
Arthur Caires
Há algo muito humano no ato de lutar contra o esquecimento. A Arte, quando nasce, já carrega em si uma resistência ao tempo, uma tentativa de permanecer quando tudo o mais se dissolve. R. Roussil – A Liberdade da Imaginação, dirigido por Maxime-Claude L’Écuyer e que está em exibição na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores, surge como um desses gestos de resistência. Mais do que resgatar a figura de um escultor esquecido, o filme convoca o espectador a pensar na Arte como um modo de permanecer vivo na memória dos outros, mesmo quando a matéria se desgasta.
Robert Roussil, um dos nomes centrais da escultura moderna em Quebec, foi um artista que fez da liberdade de expressão o princípio e o fim de sua obra. Expulso de seu próprio país por desafiar convenções artísticas e políticas, Roussil encontrou na França e, mais tarde, na região de Provence-Alpes-Côte d’Azur, o espaço ideal para construir uma utopia pessoal: um moinho transformado em ateliê, refúgio e extensão de seu imaginário. Desde sua morte, em 2013, o brilho desse legado parece ter sido engolido pelo silêncio, e é justamente esse eco que o documentário procura reverberar.

A narrativa, construída com sensibilidade e precisão, alterna imagens de arquivo, entrevistas com o próprio artista e depoimentos de quem conviveu com ele. À primeira vista, o formato poderia sugerir uma abordagem tradicional – o conhecido mosaico de vozes e memórias –, mas L’Écuyer o transforma em algo mais íntimo e poético. A câmera percorre as locações de Roussil, especialmente sua casa e seu estúdio, como se investigasse as frestas por onde a criatividade ainda escapa.
Entre poesias recitadas e animações que dialogam com as esculturas, o documentário encontra um ritmo próprio, quase meditativo. As imagens fazem uma reinvenção com o artista. É como se o filme também se tornasse uma escultura, moldando o tempo com a mesma delicadeza com que Roussil moldava o metal. Há um diálogo silencioso entre a densidade do ferro e a leveza da imaginação, entre o gesto concreto e o impulso de sonhar. A trilha sonora reforça essa dualidade: ora introspectiva, ora grandiosa, ela sustenta o caráter sensorial da experiência.

Apesar da beleza formal, o R. Roussil – A Liberdade da Imaginação flerta por vezes com a repetição e o didatismo, especialmente ao insistir em apresentar o artista sob o mesmo enquadramento reverente. No entanto, essa repetição também pode ser lida como um espelhamento da própria memória, que insiste, retorna e reitera para não desaparecer. O documentário recupera o fôlego no desfecho, quando abandona a estrutura explicativa e se entrega ao sentimento puro de lembrança.
Em sua essência, o longa de L’Écuyer é um convite à reflexão sobre a preservação da Arte e sobre o papel que temos, como espectadores e cidadãos, de manter vivas as vozes que moldaram o imaginário coletivo. Roussil acreditava que a imaginação era a forma mais autêntica de liberdade – e talvez, ao revisitá-lo, o Cinema reafirme exatamente isso. Porque lembrar é um ato político. E imaginar, ainda hoje, é um modo de existir.
