
Guilherme Machado Leal
Iniciada no Havaí durante sua primeira temporada, em 2021, The White Lotus possuía uma trama bem simples: um ambiente que mostrasse um curto período de tempo daqueles que trabalham em um hotel luxuoso e dos que possuem o poder aquisitivo para sustentar tais regalias. Após a estreia bem sucedida, as ilhas emprestaram sua trama para o solo europeu, mais precisamente em Sicília, na Itália. Se a entrada desse mundo discutia a respeito da diferença de classes e a continuação abordava a disparidade entre gêneros, o que priorizar para a terceira vez?
O ritmo frenético – seja pela pergunta plantada na cabeça dos espectadores nas duas primeiras levas de episódios de quem morreu ou o texto mais despojado de Mike White – acostumou os telespectadores a esperarem um grande ápice em 2025. No entanto, ao se afastar da conversa sobre as discriminações em virtudes de razões econômicas e sociais, o drama da HBO se concentra em centralizar a conversa em um sentimento: entender qual o maior desejo de seus personagens. Pensamentos intrusivos e moralmente incompreendidos, ânsia pela violência e a vingança e de ser aquilo que não é, estão entre os principais temas da narrativa que possui nomes como Parker Posey, Aimee Lou Wood e Jason Isaacs – todos reconhecidos nas categorias de atuação coadjuvante em Série de Drama.

Em um ano mais contemplativo do que os seus antecessores, a terceira temporada ainda se ancora no whodunit: na cena de abertura, barulhos de tiro, possíveis mortes e fugas ditam o tom da história. Se vistos como maratona, a fadiga que ocupa a primeira metade dos oito episódios não é sentida. Por outro lado, aqueles que acompanharam religiosamente aos domingos (tradição conhecida pelos amantes da emissora que detém obras como Game of Thrones e Succession), sentiram falta de diálogos mais expositivos, que tornaram a série emblemática e comentada entre os usuários.
De fato, a abordagem mais monótona, em certos núcleos, faz jus ao ápice dessas narrativas, a exemplo da relação entre Jaclyn (Michelle Monaghan), Laurie (Carrie Coon) e Kate (Leslie Bibb): as três amigas, com o desejo de reviver os tempos áureos de suas dinâmicas, passam a semana inteira com indiretas, comparações e falsos elogios. À altura do término do terceiro ano, em um texto cru e muito doloroso, porém verdadeiro em qualquer um que tem um vínculo duradouro, o criador e roteirista de The White Lotus entrega a emmy tape que eternizará a passagem de Coon na antologia.
Diferente do trio, toda a trama que envolve o dilema de vida de Walton Goggins (Rick Hatchett) se baseia em clichês baratos de tramas melodramáticas já vistas aos montes. Todo o entorno ao redor do que pode ser o arco do personagem é muito mais interessante do que realmente acontece. Ao seu lado, há a bela e serena Chelsea (Aimee Lou Wood), que possui grande parte dos momentos cômicos em solo tailandês. A estagnação nada tem a ver com as cenas virais e os plot twists, mas em razão do esgotamento criativo em termos de roteiro do mundo idealizado por Mike White.

Celeiro de nomes não tão óbvios da indústria hollywoodiana, a cada renovação de uma temporada, há as teorias de quem será o próximo grupo que disputará as principais categorias do Emmy, maior prêmio da televisão norte-americana. Ícone dos filmes independentes, Parker Posey é, provavelmente, uma das escolhas mais certeiras ao dar vida à Victoria Ratliff, uma mãe de três filhos que prioriza o status, a ganância e as aparências. A partir do sotaque de uma dondoca da Carolina do Norte, a estrela de Party Girl – filme de 1995 protagonizado pela veterana – remete às escolhas de atuação de Jennifer Coolidge e se encarrega de situações, no mínimo, desconfortavelmente hilárias.
Embora não tenha sido o ano favorito daqueles que a acompanham, a série ainda mantém o alto padrão de reconhecimento na cerimônia: com 23 indicações, a obra dramática conquistou nomeações para sete artistas de seu elenco. Entre eles, Jason Isaacs como Timothy Ratliff, o pai da família também comandada por Victória. Aliás, boa parte do texto sério, contido e obscuro faz parte do núcleo que envolve um dos grupos de maior influência daquele universo. Seja pelo filho arrogante, vivido por Patrick Schwarzenegger, a garota que renega o privilégio, encabeçada por Sarah Catherine Hook, ou o caçula que nos apresenta a Sam Nivola, qualquer ato parece irritar o patriarca, que sente, pela primeira vez, a ruína do império construído.

O medo de retratar assuntos polêmicos nunca bateu à porta de Mike White, que amplia a discussão sobre moral no terceiro ano. Sutilmente, o roteirista dá indícios de uma possível relação incestuosa entre os irmãos Ratliff. Toques, falas desconcertantes e olhares caminham lado a lado até um dos episódios mais criativos de The White Lotus, Festa da Lua Cheia – indicado na categoria de Melhor Roteiro em Série de Drama. Visivelmente impecável, a direção de fotografia de Ben Kutchins se alinha à escolha do roteiro de centralizar a narrativa em uma festa, lugar onde os ânimos estão aflorados, para expor as inimizades, os desejos e confusões que foram construídos na primeira metade da história.
Em Amor Fati, encerramento da temporada que garantiu uma nomeação como Melhor Direção em Série de Drama, as pontas soltas ao longo do período de férias são fechadas da maneira proposta pela produção: algo nem sempre definitivo ou com ‘final explicado’; aqui, há margem para interpretar e teorizar: “para onde esses personagens vão?”. E esse é um dos, senão, o maior triunfo da série. Entregar o prêmio logo de primeira não é o foco; pelo contrário, deixar o público com o gostinho de quero mais é a particularidade que confere ao criador o status de wannabe. Ou você quer participar do mundo idealizado por ele ou quer comentá-lo.
“Eu simplesmente não acho que, nessa idade, eu deva viver uma vida desconfortável. Eu não tenho vontade.” — Victoria Ratliff.
Após a entrega dos prêmios na edição de 2025, ficou claro que a recepção do terceiro ano não agradou aos votantes da premiação, visto que a produção levou apenas uma das 23 indicações: Melhor Tema de Abertura para o compositor Cristóbal Tapia de Veer. Durante a exibição dos episódios, o autor da música deixou a produção por ‘diferenças criativas’. Sendo um dos aspectos mais elogiados, será no mínimo interessante acompanhar quem o substituirá no trabalho musical que dá o tom de cada história.
“Third Time’s The Charm” – em tradução livre “A terceira vez é a certa” – ditado popular utilizado para afirmar que algo deu certo após suas duas primeiras tentativas, não pode representar 100% a produção da HBO. O subtexto e a não obviedade são, de fato, acertos do novo ano, no entanto acompanham um possível esgotamento da abordagem de White. Confirmada para uma quarta narrativa, The White Lotus voltará ao continente europeu. Enquanto não chegamos à Riviera Francesa, aproveite as altas temperaturas da Tailândia. O calor pode não ser agradável a você na totalidade, mas irá garantir bons momentos na sua televisão.
