Qual é o seu filme de terror favorito? Definitivamente não é Pânico 7

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Texto Alternativo: O vilão Ghostface em destaque no centro da imagem. Ele usa sua icônica máscara branca de expressão alongada e túnica preta com capuz. Ele segura uma faca de caça de forma ameaçadora em um ambiente externo noturno, com colunas de pedra e iluminação quente ao fundo.
Três décadas depois, o Ghostface ressurge em 2026 com um novo alvo, a filha da final girl original (Foto: Paramount Pictures)

Guilherme Machado Leal e Arthur Caires

Três décadas após a primeira aventura de Sidney Prescott (Neve Campbell), a franquia Pânico chega ao seu sétimo capítulo. Entre requels (obras que são sequência e reinício) – como o quinto filme –, novos personagens e tramas, o mundo criado por Wes Craven em 1996 se adaptou pelas décadas. Dessa vez, o icônico vilão Ghostface, dirigido pelas lentes de Kevin Williamson (roteirista do primeiro, segundo e quarto longas), tem como objetivo atacar a filha da final girl, Tatum Evans (Isabel May). 

A cena inicial de Pânico 4 faz piada sobre como as inúmeras sequências de Facada – produção de dentro do longa que retrata a vida da protagonista e dos amigos – se perdem com o tempo, tornando-se sátiras. Paralelamente a isso, a história também se desencontrou ao longo dos anos: depois de tantas revelações do mascarado, fica difícil acreditar que ainda exista alguém que queira machucar Sidney. E isso não é um esgotamento do subgênero. Pelo contrário, o slasher tem a capacidade de utilizar qualquer cenário, rotina e grupo de pessoas para contar uma narrativa plausível, o problema mesmo é a engrenagem enferrujada que domina as decisões criativas desse universo.

Texto Alternativo: Fotografia de bastidores em um cenário de bar mal iluminado. O diretor Kevin Williamson, um homem de meia-idade com cabelos curtos, aparece de perfil gesticulando com a mão enquanto orienta a cena. Ao fundo, luzes neon azuis e ventiladores de teto criam uma atmosfera sombria.
Kevin Williamson, roteirista original da franquia, assume as lentes de Pânico 7 em uma tentativa de resgatar a essência de Wes Craven (Foto: Jessica Miglio)

Inveja de um membro da família, o desejo de ser famoso ou a vingança por um ente querido já foram justificativas para aqueles que vestiram a roupa do assassino. O momento da revelação de quem estava por trás dos ataques sempre se comportou como um deleite para os fãs da franquia. No sétimo filme o Ghostface não importa, tampouco seus ataques. Não é como se a estrutura fosse diferente: ainda temos um grupo de personagens que será atacado aos poucos até que Sidney o enfrente no terceiro ato. No entanto, a falta de necessidade em ter mais uma sequência é tanta que os coadjuvantes dessa história são descartáveis e imemoráveis dentro da própria narrativa e no universo estabelecido como um todo.

Além disso, as discussões a respeito de quem seria o autor das mortes, bem como a sua motivação, eram cenas que faziam Pânico ser Pânico. A metalinguagem, marca registrada e (até então) muito bem consolidada desses filmes, definia uma das discussões mais interessantes: entender a psiquê dos assassinos e a relação doentia que eles possuíam com a figura de Prescott que, nesse mundo, é o símbolo do que é ser herói na vida real. Agora, a motivação não se sustenta com a revelação do porquê os assassinos do sétimo capítulo querem ir atrás da final girl e de seus conhecidos.

O retorno de outros personagens da franquia também não melhora a situação: Gale (Courteney Cox) foi demitida após os ataques em Nova York e voltou à cobertura local – semelhante a que realizava no longa de 1996 – e os irmãos Mindy (Jasmin Savoy Brown) E Chad Meeks-Martin (Mason Gooding) se juntaram à equipe da jornalista. Diferente do uso do trio nas sequências anteriores, aqui a inclusão é desnecessária, pois não acrescenta algo à história. Fora isso, os ataques direcionados a eles são fracos e não trazem a sensação de perigo. Você sabe, no final da narrativa, que os personagens-legado não serão mortos.

Texto Alternativo: Neve Campbell, interpretando Sidney Prescott, está sentada em um sofá bege com uma expressão séria e pensativa. À sua frente, o diretor Kevin Williamson está ajoelhado no tapete, segurando folhas de papel que parecem ser o roteiro, enquanto conversa com a atriz.
Neve Campbell retorna como Sidney Prescott após a ausência no sexto filme, contracenando com as orientações diretas de Williamson (Foto: Jessica Miglio)

No quinto e sexto filmes, Mindy era a responsável por instigar a skin ‘detetive’ em seus colegas: saber quem seria o provável assassino e o motivo, sempre citando momentos icônicos da franquia. Infelizmente, esse recurso é utilizado mais uma vez em Pânico 7, algo que já estava desgastado desde a produção anterior. Não é como se a estrutura ou dinâmicas que fazem os fãs identificarem uma cena de Scream – nome original da franquia – fossem apagadas nessa nova jornada. Na verdade, tudo está lá: a protagonista, o assassino e a metalinguagem. A diferença é que agora não nos importamos mais.

No papel, a trama de um Ghostface atrás da filha de Sidney Prescott não é de todo mal. Entretanto, a ausência da protagonista em Pânico 6 possui um sentimento remanescente no filme atual. Por conhecermos a família dela à essa altura do campeonato, a importância dada pelo público a esses personagens é ínfima e, sinceramente, insignificante. Wes Craven, que comandou a trilogia original e a obra de 2011, estabeleceu ao longo de 15 anos as regras e narrativas desse mundo. Ou melhor: mostrou em quatro tentativas a versatilidade do slasher. Aqui, o fazer Terror se despede – algo que já era perceptível no longa anterior – e dá lugar ao jogo de fazer dinheiro. Essa característica era inata desde Craven, mas ele ao menos tinha o talento de encontrar algo original e filmá-lo com qualidade. Pelo sucesso de bilheteria da produção anterior, Scream 7 (título original) chegou aos cinemas em 2026. Mas será que precisava mesmo?

Texto Alternativo: A atriz Isabel May (Tatum Evans) está deitada de bruços em uma cama com roupas de cama claras. Ela veste um casaco lilás e segura um celular com as duas mãos, olhando para o lado com uma expressão de preocupação ou alerta. O quarto está decorado com luzes quentes e pequenos quadros ao fundo.
Isabel May interpreta Tatum Evans, a filha de Sidney, que se torna o centro das atenções do assassino (Foto: Paramount Pictures)

Essa sensação de falta de propósito e vazio narrativo é o resultado direto de uma grande crise nos bastidores de produção. A demissão de Melissa Barrera em 2023, após suas postagens em apoio à Palestina, e a saída subsequente de Jenna Ortega em solidariedade, deixaram um buraco que o roteiro tenta tapar com nostalgia barata. Ao descartar as protagonistas que sustentaram o renascimento da franquia em Pânico 5, os criadores já cavaram seu próprio fracasso.

O episódio reflete um momento sintomático e gélido em Hollywood, onde o silêncio é a moeda de troca para a estabilidade na carreira. Enquanto Barrera afirma que “o silêncio não é uma opção” ao usar sua voz para questionar crises globais, a indústria respondeu com o silenciamento corporativo. Esse cenário de vigilância ideológica cria um clima de medo onde temas sensíveis tornam-se tabus intransponíveis para atores que preferem a segurança do contrato ao risco da opinião. 

No fim das contas, a volta de Neve Campbell soa mais como um plano de gerenciamento de crise do que como um retorno triunfal. A saída de Ortega, que admitiu ao The Cut que “tudo estava desmoronando” após a saída de sua equipe original, prova que a alma da produção se perdeu no processo. Pânico 7 torna-se, assim, um exemplo do conformismo hollywoodiano: um filme que prefere reciclar o que já conhecemos a permitir que seus artistas se posicionem sobre as dores de um mundo que, fora das telas, é muito mais assustador do que qualquer Ghostface.

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