Os Dardenne e o olhar de dignidade sobre a maternidade precoce em Jovens Mães

Uma cena em plano médio mostra uma área comum de um abrigo. Uma mulher vestindo um jaleco branco segura uma prancheta e conversa com uma jovem negra de jaqueta vermelha. Ao fundo, outras três jovens brancas estão presentes: uma sentada segurando um bebê no colo, uma em pé visivelmente grávida, e outra sentada à mesa olhando para a direita. O ambiente é doméstico e iluminado por luz natural.
O filme observa o cotidiano do abrigo em Liège, onde o cuidado profissional e as políticas públicas oferecem suporte à realidade complexa (Foto: Vitrine Filmes)

Arthur Caires

A câmera dos irmãos Dardenne se aproxima com discrição em Jovens Mães. O objetivo não é espetacularizar a maternidade precoce, mas acompanhá-la. O filme observa adolescentes que ainda estão aprendendo a existir enquanto já assumem a responsabilidade de cuidar de outra vida. O cotidiano do abrigo, os choros, os silêncios e os olhares cansados constroem uma história que prefere escutar do que impactar. Não há esforço em emocionar o espectador; há a escolha de permanecer próximo dessas jovens.

Premiado no Festival de Cannes pelo roteiro, assinado pelos diretores, o longa se insere de forma coerente na trajetória de Jean-Pierre e Luc Dardenne, cineastas que há décadas trabalham com um realismo atento às margens sociais. Ambientado em um refúgio para mães adolescentes em Liège, na Bélgica, a narrativa acompanha Jessica (Babette Verbeek), Perla (Lucie Laruelle), Julie (Elsa Houben), Ariane (Janaïna Halloy Fokan) e Naïma (Samia Hilmi), meninas atravessadas por histórias de abandono, precariedade econômica e afetos interrompidos. O peso de ser mãe chega cedo demais e exige delas uma maturidade para a qual não estavam preparadas.

O filme poderia facilmente recorrer ao melodrama ou à punição simbólica dessas personagens, caminhos comuns em produções sobre maternidade fora da norma. Os Dardenne, no entanto, recusam esse lugar. Não há julgamento moral nem tentativa de oferecer lições edificantes. As decisões das meninas não são idealizadas, mas compreendidas dentro de um contexto que impõe limites severos e, ainda assim, exige responsabilidade. Ao reconhecer a complexidade dessas escolhas, Jovens Mães aposta na dignidade como princípio narrativo.

Em um quarto com pouca luz, duas jovens mulheres estão de pé, de frente uma para a outra, cada uma segurando um bebê pequeno apoiado no ombro. A jovem da esquerda é negra e veste uma camiseta branca; a da direita tem cabelo loiro curto e veste uma camiseta cinza. Elas se olham nos olhos com expressões sérias e cansadas. Ao fundo, uma parede com fotos coladas e uma cortina escura.
Longe de espetacularizar a maternidade precoce, a câmera se aproxima com discrição dos momentos de silêncio (Foto: Vitrine Filmes)

Essa postura também se manifesta na forma. O cinema dos Dardenne se constrói nesse espaço de observação contínua do cotidiano. A direção de câmera permanece próxima, acompanha os gestos, as hesitações e os erros das personagens. A ausência de trilha sonora evita conduzir emocionalmente o espectador, reforçando a sensação de convivência com aquelas vidas. Não há grandes arcos de redenção nem momentos de catarse. Os personagens existem fora de qualquer maniqueísmo.

O abrigo onde as jovens vivem funciona como um ambiente de cuidado. Sustentado por políticas públicas de assistência social, ele oferece acolhimento sem apagar os conflitos e as limitações dessas trajetórias. O filme aponta, de maneira discreta, para a importância do Estado como agente de proteção social, especialmente em contraste com realidades que ainda tratam a maternidade precoce como falha individual. O cuidado aparece como prática concreta, exercida diariamente por funcionárias, familiares e pelas próprias meninas entre si.

Jovens Mães não promete felicidade nem soluções definitivas. O que oferece é a possibilidade de futuros menos marcados pela dor, dentro do que é realisticamente possível. Ao acompanhar essas meninas, os Dardenne reafirmam um Cinema que acredita na empatia como ferramenta política e narrativa. Um Cinema que não busca fechar feridas, mas reconhecê-las. Em um cenário dominado por discursos simplificadores, escolher permanecer ao lado dessas histórias já é, por si só, um gesto significativo.

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