X-Slasher degusta Bauru até o último pedaço

Cena do filme X-SlasherNa imagem, a mão de uma mulher branca folheia um livro de invocação. Na página direita, há um sanduíche com mãos, olhos de pepino e pés de tomate desenhado dentro de um losango, com várias escrituras. Enquanto na esquerda, está o mesmo lanche, mas desmontado. A iluminação é escura e amarela.
O filme foi produzido por meio da Lei Paulo Gustavo (Foto: Leticia Bonatelli)

Davi Marcelgo

Elm Street, Woodsboro e Nova York são algumas cidades, fictícias ou não, que protagonizaram clássicos do slasher americano. A forma como a população se comporta e os lugares que os jovens frequentam são aspectos importantes na trama destes filmes, sobretudo porque a tranquilidade dos subúrbios americanos ou o julgamento de um município interiorano são elementos que o Terror deturpa e radicaliza para tensionar os personagens e o público. Em X-Slasher (2025), dirigido por Leticia Bonatelli, os sangues nas pontas de faca desembarcam em Bauru (São Paulo), sendo o ambiente crucial para a história que quer contar. 

Entre os corpos que ficam pelo caminho, a dupla de roteiristas Gabriel Arruda e Letícia Bonatelli escolhe pontos familiares da cidade como cenários, que além de estabelecer um laço com os conterrâneos, cria um subtexto que defende a identidade do local, ao passo que discute o quão letal o interior pode ser à juventude. Não à toa, o responsável por assassinar quem ousa falar mal do lanche bauru é a representação do alimento: o mascote Bauruzinho. Nesse sentido, o curta-metragem posiciona a história de quatro amigos desrespeitosos com a cidade, que, por meio dos diálogos, entende-se que vieram de outras regiões para Bauru. 

Para aqueles oriundos da capital, o abismo da cultura alimentar e do tamanho da fronteira são questões limitantes para o cotidiano, porém, quando abrem a boca, o que sai é um terrível desdém pela localidade. Ainda assim, tanto para quem nasce quanto para quem vem de fora, a experiência de morar em um município com pouco mais de 300 mil habitantes (isso quando não tem menos de 20 mil) sufoca, principalmente os queers e os rebeldes que rompem com a tradição da família e da população. É o urbano se materializando como o símbolo clássico daquela terra para matar quem ousa sair da linha.

Cena do filme X-SlasherNa imagem, há um lanche no chão na parte inferior e uma mão estendida na parte superior, saindo de dentro de uma geladeira. A mão está escorrendo sangue, que cai no lanche e no chão. O eletrodoméstico é branco, assim como o piso no chão. O cenário é noturno.
O curta estreou na Mostra Loco de Ouro 2025 (Foto: Leticia Bonatelli)

A influência do meio está, inclusive, na Direção de Arte de Gab Garcia e no trabalho artístico de Angélica Spadari para dar vida ao cartão postal, ambos esbanjam um caráter de filme B, no sangue que parece ketchup (o que combina com uma história sobre lanche) ou na aparência do Bauruzinho. Essa característica garante o aspecto grotesco das cenas dos personagens comendo e alude ao Cinema feito com poucos recursos, que recorre à jocosidade para não ser encapsulado em termos como ‘mal feito’. Efetivamente, X-Slasher soa como uma obra que só poderia ser feita através da estética made in brazil.

O curta vai incorporar o famoso caso do furto do Bauruzinho, que aconteceu em 2008, quando uma república de estudantes levou para casa a estátua do ícone. Antes, o boneco estava fixado na Praça Vitória Régia, localizada na principal avenida do município. Porém, enquanto os jovens cineastas tentam retomar a identidade cultural da cidade, transformando o personagem em efígie do Terror, a realidade parece querer esquecer o sanduíche que leva seu nome.

No artigo O SUPLÍCIO DO BAURUZINHO: cultura local, identidade e mídia (2017), os autores Claudio Bertolli Filho e Ana Carolina Biscalquini Talamoni vão apontar que o símbolo representado pelo sanduíche foi esquecido pela mídia local, pela população e pelos representantes governamentais, que inclusive achavam o monumento de ‘mau gosto’. Filho e Biscalquini vão concluir dizendo que o Bauruzinho foi “confinado a um canto raramente visitado da rodoviária local”.

Fotografia do boneco BauruzinhoNa imagem, o boneco Bauruzinho está fixado em uma plataforma, dentro da rodoviária da cidade de Bauru. Ele é um sanduíche com olhos de pepino (na cor verde e branca), com uma carne saindo da boca, como se fosse uma língua, braços amarelos abertos, com as mãos possuindo quatro dedos, pernas amarelas e pés vermelhos, de tomate. Através dele há várias árvores e grama. Atrás, um portão de grade. Ao fundo, está a cidade, nublada.
Boneco real do Bauruzinho (Foto: Carlos Hinke)

O visual do Baurzinho e a escolha em trazer para a ficção essa preciosidade na história de Bauru residem no aspecto de conexão e memória com a cultura da cidade, mas de certa forma também contribuem para esse aspecto de vulgaridade das manifestações artísticas e culturais presentes nas ruas e no imaginário coletivo brasileiro, seja a Carreta Furacão ou o Cadeirudo, da novela A Indomada (1997). Como também para a narrativa absurda, afinal, o crime parece fantasia. Estes exageros, que surgem nas camadas populares, nunca precisaram de pompa ou grandes orçamentos para serem queridos e lembrados, assim como o Bauruzinho – apesar de sua criação ter sido fruto da iniciativa da elite e empresários locais, sua estética passa longe dos grandes salões. 

Talvez, para uma parcela da população, o verdadeiro horror, o assassino genuíno, seja ‘manchar’ a estética arquitetônica e plástica minimalista e limpa. Felizmente, a cineasta Leticia Bonatelli e toda a produção compreendem o apelo social do Bauruzinho e replicam a identidade brasileira em seu filme B, que não poderia ser outro. O artigo afirma que “Se ainda hoje é lembrado, isto se deve aos universitários de Bauru que invocam o Bauruzinho em seus trabalhos escolares ou em suas brincadeiras” e parece que a realidade não mudou, afinal o curta é um projeto de quem já ocupou as cadeiras de discentes da graduação. 

Bauru surge, então, como um cenário extremamente importante para a narrativa, tanto internamente quanto externamente. Com seus 30 minutos de duração, o curta-metragem reacende a memória local, mesmo que para isto precise usar do Terror e sua capacidade de abominar até os ingênuos. A partir de agora, o Bauruzinho pode descer do pequeno palco dedicado a ele na rodoviária e passar a dividir, ao lado do Ghostface, Jason e Zé do Caixão, o panteão das figuras aterrorizantes. Seja para trucidar adolescentes ou qualquer um que atreva-se a desrespeitar a característica local, o sanduíche estará à espreita, pronto para golpear. 

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