu próximo trabalho. Estou sempre pensando na direção de um próximo romance ou de um próximo conjunto de histórias.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28689" aria-describedby="caption-attachment-28689" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28689" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg" alt="Foto em preto e branco da escritora Hilda Hilst. Na imagem, Hilda está inclinada em uma mesa, olhando para a câmera e segurando na mão direita um cigarro aceso. Ela veste uma camisa social branca e uma calça preta. Possui cabelos loiros. Ao fundo, há uma parede branca com quadros acizentados, além de uma estante com livros." width="1200" height="801" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-800x534.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-1024x684.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-768x513.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28689" class="wp-caption-text">Daniel Galera elenca Hilda Hilst como uma de suas principais referências literárias (Foto: Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><b>Você tem um livro brasileiro favorito?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Não acho que seja possível responder isso categoricamente, mas eu sou muito fã da obra da </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535930863/da-prosa">Hilda Hilst</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>. Talvez os livros de ficção dela – seus textos de ficção em prosa – estejam entre as minhas coisas favoritas escritas por uma autora ou um autor brasileiro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>A </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>, recentemente, editou a </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535928853/da-poesia">obra completa</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i> dela, em dois volumes: um de poesia e um de prosa; são duas caixas, na verdade, com dois volumes. E talvez seja o meu livro favorito. Se eu tivesse que escolher um só pra poder reler no futuro, acho que seria esse </i></span><span style="font-weight: 400;">[com toda a prosa dela]</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Já reli várias vezes os textos dela, inclusive essa edição nova tem um posfácio meu. Só me dei conta disso agora, mas fica mais um motivo aí pra quem se interessar.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><b><i><a href="https://repositorio.unesp.br/handle/11449/103698">Fluxo-floema</a></i></b> <b>foi uma das coisas que fizeram a minha cabeça como leitor também. </b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ah, foi? Então tu conhece bem do que eu estou falando. Eu sou apaixonado por esses livros de prosa dela. Já reli muitas e muitas vezes e nunca perde a força. Então, se a gente entender o livro favorito da Literatura brasileira como ‘se fosse obrigado a guardar só um pra poder reler no futuro’, se ficar dessa maneira, eu colocaria a prosa reunida da Hilda Hilst como esse livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28690" aria-describedby="caption-attachment-28690" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28690" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro o deus das avencas, de Daniel Galera. Na imagem colorida vemos uma arte abstrata, em cores rosa, verde, cinza, branco e roxo, que se assemelha a uma flor. À direta, está escrito em fonte de cor branca, Daniel Galera, o deus das avencas. Acima está o logo da editora companhia das letras, também em cor branca." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28690" class="wp-caption-text">“Eu fui sentindo como o realismo acabou se revelando pra mim apenas mais um gênero, apenas mais uma convenção narrativa”, diz Daniel Galera (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Fazendo um paralelo entre seu último livro e o <i>Barba ensopada de sangue</i>, parece que já havia no <i>Barba </i>uma noção de um futuro perdido, algo que paira sobre a vida do protagonista, mesmo que por razões diferentes daquelas presentes no <em>Deus das Avencas</em>. No <em>Barba</em>, parece estar presente de forma mais subjetiva, enquanto no <i>Deus</i> parece surgir, principalmente, através das condições climáticas e políticas. Você consegue enxergar essa ligação? Se sim, como você lida, nos seus escritos, com essa sensação de “<a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/fantasmas-da-minha-vida-escritos-sobre-depressao-assombrologia-e-futuros-perdidos/">futuro perdido</a>”, algo que parece ser um horizonte mas que, no capitalismo, nunca se concretiza?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sim, eu acho que dá pra enxergar uma progressão, inclusive colocando nessa progressão o romance que está entre </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>: o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535927979/meia-noite-e-vinte">Meia-noite e vinte</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu entre um e outro, em 2016. O </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi concebido pra ser algo mais atemporal, digamos assim. Ele almeja ter uma estrutura e uma concepção um pouco mítica, uma história que representa um tipo de relação humana ou de experiência da condição humana que seria atemporal, uma coisa que viria pra qualquer época – questões de família, de heroísmo, de formação de identidade, de condição humana em geral. Embora se passe num lugar muito específico, numa época muito específica – e seja um romance, em grande medida, realista –, ele busca ter esse efeito. No entanto, se a gente lê com atenção, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> tem vários elementos ali sobre política, economia e, sobretudo, questões ambientais e ecológicas, que surgem como elementos de ambientação e de construção de espaço, de cenário.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que narra, por exemplo, como os pescadores artesanais estão perdendo o seu trabalho pra pesca industrial, e todas as consequências disso pra vida deles e pra economia da cidade. Ele narra como pessoas muito ricas, principalmente, acabam invadindo e ocupando lugares da região que deveriam ser preservados por lei, construindo na cidade e impondo uma urbanização ilegal e esteticamente terrível, e a forma como isso afeta a vida da região. Tem esses elementos ali no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e enquanto eu escrevia esse romance não pensava num livro que fosse sobre esses assuntos, mas eram assuntos importantes pra aquele lugar, naquela época, então eles acabam aparecendo.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Olhando pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é o romance seguinte, que saiu quatro anos depois, já é um livro em que essa questão do fim do mundo e das catástrofes políticas e ecológicas se coloca de uma maneira muito violenta. Ele é um livro sobre isso, sobre como a sensação de que esse mundo construído pelo progresso, pela modernidade, está ruindo no novo milênio, e como isso afeta as expectativas de vida de um grupo de quatro pessoas que eram jovens na virada do milênio e agora são adultos com família, profissão e carreira estabelecida, mas que, assim como todas as expectativas e os sonhos deles pro futuro, estão sendo destruídas pelo rumo político, econômico e cultural da civilização. Então, sim, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i> já é um livro sobre esse tema, das crises contemporâneas e da destruição das noções conhecidas do futuro. Ou da substituição por outras outras visões de futuro que eram muito novas e um pouco ameaçadoras.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28691" aria-describedby="caption-attachment-28691" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28691" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Meia-noite e vinte, de Daniel Galera. Na imagem colorida, vemos um fundo borrado, em cor azul, cinza e branco. À direita, escrito em forma de pontilhado e em cor vermelha, está escrito daniel galera. Abaixo, em fonte de cor branca, está escrito Autor de Barba ensopada de sangue, seguido por Meia-noite e vinte. Mais abaixo, à direita, está o logo da editora Companhia das Letras em cor cinza." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28691" class="wp-caption-text">Meia-noite e vinte retrata com maestria a geração que cresceu nos anos 1990 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Desse romance, eu depois fui pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, publicado cinco anos depois, que é essa reunião de três novelas em que a ideia de fim do mundo e as catástrofes contemporâneas são levadas a um outro patamar, mais especulativo – ou seja, já projetando pra um futuro próximo e também não próximo, um futuro distante, no caso da terceira novela, </i></span><span style="font-weight: 400;">Bugônia</span><span style="font-weight: 400;"><i>. São possíveis desenlaces das crises do presente, ou pelo menos situações ficcionais que tentam elaborar o significado das crises do presente por meio de uma imaginação mais fantasiosa, situada num futuro distante.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Se a gente observar, tem uma progressão um pouco coerente entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte </span><span style="font-weight: 400;"><i>e </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Acho que são saltos bem longos entre um livro e outro, na abordagem desse tema das crises contemporâneas e da crise do futuro. Não foi planejada dessa forma, claro. É uma coisa que eu só consigo perceber também como tu e como outros leitores ao olhar pra trás, mas sem dúvida se vê nesses três livros o despertar do meu interesse e da minha preocupação com esses assuntos, e depois o agravamento e a elaboração cada vez mais complexa, em termos de experiência e também de conceito dessas questões, pra mim, e como isso foi se transformando em ficção ao longo desses anos.”</i></span></p>
<p><figure id="attachment_28697" aria-describedby="caption-attachment-28697" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg" alt="Fotografia colorida do rompimento da barragem em Brumadinho. Na imagem, retirada de cima, é possível ver uma área repleta por lama de cor marrom. Ao fundo, é possível ver uma enorme área verde. " width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28697" class="wp-caption-text">O rompimento da barragem em Brumadinho (MG), controlada pela empresa Vale – antiga Vale do Rio Doce –, caracterizou o maior acidente de trabalho na História do Brasil, e um dos maiores desastres ambientais do país [Foto: Vinícius Mendonça/Ibama]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Poucos meses depois do rompimento da </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://oeco.org.br/noticias/rompimento-da-barragem-de-brumadinho-e-a-primeira-grande-tragedia-ambiental-do-ano/">barragem em Brumadinho</a></span><span style="font-weight: 400;">, que ocorreu em janeiro de 2019, Daniel Galera teve publicado na revista </span><span style="font-weight: 400;"><i>Serrote </i></span><span style="font-weight: 400;">o ensaio </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.revistaserrote.com.br/2019/10/ondas-catastroficas-por-daniel-galera/">Ondas catastróficas</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, no qual reflete sobre a dificuldade de manter a narração realista em meio às influências das imagens de catástrofe veiculadas diariamente. No texto, o autor analisa o lugar desse “realismo” na Literatura contemporânea. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu acho que o tipo de excesso e de fenômeno complexo que a gente está vivenciando no presente – em escalas globais, planetárias e universais – acaba revelando o quanto aquilo que a gente entende como ‘realismo’ sempre foi uma convenção narrativa também. A realidade mesmo se tornou muito inapreensível, mesmo com as técnicas do realismo. Parece que tudo escapa às convenções do realismo</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhou forma como um resultado dessas reflexões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso pensar que, no mundo frenético e absurdo da contemporaneidade – em que a realidade vem competindo de igual para igual com as </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/09/11/imbrochavel-new-york-times-incorpora-o-vocabulario-do-governo-bolsonaro.htm">distopias</a></span><span style="font-weight: 400;"> e a ficção especulativa –, a noção de realismo seja colocada em xeque, devido a uma imposição quase silenciosa das interações sociais por meio da tecnologia. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>A gente vive num tempo que, pelas características culturais, tecnológicas – a própria textura do dia a dia, mediado pelas tecnologias digitais –, tudo nos força a reformular um pouco o que merece ser narrado e como merece ser narrado. Porque algumas coisas se tornaram simplesmente redundantes ou sem sentido. As comunicações pessoais, por exemplo, hoje são feitas quase estritamente por meio de </i></span><span style="font-weight: 400;">WhatsApp</span><span style="font-weight: 400;"><i>, de celulares, de computadores, de telas… Como é que a gente narra isso? Como é que a gente escreve realisticamente sobre isso?</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete o escritor.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“Às vezes a fantasia, a ficção científica, o horror, nos dão uma textura e um tipo de emoção e de experiência estética que captura com mais potência a experiência de viver neste presente.”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse realismo – para além das convenções de escrita e de gênero literário – encontra ressonâncias no que </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://jacobin.com.br/2020/01/o-legado-anticapitalista-de-mark-fisher/">Mark Fisher</a></span><span style="font-weight: 400;"> chamou de “</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/">realismo capitalista</a></span><span style="font-weight: 400;">”, em sua obra homônima de 2009 na qual reflete que, sob a nova roupagem neoliberal do sistema econômico, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É sob essa perspectiva que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Tóquio</i></span><span style="font-weight: 400;">, segunda novela da coletânea </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;">, parece ganhar espaço, pois em meio às crises ambientais retratadas na trama, os indivíduos buscam uma transcendência do corpo (nesse aspecto, as similaridades com </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535929843/zero-k-romance">Zero K</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> [2016], de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.terra.com.br/diversao/cinema/ruido-branco-abre-festival-de-cinema-de-veneza-com-satira-a-cultura-americana,1606d970759ddd8dfcec6c3b7b095006f6vywbup.html">Don DeLillo</a></span><span style="font-weight: 400;">, também se mostram visíveis). O interessante é perceber que, mesmo retratando histórias sobre fins – de um possível bem-estar social a um mundo pós-apocalíptico –, Daniel Galera jamais recorre a clichês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A novela que dá título à coletânea, embora em um formato mais realista – que contempla o aspecto do trabalho anterior do autor –, foge de qualquer percepção alienada da realidade dos protagonistas Lucas e Manuela, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Por fim, as reflexões sobre a representação não devem se encerrar no novo formato explorado pelo escritor: “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Depois de </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, estou num impasse, porque eu não sei se dobro a aposta nesse caminho ou se eu vou pra algum lugar inteiramente novo, que não trabalhei ainda</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bate-papo sobre o livro “O deus das avencas”, com Daniel Galera e Sidarta Ribeiro" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/gYZ1X0qANwA?start=2009&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>No palimpsesto de Elvira Vigna, eles não conhecem Courbet</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jul 2022 15:02:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori &#8220;Nenhuma de nós de fato com uma existência separada. Só traços sobrepostos, confusos, não claros. Como se estivéssemos, todas nós, num palimpsesto.&#8221; Em uma sala, num outro universo que não é, naquele momento, o Rio de Janeiro que estardalhaça do lado de fora, ela está furiosa. Em silêncio, mas nunca quieta. Cautelosamente desajeitada. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/como-se-estivessemos-em-palimpsesto-de-putas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "No palimpsesto de Elvira Vigna, eles não conhecem Courbet"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28137" aria-describedby="caption-attachment-28137" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS.png" class="size-full wp-image-28137" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS-768x404.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28137" class="wp-caption-text">O livro Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, leitura do Clube do Livro do Persona em Maio, publicado pela editora Companhia das Letras, não é sobre garotas de programa, mas sim sobre relações interpessoais e suas tensões (Foto: Companhia das Letras/ Arte: Bruno Alvarenga)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<blockquote><p>&#8220;Nenhuma de nós de fato com uma existência separada. Só traços sobrepostos, confusos, não claros. Como se estivéssemos, todas nós, num palimpsesto.&#8221;</p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">Em uma sala, num outro universo que não é, naquele momento, o Rio de Janeiro que estardalhaça do lado de fora, ela está furiosa. Em silêncio, mas nunca quieta. Cautelosamente desajeitada. Uísque caubói, também raivoso, em um copo plástico. Escuta um homem, que nem conhece direito, narrar seus encontros com putas. Mulheres sem nomes</span><span style="font-weight: 400">, pois são tantas que, no fim, se juntam até se tornarem um único ser com várias cabeças e braços. Rasura. Na verdade, são as estórias que se juntam incessantemente até formarem, gota a gota, gigantes estruturas, como aquelas pedras, em cavernas. Gota a gota. Rígidas. Estalagmites. Que prendem, nos espaços vazios e ocos, o que realmente se quer dizer. E não foi dito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">E é isso – o que não foi dito –&nbsp; que mais pulsa na escrita visceral de Elvira Vigna no brutal </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535927399/como-se-estivessemos-em-palimpsesto-de-putas">Como se estivéssemos em palimpsesto de putas</a></i></span><span style="font-weight: 400"> (2016), um de seus últimos livros publicados </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/muito-a-dizer/">em vida</a></span><span style="font-weight: 400">. Em uma crueza avassaladora, que partilha de um humor </span><span style="font-weight: 400"><i>blasé</i></span><span style="font-weight: 400"> e de uma catártica raiva feminina, a</span><span style="font-weight: 400"> autora não traz suas discussões necessariamente na superfície de seu enredo e no desenrolar de suas personagens, mas sim em uma psicologia que está atrás dos eventos narrativos – localizada no que realmente move os acontecimentos – </span><span style="font-weight: 400">criando uma </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/01/1853553-elvira-vigna-rasga-ferocidade-em-romance.shtml">dualidade</a></span><span style="font-weight: 400"> acerca do que se diz mas, não necessariamente, é o que </span><span style="font-weight: 400"><i>quer</i></span><span style="font-weight: 400"> ser dito. Nessa narrativa, a única verdade está naquilo que é engolido pela língua e reside no escuro. Na ausência. No negativo.</span></p>
<p><span id="more-28106"></span></p>
<figure id="attachment_28107" aria-describedby="caption-attachment-28107" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-scaled.jpg" class="size-full wp-image-28107" alt="foto em preto e branco. A escritora Elvira Vigna, vestindo uma jaqueta escura, um colete preto e uma camisa branca, posa quase que em perfil, com a cabeça levemente levantada para o canto superior esquerdo. Seus cabelos, grisalhos, estão soltos" width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28107" class="wp-caption-text">A incômoda e gutural escrita da autora se envereda em uma narrativa de embates entre as tensões da insurgência da emancipação feminina com a misoginia das tradições masculinas (Foto: Todavia)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400">Tradutora, artista plástica, escritora e jornalista, Elvira Vigna prova-se, em um rápido olhar biográfico, uma transeunte entre as mais diversas maneiras de construção da expressão. </span><span style="font-weight: 400">Formada em Literatura pela Universidade de Nancy, na França, e mestre em Teoria da Significação pela</span><span style="font-weight: 400"> Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a carioca é vencedora, por sua </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://eraoutravez.blogfolha.uol.com.br/2018/12/15/livros-infantis-mostram-a-literatura-transgressora-de-elvira-vigna/">Literatura infantojuvenil</a></span><span style="font-weight: 400">, do Prêmio Jabuti e, por seus romances, do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, e do </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.itaucultural.org.br/conheca-os-vencedores-do-oceanos-premio-de-literatura-em-lingua-portuguesa#:~:text=O%20primeiro%20colocado,artista%20Regina%20Silveira.">prêmio Oceanos</a></span><span style="font-weight: 400">. Em sua releitura dos contos de Franz Kafka, ilustrada por seus próprios desenhos e destinada ao público jovem, teve publicado postumamente </span><span style="font-weight: 400"><i>Kafkianas </i></span><span style="font-weight: 400">(2018)</span><span style="font-weight: 400"><i>, </i></span><span style="font-weight: 400">que levou o prêmio da Biblioteca Nacional, em 2019.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">&#8220;Eu não penso em impactos. Eu faço uma linha.&#8221;</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">Em sua </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Um-Escritor-na-Biblioteca-Elvira-Vigna#:~:text=Prefiro%20romances.%20N%C3%A3o,fa%C3%A7o%20uma%20linha.">prosa de fôlego</a></span><span style="font-weight: 400">, a autora abandona o romance convencional com um fluxo de escrita que, nesse livro, beira o que seria uma epopeia com ecos </span><span style="font-weight: 400"><i>beckettianos</i></span><span style="font-weight: 400">, negando uma temporalidade única de eventos. Com uma estrutura </span><span style="font-weight: 400">anárquica, em que os parágrafos são desmembrados em uma leitura crua e cheia de contrastes, o leitor vai se deparar, no primeiro momento, com algo que parece mais um amontoado de mantras, com frases desprovidas de pleno sentido e que flutuam nos blocos do texto. T</span><span style="font-weight: 400">udo em seu universo literário deve se misturar para uma compreensão de suas longas significações, que exigem um papel ativo de montagem de quem as lê. Não se esmiúça a Literatura de Vigna, só é possível entendê-la por suas totalidades.</span></p>
<p><figure id="attachment_28108" aria-describedby="caption-attachment-28108" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3-1.jpg" class="wp-image-28108" alt="a escritora Elvira Vigna olha, em um retrato em preto e branco, à câmera. Com os cabelos soltos, um pouco acima da altura dos ombros, ela usa um vestido preto de gola aberta." width="800" height="1146"><figcaption id="caption-attachment-28108" class="wp-caption-text">Nas histórias de Elvira Vigna, como afirmado pela própria, ‘‘(&#8230;) tudo é real. Eu não invento uma vírgula’’ [Foto: Renato Parada]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400">Nesse texto, essa é uma linha que tece inúmeros enfrentamentos que, em suas tramas, vão deixando espaços vazios, os quais justamente fazem a narradora construir essa estória. Nos ares do que se pensa ser o fim dos anos 80 e início da década de 90, ela, sem nome, é uma </span><span style="font-weight: 400"><i>designer</i></span><span style="font-weight: 400"> desempregada que se encontra, em um prédio de uma </span><span style="font-weight: 400"><a href="http://elvira.vigna.com.br/vigna-e-as-vaginas-alienigenas/#:~:text=Elvira%20Vigna%20(2011,neg%C3%B3cios%20da%20editora%3A">editora beirando a falência</a></span><span style="font-weight: 400">, com João, </span><span style="font-weight: 400">um ex-funcionário da Xerox </span><span style="font-weight: 400">responsável pela informatização dos sistemas da empresa. Nesses encontros, ele discorre, no que quase são confissões, atravessadas por diversas digressões, sobre seus encontros com prostitutas, enquanto, no silêncio, o qual sua ouvinte mais se fixa, lida com a separação de sua mulher, Lola. No entanto, o que move esse homem a contar essas histórias é um mistério.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Talvez, em primeiro lugar, o reconhecimento, na aparência da narradora, de uma falta de feminilidade que seria cúmplice de sua </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/acida-e-sulfurica/">masculinidade exibicionista</a></span><span style="font-weight: 400"> e de seu orgulho em contornar o que, no sexo com prostitutas, seria uma simples relação de trabalho, algo </span><span style="font-weight: 400"><i>significativo. </i></span><span style="font-weight: 400">Mas, na monotonia desses falatórios, a narradora, entediada, dá largada a um jogo de preencher as lacunas dessas histórias com as mais mirabolantes teorias que, nunca realmente expostas para João, são uma maneira silenciosa, compartilhada apenas com o leitor, de contestação e de, essencialmente, tirar o sarro. Nessa ironia, tudo que ela pretende é desmobilizá-lo enquanto sujeito que controla a narrativa desses encontros e desses mundos.</span></p>
<figure id="attachment_28109" aria-describedby="caption-attachment-28109" style="width: 583px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem4.jpg" class="size-full wp-image-28109" alt="um desenho em preto e branco, retratando uma pessoa, com uma toalha amarrada na cintura, olhando, pela janela, uma cidade, com seus prédios" width="583" height="838" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem4.jpg 583w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem4-557x800.jpg 557w" sizes="auto, (max-width: 583px) 85vw, 583px" /><figcaption id="caption-attachment-28109" class="wp-caption-text">A corporeidade, o estranho e o avesso atravessam a expressão de Vigna mesmo em seus desenhos, como nas ilustrações de Kafkianas (Foto: Elvira Vigna)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400">Lola, Mariana, Lurien. As outras personagens que a </span><span style="font-weight: 400"><i>designer</i></span><span style="font-weight: 400"> posiciona em seu entendimento logo são tiradas de uma planicidade para serem preenchidas de humanidade. Desde a desorganização da figura submissa de Lola até quando presencia o desmontar íntimo e brutal de Mariana, sua colega de quarto e trabalhadora do sexo, ela acessa toda a subjetividade negada pelo homem que tanto escuta. No exercício dessa história, no ressoar de </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura-em-lingua-francesa/a-solidao-da-escrita">Marguerite Duras</a></span><span style="font-weight: 400">, </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://elvira.vigna.com.br/suplemento-pernambuco-3/#:~:text=Seus%20personagens%20e,da%20mesma%20diretora).">Sofia Coppola</a></span><span style="font-weight: 400">, e </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.letras.mus.br/pj-harvey/17590/traducao.html">PJ Harvey</a></span><span style="font-weight: 400">, se desafia até mesmo a Literatura, na qual as prostitutas sempre ocuparam um imaginário exoticizado e atravessado por </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.instagram.com/p/CbYiO4FuLv5/?utm_source=ig_web_copy_link">olhares masculinos</a></span><span style="font-weight: 400"> acerca de suas trajetórias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Esse livro conta, na montagem de seu infindável palimpsesto, trajetórias de personagens sem rumo, distantes de suas casas, descendo e subindo </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.gazetasp.com.br/noticias/memoria-a-historia-da-augusta-uma-das-ruas-mais-famosas-de-sao-paulo/1091906/">ruas augustas</a></span><span style="font-weight: 400">. Homens cheios de si que, em suas idas aos bares e baladas, querem o escuro dos asfaltos e recebem as lufadas das luzes coloridas da cidade. Nas mãos em cinturas de mulheres que limitam seus movimentos, por segurança, encontram o poder de serem si mesmos, mesmo imaginando, naquele momento, serem outros.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Como se estivéssemos em palimpsesto de putas" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/azQFN4LCqjM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400">Envoltos nos braços das trabalhadoras do sexo, João e seus amigos, mesmo que tentem esconder, estão desesperados. Nas trepadas, com seus </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://artebrasileiros.com.br/cultura/ira-de-vigna/">vergonhosos silêncios</a></span><span style="font-weight: 400">, falam muito mais do que nos relatos egocêntricos que tanto proclamam. No universo de </span><span style="font-weight: 400"><i>Como se estivéssemos em palimpsesto de putas</i></span><span style="font-weight: 400">, que também é o mesmo que existe fora das duzentas e poucas páginas do livro, figuras como João querem transgressões. Anseiam pela chance de, em uma noite, conseguir ocupar outro mundo que não seja a pacata vida cotidiana que eles mesmos impõem, em seus falatórios sobre a tradição, à moral e, claro, os bons costumes.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Toda essa caça pelo profano, pelo escuro, pela sarjeta, pelo seio que não é o de sua mãe e nem o de sua mulher, mas sim do corpo que carrega opressões de toda a História, é, no fim, uma busca pelo divino. Como dito em alto e bom tom, pela poeta </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/O-obsceno-sim-de-Hilda-Hilst">Hilda Hilst</a></span><span style="font-weight: 400">, </span><span style="font-weight: 400"><i>‘‘a natureza do obsceno é a vontade de converter’’</i></span><span style="font-weight: 400">. Nas voltas dessas empreitadas, esses homens querem seus espaços de segurança e moralidade, numa nostalgia da santidade suscitada por seus encontros. Tanto que, no fim, </span><span style="font-weight: 400"><i>“há algo de Jesus Cristo em toda prostituta”</i></span><span style="font-weight: 400">, como colocado pela escritora e ativista travesti </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://buzzfeed.com.br/post/dando-o-truque-pra-falar-de-sexo">Amara Moira</a></span><span style="font-weight: 400">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Hilda Hilst TV Cultura" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/5yeFhO4G2OQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400">Para a narradora é claro: esses homens não conhecem </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://s2.glbimg.com/HpnOaX3Qn1I-_cX0IqAN2ofkHXQ=/0x0:2250x1497/1008x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2018/9/e/gMGZXtQPGlWONZsHQZXA/000-19e36c.jpg">Courbet</a></span><span style="font-weight: 400">. </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.pariscityvision.com/pt/paris/museus-de-paris/museu-de-orsay/origem-do-mundo">Não sabem as origens desses mundos</a></span><span style="font-weight: 400"> que tanto pensam dominar. Pois, em </span><span style="font-weight: 400"><i>Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, </i></span><span style="font-weight: 400">quem monta o mundo é o afago de uma puta. É a manutenção do lar por uma esposa. É a escuta rebelde, cheia de atrito, de uma jovem em um escritório quase abandonado em um prédio na Rua Marquês de Olinda, no Botafogo. Tudo que o patriarcado assume como seus feitos só existe pois essas mulheres, que, nessa discursividade masculina, são todas as mesmas, estão submetidas a uma compulsória escuta. Mas, em um ponto dessa narrativa, construído em um gigante </span><span style="font-weight: 400"><i>crescendo,</i></span><span style="font-weight: 400"> um som surdo toma os ouvidos. E as mulheres gritam. É onde a história termina. Mas não acaba.</span></p>
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		<title>Conectadas não é apenas sobre romance entre jovens da Geração Z</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2022 16:18:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Nóbrega Clichê de reparação. Clara Alves dispõe em seu livro Conectadas, publicado em 2019 pela Editora Seguinte, tudo que qualquer menina queer sonhou enquanto assistia à comédias românticas adolescentes em sua infância. Jogos, romance, juventude, cultura pop e a realidade de muitas garotas são alguns dos pontos abordados por Clara em sua obra, feita  &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/clara-alves-conectadas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Conectadas não é apenas sobre romance entre jovens da Geração Z"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27813" aria-describedby="caption-attachment-27813" style="width: 710px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27813 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-710x1024.jpg" alt="A imagem é a capa do livro Conectadas, o fundo é azul marinho e azul turquesa. Na frente da capa está ilustrada Ayla, uma menina com traços asiáticos, usando um vestido rosa, meia branca e tênis marrom, com cabelo preto e longo. Um pouco mais acima tem uma ilustração de cabeça para baixo de Raíssa, uma menina de pele escura, cabelo cacheado, usando uma camisa verde turquesa, uma calça jeans e um tênis vermelho. Raíssa segura um notebook com a imagem de um menino branco, de cabelo preto e blusa turquesa. Um pouco acima está escrito o nome da obra, Conectadas, e da autora, Clara Alves" width="710" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-710x1024.jpg 710w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-555x800.jpg 555w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-768x1107.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-1066x1536.jpg 1066w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-1421x2048.jpg 1421w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-1200x1730.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1.jpg 1681w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27813" class="wp-caption-text">Clara Alves contou em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=4FFpiQue5MQ">entrevista</a> que Conectadas foi o livro que ela escreveu mais rápido, em cerca de dois meses (Foto: Editora Seguinte)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Nóbrega</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clichê de reparação. Clara Alves dispõe em seu livro </span><a href="https://www.amazon.com.br/Conectadas-Clara-Alves/dp/8555340896"><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, publicado em 2019 pela Editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Seguinte</span></i><span style="font-weight: 400;">, tudo que qualquer menina </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/01/20/queer-esta-na-sigla-lgbtqia-o-que-significa-e-quem-usa.htm"><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> sonhou enquanto assistia à comédias românticas adolescentes em sua infância. Jogos, romance, juventude, cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">e a realidade de muitas garotas são alguns dos pontos abordados por Clara em sua obra, feita  para garotas jovens que ainda estão se descobrindo em um mundo tão violento, e também para mulheres adultas que foram roubadas de seus clichês juvenis. </span></p>
<p><span id="more-27812"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama escrita por Clara conta a história de Raíssa e Ayla, com capítulos intercalados que aprofundam um pouco da vida de cada uma, duas adolescentes que são apaixonadas por jogos e enfrentam conflitos com sua </span><a href="https://www.infoescola.com/sexualidade/o-que-e-sexualidade/"><span style="font-weight: 400;">sexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. Raíssa tem uma família amorosa e tranquila, e vive cercada por seus amigos de escola, no entanto, ela ainda esconde um segredo das pessoas, por medo de ser rejeitada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto isso, Ayla enfrenta diversos problemas dentro da sua própria casa, já que a relação com os pais não é das melhores. Além disso, o comportamento da menina na escola reflete tudo que ela vive em seu lar, o que resulta em um ciclo de amigas reduzido a Vick e Dricka, suas colegas de classe, Raíssa — </span><a href="https://portalpopline.com.br/clara-alves-conectadas-comemora-no1-amazon-livro-novo/"><span style="font-weight: 400;">que se passa por outra pessoa</span></a><span style="font-weight: 400;"> — e sua tia Sayuri. A última é personagem importante na vida de Ayla, sendo uma peça chave para que ela tenha contato com o mundo de fora do caos de sua residência, atuando quase que como uma fada madrinha.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Atravessei a sala em direção ao pequeno corredor que ligava aos outro cômodos da casa e, assim que parei na frente do quarto da minha mãe, a encontrei apagada com a pequena televisão de tubo ligada, o frasco de Rivotril em cima da mesinha de cabeceira. Eu suspirei e fiz menção de continuar pelo corredor, mas entrei no cômodo e parei para dar um beijo na cabeça dela. Não havia sinal do meu pai.”</span></p></blockquote>
<p><figure id="attachment_27814" aria-describedby="caption-attachment-27814" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27814" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/2.png" alt="Na imagem, Clara Alves, uma mulher de pele clara, com piercing no nariz e cabelo preto até o ombro, que usa uma regata preta com alça rosa, segura um de seus livros, intitulado de Romance Real, com a mão esquerda. Na mão direita ela segura um prêmio por Conectadas." width="800" height="921" /><figcaption id="caption-attachment-27814" class="wp-caption-text">Além de Conectadas, Clara Alves também escreveu Sobre amor e estrelas (e a cabeça nas nuvens), De repente adolescente: Antologia de contos e Romance Real, que foi lançado em maio de 2022 [Foto: Instagram/@claraalvesg]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Os caminhos de Ayla e Raíssa se cruzam enquanto ambas jogam </span><i><span style="font-weight: 400;">Feéricos</span></i><span style="font-weight: 400;">, um jogo </span><i><span style="font-weight: 400;">on-line</span></i><span style="font-weight: 400;"> pelo qual as duas são apaixonadas. Raíssa, que é uma jogadora antiga, finge ser um menino no jogo, para poder ser levada a sério por outros jogadores. Em contraste, Ayla passa por uma situação semelhante, mas um tanto diferente. Ela não consegue ajuda de outros </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/08/13/sou-gamer-e-criei-uma-campanha-contra-o-machismo-nos-jogos.htm#:~:text=Imagem%3A%20arquivo%20pessoal-,O%20machismo%20no%20mundo%20gamer%20%C3%A9%20algo%20muito%20comum%2C%20infelizmente,humilhantes%20s%C3%B3%20por%20sermos%20mulher."><i><span style="font-weight: 400;">players</span></i><span style="font-weight: 400;"> por usar um personagem feminino</span></a><span style="font-weight: 400;">, e por isso, sai em busca de alguém que possa lhe apoiar em sua jornada digital. Tudo isso sem saber que o que a espera é uma série de novas experiências e sentimentos.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Raíssa oferece ajuda para Ayla, e as duas se tornam grandes amigas. Porém, Ayla não sabe que Raíssa é uma menina. Não apenas isso, ela acredita que seu parceiro de jogo é Leo, um dos melhores amigos de Raíssa. Conforme a amizade das duas se desenvolve, o melhor amigo de Raíssa e ela se encontram em uma rua de mão única quando um grande evento de </span><i><span style="font-weight: 400;">games </span></i><span style="font-weight: 400;">chama a atenção deles, e também de Ayla. </span><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> se desenvolve quase como o filme </span><a href="https://blogs.correiobraziliense.com.br/proximocapitulo/sierra-burgess-e-uma-loser/#:~:text=No%20come%C3%A7o%20do%20filme%2C%20Sierra,est%C3%A1%20focada%20em%20seu%20futuro."><i><span style="font-weight: 400;">Sierra Burgess é uma Loser</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">só que dessa vez as personagens principais são mais carismáticas e a trama segue o caminho correto para prender o público. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura é leve e fluída, o que faz com que o leitor consiga terminar a história mais rápido do que se imagina, e ainda deixar um quê de quero mais. As vidas das personagens principais são bem desenvolvidas, e quem está do outro lado da obra consegue empatizar pelas dores familiares de Ayla e pelo medo que Raíssa sente em relação ao seu envolvimento com a</span> <a href="https://www.psicanaliseclinica.com/amigos-virtuais/#:~:text=Amizades%20virtuais%20s%C3%A3o%20aqueles%20que,amizades%20que%20acontecem%20no%20offline."><i><span style="font-weight: 400;">web </span></i><span style="font-weight: 400;">amiga</span></a><span style="font-weight: 400;">. O ponto de vista das duas estar incluído na obra faz aflorar o sentimento de saber o segredo de uma e não poder contar para a outra. </span></p>
<figure id="attachment_27815" aria-describedby="caption-attachment-27815" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27815" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/3.png" alt="Uma mão segura o livro Conectadas em frente a uma parede com tijolos repleta de plantas, que se assemelham a cactos e suculentas verdes" width="800" height="708" /><figcaption id="caption-attachment-27815" class="wp-caption-text">O jogo feéricos mencionado na história é uma invenção da autora, e segundo afirmou para o <a href="https://www.youtube.com/watch?v=4FFpiQue5MQ">canal</a> da Editora Seguinte, ele se baseia em uma história escrita por ela há algum tempo (Foto: Instagram/@claraalvesg)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro fator que chama atenção do público no romance de Ayla e Raíssa é que nenhuma delas é branca Ou seja, o clichê de Clara Alves passa longe </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/livro/396/"><span style="font-weight: 400;">das histórias heteronormativas e caucasianas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que sempre tiveram espaço na mídia. Essa característica da obra faz com que os leitores </span><a href="https://www.printi.com.br/blog/a-representatividade-por-tras-do-dia-internacional-do-orgulho-lgbtqia?gclid=CjwKCAjw7vuUBhBUEiwAEdu2pErs406xOLqDNrUzyTie5ZkKDQa-1-GxVaBNb250ZB0KJZTWHdF-NBoCpnoQAvD_BwE"><span style="font-weight: 400;">LGBTQIA+</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://mundonegro.inf.br/no-mes-do-orgulho-7-filmes-lgbqia-com-protagonismo-negro/"><span style="font-weight: 400;">não-brancos</span></a><span style="font-weight: 400;"> sintam seus corações quentinhos, por conseguirem presenciar uma história de amor que representa sua vivência para um grande público-alvo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Aquelas duas últimas horas tinham sido incríveis ao lado dela — quase como costumavam ser com o Leo na internet, só que melhor.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, a autora abre o caminho para uma discussão que está em alta desde que o mundo dos </span><a href="https://gamarevista.uol.com.br/semana/os-nerds-venceram/o-machismo-na-cultura-geek/"><i><span style="font-weight: 400;">gamers</span></i><span style="font-weight: 400;"> explodiu</span></a><span style="font-weight: 400;">: a presença de mulheres no mundo dos jogos. Tanto Ayla, quanto Raíssa, enfrentam discriminação no meio. Afinal, ainda existe uma crença errônea de que o público é majoritariamente masculino e que qualquer pessoa que fuja disso não se encaixa no ideal. Aos poucos, as duas ganham espaço dentro desse ambiente e realizam seus sonhos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história de </span><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é completa por si só, praticamente um romance adolescente de apenas um filme, como </span><a href="https://www.adorocinema.com/filmes/filme-25449/criticas/espectadores/#:~:text=O%20tom%20de%20humor%20%C3%A9,um%20filme%20que%20funciona%20perfeitamente."><i><span style="font-weight: 400;">10 Coisas que Eu Odeio em Você</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <a href="https://www.adorocinema.com/filmes/filme-108735/criticas/espectadores/#:~:text=%C3%89%20rom%C3%A2ntico%2C%20delicado%2C%20lindo%2C,cl%C3%A1ssico%20filme%20na%20TV%20aberta."><i><span style="font-weight: 400;">Sorte no Amor</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e</span> <a href="https://www.adorocinema.com/filmes/filme-119461/criticas/espectadores/#:~:text=Filme%20muito%20bom%2C%20engra%C3%A7ado%20e,e%20Channing%20Tatum%20muito%20bons%20."><i><span style="font-weight: 400;">Ela é o Cara</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O livro é um daqueles que não precisam de continuação para agradar o leitor, apesar da história incompleta de alguns personagens secundários deixarem-nos com a pulga atrás da orelha para saber um pouco mais. Principalmente quando se trata de outras tramas LGBTQIA+ na história.</span></p>
<figure id="attachment_27816" aria-describedby="caption-attachment-27816" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27816" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/4.png" alt="Em primeiro plano é possível ver uma página de livro, com diversas informações sobre Conectadas. Atrás se encontram diversas cópias do livro de Clara Alves" width="800" height="440" /><figcaption id="caption-attachment-27816" class="wp-caption-text">Em 2016 e 2019, Clara Alves recebeu o prémio Wattys, da plataforma de leitura Wattpad (Foto: Instagram/@claraalvesg)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem curte uma história mais madura, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas </span></i><span style="font-weight: 400;">pode não ser a melhor opção. Porém, quem está em busca de curar seu adolescente interior com representatividades que não eram vistas há até dez anos atrás, com certeza vai adorar a obra. Principalmente os fãs de livros LGBTQIA+ , como </span><a href="https://www.amazon.com.br/Heartstopper-Dois-garotos-encontro-vol/dp/8555341612"><i><span style="font-weight: 400;">Heartstopper</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.amazon.com.br/Vermelho-branco-sangue-Casey-McQuiston/dp/8555340942"><i><span style="font-weight: 400;">Vermelho, Branco e Sangue Azul </span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">e </span></i><a href="https://www.amazon.com.br/Rainhas-geek-amigos-hist%C3%B3rias-conven%C3%A7%C3%A3o/dp/8542213378"><i><span style="font-weight: 400;">Rainhas Geek</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">que tem se popularizado nos últimos tempos. Para as jovens </span><a href="https://medium.com/@asvioletas/quem-s%C3%A3o-as-s%C3%A1ficas-1d85d30979ab"><span style="font-weight: 400;">sáficas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que cresceram sem nenhum tipo de representação,</span><i><span style="font-weight: 400;"> Conectadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é quase uma reparação que reforça que pessoas fora do padrão de heteronormatividade também têm o direito de viverem grandes romances felizes. </span></p>
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		<title>Estante do Persona – Maio de 2022</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jun 2022 19:52:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“a vida é crua, não, moço?” &#8211; Hilda Hilst Depois de um mês de Abril marcado pelas muitas reflexões que a vida, obra e morte de Lygia Fagundes Telles nos provocaram, o Clube do Livro do Persona sabia que o mês de Maio era de seguir adiante no processo de explorar os substantivos femininos expressos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-maio-de-2022/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona – Maio de 2022"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27805" aria-describedby="caption-attachment-27805" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27805" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/estante-wp.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/estante-wp.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/estante-wp-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/estante-wp-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27805" class="wp-caption-text">Em maio, o Clube do Livro do Persona ferveu no Rio de Janeiro de Lola e João, o centro narrativo de Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, a última obra de Elvira Vigna publicada em vida (Foto: Reprodução/Arte: Nathália Mendes/Texto de Abertura: Raquel Dutra)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“a vida é crua, não, moço?”</span></p>
</blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">&#8211; Hilda Hilst</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de um mês de Abril marcado pelas muitas reflexões que a vida, obra e morte de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-abril-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">Lygia Fagundes Telles</span></a><span style="font-weight: 400;"> nos provocaram, o </span><b>Clube do Livro do Persona</b><span style="font-weight: 400;"> sabia que o mês de Maio era de seguir adiante no processo de explorar os substantivos femininos expressos na Literatura brasileira. E como a única regra continua sendo não fugir da complexidade natural que acompanha esse universo, a escolha da vez foi a última obra que Elvira Vigna publicou em vida: </span><i><span style="font-weight: 400;">Como se estivéssemos em palimpsesto de putas</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-27788"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro de 2016 finalizou com louvor um aspecto da trajetória da também jornalista, ilustradora, crítica e artista plástica, que passou a existir em 1988 como escritora através de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sete anos e um dia</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nas seis obras sequentes, </span><i><span style="font-weight: 400;">Coisas que os homens não entendem </span></i><span style="font-weight: 400;">(2002) e</span><i><span style="font-weight: 400;"> Deixei ele lá e vim</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2006) destacam </span><a href="https://paiolliterario.com.br/elvira-vigna/"><span style="font-weight: 400;">a essência de Elvira Vigna</span></a><span style="font-weight: 400;">: com muita subjetividade, minimalismo, significação e teor político, ela cria uma Literatura experimental em contextos marginalizados para refletir sobre a experiência das mulheres na sociedade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A construção é justamente o que desenvolve </span><a href="https://livrada.com.br/2013/03/11/elvira-vigna-nada-a-dizer/"><i><span style="font-weight: 400;">Nada a dizer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2010), sua obra mais aclamada e vencedora do Prêmio da Academia Brasileira de Letras de Ficção. Apresentando uma história de adultério narrada pela mulher traída, Elvira Vigna questiona as relações afetivas no mundo atual, numa determinação que dialoga com a própria Dama da Literatura Brasileira e, mais diretamente, com a poesia visceral de sua amiga de vida, </span><a href="http://www.aescotilha.com.br/literatura/ponto-virgula/cartas-de-um-sedutor-hilda-hilst-resenha/"><span style="font-weight: 400;">Hilda Hilst</span></a><span style="font-weight: 400;">, e a vencedora do Prêmio Camões de 2021, </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1451639528716898306"><span style="font-weight: 400;">Paulina Chiziane</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o terreno era preparado para o livro de 2016, que apesar de tudo não definiu o fim de Elvira Vigna. Da autora falecida em </span><a href="http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/07/1899964-morre-a-escritora-elvira-vigna-em-sao-paulo-aos-69-anos.shtml"><span style="font-weight: 400;">julho de 2017</span></a><span style="font-weight: 400;">, em decorrência de um carcinoma que debilitou a sua saúde durante os 5 anos anteriores, foi lançada a obra póstuma </span><a href="https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciLangCult/article/view/57089"><i><span style="font-weight: 400;">Kafkianas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2018), coletânea de contos muito bem apresentados pelo título. Mas antes de encerrar suas atividades em vida, ela intensificou sua voracidade em encarar a sociedade brasileira contemporânea pelas óticas de gênero.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Como se estivéssemos em palimpsesto de putas</span></i><span style="font-weight: 400;"> leva a Literatura de Vigna de volta aos seus níveis compulsivamente radicais, já experimentados pelos seus leitores nas citadas obras anteriores. Fervendo em assimilações, assim como os personagens do livro borbulham no Rio de Janeiro que uma polida cultura brasileira não é </span><a href="https://valkirias.com.br/a-vida-e-a-obra-de-elvira-vigna/"><span style="font-weight: 400;">capaz de enxergar</span></a><span style="font-weight: 400;">, o nosso Clube do Livro se inspirou para mais uma edição do </span><b>Estante do Persona</b><span style="font-weight: 400;">. No entanto, a conclusão é de que nada é como Elvira Vigna em ebulição com as suas próprias palavras.</span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_27789" aria-describedby="caption-attachment-27789" style="width: 670px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27789 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1-670x1024.jpg" alt="Capa do livro Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, da autora Elvira Vigna. A capa é roxa e tem o nome da autora, Elvira Vigna, escrito em fonte preta no canto superior esquerdo. Ao centro da capa e alinhado à direita, lemos em branco o nome do livro, Como se estivéssemos em palimpsesto de putas. Na parte de baixo e centralizado em preto está o logo da editora Companhia das Letras." width="670" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1-670x1024.jpg 670w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1-523x800.jpg 523w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1-768x1174.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1-1005x1536.jpg 1005w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1-1340x2048.jpg 1340w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1-1200x1834.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/elvira-1.jpg 1675w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27789" class="wp-caption-text">Elvira Vigna recebeu o Prêmio Jabuti duas vezes: um na categoria Livro Infantil, em 1980, e novamente em 2013, na categoria Ilustração (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Elvira Vigna &#8211; Como se estivéssemos em palimpsesto de putas (216 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. É assim que Elvira Vigna dá partida ao último livro que escreveu e publicou enquanto ainda era viva. Na trama, a narradora se intriga pelas histórias de João, um sujeito diminuto que passou a existência completa entre lençóis, puteiros e quartos de hotel com prostitutas. Tudo isso enquanto sua esposa, Lola, aturava mentiras e explicações vazias. Ao longo das mais de duzentas páginas, que emocionalmente se quadruplicam, a escritora rasga as entranhas da condição humana, se deliciando com </span><a href="https://www.blogletras.com/2019/06/como-se-estivessemos-em-palimpsesto-de.html"><span style="font-weight: 400;">questões de moralidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, amor, sexo e controle.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O palimpsesto, um papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro, recebe em seu tratamento a metamorfose da história em sua completude. João escreve e reescreve sua jornada com as mulheres a quem pagou por sexo, sempre em uma busca faminta pelo papel de alfa da alcateia. Através de períodos curtos, indagações pontiagudas e o uso mais do que eficiente de repetições, </span><a href="https://artebrasileiros.com.br/cultura/ira-de-vigna/"><span style="font-weight: 400;">Elvira Vigna nos coloca todos dentro do palimpsesto</span></a><span style="font-weight: 400;">, tornando impossível a ação de nos mantermos em silêncio quando confrontados com tais temas, tal entrega e tal formatação. Sinestésica, a escrita é quente, fumegante, borbulhante, e ai de quem temer se queimar. </span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Como se estivéssemos em palimpsesto de putas - Clube do Livro Maio 2022" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/3tcPs0uaXuoaU3VIjs7WfY?si=13a1c8aa8a9e4c7f&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_27790" aria-describedby="caption-attachment-27790" style="width: 714px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27790 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/it--714x1024.jpg" alt="Capa do livro It: A Coisa, do autor Stephen King. A capa tem fundo branco e mostra o desenho de um palhaço no topo, centralizado. O cabelo da figura é formado por duas manchas redondas que imitam sangue, enquanto seus olhos, sobrancelhas e nariz vermelhos são desenhados. Abaixo, lemos em preto “A Coisa”, e em vermelho “IT”. O nome do autor aparece em preto e letras grandes, STEPHEN KING. No canto inferior esquerdo, vemos em preto o logo da editora Suma. " width="714" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/it--714x1024.jpg 714w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/it--557x800.jpg 557w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/it--768x1102.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/it-.jpg 800w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27790" class="wp-caption-text">Mergulhando no mais profano do terror, It: A Coisa foi traduzido por Regiane Winarski e ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Andy Muschietti (Foto: Suma)</figcaption></figure>
<p><b>Stephen King &#8211; It: A Coisa (1104 páginas, Suma)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um palhaço sanguinário aterroriza uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos desde que o mundo é mundo. Através de uma influência maléfica, </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-it-a-coisa-de-stephen-king/"><span style="font-weight: 400;">Pennywise</span></a><span style="font-weight: 400;"> trucida crianças, adultos, idosos, sonhos e promessas. Isso é, até que um grupo de amigos, o Clube dos Perdedores, topa com a criatura. A partir da investida contra a fera nos anos 50, o grupo é marcado para sempre, compartilhando um trauma que psicólogo nenhum ajudará a curar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">27 anos depois de expurgarem o que achavam ser o vestígio final da Coisa, eles se reencontram. Um golpe derradeiro não é apenas necessário, mas vital e, através de </span><a href="https://personaunesp.com.br/it-capitulo-dois-critica/"><span style="font-weight: 400;">mais de mil e cem páginas</span></a><span style="font-weight: 400;">, o Mestre do Terror Stephen King nos detalha as minúcias de Derry, partindo dos tubos desgastados que filtram o esgoto até cada uma das personalidades que habitam o fatídico local. Extenso ao ponto de se tornar, estranhamente, uma leitura de conforto,</span><i><span style="font-weight: 400;"> It: A Coisa</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é apenas o maior livro do Rei, em adição ele também é o melhor. </span><b>&#8211; Vitor Evangelista</b></p>
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<figure id="attachment_27794" aria-describedby="caption-attachment-27794" style="width: 657px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27794 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1-657x1024.png" alt="" width="657" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1-657x1024.png 657w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1-513x800.png 513w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1-768x1198.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1-985x1536.png 985w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1-1313x2048.png 1313w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1-1200x1871.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/consumidos-1.png 1773w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27794" class="wp-caption-text">Com tradução de Cássio de Arantes Leite, o violento livro de David Cronenberg se inicia na tela de um computador e termina numa conversa no Skype (Foto: Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><b>David Cronenberg &#8211; Consumidos (304 páginas, Alfaguara)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O nome de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/05/david-cronenberg-diz-querer-cometer-mais-crimes-em-proximos-filmes-em-cannes.shtml"><span style="font-weight: 400;">David Cronenberg</span></a><span style="font-weight: 400;"> não é exatamente pouco conhecido – muito pelo contrário. Na verdade, talvez possa causar certa estranheza ler o nome do renomado cineasta canadense na capa de um livro; mas, ao decorrer da leitura, </span><a href="https://www.planocritico.com/entenda-melhor-david-cronenberg-e-a-literatura/"><i><span style="font-weight: 400;">Consumidos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2014) se prova o melhor do universo do autor. Sua estreia como escritor – e, até o momento, seu único romance – traz muito do universo retratado em seus filmes, principalmente </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fUuMgD9Ej_M&amp;ab_channel=CinemasNOS"><i><span style="font-weight: 400;">Crash</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1996), adaptação do livro homônimo de J.G. Ballard, com quem Cronenberg divide muitas semelhanças estéticas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No romance, Cronenberg narra a história de Naomi e Nathan, um casal de jornalistas que, buscando uma reportagem, acabam submersos em uma trama global envolvendo sexo e morte. Ela investiga o assassinato – seguido de um suposto ato de canibalismo – de uma filósofa; ele, vai à Budapeste fotografar um cirurgião que trabalha com um método pouco convencional de combate ao câncer. Trazendo ressonâncias à já citada obra de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535910803/crash"><span style="font-weight: 400;">Ballard</span></a><span style="font-weight: 400;">, os dois jornalistas mantêm uma fixação por tecnologia, pela competição e quaisquer experiências que os façam escapar do cotidiano. Aos poucos, se dão conta que os fios de suas histórias investigativas interligam-se, aguçando </span><i><span style="font-weight: 400;">Consumidos </span></i><span style="font-weight: 400;">em um maravilhoso cenário especulativo. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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<figure id="attachment_27796" aria-describedby="caption-attachment-27796" style="width: 681px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27796 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1-681x1024.jpg" alt="Capa do livro A Relíquia, do autor Eça de Queirós. Na imagem, uma coroa de espinhos na cor preta estampa grande parte da arte de capa. Na parte superior, o nome da Editora Fora Do Ar em tinta preta, assim como o seu logo que leva o desenho em contorno de uma nave alienígena abduzindo um ser humano. Na parte inferior, o nome do autor Eça de Queirós e o título da obra A Relíquia, ambos em tinta preta." width="681" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1-681x1024.jpg 681w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1-532x800.jpg 532w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1-768x1155.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1-1021x1536.jpg 1021w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1-1362x2048.jpg 1362w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1-1200x1805.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/A-Reliquia-1-1.jpg 1518w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27796" class="wp-caption-text">A Relíquia é um romance realista fantástico publicado em 1887 (Foto: Fora do Ar)</figcaption></figure>
<p><b>Eça de Queirós &#8211; A Relíquia (344 páginas, Fora do Ar)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">, a epígrafe de </span><a href="https://domtotal.com/noticia/1485142/2020/11/no-aniversario-de-175-anos-de-eca-de-queiroz-relembre-os-maiores-classicos-do-autor/"><i><span style="font-weight: 400;">A Relíquia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, livro clássico do escritor português </span><a href="https://setemargens.com/eca-de-queiros-1845-1900/"><span style="font-weight: 400;">Eça de Queirós</span></a><span style="font-weight: 400;">, representa com perfeição o cruzamento entre o real e o imaginário que se estende durante a narrativa da obra. Dono de uma sensibilidade singular, Queirós consegue transitar com fluidez pelo concreto e pelo fantasioso. Assim, os devaneios complementam perfeitamente os momentos brutais da trama, sem deixar espaço para uma leitura confusa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Teodorico Raposo, mais conhecido como Raposão, é o protagonista e o narrador de seu livro de memórias, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Relíquia</span></i><span style="font-weight: 400;">. Malicioso e dissimulado em seus escritos, ele conta para o leitor sobre a difícil empreitada de enganar a sua tia beata, Dona Maria do Patrocínio, e, desse modo, poder desfrutar de suas aventuras amorosas, além de se consagrar como herdeiro universal da fortuna de Titi. Dividido em duas personas distintas: um sobrinho religioso e um conquistador nato de mulheres; a obra de Eça de Queirós é tão interessante quanto sarcástica em relação ao </span><a href="https://www.dn.pt/cultura/1871-o-ano-em-que-eca-de-queiros-se-tornou-um-caso-serio-14203680.html"><span style="font-weight: 400;">contexto</span></a><span style="font-weight: 400;"> em que foi publicada. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_27797" aria-describedby="caption-attachment-27797" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27797 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Um artista do mundo flutuante. Na imagem aparece um fundo azul com pequenos desenhos em preto, que representam uma paisagem com pequenos montes, um lago e uma ponte. Em laranja, na ponte há um homem que observa o horizonte e no céu nove lanternas japonesas flutuam e refletem sua luz na água. Grafados na cor branca, aparecem o nome do autor na porção superior, e o nome do livro na parte inferior. Por fim, o logo da editora está estampado em preto após o título da obra." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Um-artista-do-mundo-flutuante-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27797" class="wp-caption-text">Entre altivez e culpa, Um artista do mundo flutuante reconstrói um Japão pós-guerra com palavras cativantes (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><strong>Kazuo Ishiguro &#8211; Um artista do mundo flutuante (232 páginas, Companhia das Letras)</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escrito pelo ganhador do </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/kazuo-ishiguro-ganha-o-premio-nobel-de-literatura-2017.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> de 2017, Kazuo Ishiguro, </span><i><span style="font-weight: 400;">Um artista do mundo flutuante </span></i><span style="font-weight: 400;">é um romance traduzido no Brasil por José Rubens Siqueira. No livro, somos apresentados a vida e incertezas do narrador e protagonista, Masuji Ono. Após a Segunda Guerra Mundial, Masuji está aposentado e é um artista de grande renome na região. Preso a uma mentalidade um tanto tradicionalista, o pintor se choca com os pensamentos das filhas e pessoas da nova geração depois da perturbada abertura do Oriente ao mundo ocidental. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo do texto, Ono viaja entre suas memórias e reflete sobre os caminhos que o levaram a ser artista, trazendo à tona a ideia do “mundo flutuante” em que os bares e a vida farrista aconteciam. Esse universo da noite e o professor que o ensinou sobre ele, fazem parte do início do protagonista como pintor, entretanto, adquirir um estilo próprio e ideais </span><a href="https://stringfixer.com/pt/Japanese_propaganda_during_World_War_II"><span style="font-weight: 400;">políticos</span></a><span style="font-weight: 400;"> sobre a arte mudam sua maneira de agir e geram consequências refletidas no presente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na obra de </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/07/cultura/1512672547_398506.html"><span style="font-weight: 400;">Kazuo</span></a><span style="font-weight: 400;">, as recordações são usadas como forma de resistir às mudanças, mas também são responsáveis por reconstruir o país antes das ruínas, assim como, ilustrar a influência estadunidense no comportamento dos japoneses. </span><i><span style="font-weight: 400;">Um artista do mundo flutuante </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma leitura fluida e rica em detalhes, sua narrativa comove e encanta com delicadeza. </span><b>&#8211; Jamily Rigonatto</b></p>
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<figure id="attachment_27798" aria-describedby="caption-attachment-27798" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27798 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras-683x1024.jpg" alt="capa do livro Garota, mulher, outras, de Bernadine Evaristo. A imagem da capa é uma ilustração realista de uma mulher negra, de cabelos curtos, vestindo uma blusa gola alta acinzentada e estampada, em um fundo esverdeado de folhagens. No canto superior esquerdo está o logo da editora Companhia das Letras. Deslocado mais para a direita, encontra-se o título do livro e, abaixo, ao centro, um comentário do jornal The Sunday Times." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/outras.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27798" class="wp-caption-text">A partir de uma escrita que explora as fronteiras líricas entre diferentes gêneros literários, Garota, mulher, outras é um retrato polifônico da negritude diaspórica na Inglaterra (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Bernardine Evaristo &#8211; Garota, mulher, outras</b><b> (</b><b>496 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Construído em uma estrutura que se assemelha, tanto na forma de quebra dos parágrafos e frases quanto no modo narrativo, a um </span><i><span style="font-weight: 400;">poemance, </span></i><span style="font-weight: 400;">ou seja, uma mistura da forma poemática com o romance, o livro </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2019/oct/15/booker-winners-bernardine-evaristo-margaret-atwood-rule-breaking"><span style="font-weight: 400;">da vencedora do </span><i><span style="font-weight: 400;">Booker Prize</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> Bernardine Evaristo não conseguiria usar tradicionais estruturas para contar as histórias de suas personagens que, pensando no modelo clássico e europeu de um livro, nunca estiveram impressas de modo tão íntimo e verdadeiro, sendo, na realidade, sempre projetadas a uma </span><a href="https://blogdaboitempo.com.br/2016/04/07/categoria-do-outro-o-olhar-de-beauvoir-e-grada-kilomba-sobre-ser-mulher/"><span style="font-weight: 400;">categoria do “Outro”</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde os caminhos no processo diaspórico para a Inglaterra, vindas de países como Gana e Nigéria, até no pensar da juventude acerca de gênero e sexualidade, em um cenário socialmente barulhento – Londres em meio às negociações do </span><i><span style="font-weight: 400;">Brexit</span></i><span style="font-weight: 400;"> – a narrativa de <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535933819/garota-mulher-outras"><em>Garota, mulher, outras</em></a> consegue enclausurar, em seu processo puramente polifônico, o passado, o presente e o futuro das subjetividades retratadas sem necessariamente delimitá-las a cada tempo, mas sim criando novas noções de identidade que transpassam tais noções, unidas nessa busca, constante no livro, pela ancestralidade. Trazendo a realidade de mulheres e pessoas divergentes de gênero e sexualidade para suas páginas, Evaristo inaugura novos imaginários e possibilidades na estrutura do romance. &#8211; </span><b>Enzo Caramori</b></p>
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<figure id="attachment_27799" aria-describedby="caption-attachment-27799" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27799 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones-712x1024.jpg" alt="Capa do livro Daisy Jones &amp; The Six. No centro, está escrito o título do livro em letras garrafais brancas. Do lado esquerdo inferior, está escrito &quot;Uma história de amor e música&quot; em letra branca pequena. A imagem de fundo é o rosto de uma mulher, com tons rosa, azul, amarelo e vermelho. No centro inferior, está o nome de Taylor Jenkins Reid em letras brancas. No centro superior, está escrito &quot;Devorei o livro em um dia e me apaixonei por Daisy e pela banda&quot; em letras brancas e &quot;Reese Whiterspoon&quot; em letras rosa." width="712" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones-712x1024.jpg 712w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones-557x800.jpg 557w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones-768x1104.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones-1069x1536.jpg 1069w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones-1425x2048.jpg 1425w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones-1200x1725.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/daisyjones.jpg 1781w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27799" class="wp-caption-text">A série sobre Daisy Jones &amp; The Six será protagonizada por Sam Claflin e Riley Keough, que é neta de Elvis e Priscilla Presley (Foto: Paralela)</figcaption></figure>
<p><b>Taylor Jenkins Reid &#8211; Daisy Jones &amp; The Six (360 páginas, Paralela)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como se a euforia pelos anos 70 já não fosse suficiente no imaginário popular, a autora Taylor Jenkins Reid decidiu materializá-la nas páginas de seu próprio livro. </span><a href="https://personaunesp.com.br/daisy-jones-and-the-six-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Daisy Jones &amp; The Six</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> revive um dos períodos mais efervescentes para a música, especialmente na cidade de Los Angeles, a partir da história da banda que dá nome à obra. O único detalhe, que já é marca registrada da escritora, é que eles nunca existiram na realidade. Por meio de uma narrativa que facilmente se confundiria com o roteiro de um documentário, somos conduzidos às memórias dos integrantes do grupo musical, que relatam os primórdios de suas aventuras durante uma entrevista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma mente que nos trouxe a notável </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-sete-maridos-de-evelyn-hugo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Evelyn Hugo</span></a><span style="font-weight: 400;">, Taylor Jenkins Reid agora volta os holofotes para Daisy Jones, cantora em ascensão da época, que teve seu caminho cruzado com a banda The Six, e, assim, iniciaram sua carreira de sucesso. Juntos, Daisy, Billy, Graham, Karen, Warren, Pete e Eddie mergulham nas psicodelias que viveram no auge dos anos 70, em meio a muito amor, drogas e </span><i><span style="font-weight: 400;">rock ’n’ roll</span></i><span style="font-weight: 400;">. Hipnotizante até o último segundo, a única frustração que <em>Daisy Jones &amp; The Six</em> traz é o fato de podermos apenas imaginar como seriam as músicas da banda. Mas, não por muito tempo, já que o livro conquistou os olhares de Reese Whiterspoon, o que rendeu a produção de uma série em 12 episódios para o </span><i><span style="font-weight: 400;">Amazon Prime Video</span></i><span style="font-weight: 400;">, com as </span><a href="https://cinepop.com.br/daisy-jones-and-the-six-terminam-as-gravacoes-da-nova-serie-estrelada-por-riley-keough-344007/"><span style="font-weight: 400;">gravações já encerradas</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><b>&#8211; Vitória Silva</b></p>
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<figure id="attachment_27800" aria-describedby="caption-attachment-27800" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27800 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Terras do Sem-Fim. Ao centro, e ao fundo, vê-se um homem guiando um carro de bois. Um pouco abaixo vê-se o reflexo desse homem no rio. Ao lados há árvores e pastagem. Ao centro lê-se em branco “JORGE AMADO” acima do D, lê-se na vertical e em amarelo “TERRAS DO SEM-FIM”. No canto inferior esquerdo está a logo da Companhia das Letras. A capa é inteiramente na cor marrom esverdeado." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/91HXPQo6MDL.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27800" class="wp-caption-text">A terra adubada com sangue (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Jorge Amado &#8211; Terras do Sem-Fim (280 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escrito por Jorge Amado durante seu exílio na Argentina, </span><i><span style="font-weight: 400;">Terras do Sem-Fim</span></i><span style="font-weight: 400;"> vasculha as consequências que a exploração do cacau trouxe para a região de Ilhéus, no sul da Bahia. A trama sobre jagunços traz a história de disputa de terras por duas grandes famílias. Junto com </span><i><span style="font-weight: 400;">Cacau</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">São Jorge dos Ilhéus</span></i><span style="font-weight: 400;">; </span><i><span style="font-weight: 400;">Gabriela, cravo e canela</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Tocaia Grande</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Terras do Sem-Fim</span></i><span style="font-weight: 400;"> compõe a fase de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=02516"><span style="font-weight: 400;">livros amadianos</span></a><span style="font-weight: 400;"> dedicados à rica e sangrenta história da região cacaueira da Bahia. Essa obra trabalha memórias da infância do próprio autor, ao mesmo tempo em que denuncia a violência e a exploração que marcaram o período. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um clássico na Literatura nacional, </span><i><span style="font-weight: 400;">Terras do Sem-Fim</span></i><span style="font-weight: 400;"> mantém a fluidez das obras de Jorge Amado, fazendo com que a leitura de cada página seja um deleite e um exercício do estudo da História. A habilidade do escritor em apresentar cenários e personagens permite que o enredo tenha um desenvolvimento excepcional ao mesclar dois pontos de vista. A violência é marcante, mas necessária: </span><a href="https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/terras-do-sem-fim/"><i><span style="font-weight: 400;">Terras do Sem-Fim</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é feito para agradar</span></a><span style="font-weight: 400;">, e sim para expor a guerra política que torna o local sujo e manchado a sangue pelas injustiças sociais e disputas de terra. Os personagens marcantes ditam o ritmo crescente da narrativa, marcando o livro na biografia de Amado. </span><b>&#8211; Ana Júlia Trevisan</b></p>
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<figure id="attachment_27823" aria-describedby="caption-attachment-27823" style="width: 676px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27823 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL-676x1024.jpg" alt="Capa do livro Parque Industrial, de Pagu. A imagem é uma ilustração chapada de uma indústria e usa apenas a cor preta, sob um fundo azul celeste. No canto superior direito, está escrito o nome da autora em letra de forma. Na lateral esquerda do livro, se estendendo para a linha inferior, está escrito o título, na mesma estilização." width="676" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL-676x1024.jpg 676w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL-528x800.jpg 528w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL-768x1163.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL-1014x1536.jpg 1014w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL-1352x2048.jpg 1352w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL-1200x1817.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/61RDLeRGfTL.jpg 1466w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27823" class="wp-caption-text">Aos 100 anos do Modernismo no Brasil, a principal obra de um dos principais nomes do período retornou às livrarias em nova edição publicada pela Companhia das Letras (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Pagu &#8211; Parque Industrial (111 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem tomou a linguagem contemporânea de Elvira Vigna como um dos aspectos mais fortes de sua obra, é inevitável reconhecer seu diálogo com a sinceridade visceral de Pagu. Separadas por mais de 80 anos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Como se estivéssemos em palimpsesto de putas</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Parque Industrial</span></i><span style="font-weight: 400;"> se convergem no objetivo de relatar as dinâmicas das relações vivenciadas por mulheres, em contextos marginalizados e marcados pela violência em suas mais diversas formas. Mas ao contrário do fervor naturalista do Rio de Janeiro dos anos 2010, o primeiro livro de Patrícia Galvão está na mecânica industrial da São Paulo da década de 30, se concretizando como o primeiro </span><i><span style="font-weight: 400;">romance proletário</span></i><span style="font-weight: 400;"> brasileiro e manifestando a ânsia de revolução cultural da </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">modernista</span></a><span style="font-weight: 400;"> por trás do pseudônimo de Mara Lobo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto realiza nada menos do que os desejos de Pagu, o livro atinge bem mais do que suas ambições aos apenas 22 anos de idade. Como um </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/parque-industrial-pagu/"><span style="font-weight: 400;">marco absoluto</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Literatura brasileira, </span><i><span style="font-weight: 400;">Parque Industrial</span></i><span style="font-weight: 400;"> retrata a industrialização que definiu o século XX no país, iniciada na capital paulista repleta de promessas, e desenvolvida irregularmente pelo resto do território nacional com muitas consequências &#8211; principalmente para quem sempre ocupa o centro e margem da sociedade: as mulheres. Assim, a autora &#8211; e seus personagens &#8211; não tem tempo para meias palavras nem caprichos estéticos, atribuindo à sua obra um caráter urgente, que captura recortes das vidas fragmentadas pelas máquinas capitalistas, e que, 90 anos depois de sua primeira publicação, diz tanto sobre </span><a href="https://personaunesp.com.br/1922-2022-o-que-e-ser-moderno-no-brasil-artigo/"><span style="font-weight: 400;">o Brasil de hoje</span></a><span style="font-weight: 400;"> quanto suas conterrâneas contemporâneas. </span><b>&#8211; Raquel Dutra</b></p>
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		<title>O mergulho subversivo de Lygia Fagundes Telles em A Estrutura da Bolha de Sabão</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jun 2022 19:34:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathalia Tetzner O cenário é um café-da-manhã entre esposa e marido. Ele conta de um amigo físico que mora nas construções góticas de Paris e estuda a estrutura da bolha de sabão. Ela se espanta com a possibilidade de alguém se dedicar em investigar algo que conhece desde seus primeiros anos de vida e que, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-estrutura-da-bolha-de-sabao-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O mergulho subversivo de Lygia Fagundes Telles em A Estrutura da Bolha de Sabão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27818" aria-describedby="caption-attachment-27818" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27818 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS.jpg" alt="Arte em rosa claro com a imagem do livro A Estrutura da Bolha de Sabão no centro. Capa do livro A Estrutura da Bolha de Sabão da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles. Na imagem, há uma arte com diversas texturas e formatos, entre eles, contornos de flores. A arte vibra nas cores azul, vermelho, verde, marrom, roxo e rosa. No canto inferior esquerdo, um quadro branco com o nome da autora escrito em preto, o nome do livro escrito em roxo e o nome da editora, Companhia das Letras, escrito em azul. No topo à esquerda, vemos o olho do Persona com a íris rosa e no canto inferior direito está o logo do Clube do Livro do Persona." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27818" class="wp-caption-text">A Estrutura da Bolha de Sabão foi a leitura do <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-abril-de-2022/">Clube do Livro do Persona</a> durante o mês de abril de 2022 (Foto: Companhia das Letras/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<p><b>Nathalia Tetzner</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cenário é um café-da-manhã entre esposa e marido. Ele conta de um amigo </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,jean-oury-fala-sobre-jean-vigo,431566"><span style="font-weight: 400;">físico</span></a><span style="font-weight: 400;"> que mora nas construções góticas de Paris e estuda a estrutura da bolha de sabão. Ela se espanta com a possibilidade de alguém se dedicar em investigar algo que conhece desde seus primeiros anos de vida e que, por isso, sabe que não possui estrutura alguma. O tempo passa e quando o gato do casal sobe na mesa dela, finalmente há uma resposta para sussurrar: </span><i><span style="font-weight: 400;">“a bolha de sabão é o amor”. </span></i><span style="font-weight: 400;">Nascia nesse momento </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma coletânea de contos escrita pela dama da Literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles. </span></p>
<p><span id="more-27768"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançada originalmente em 1978 sob o título de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filhos Pródigos</span></i><span style="font-weight: 400;">, a obra foi reeditada na década de 90 quando passou a carregar o nome do texto de maior sucesso. Em 2010, ela ganhou uma nova roupagem para uma série especial da editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">. Porém, em meio às infinitas edições disponíveis no mercado, é o conteúdo que destaca a sua singularidade perante toda a bibliografia de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tgaX90Fo3YU"><span style="font-weight: 400;">Telles</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dessa vez, a autora conhecida por banhar os seus romances com o realismo convida o leitor para um mergulho na fantasia onde ele é sempre o último a desvendar as nuances.</span></p>
<blockquote><p>“Inclinou-se para apanhar a bolsa que caiu. Catou vacilante o pente e o espelho, quis ainda alcançar o lápis que rolou no assoalho, desistiu do lápis, Ih!&#8230;Levantou-se apertando a bolsa contra o peito, a outra mão apoiada na maçaneta da porta. Respirou penosamente, a boca aberta.</p>
<p>Encarou a mulher. Tudo bem?</p>
<p>— Tudo bem. Adriana. Tenho é muita pena desse moço. Seu noivo. Casar com uma coisa dessas, imagine.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Repleta de fluxos de consciências e ambientada com uma dose de tensão constante, a leitura de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é nem um pouco confortável, consequência natural da abordagem esférica da temática feminina, fator sempre presente nos escritos da autora. Banhados por uma atmosfera misteriosa, os oito contos remetem de alguma forma ao </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/04/03/lygia-fagundes-telles-4-licoes-da-obra-da-dama-da-literatura-as-mulheres.htm"><span style="font-weight: 400;">papel da mulher</span></a><span style="font-weight: 400;"> na sociedade. Seja na materialização de uma jovem cheia de rebeldia para a sua época ou na subjetividade presente em um diálogo entre dois homens, Lygia Fagundes Telles explora todos os tons da feminilidade com a genialidade de quem está acostumada a ser uma força em sua caminhada pessoal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A terceira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras estudou Direito e Educação Física porque acreditava que não seria capaz de viver da </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/colunas/natalia-timerman/2022/04/03/lygia-fagundes-telles-era-uma-mulher-escrevendo-sobre-e-como-mulher.htm"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e se negava a depender financeiramente de um matrimônio. Ela e todo o seu lirismo foram exceção em relação ao pós-modernismo, movimento literário que se deu início na década de 70, período em que a figura masculina ainda era a maioria entre os autores de grande apelo. Assim como Adriana em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XyIRQJgY3a8"><i><span style="font-weight: 400;">A Medalha</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a filha subversiva à mãe e ao seu tempo farto de conservadorismos, Telles é também dona de uma trajetória transgressora e parece ter bebido da sua própria fonte para retratar com tanta fidelidade a angústia da personagem.</span></p>
<figure id="attachment_27769" aria-describedby="caption-attachment-27769" style="width: 964px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27769" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1.jpeg" alt="Fotografia de Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles em preto e branco. Hilst, à esquerda, segura um cigarro com a mão enquanto sorri olhando para o lado. Telles, à direita, sorri olhando para o lado oposto. As duas são mulheres brancas de cabelos escuros." width="964" height="806" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1.jpeg 964w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1-800x669.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1-768x642.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27769" class="wp-caption-text">Escritora do movimento pós-modernista e amiga pessoal de <a href="https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/04/03/morte-de-lygia-fagundes-telles-lembre-amizade-da-escritora-com-hilda-hilst.html">Hilda Hilst</a>, Telles abordou a feminilidade como tema central de suas obras (Foto: Acervo Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Encarregado de ser o texto mais perturbador da coletânea, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espartilho</span></i><span style="font-weight: 400;"> faz com que o leitor se sinta sufocado pelo ambiente regrado da década de 40. Ana Luíza é o nome da protagonista que causa uma inquietação digna de filmes de terror como </span><a href="https://personaunesp.com.br/mae-filme-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Mãe!</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2017)</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que o suspense psicológico reina. O olhar de despertencimento dela ao encarar o álbum de fotos de sua família, após finalmente descobrir a verdade brutal por trás das faces pálidas apertadas por espartilhos, é estarrecedor. A experiência é um ponto fora da curva do que a escritora costuma produzir e provoca uma metáfora sensível sobre o uso de cintas modeladoras e a prisão emocional que acarreta a trama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quase mitológicos, os contos </span><i><span style="font-weight: 400;">A Testemunha</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">A Fuga</span></i><span style="font-weight: 400;"> começam e permanecem um mistério. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vgMn9NjYYT8"><span style="font-weight: 400;">Lygia Fagundes Telles</span></a><span style="font-weight: 400;"> nitidamente não se importou em deixar explícito o que cada figura de linguagem significa, há de se explorar as páginas para encontrar os sentidos do livro. De fato, a confusão mental de Miguel em busca de respostas e a insistência de Rolf em afirmar não saber de nada é, por si só, uma interessante bagunça de diálogos que acorrentam em um eterno ciclo não só os dois amigos, mas qualquer um que entra em contato com as linhas de Telles. Já no segundo texto, o clima de névoa é descrito com um intenso detalhismo que tem o poder de cegar e confundir Rafael e todo o público leitor.</span></p>
<blockquote><p>“— Não vai me dizer, Rolf?</p>
<p>— Dizer o quê rapaz?</p>
<p>— O que aconteceu ontem.</p>
<p>— Ora, o que aconteceu! Mas então você não sabe?</p>
<p>— Não, não sei. Não me lembro de nada, nada.</p>
<p>— Mas como não se lembra?</p>
<p>— Não me lembro, simplesmente não lembro — repetiu Miguel torcendo as mãos muito brancas. Fechou-as contra o peito.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há nada tão hipocritamente perfeito quanto uma coleção de páginas em que a existência de conjuntos geniais diminuem a sagacidade de outros. Esse é o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Missa do Galo </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Gaby</span></i><span style="font-weight: 400;">, a releitura do clássico de Machado de Assis e a incoerente falta de ritmo em uma conversa de bar colocam os dois contos em uma posição menos inspirada em relação aos outros momentos de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ambos são um exagero passional e, para o bem e para o mal, somente permitem concluir que não há conclusão. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vVTpCDG7LuY"><span style="font-weight: 400;">dama da Literatura brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixa neles o dito pelo não dito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em contrapartida, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Confissão de Leontina</span></i><span style="font-weight: 400;"> se consagra como o maior ato da obra. Longo e profundo, a narração em primeira pessoa relata o </span><a href="https://favodomellone.com.br/a-confissao-de-leontina-de-volta-o-conto-de-lygia-fagundes-telles/"><span style="font-weight: 400;">drama</span></a><span style="font-weight: 400;"> vivido por quem deixa uma cidade pequena em busca de oportunidades nas grandes capitais do país. Sempre incompreendida, a personagem principal do conto atrai todos os olhares para o seu infortúnio, o que consequentemente resulta no sentimento de identificação com o leitor. É fácil se emocionar com as palavras certeiras escolhidas pela autora, especialista em captar com excelência os aspectos do cotidiano urbano com o papel e a caneta na mão.</span></p>
<figure id="attachment_27770" aria-describedby="caption-attachment-27770" style="width: 940px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27770" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1.jpg" alt="Fotografia de Lygia Fagundes Telles. Na imagem, os cabelos grisalhos de Telles contam que o tempo passou para a escritora. Ela, uma mulher branca de olhos claros, direciona o seu olhar para a lente de quem a fotografa. Ao fundo, o que parece ser um ambiente aconchegante, mas desfocado" width="940" height="504" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1.jpg 940w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1-800x429.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1-768x412.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27770" class="wp-caption-text">A dama da Literatura nacional vive em seu <a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2022/04/08/interna_pensar,1358573/escritoras-brasileiras-ressaltam-o-legado-de-lygia-fagundes-telles.shtml">legado</a> (Foto: Renato Parada)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, como uma coletânea de contos, a expressão artística de Lygia Fagundes Telles mais complexa e brilhante desde o lançamento de </span><a href="https://istoe.com.br/lygia-fagundes-telles-driblou-a-censura-militar-no-romance-as-meninas/"><i><span style="font-weight: 400;">As meninas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 1973. Os recursos linguísticos utilizados no romance certamente continuaram a inspirá-la até a criação do conjunto de textos. Já, como um conto, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> se tornou maior do que si mesmo. Afinal, a quem interessa estudar a estrutura de uma bolha de sabão? A falta de explicações uma vez questionada ganha sentido com o término pungente da obra de Telles.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A dama da Literatura brasileira descobriu em vida que a bolha de sabão é o amor e estudá-la é fundamental. Ela, incoerentemente gentil e caridosa como as ondas do mar, compartilhou a descoberta com o mundo depois de um mergulho nas profundezas do fantasioso. Lygia Fagundes Telles faleceu em </span><a href="https://jornal.unesp.br/2022/04/04/dona-de-uma-carreira-premiada-lygia-fagundes-telles-deixa-solido-legado-literario-diz-diretor-da-editora-unesp/"><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, assim como fez em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">, a sua partida do mundo material somente pode significar que ela resolveu permanecer de vez ao lado da subjetividade da vida. </span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/a-estrutura-da-bolha-de-sabao-critica/">O mergulho subversivo de Lygia Fagundes Telles em A Estrutura da Bolha de Sabão</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Estante do Persona – Abril de 2022</title>
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		<pubDate>Tue, 10 May 2022 21:18:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Aprendi desde cedo que fazer higiene mental era não fazer nada por aqueles que despencam no abismo. Se despencou, paciência, a gente olha assim com o rabo do olho e segue em frente.” &#8211; Lygia Fagundes Telles O mês de Abril de 2022 marca a data de falecimento de Lygia Fagundes Telles, uma das maiores &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-abril-de-2022/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona – Abril de 2022"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27522" aria-describedby="caption-attachment-27522" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27522 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/capa_wordpress_estante_do_persona-1.jpg" alt="Arte retangular de cor rosa pastel. Ao centro há uma estante branca com três prateleiras. A primeira prateleira é dividida ao meio, a segunda prateleira é dividida em três e a terceira prateleira é dividida em três. Na parte superior lê-se em preto 'estante’, na primeira prateleira lê-se em preto 'do persona', à direita nessa prateleira está a logo do Persona, um olho com íris magenta. Na segunda prateleira, ao meio, está a capa do livro “A estrutura da bolha de sabão”. Na terceira prateleira, à direita, está o troféu com a logo do persona. Na parte inferior lê-se em branco ‘abril de 2022'." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/capa_wordpress_estante_do_persona-1.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/capa_wordpress_estante_do_persona-1-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/capa_wordpress_estante_do_persona-1-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27522" class="wp-caption-text">Em abril, o Clube do Livro do Persona se debruçou sobre os conscientes e inconscientes da antologia de contos A Estrutura da Bolha de Sabão, da eterna Dama da Literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles (Foto: Reprodução/Arte: Ana Clara Abbate/Texto de Abertura: Jamily Rigonatto)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Aprendi desde cedo que fazer higiene mental era não fazer nada por aqueles que despencam no abismo. Se despencou, paciência, a gente olha assim com o rabo do olho e segue em frente.” </span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8211; Lygia Fagundes Telles</span></i></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O mês de Abril de 2022 marca a data de falecimento de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vVTpCDG7LuY"><span style="font-weight: 400;">Lygia Fagundes Telles</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma das maiores escritoras do país. A autora é considerada uma referência na Literatura pós-</span><a href="https://personaunesp.com.br/1922-2022-o-que-e-ser-moderno-no-brasil-artigo/"><span style="font-weight: 400;">modernista</span></a><span style="font-weight: 400;">, e usou as vozes de personagens femininas e suas múltiplas nuances como protagonistas em muitos de seus escritos. Lygia foi a terceira mulher a ocupar uma cadeira na ABL (Academia Brasileira de Letras), recebeu o Prêmio Camões em 2005 e chegou a ser a primeira mulher brasileira indicada ao Prêmio Nobel de Literatura, aos 96 anos de idade. </span></p>
<p><a href="https://personaunesp.com.br/ciranda-de-pedra-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Ciranda de Pedra</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Verão no Aquário</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">As Meninas</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Seminário dos Ratos</span></i><span style="font-weight: 400;"> são alguns dos títulos mais conhecidos da escritora, e apesar de sua destreza como romancista, os contos foram o grande destaque de sua carreira. Diante da grandeza de Lygia Fagundes e seu recente falecimento, a atual leitura do Persona não poderia ser diferente. Por isso, o escolhido da vez foi o compilado de contos </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">. Publicado pela primeira vez sob o nome de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filhos Pródigos</span></i><span style="font-weight: 400;"> em 1978, o livro junta oito contos narrados por personagens variados, em que a grande brincadeira fica por conta das transições entre realidade e pensamento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No único encontro do mês, os membros do Clube discutiram as entrelinhas do texto e tentaram desvendar os encantos por trás do ar enigmático da </span><a href="https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2022/04/11/lygia-fagundes-telles-paixao-da-palavra"><span style="font-weight: 400;">linguagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> utilizada pela autora. Entre os comentários, a sutileza ao emparelhar o intrínseco dos personagens e o mundo externo a suas individualidades, os leitores do Persona destacaram a objetividade com a qual Lygia especulava a complexidade humana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A capacidade de organizar as palavras como charadas condutoras de uma narrativa particularmente imprevisível e aberta a tantas possibilidades também foi um dos destaques da discussão. Além disso, as reflexões sobre o fator que unia tantas histórias diferentes em um produto só deu espaço para os leitores criarem suas próprias teorias. E seja pela tensão que ronda as relações interpessoais e intimistas ou pela certeza dos desenlaces decepcionantes, a conclusão foi que, se Lygia descobriu os segredos da estrutura da bolha de sabão, ela não pretendia deixá-la às claras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A política e discussões socioculturais abraçadas pela obra não foram esquecidas, e os retratos de conflitos, preconceitos e desigualdade reafirmaram a imagem de uma autora ousada e sabiamente desafiadora. Ainda, a leitura de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão </span></i><span style="font-weight: 400;">resgatou nas memórias as narrativas de Hilda Hilst e </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-paixao-segundo-gh-critica/"><span style="font-weight: 400;">Clarice Lispector</span></a><span style="font-weight: 400;">, mostrando como mesmo seus pontos em comum se exprimem com uma singularidade incomparável.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura do mês expulsou a temida Lygia dos vestibulares e deu a sua obra um passe para a imortalidade. Nesse cenário tomado por despedidas e eternização, a Literatura não pretende deixar saudade, então fique agora com as indicações dos membros do Clube do Livro para o </span><b>Estante do Persona</b><span style="font-weight: 400;"> de Abril.</span></p>
<p><span id="more-27520"></span></p>
<h3><b>Livro do Mês</b></h3>
<figure id="attachment_27523" aria-describedby="caption-attachment-27523" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27523 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro A Estrutura da Bolha de Sabão, de Lygia Fagundes Telles. Na imagem, vemos diversas formas geométricas coloridas, que se sobrepõem. As cores predominantes são verde, rosa, azul, branco e amarelo. Existem quatro flores desenhadas à direita. Abaixo, mais à esquerda, está um retângulo vertical de cor branca. Dentro dele, está escrito Lygia Fagundes Telles, em fonte de cor preta, abaixo está escrito A estrutura da bolha de sabão, em fonte de cor rosa, seguido pela palavra contos, em fonte de cor cinza. Mais abaixo, ainda dentro deste retângulo e de forma centralizada, está o logo da editora Companhia das Letras." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/lygia-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27523" class="wp-caption-text">Na obra, Lygia Fagundes Telles retrata a vida como algo frágil, fugaz e misterioso, tal qual uma bolha de sabão (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Lygia Fagundes Telles &#8211; A Estrutura da Bolha de Sabão (184 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma coleção de contos da escritora símbolo do movimento </span><a href="https://personaunesp.com.br/1922-2022-o-que-e-ser-moderno-no-brasil-artigo/"><span style="font-weight: 400;">pós-modernista</span></a><span style="font-weight: 400;">, Lygia Fagundes Telles. Guiada por um clima de tensão, não há como relaxar durante a leitura que se faz </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XyIRQJgY3a8"><span style="font-weight: 400;">genialmente desconfortável</span></a><span style="font-weight: 400;"> a todo o momento. Publicada pela primeira vez em 1978 sob o título </span><i><span style="font-weight: 400;">Filhos Pródigos</span></i><span style="font-weight: 400;">, a obra ganhou o nome do seu conto homônimo para o relançamento em 1991. Àquela época, o texto que encerra a seleção já havia se tornado um destaque na carreira de Telles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2022/04/08/interna_pensar,1358556/lygia-fagundes-telles-por-ela-mesma-eu-luto-com-a-palavra.shtml"><span style="font-weight: 400;">dama da literatura brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma romancista realista, quando ela se apropria da persona contista, não falta espaço para o fantasioso. Afinal, nos oito contos, através da sua constante abordagem da consciência humana, a autora aproveitou para usufruir sem medo algum do intenso fluxo de pensamentos das personagens. Para além, a sua característica visão sobre as grandes cidades e os vícios que acarretam a </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/colunas/pagina-cinco/2022/04/03/lygia-fagundes-telles-escritora-obra-importancia.htm"><span style="font-weight: 400;">humanidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> permaneceu singular e atraente para o leitor, sem esquecer da tradicional sinestesia da cor verde que marcou presença em alguns trechos do livro.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Não conte a ninguém, mas descobri, a bolha de sabão é o amor.” </span></i><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2022/04/08/interna_pensar,1358573/escritoras-brasileiras-ressaltam-o-legado-de-lygia-fagundes-telles.shtml"><span style="font-weight: 400;">Lygia Fagundes Telles</span></a><span style="font-weight: 400;"> nos deixou no mês de abril e, assim como ela demorou para compreender a existência de um físico que estudava a bolha de sabão, há ainda muito a desvendar sobre uma das autoras mais importantes que o Brasil já teve. Se </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tgaX90Fo3YU"><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> significa algo, esse algo é a infinitude e a eternidade do poder de suas palavras que causam sentimentos tão fortes quanto o amor.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: A Estrutura da Bolha de Sabão - Clube do Livro Abril 2022" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/3JxIVFMTZ7woZ8YyHSgjVY?si=db615094896a4cf1&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_27524" aria-describedby="caption-attachment-27524" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27524 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro A Construção de Mim Mesma. A capa é branca e tem uma borboleta roxa no centro. No topo da imagem, lemos o nome da autora, Letícia Lanz, e abaixo da borboleta está o título do livro: A Construção de Mim Mesma. Abaixo, está o subtítulo, em fonte menor: Uma história de transição de gênero. Abaixo, vemos o logo da editora Objetiva." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/construcao-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27524" class="wp-caption-text">Autora de A Construção de Mim Mesma, Letícia Lanz é psicanalista, palestrante, ativista e foi candidata à prefeitura de Curitiba em 2020 (Foto: Objetiva)</figcaption></figure>
<p><b>Letícia Lanz &#8211; A Construção de Mim Mesma (112 páginas, Objetiva)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos nomes de maior relevância para a </span><a href="https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/leticia-lanz-e-o-complexo-mundo-transgenero"><span style="font-weight: 400;">comunidade trans no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">, Letícia Lanz decide por contar sua própria história no sincero </span><i><span style="font-weight: 400;">A Construção de Mim Mesma</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com o subtítulo </span><i><span style="font-weight: 400;">Uma história de transição de gênero</span></i><span style="font-weight: 400;">, a obra de não-ficção transita entre o espaço e o tempo para que Letícia, uma mulher já na terceira idade, se apresente ao mundo da maneira que sempre o fez no individual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A honestidade se junta à brevidade da escrita da autora, sempre buscando situar quem lê na mente de alguém que nasceu em estado de discordância do gênero a que foi atribuída no nascimento. Do </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/31/transicionei-aos-50-anos-apos-sofrer-um-infarto.htm"><span style="font-weight: 400;">apoio que recebeu da esposa</span></a><span style="font-weight: 400;"> até a parceria que firmou com diversas amigas da comunidade </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i><span style="font-weight: 400;">, Lanz faz sua rede de apoio se estender para além das páginas. </span><b>&#8211; Vitor Evangelista</b></p>
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<figure id="attachment_27525" aria-describedby="caption-attachment-27525" style="width: 729px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27525 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/O-Escaravelho-do-Diabo-1-729x1024.jpg" alt=" Imagem da capa do livro O Escaravelho do Diabo. A arte de capa consiste em um fundo amarelado na parte superior e em um fundo verde a partir do meio da altura do livro. No fundo amarelado na parte superior, está escrito o nome da escritora, Lúcia Machado de Almeida, seguido do título da obra, O Escaravelho do Diabo. Ambos os nomes estão em caixa alta na cor verde. No fundo verde a partir do meio da altura do livro, está um desenho de um besouro de cor vermelha. Na parte inferior do livro, também de fundo verde, estão localizados os logos da Editora Ática em tom amarelado." width="729" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/O-Escaravelho-do-Diabo-1-729x1024.jpg 729w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/O-Escaravelho-do-Diabo-1-569x800.jpg 569w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/O-Escaravelho-do-Diabo-1-768x1079.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/O-Escaravelho-do-Diabo-1.jpg 926w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27525" class="wp-caption-text"><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/foi-um-risco-diz-diretor-sobre-adaptar-o-escaravelho-do-diabo/">O Escaravelho do Diabo</a> foi adaptado para as telas do Cinema em 2016 (Foto: Editora Ática)</figcaption></figure>
<p><b>Lúcia Machado de Almeida &#8211; O Escaravelho do Diabo (128 páginas, Ática)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos meados da década de 70, a </span><i><span style="font-weight: 400;">Editora Ática</span></i><span style="font-weight: 400;"> lançou no Brasil a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BV_0jlXFWss"><i><span style="font-weight: 400;">Coleção Vaga-Lume</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, uma série de livros voltada para o público infantojuvenil. Facilmente reconhecidos pelas artes de capa emolduradas, grande parte dos títulos se tornaram clássicos que marcaram gerações. Entre eles, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Escaravelho do DiaboI,</span></i><span style="font-weight: 400;"> da autora mineira </span><a href="https://www.otempo.com.br/diversao/biografia-repassa-a-vida-da-escritora-e-mecenas-lucia-machado-de-almeida-1.2465632"><span style="font-weight: 400;">Lúcia Machado de Almeida</span></a><span style="font-weight: 400;">, foi e ainda é um dos principais responsáveis por despertar o interesse pelo suspense policial na literatura nacional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientada em uma pequena cidade do interior, a narrativa sobre a sequência de assassinatos de pessoas ruivas e a sua relação com besouros é repleta de mistério. Por se tratar de uma obra de leitura simples e por marcar presença nas estantes de leitura jovem das bibliotecas, </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2016/04/o-escaravelho-do-diabo-veja-10-curiosidades-da-serie-vaga-lume.html"><i><span style="font-weight: 400;">O Escaravelho do Diabo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> sempre entrou em contato com os leitores mais precoces. Por isso, não é exagero admitir que os escritos de Almeida formam e ensinam desde a sua primeira publicação. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_27533" aria-describedby="caption-attachment-27533" style="width: 663px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27533 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1-663x1024.jpg" alt="Reprodução da capa do livro As coisas de Tobias Carvalho. A capa é de um vermelho escuro e, por apenas um traço fino e preto, se forma um desenho de um rosto. Acima do título, que encontra-se no centro da capa, em letras brancas, encontra-se o nome do autor, escrito também em branco. Abaixo, informa-se que é um livro de contos e sua vitória no Prêmio Sesc de Literatura 2018. No canto inferior direito, o selo do Grupo Editorial Record." width="663" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1-663x1024.jpg 663w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1-518x800.jpg 518w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1-768x1186.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1-995x1536.jpg 995w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1-1326x2048.jpg 1326w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1-1200x1853.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Coisa-1-1.jpg 1607w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27533" class="wp-caption-text">As Coisas, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, tece, em inúmeros fios, as aventuras de homens gays na vivência do desejo e da identidade (Foto: Grupo Editorial Record)</figcaption></figure>
<p><b>Tobias Carvalho &#8211; As Coisas (144 páginas, Record)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro de estreia do porto-alegrense Tobias Carvalho é uma abertura ao universo de encontros e desencontros de seus personagens, homens gays, moradores de Porto Alegre e engajados na negociação de suas afetividades na </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i><span style="font-weight: 400;">. Em seus contos, Carvalho traz momentos da vida cotidiana enclausurados em texto, levando o leitor até mesmo a se perguntar o que ocorreu realmente ao autor ou o que foi simplesmente uma conversa de bar guardada com um preciosismo digno de um item de colecionador.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">As Coisas</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><span style="font-weight: 400;">o que pulsa é a vida desses homens em relação ao mundo exterior que os abraça e hostiliza simultaneamente. Desde uma discussão de relacionamento em mensagens de texto a sucessivas transas mediadas pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Grindr </span></i><span style="font-weight: 400;">em um dia de tédio, as experiências gays são contempladas e esmiuçadas como pequenas joias de uma realidade muitas vezes escondida na Literatura </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><span style="font-weight: 400;">que parece ainda negar as formas que pessoas homossexuais se </span><a href="https://www.record.com.br/as-coisas-de-tobias-carvalho/#:~:text=Mas%20acho%20tamb%C3%A9m%20que%20d%C3%A1%20para%20virar%20a%20p%C3%A1gina%2C%20falar%20sobre%20o%20que%20vem%20a%20partir%20da%C3%AD%2C%20naturalizar%20que%20as%20rela%C3%A7%C3%B5es%20homossexuais%20existem%2C%20mas%20estar%20atento%20%C3%A0s%20particularidades%20que%20elas%20trazem."><span style="font-weight: 400;">relacionam fora da ficção</span></a><span style="font-weight: 400;">, assim construindo a mesma e velha estória amparada na descoberta sexual e do jogo sedutor do sigilo. </span><b>&#8211; Enzo Caramori</b></p>
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<figure id="attachment_27527" aria-describedby="caption-attachment-27527" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27527 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1-668x1024.jpg" alt="Capa do livro Cartas de Amor aos Mortos. A capa apresenta um degradê de cima para baixo com as cores preto, azul escuro, tons de azul mais claro, roxo, lilás e coral. Entre as cores aparecem nuvens esbranquiçadas e estrelas de tamanhos variados, representando o céu. O título está centralizado e as palavras “Cartas”, “Amor” e “Mortos” tem fontes maiores em relação às outras. “Mortos” está grafado na cor preta e há uma menina sentada na primeira letra O com os pés apoiados na letra T, ela veste uma camiseta com short jeans e está escrevendo em um caderno. Na porção inferior da capa aparece o nome da autora e a editora, já na porção superior há um pequeno texto com a opinião de Stephen Chbosky sobre o livro." width="668" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1-668x1024.jpg 668w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1-522x800.jpg 522w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1-768x1178.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1-1001x1536.jpg 1001w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1-1335x2048.jpg 1335w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1-1200x1840.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Cartas-de-Amor-aos-Mortos-1.jpg 1617w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27527" class="wp-caption-text">“Ninguém pode salvar ninguém, não de verdade. Não de si mesmo” (Foto: Editora Seguinte)</figcaption></figure>
<p><b>Ava Dellaira &#8211; Cartas de Amor aos Mortos (344 páginas, Seguinte)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado em 2014, </span><i><span style="font-weight: 400;">Cartas de Amor aos Mortos</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o romance de estreia da norte- americana Ava Dellaira. Escrito em narrativa </span><a href="https://personaunesp.com.br/dracula-critica/"><span style="font-weight: 400;">epistolar</span></a><span style="font-weight: 400;">, o texto nos guia pelas palavras de Laurel, uma adolescente desestabilizada lidando com o luto gerado pela misteriosa morte de sua irmã mais velha, May. Tentando se reinventar, a protagonista começa o Ensino Médio em uma escola nova, e em suas aulas de Inglês recebe a curiosa tarefa de escrever uma carta para um morto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Motivada pela atividade, Laurel passa a escrever cartas para artistas como Kurt Cobain, </span><a href="https://personaunesp.com.br/pearl-janis-joplin-50-anos/"><span style="font-weight: 400;">Janis Joplin</span></a><span style="font-weight: 400;">, Heath Ledger, Judy Garland, Elizabeth Bishop e </span><a href="https://personaunesp.com.br/amy-winehouse-morte-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">Amy Winehouse</span></a><span style="font-weight: 400;">. Escrever para os mortos se torna um portal, não um que desvenda os segredos da morte, mas que guarda os da vida. Entre questionamentos sobre a trajetória das celebridades e reflexões geradas pelo seu próprio dia a dia, cada carta revela uma parte do consternante amontoado de angústias residentes na personagem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto dedica seus monólogos letrados a uma celebridade ou outra, Laurel mostra a verdade, e seus medos, inseguranças, traumas, amores e individualidade ganham espaço nas grafias. Assim, dos dramas às conquistas, a autora entrega uma descrição moldada por palavras tão sinceras e palpáveis que permitem ao leitor a experimentação mais genuína e aflitiva da empatia. Em suma, </span><a href="https://www.meon.com.br/meonjovem/alunos/resenha-cartas-de-amor-aos-mortos"><i><span style="font-weight: 400;">Carta de Amor aos Mortos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é apaixonante ao destrinchar a controversa dor do amor. </span><b>&#8211; Jamily Rigonatto</b></p>
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<figure id="attachment_27528" aria-describedby="caption-attachment-27528" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27528 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1-686x1024.jpg" alt="Capa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem, há um fundo vermelho com pequenas manchas em cor branca, simulando fios de barba. À direita, está escrito “Barba ensopada de sangue” em fonte de cor branca. Abaixo, está o logo da editora Companhia das Letras, em fonte de cor branca, e à esquerda está escrito “Daniel Galera”, também em fonte de cor branca." width="686" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1-686x1024.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1-1029x1536.jpg 1029w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1-1200x1792.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/barba-1.jpg 1664w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27528" class="wp-caption-text">Barba ensopada de sangue é o 4º romance de Daniel Galera, e completa 10 anos em Maio de 2022 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Daniel Galera &#8211; Barba ensopada de sangue (424 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido em São Paulo, mas radicado em Porto Alegre, </span><a href="https://danielgalera.info/#livros"><span style="font-weight: 400;">Daniel Galera</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi um dos fundadores da editora </span><a href="https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/37422"><i><span style="font-weight: 400;">Livros do Mal</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2001-2004) – junto a </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13510"><span style="font-weight: 400;">Daniel Pellizzari</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Guilherme Pilla. Além de escritor de fôlego, é também ensaísta e tradutor literário, tendo vertido para o português obras de </span><a href="https://personaunesp.com.br/graca-infinita-critica/"><span style="font-weight: 400;">David Foster Wallace</span></a><span style="font-weight: 400;">, Zadie Smith e Chris Ware. Em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12453"><i><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – seu quarto e premiado romance, que completa 10 anos de lançamento em 2022 –, acompanhamos um protagonista sem nome (por vezes chamado de “nadador”), um professor de Educação Física que, após o suicídio do pai, se muda para Garopaba, cidade litorânea de Santa Catarina. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse personagem possui uma condição: não é capaz de memorizar faces. Dessa forma, se esquece também de suas próprias feições, percebendo posteriormente que são similares à do seu avô, assassinado no passado, cujas circunstâncias do crime seguem obscurecidas. Ao estilo das obras de </span><a href="https://www.theguardian.com/culture/2022/mar/09/cormac-mccarthy-two-new-novels-coming-in-2022-16-years-after-the-road"><span style="font-weight: 400;">Cormac McCarthy</span></a><span style="font-weight: 400;">, vagamos através da história como espectros, guiados por narrações em terceira pessoa e diálogos reveladores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em alguns momentos, a observação excessiva sobre pequenos detalhes reafirma a condição do protagonista – única voz que nos apresenta a narrativa –, evidenciando aquilo que ele próprio vê: um emaranhado de acontecimentos cometidos por pessoas sem rosto, lembradas por seus gestos e particularidades. </span><i><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span></i><span style="font-weight: 400;"> é potente ao revelar as diversas situações e condições que se somam para constituir a identidade, além de apontar para uma certa hereditariedade de acontecimentos que sucedem nossas vidas. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_27529" aria-describedby="caption-attachment-27529" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27529 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador-668x1024.jpg" alt="Capa do livro O Observador no Escritório, de Carlos Drummond de Andrade. A imagem tem fundo branco, que recebe uma fotografia em preto e branco do autor, ocupando a metade inferior da capa. Ele é um homem branco, usa óculos grossos arredondados e um terno escuro. Carlos está sentado à frente de uma mesa, com as mãos repousadas sobre uma máquina de escrever. Ele olha para o lado direito, fora da imagem. Na linha superior, está escrito o nome do livro, em fonte simples e caixa alta, num tom de verde médio. Embaixo do título, está o nome do autor, no mesmo estilo de fonte, porém em preto. No canto inferior direito da capa, existe o logo da editora, também em preto sob o fundo branco." width="668" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador-668x1024.jpg 668w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador-522x800.jpg 522w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador-768x1177.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador-1002x1536.jpg 1002w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador-1336x2048.jpg 1336w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador-1200x1839.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/o-observador.jpg 1618w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27529" class="wp-caption-text">Reza a lenda que por pouco os diários pessoais de Carlos Drummond de Andrade perderam-se para sempre antes de se transformarem no livro lançado em 1985, sendo um alvo desejado e material quase findado pela tesoura crítica do autor (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Carlos Drummond de Andrade &#8211; O Observador no Escritório (272 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A medida que os fantasticamente ordinários contos de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> eram manifestos na linguagem crua e radical de Lygia Fagundes Telles, o fundo bruto de realidade da Dama da Literatura brasileira parecia evocar uma aproximação com a capacidade analítica criativa do nosso </span><i><span style="font-weight: 400;">poeta de sete faces</span></i><span style="font-weight: 400;">. O fenômeno ainda está em fase de compreensão, mas para compor a mais recente Estante do Persona, não pude deixar de atender ao clamor de Carlos Drummond de Andrade e de sua obra diarista, que ao construir suas observações de mundo com a perspicácia de sempre e um humor refresco, se coloca, de uma forma intrigante e bem específica, mais uma vez ao lado de sua querida </span><a href="https://personaunesp.com.br/1922-2022-o-que-e-ser-moderno-no-brasil-artigo/"><span style="font-weight: 400;">parceira modernista</span></a><span style="font-weight: 400;"> com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Observador no Escritório</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fato que a amizade entre </span><a href="https://vermelho.org.br/2012/11/20/lygia-fagundes-telles-ele-me-estendeu-a-mao/"><span style="font-weight: 400;">Telles e Drummond</span></a><span style="font-weight: 400;"> já detém &#8211; literalmente &#8211; a licença poética necessária para esse tipo de referência. Mas algo especial acontecia quando Carlos encerrava seu hábito de tomar notas pessoais, mantido desde 1943, em setembro de 1977 &#8211; dez anos antes de sua morte e um ano antes do lançamento da referida obra de Lygia. Ela, emergindo suas palavras nas camadas profundas das relações humanas, recorria à ficção. Ele, atento e envolvido em um período de intensas mudanças no país, se encarregava de retratá-lo com sinceridade e riqueza de linguagem. E quando um dos auges da ficcionalização dela se relaciona com o centro da realidade dele, o resultado é um daqueles eventos celestes tão estrondosos quanto misteriosos, que só o universo da Literatura pode conceber. </span><b>&#8211; Raquel Dutra</b><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
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		<title>Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Mar 2022 17:32:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto &#8220;–claro, – respondi entendendo que o tempo sempre leva as nossas coisas preferidas no mundo e nos esquece aqui olhando pra vida sem elas&#8221; Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em O peso do pássaro morto, Aline Bei &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-peso-do-passaro-morto-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26736" aria-describedby="caption-attachment-26736" style="width: 709px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26736 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg" alt="Capa do livro O peso do pássaro morto. Na imagem, um fundo roxo carrega o título da obra como se as palavras estivessem apoiadas em fios elétricos pretos. No canto superior direito está grafado o nome da autora em branco, já no canto inferior esquerdo é marcada a logo da editora. Ainda há nos extremos da capa os números: 8, 17, 18, 28, 37, 48, 49, 50, 52." width="709" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg 709w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-554x800.jpg 554w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-768x1109.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1063x1536.jpg 1063w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1418x2048.jpg 1418w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1200x1733.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1.jpg 1595w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26736" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto, publicado pela Editora Nós em 2018, é a obra de estreia de Aline Bei (Foto: Editora Nós)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;–claro, – respondi<br />
</span><span style="font-weight: 400;">entendendo que o tempo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sempre leva<br />
</span><span style="font-weight: 400;">as nossas coisas preferidas no mundo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">e nos esquece aqui<br />
</span><span style="font-weight: 400;">olhando pra vida<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sem elas&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto, </span></i><span style="font-weight: 400;">Aline Bei nos convida para integrar essas perguntas em sua poética questionadora, que desde o lançamento do livro em 2018, compõe o ar encantador habitante da crueldade. Em um retrato versado pelo gosto amargo de perder, a autora de </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Rua sem saída</span></i><span style="font-weight: 400;"> apoia-se em palavras duras e sinceras para explorar o ato de se despedir, com toda sua naturalidade devastadora. </span></p>
<p><span id="more-26735"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado pela Editora </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2021/08/13/interna_pensar,1295420/virginia-woolf-leia-entrevista-com-editora-brasileira-de-ensaios-e-diarios.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Nós</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o texto traz uma história comovente na qual a piedade fica por conta do leitor. Com uma escrita proseada e absolutamente fluida, somos  guiados pelos caminhos de uma vida marcada pela morte de flores secas, depois de abandonadas. Através de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos coloca para viajarem sonhos sem asas, dos quais a chance de voar para longe de uma grande gaiola atulhada de frustrações foi roubada pelo tempo. </span></p>
<figure id="attachment_26737" aria-describedby="caption-attachment-26737" style="width: 740px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26737" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.2.jpg" alt="Na imagem a autora Aline Bei. Aline é uma mulher branca de cabelos claros, veste uma roupa de tom quase branco com os ombros à mostra. Ela segura o livro O peso do pássaro morto próximo ao seu rosto. Ao fundo um painel vermelho e o logo da editora constituem o cenário. " width="740" height="640" /><figcaption id="caption-attachment-26737" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto foi o vencedor do prêmio São Paulo de Literatura de 2018, na categoria Melhor Romance de Autor Estreante com Menos de 40 anos (Foto: Aline Bei)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apresentada em primeira pessoa, a personagem de </span><a href="https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Noticia/Entrevista-Aline-Bei#:~:text=Na%20entrevista%20a%20seguir%2C%20Aline,O%20Peso%20do%20P%C3%A1ssaro%20Morto."><span style="font-weight: 400;">Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> não precisa revelar seu nome para nos ser tão íntima a ponto de conhecermos o mais silencioso de dentro dela. Sua urgência vive na narrativa que tem para contar. Em capítulos intitulados pelas idades em que conheceu o incontrolável ato de morrer – seja de forma literal ou na abstração –, ela desabrocha em vocábulos o tom angustiante existente em suas decepções, fracassos e traumas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo das fases do livro, a </span><a href="https://blogs.plural.jor.br/entre-mulheres/uma-entrevista-com-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> amadurece, e o que eram palavras de uma criança curiosa e cheia de perguntas carregadas de inocência, dá lugar para uma voz embargada e desesperançosa. A mudança na escolha lexical, no entusiasmo e na estrutura das frases a cada acontecimento significativo, cria uma atmosfera na qual o livro envelhece e se machuca junto de sua protagonista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> sabe conduzir a oralidade de maneira única, e é fácil esquecer que </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> se trata de uma leitura, pois assim, o som emitido pela protagonista se solidifica. Desta forma, os vários anos parecem se condensar em um espaço pequeno, mas totalmente completo por complexidade e sentimento. As 165 páginas construtoras da dor da anônima voam tão rápido quanto os pássaros deveriam ter feito.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;voltei pra casa chamando mãe,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">– cadê o seu luís?<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ela não tinha me contado nada porque achou que era muita morte pra eu saber de uma vez só.&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A</span><span style="font-weight: 400;"> menina que aos 8 encontra o significado da </span><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/a-dificuldade-de-falar-sobre-a-morte/"><span style="font-weight: 400;">morte</span></a><span style="font-weight: 400;"> como fim da vida, a de 17 que encontra a morte no fim do controle de si mesma, e a de 18 que encontra a morte no começo da vida segue perdendo seus pedaços até os 52 anos. Todas as versões se cruzam para formar uma sobrevivente, e no piloto automático resiste uma mulher que, de tanto perder, abdicou do seu direito de sentir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em algum ponto de </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ser dá lugar ao existir, e os gostos, as vontades e os desejos da personagem são ofuscados por acontecimentos. A pergunta deixa de ser “</span><i><span style="font-weight: 400;">quem?</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e se torna “</span><i><span style="font-weight: 400;">quando?”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">onde?”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Calada por um medo e vergonha que não eram seus, mas passaram a morar em seu âmago </span><a href="https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/11/16/luto-e-dor-invisiveis-como-o-estupro-afeta-a-saude-mental-das-vitimas.htm"><span style="font-weight: 400;">à força</span></a><span style="font-weight: 400;">, ela se esconde e passa a desconhecer o amor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação com o filho é uma dos maiores conflitos abrigados pela mente da personagem, já que alguém vindo de seu sangue, na teoria da </span><a href="https://sul21.com.br/noticias/geral/2017/05/outro-lado-da-maternidade-estereotipos-expectativas-e-mitos-sao-barreiras-para-maes/"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> idealizada pela sociedade, é o amor mais verdadeiro e incodicional da vida de uma mulher. Entretanto, aqui ele representa um estranho com o qual se compartilha o mesmo teto. Por trás das barreiras, há feridas tão profundas que são incapazes de esconder a extensão do desespero. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;meu filho<br />
</span><span style="font-weight: 400;">arrumou 1 Estilingue não sei onde.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">da janela do quarto<br />
</span><span style="font-weight: 400;">o lucas e os amigos<br />
</span><span style="font-weight: 400;">bolaram um plano de matar<br />
</span><span style="font-weight: 400;">passarinhos,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">eles gostam de ver<br />
</span><span style="font-weight: 400;">brutalmente interrompido<br />
</span><span style="font-weight: 400;">algo delicado que estava em<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Movimento&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao fim, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> está intrinsecamente ligado às </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/aline-bei-faz-da-literatura-um-instrumento-a-servico-das-mulheres.shtml"><span style="font-weight: 400;">mulheres</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ao movimento dos corpos femininos transformados em objetos públicos para o mundo se sentir no direito de  moldar. Em suas entrelinhas, o livro guarda a alusão a tudo que as mãos de uma mulher tem de soltar enquanto a alma carrega um peso latente e agressivo determinado pela trivialidade de ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com simplicidade e brutalidade, o texto expõe os resultados dolorosos de cortes que continuam ardendo depois de estancar o sangue. Cada parte do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EJ2TSnZjpYg"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> revela como uma pessoa pode deixar se ser inteira cedo demais de uma forma cativante e aflitiva. Assim, perder não é sobre um objeto desaparecido. É sobre vida, ingenuidade, pureza, confiança e tudo que representa a fé, sumindo como o pássaro que é acertado pela pedra de um estilingue.</span></p>
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		<title>Carolina Maria de Jesus e o Quarto de despejo persistem</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 18:53:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez Das confissões mais íntimas de Carolina Maria de Jesus, surge Quarto de despejo. Mesmo com mais de 1 milhão de cópias vendidas &#8211; 10 mil só na primeira semana -, tendo ganhado traduções para 13 idiomas e sendo comercializado em mais de 40 países, o nome da autora não significava tanto, à &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/quarto-de-despejo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Carolina Maria de Jesus e o Quarto de despejo persistem"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26714" aria-describedby="caption-attachment-26714" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26714" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-800x420.jpg" alt="Montagem com a capa do livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada. Ao centro, em frente a um fundo amarelo, vemos a capa azul clara. No topo, vemos grafismos em branco, que aparentam imitar a silhueta das casas de uma favela. Ao centro, vemos a palavra “QUARTO” e, abaixo, “de DESPEJO”, em branco, uma letra sem serifa, estilizada. Logo abaixo, vemos as palavras “Diário de uma favelada”, em branco. Abaixo, vemos as palavras “CAROLINA MARIA DE JESUS”, em caixa alta, em uma fonte serifada e branca. Na parte inferior central, vemos o logo da editora Ática e, logo abaixo, as palavras “editora ática”, em caixa baixa e em branco." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/QUARTODEDESPEJOWORDPRESS_VITORIA.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26714" class="wp-caption-text">Quarto de despejo foi o livro debatido em Fevereiro pelo Clube do Livro do Persona; hoje, 14 de março, sua autora completaria 108 anos (Foto: Editoria Ática)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das confissões mais íntimas de Carolina Maria de Jesus, surge </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo com mais de 1 milhão de cópias vendidas &#8211; 10 mil só na primeira semana -, tendo ganhado traduções para 13 idiomas e sendo comercializado em mais de 40 países, o nome da autora não significava tanto, à época, quanto agora &#8211; que ainda é pouquíssimo, se comparado aos devidos créditos merecidos. Mulher negra, mãe solo, moradora da favela, antes de ter seus diários publicados, a luta do dia a dia de Carolina era por comida. </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-10-08/carolina-maria-de-jesus-a-escritora-da-favela-que-virou-fenomeno-editorial.html"><span style="font-weight: 400;">Seus escritos</span></a><span style="font-weight: 400;"> sempre foram importantes para ela, mas nunca mais do que os filhos e o árduo trabalho diário, o único meio de alimentá-los.</span></p>
<p><span id="more-26694"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, na favela do Canindé, a poeta &#8211; como ela mesmo se intitulava &#8211; foi encontrada. A descoberta aconteceu corriqueiramente, quando o jornalista Audálio Dantas caçava uma reportagem no local, no final da década de 50. Ele buscava retratar o cotidiano e as pessoas que ocupavam aquele espaço, mas os relatos de Carolina, escritos em mais de 35 diários encontrados onde ela vivia, contavam a história do lugar e de seus habitantes melhor do que qualquer matéria jornalística faria. E assim foi: compilando e editando os cadernos da autora, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g4iqwB1QUn8"><span style="font-weight: 400;">Dantas</span></a><span style="font-weight: 400;"> primeiro publicou trechos nos jornais </span><i><span style="font-weight: 400;">Folha de São Paulo</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">O Cruzeiro</span></i><span style="font-weight: 400;">; depois, a coletânea final foi lançada em 1960 como o livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26695" aria-describedby="caption-attachment-26695" style="width: 680px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26695" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/foto-audalio-dantas.jpg" alt="" width="680" height="470" /><figcaption id="caption-attachment-26695" class="wp-caption-text">Em 2022, o Instituto Moreira Salles organizou a exposição “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros”, dedicada à trajetória e produção literária da autora (Foto: Editora Malê)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na obra, Carolina Maria de Jesus retrata as vivências na favela, que, antes de ser </span><a href="https://treinamento24.com/library/lecture/read/373070-como-era-a-favela-do-caninde-em-1960"><span style="font-weight: 400;">desocupada</span></a><span style="font-weight: 400;">, ficava às margens do Rio Tietê, em São Paulo. Documentando o dia a dia, ela discorre sobre a fome, sobre as condições de moradia, saneamento básico e saúde, sobre as relações e dinâmicas interpessoais, preconceitos e violências, e sobre o estado de invisibilidade social a qual os favelados eram submetidos. Inclusive, apesar da autora deixar claro sua aversão pela vida que era obrigada a levar, ela emprega “favelados” não como uma injúria, mas descrevia os moradores da comunidade se reconhecendo entre eles.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como Audálio Dantas constatou, o livro é um documento digno de uma análise sociológica, mas mesmo um profissional da área não conseguiria entender a totalidade das palavras escritas por Carolina. “</span><i><span style="font-weight: 400;">É um documento que um sociólogo poderia fazer estudos profundos, interpretar, mas não teria condição de ir ao cerne do problema e ela teve, porque vivia a questão</span></i><span style="font-weight: 400;">”, </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-03/brasil-lembra-centenario-de-escritora-que-definiu-favela-como-quarto-de"><span style="font-weight: 400;">afirmou</span></a><span style="font-weight: 400;"> o jornalista na época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante as 200 páginas do trabalho, a autora conta situações, misturando-as com sentimentos e percepções. Em um trecho, por exemplo, ela descreve a fome em cores. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Mesmo que as </span><span style="font-weight: 400;">condições de precariedade</span><span style="font-weight: 400;"> fossem conhecidas, Carolina, que </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/14/cultura/1521065374_369396.html"><span style="font-weight: 400;">as viveu</span></a><span style="font-weight: 400;">, as colocou no papel melhor do que qualquer escritor de ficção ou repórter conseguiria, simplesmente por entendê-las. “</span><i><span style="font-weight: 400;">A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela escreve em outro momento.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visitas com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quanto estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo</span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais triste que seja, é a pessoalidade da poeta que torna </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">potente, impactante e triste como é. Características essas que se estendem à Literatura de Carolina. Antes de rumar a São Paulo, em 1937, e à favela do Canindé, em 1947, </span><a href="https://ponte.org/carolina-maria-de-jesus-a-escritora-que-ainda-precisa-ser-conhecida-e-reconhecida/"><span style="font-weight: 400;">Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;"> nasceu no interior de Minas Gerais, vinda de família simples, sofreu maus tratos na infância e frequentou a escola por menos de dois anos. O pouco tempo de estudo, porém, foi o suficiente para que ela desenvolvesse gosto pela leitura e pela escrita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que não haja provas concretas, é provável que a autora tenha sido autodidata. Semianalfabeta, os livros tiveram influência em sua vida, como ela mesmo destaca em trechos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i><span style="font-weight: 400;">: em mais de um momento, ela declara o desejo de comprá-los e lamenta que gaste o pouco dinheiro que ganha somente com alimentos. O papel importante da Literatura também é percebido na forma como ela escreve: misturado à redação com erros gramaticais e expressões próprias, </span><a href="https://ims.com.br/exposicao/carolina-maria-de-jesus-ims-paulista/"><span style="font-weight: 400;">Carolina</span></a><span style="font-weight: 400;"> emprega um vocabulário rebuscado, provavelmente espelhado de obras que consumia.</span></p>
<figure id="attachment_26696" aria-describedby="caption-attachment-26696" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26696" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-800x518.jpeg" alt="Recorte de jornal antigo. O recorte de jornal, duas páginas abertas, mostra, do lado esquerdo, uma foto em preto e branco de Carolina Maria de Jesus escrevendo em um caderno. Ao lado dela, vemos o título “A fome fabrica uma escritora” e um bloco de texto. Na página da direita, vemos duas fotos em preto e branco, uma seguida da outra ao longo da página. A primeira mostra crianças brincando e um menino pulando de braços abertos. A segunda mostra crianças e mulheres adultas pegando alguma coisa do chão de grama, às margens de um rio." width="800" height="518" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-800x518.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-1024x663.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-768x497.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-1200x777.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26696" class="wp-caption-text">“Será que Deus sabe que existe as favelas e que os favelados passam fome?” (Foto: O Cruzeiro)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">narra o cotidiano completo da favela. Escritos ao mesmo tempo que a autora trabalhava como catadora de papel para sustentar a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/netas-de-escritora-carolina-maria-de-jesus-dizem-viver-quarto-de-despejo-2.shtml"><span style="font-weight: 400;">família</span></a><span style="font-weight: 400;">, os diários ganhavam mais páginas completas quando sobrava tempo. Em trechos, ela descreve a penosa rotina: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Saí indisposta, com vontade de deitar. Mas, o pobre não repousa. Não tem o privilegio de gosar descanço</span></i><span style="font-weight: 400;">” e “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando</span></i><span style="font-weight: 400;">” são alguns dos exemplos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se a obra é sobre a favela, sob o olhar e as palavras de uma favelada, o vocabulário próprio de Carolina é fundamental para o entendimento do livro e da jornada de sua autora. Erros gramaticais, de concordância e pontuação, além do uso de expressões próprias, foram mantidas em todas as edições publicadas e destacam ainda mais para o dom de Maria de Jesus. As peculiaridades do texto de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> o tornam cru: dos diários, íntimos e pessoais, ouvimos a versão dela sobre sua própria vida, impactante por si só.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Passei no Frigorífico, peguei uns ossos. As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer. E elas dizem que é para os cachorros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até eu digo que é para os cachorros…</span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da intimidade dos diários, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qRjDmmWAFEo"><span style="font-weight: 400;">Carolina Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;"> não escondia que tinha o sonho de publicá-los. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Tem hora que eu odeio o repórter Audalio Dantas. Se ele não prendesse o meu livro eu enviava os manuscritos para os Estados Unidos e já estava socegadaI</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreve. Inclusive, a poeta usava seu trabalho como sua arma, tanto para manter a esperança no presente, para o futuro, quanto para se portar frente aos outros moradores do Canindé. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela declara, depois de citar nomes e descrever situações ao pé da letra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/09/01/obra-musical-de-carolina-maria-de-jesus-vem-a-tona-em-exposicao-sobre-a-escritora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">voz da escritora</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém, já chegou a ser desacreditada. Como disserta Maria Lúcia de Barros Mott, no artigo </span><i><span style="font-weight: 400;">Escritoras negras: resgatando a nossa história</span></i><span style="font-weight: 400;">, alguns críticos “</span><i><span style="font-weight: 400;">olhavam com reservas a obra de Carolina, negando inclusive a autoria de seus livros, atribuindo Quarto de despejo ao jornalista Audálio Dantas. E esta não é a primeira vez que o livro de uma escritora negra tem autoria atribuída ao apresentador da obra</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Os descréditos foram constantes, mas a obra, de início, foi sucesso de vendas Brasil à fora e chamou atenção do </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/08/4944037-casa-de-alvenaria-de-carolina-de-jesus-recupera-diario-da-escritora.html"><span style="font-weight: 400;">mercado literário</span></a><span style="font-weight: 400;"> nacional.</span></p>
<figure id="attachment_26697" aria-describedby="caption-attachment-26697" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/carolina-2.jpg" alt="" width="800" height="662" /><figcaption id="caption-attachment-26697" class="wp-caption-text">Carolina Maria de Jesus faleceu em Fevereiro de 1977, aos 62 anos, vítima de uma crise de insuficiência respiratória (Foto: Acervo UH/Folhapress)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O problema veio poucos anos depois. O </span><i><span style="font-weight: 400;">boom </span></i><span style="font-weight: 400;">arrecadou elogios e reconhecimentos para Carolina, suficientes, inclusive, para que ela realizasse o sonho de sair da favela do Canindé. Ela, os filhos José Carlos e João José e a filha Vera Eunice </span><a href="https://elle.com.br/cultura/carolina-de-jesus"><span style="font-weight: 400;">foram residir em Santana</span></a><span style="font-weight: 400;">, bairro de classe média em São Paulo. Porém, logo, Jesus, seus escritos e os assuntos sobre os quais escrevia foram esquecidos, condenados à indiferença, mais uma vez. Prova disso é o livro</span> <span style="font-weight: 400;">ser estudado e disseminado em países estrangeiros mais do que nacionalmente: </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">virou </span><a href="https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/livro-de-carolina-maria-de-jesus-e-resgatado-em-vestibulares-da-ufrgs-e-unicamp-40-anos-apos-morte-de-escritora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">leitura obrigatória em vestibulares</span></a><span style="font-weight: 400;">, pela primeira vez, só em 2017, 40 anos depois da morte da escritora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desinteresse se estende à autora, mesmo depois de falecida. </span><a href="https://deliriumnerd.com/2019/09/04/diario-de-bitita-a-infancia-de-carolina-maria-de-jesus/"><i><span style="font-weight: 400;">Diário de Bitita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra póstuma, foi publicado primeiro na França, em 1982, e somente quatro anos depois chegou ao Brasil. Esse </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">apagamento</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém, não foi &#8211; e não é &#8211; surpresa. Em meio ao governo de Juscelino Kubistchek, em que o avanço prometido não se estendia às populações marginalizadas, Carolina também denunciava os políticos e as instituições, assistencialistas e oportunistas, que pouco se mobilizavam para mudar as condições da favela e só visitam o local em época de eleições. “</span><i><span style="font-weight: 400;">O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela defende.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não me convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma epoca. Se criasse os negros depois os brancos, ai os brancos podia revoltar-se”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Os diários de Maria Carolina de Jesus, além de oferecerem o cruel panorama da realidade da favela, também destacam a personalidade de sua autora. Em meio à luta diária por </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/sp/sao-paulo/noticia/2021/10/08/pessoas-buscam-ossos-de-carne-na-cacamba-de-descarte-do-mercadao-centro-de-sp.ghtml"><span style="font-weight: 400;">sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;">, Carolina se mostrava extremamente perspicaz e contundente em suas percepções. As farpas aos políticos explicitavam isso, mas a poeta também criticava os próprios moradores locais, que, segundo ela, reforçavam a barbaridade, e os provocava para a necessidade de </span><a href="http://www.justificando.com/2018/02/21/livro-quarto-de-despejo-e-suas-questoes-juridicas/"><span style="font-weight: 400;">revolta</span></a><span style="font-weight: 400;">, ao invés de aceitarem as precariedades. Muito consciente e crítica da sociedade, ela também comentava sobre sua independência como mulher, em não ser casada por opção e conseguir criar e sustentar os filhos sozinha, e dissertava sobre questões de raça e classe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma obra completa, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t3dzlAr4euo"><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">mostra a realidade nua e crua, melhor do que qualquer reportagem faria. A narrativa forte, difícil e tocante é, também, surpreendente, principalmente pela naturalidade e verdade de sua autora. Merecidamente, Carolina Maria de Jesus foi reconhecida com o título de doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2021, uma homenagem póstuma. Antes disso, em vida, teve de se mudar de Santana para um sítio em Parelheiros, extrema zona sul de São Paulo, no que seus livros já não emplacavam mais. Hoje, 45 anos após a morte da escritora, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Quarto de despejo </span></i><span style="font-weight: 400;">persiste: </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/cerca-de-8-da-populacao-brasileira-mora-em-favelas-diz-instituto-locomotiva/"><span style="font-weight: 400;">17,1 milhões</span></a><span style="font-weight: 400;"> de pessoas vivem em favelas, em todo o Brasil.</span></p>
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