Amy Berg tenta castrar um Deus em It’s Never Over, Jeff Buckley

Cena do filme It’s Never Over, Jeff BuckleyNa imagem, em preto e branco, está o cantor Jeff Buckley com sua mãe Mary Guibert. Ele, no canto esquerdo, está com o rosto próximo de sua mãe, braços abaixados e sorriso forçado, posando para a foto. Seus cabelos lisos estão penteados para cima e parecem molhados. Ele está sem camisa. O cantor possui pele clara e barba por fazer. Já Mary está com uma das mãos apoiada no ombro do filho e repousa a cabeça em cima. Ela está com um sorriso largo e usa uma flor presa no cabelo, acima da orelha esquerda. Nos dedos, usa um anel. Ela veste uma roupa estampada, possui pele clara e cabelos na altura do pescoço.
O documentário foi exibido no Festival de Sundance (Foto: Universal Pictures)

Davi Marcelgo

Como alguém pode ser capaz de decidir os rumos de um projeto mesmo após morrer? It’s Never Over, Jeff Buckley, documentário que deixou o público com os olhos marejados ao final de sua primeira sessão na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é uma produção que se curva ao olhar que o compositor possuía em relação à Arte. Buckley foi uma das vozes mais exponenciais da década de 1990 nos Estados Unidos, além de compositor e guitarrista, portanto, se a direção de Amy Berg utlizasse apenas as imagens hinóticas do cantor performando, seria compreensível e não menos interessante. Porém, ela se concentra nas influências pessoais que migraram para o único disco do americano, sobretudo as mulheres que conviveram com ele. 

Essa guinada ao micro universo é habitual quando há o desejo de aproximar um ícone do público, a dessacralização em detrimento da humanização. Com Buckley é bem difícil, toda vez que ele abre a boca ou dedilha as cordas de uma guitarra, o espectador é arremessado para a miserável condição de mortal. Mas a indicada ao Oscar em 2007, Amy Berg, se esforça e não desiste de injetar mais sentimentalismo ao lirismo do músico, costurando passagens de sua vida com as canções, ressignificando-as. Ela poderia apostar todas as fichas no talento do biografado e, infelizmente, no fato de que ele morreu em 1997, no auge da fama – esse fantasma que ecoa na sala de cinema já é o suficiente para provocar comoção. 

A cineasta remove o aspecto de lenda da trajetória de Jeff Buckley, afinal, sua história possui coincidências e margens para especulações. Seu pai era cantor e morreu jovem. Ele seguiu carreira na música e também teve uma morte precoce. Um período antes de falecer, a voz de Mojo Pin dizia que viveria pouco tempo e não conseguia enxergar seu futuro. Até a forma como perdeu a vida é peculiar: um afogamento acidental enquanto nadava no Rio Wolf; seu corpo só foi encontrado dias depois. Sua história tem um quê de destino, algo mítico. Entretanto, para Berg isso são apenas detalhes a serem contados, não o foco de seu trabalho. Seu fio condutor é uma máxima do cantor, que dizia sobre a necessidade da Arte se apoiar no cotidiano. Para ele, o estrelato não era a parte mais importante da vida, encarava como uma atividade exaustiva. 

Desta forma, ela vai se apoderar das letras e relacionar com passagens da vida do astro sem fazer de modo simplista. Ao invés de somente deixar a música rolando em um videoclipe, a documentarista dá ênfase às estrofes específicas para o que ela quer demonstrar, colocando-as em uma animação de rascunhos em uma folha de papel. Como os versos da canção acima, Dream Brother, música em que Buckley fala sobre abandono paterno, ou no hino Lover, You Should’ve Come Over, encaixado para sintetizar um rompimento amoroso. 

As canções vão aparecendo no longa de forma arbitrária, sem relação com o período em que foram produzidas, mas com uma frase do cantor que diz ter precisado de 27 anos para fazê-las, ou seja, toda sua vida. Berg toma a liberdade de interpretar o mundo do musicista, modificando significados de elementos do cotidiano dele. Por exemplo, Buckley havia criado uma história para a atriz de teatro Rebecca Moore, em que ele era um peixe espinhoso (apelido que Moore deu a ele por nunca fazer a barba) e ela uma borboleta. O conto consistia em uma tragédia, pois eles não podiam ficar juntos. A diretora vai conceber diversos takes dos insetos, inclusive na casa do artista, o que vai criar uma outra conotação: ele é quem é a borboleta. Um ser com muita beleza, porém com pouco tempo para viver. 

Cena do filme It’s Never Over, Jeff BuckleyA imagem é uma representação visual do desenho que Jeff Buckley fez para uma história sobre um peixe e uma borboleta. Na foto, em um fundo escuro, há uma borboleta na parte inferior e um peixe acima, ambos com traços na cor laranja. A borboleta possui duas bolinhas nas asas, uma no canto superior da asa esquerda e outra no inferior da direita. O peixe tem dois olhos, dois pares de bigodinhos como de gato, um em cada lado do rosto. Do lado do animal e do inseto, há dois corações cada, um em cada lado. Eles não são uniformes, tendo proporções diferentes. A arte lembra a de uma criança.
Desenho que Jeff Buckley fez para sua história (Foto: Universal Pictures)

It’s Never Over, Jeff Buckley, que faz parte da seção Perspectiva Internacional do festival, começa pela infância de Jeff Buckley, pavimentando a relação com sua mãe, a principal responsável por sua criação após o pai abandoná-lo para seguir carreira no folk. Desta forma, é estabelecido o pilar que sustentará a narrativa: seus pais. De um lado, a ausência esmagadora de Tim Buckley e a negação do artista em ser comparado pela mídia com seu pai. De outro, a simbiose entre mãe e filho e os sacrifícios que ela fez para ficar com a criança: sonhos de ser pianista e atriz deixados para trás.

A questão da feminilidade e os papéis sociais das mulheres é um traço importante para Amy Berg, que vai centralizar os relatos em três figuras: sua mãe, Mary Guibert e as ex-namoradas Rebecca Moore e Joan Wasser, pessoas com quem Buckley compartilhou pedaços do mundano. A abertura do documentário traz Rebecca Moore dizendo que tentou se distanciar do estereótipo que recai sobre as mulheres que se relacionam com astros do Rock; ela não queria ser a ‘ex’. Apesar da carreira artística, em sua minibio na pesquisa do Google está “ela também é conhecida por alguns como namorada do cantor Jeff Buckley”.

Esse olhar vai ser multifacetado, refletindo em como ‘parecer mulher’ não era uma questão para o artista, que manteve a jaqueta dourada e brilhante na capa e fotografias do álbum mesmo com as alegações da produção de que não pegaria bem. Uma das namoradas vai contar que ele, às vezes, usava os vestidos dela. Isto vai refletir na forma como ele cantava, alcançando notas agudas e suaves, um estilo que os vocalistas masculinos da época não faziam.

Cena do filme It’s Never Over, Jeff BuckleyNa imagem, em preto e branco, Jeff Buckley e Rebecca Moore estão abraçados e sérios. Ela, à direita, está sentada no colo do cantor, usando uma camiseta de listras com o colarinho aberto. Possui pele clara, cabelos escuros amarrados e com a franja dividida ao meio. Já Jeff é um homem branco, de cabelos escuros e lisos, penteado de forma arrepiada. Está vestindo uma regata branca com uma faixa preta no ombro.
Rebecca Moore e Jeff Buckley se conheceram em um show de homenagem à Tim Buckley (Foto: Universal Pictures)

Para prosseguir com a retirada do divino, a partir dos depoimentos das pessoas próximas, o que inclui colegas de banda e produtores, a persona humana do músico é revelada, distante da dramaticidade da capa do disco Grace (1994). Agora, com Buckley nu, o público é apresentado a uma personalidade ‘golden retriever’, à ânsia por vida e até ao caráter que ele tinha de fã em relação a outros artistas. As entrevistas e vídeos de arquivos relatam que o artista pulava de um canto para outro ao ver seus ídolos, subia em um andaime para enxergar melhor um show e tinha referências musicais que iam para além de Led Zeppelin e Bob Dylan.

Enquanto o mundo apontava que ele seria o novo Elvis Presley, o documentário só cita o nome do ‘Rei do Rock’ uma vez, quando Buckley diz que o músico paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan era o “seu Elvis”. Além de mencionar em diversos trechos seu apreço e inspiração por Nina Simone e Judy Garland. Ele fazia questão de deixar claras suas influências, além de fazer covers em seus shows. Lilac Wine, canção de James Shelton, foi gravada pela cantora de Blues em 1966 e depois interpretada por Jeff em seu álbum de 1994.

Amy Berg finaliza It’s Never Over, Jeff Buckley com a última mensagem do filho para Mary Guibert, que admira tudo que ela fez por ele enquanto mãe. A escolha desta sequência demonstra a compreensão da cineasta em saber como atingir o estômago do fã e espectador, além de ser uma culminação de toda narrativa humana que ela traçou pelos 100 minutos. Seu documentário consegue conciliar os cantos angelicais de um Deus com as memórias e medos de um ser humano, porque se há algo em comum entre o divino e o humano é que ambos podem ser imortalizados, e para Jeff Buckley, isto nunca acaba. 

 

 

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