
Stephanie Cardoso
Em um tempo em que as telonas eram dominadas por sagas adolescentes e efeitos mirabolantes, Orgulho e Preconceito (2005) chegou como quem não quer nada e conquistou tudo. Vinte anos depois, o filme dirigido por Joe Wright continua sendo uma das adaptações mais amadas da literatura – e um dos romances mais bonitos e sinceros já feitos no cinema (e não é um exagero).
Baseado no livro homônimo de Jane Austen, publicado em 1813, o longa-metragem poderia ter caído na armadilha das adaptações engessadas, com sotaques forçados e vestidos impecáveis demais. Mas Wright, em sua estreia no cinema, trouxe uma abordagem surpreendentemente íntima para uma história muitas vezes associada à rigidez dos salões aristocráticos. Aqui, os personagens riem alto, correm pelos campos, brigam em jantares, sujam as saias de barro e demonstram uma humanidade palpável. A direção busca menos a pompa e mais a verdade emocional, e é justamente por isso que o longa-metragem ainda permanece tão forte.

No centro da narrativa está Keira Knightley, que aos 20 anos assumiu o papel de Elizabeth Bennet com uma combinação rara de coragem e sutileza, aquela heroína pela qual torcemos desde o primeiro instante. Ao seu lado, o misterioso Mr. Darcy, interpretado por Matthew Macfadyen, quebra o clichê do galã convencido. Reservado, um pouco desajeitado para demonstrar emoções e repleto de nuances, o que apenas amplia o magnetismo do personagem. A cena em que ele revela seu amor (apesar de também insultar a sua família) sob a chuva – inexistente no livro original –, tornou-o um ícone, justamente por capturar com perfeição essa emoção contida.
Se a chuva marcou o ápice da confissão dele, a madrugada silenciosa marcou o momento de Elizabeth. Quando ela finalmente revela seus sentimentos durante aquele passeio ao nascer do sol, não há palavras grandiosas, apenas uma entrega serena, mas arrebatadora. Sem exageros nem discursos grandiosos, só sinceridade, leveza e um toque de nervosismo que torna tudo mais verdadeiro. A troca de olhares, o clima suave e a luz dourada do campo tornam a cena quase etérea. É nesse instante que ela, tão firme e crítica ao longo da história, permite-se ser vulnerável. E o impacto é imediato: o silêncio diz mais que qualquer declaração ensaiada, encerrando a jornada com a mesma delicadeza com que foi construída.

O que torna Pride and Prejudice (no original) ainda mais rico é a família Bennet, cheia de personalidades que contrastam e se completam. A Sra. Bennet (Brenda Blethyn), rouba várias cenas com seu jeito desesperado para casar as filhas. Ela é aquele tipo de mãe que não pensa duas vezes antes de transformar qualquer conversa em uma festa de nervos. Em uma cena, que é quase cômica, ela tenta controlar as filhas no baile, mostrando como o casamento era uma questão de sobrevivência para as mulheres da época. Apesar de sua excentricidade, a Sra. Bennet representa uma preocupação real daquele período: o medo de deixar as filhas vulneráveis num mundo onde segurança financeira era quase sinônimo de casamento bem arranjado.
A irmã mais velha, Jane Bennet, interpretada por Rosamund Pike, é o oposto da mãe em temperamento: doce, calma e sempre vendo o melhor nas pessoas. A relação dela com Charles Bingley (Simon Woods), é o romance mais suave da história, trazendo leveza ao drama das outras personagens. Jane é aquela irmã que, mesmo quietinha, ganha espaço na narrativa pela sua força tranquila, quase um equilíbrio para a energia de Lizzie.
Visualmente, Orgulho e Preconceito é um deslumbre. A fotografia de Roman Osin aposta em luz natural e movimentos de câmera orgânicos, criando uma atmosfera quase etérea. A cena do baile com o plano-sequência que percorre o salão inteiro é um espetáculo de coreografia visual e se tornou obrigatória em qualquer aula de direção cinematográfica. A estética do filme virou referência para produções de época posteriores, da televisão ao cinema. Já os figurinos de Jacqueline Durran fogem do teatral, com roupas realistas, usadas pelas próprias personagens, o que deixa tudo mais real.
A trilha sonora de Dario Marianelli, com foco no piano e nas cordas, acompanha os personagens com delicadeza e profundidade. Em vez de apenas preencher o silêncio, a música o potencializa, revelando tudo o que os personagens estão tentando esconder. A dança entre Elizabeth e Darcy se transforma em um momento quase metafísico, um diálogo silencioso onde cada nota carrega um peso dramático. Não foi à toa que Marianelli recebeu a indicação ao Oscar na categoria de Melhor Trilha Sonora Original pelo trabalho.
Entre as curiosidades de bastidores, vale lembrar que Joe Wright optou por escalar atrizes e atores mais jovens para o núcleo principal, indo contra o padrão da época, que costumava envelhecer os personagens em adaptações de Austen. Ele também pediu à figurinista Jacqueline Durran que criasse roupas que os atores pudessem vestir sozinhos, para evitar a artificialidade de figurinos históricos. Essas escolhas contribuíram para uma sensação de espontaneidade que poucas adaptações conseguem alcançar.
O final do filme também tem uma história curiosa. A versão exibida nos cinemas britânicos – e na maioria dos países (Brasil incluso!) – termina com o Sr. Bennet dando sua benção ao casamento da filha. Já nos Estados Unidos, o longa recebeu um final alternativo: uma cena extra com Lizzie e Darcy trocando carinhos e, finalmente, um beijo. Dependendo da edição que você viu, o desfecho pode ser bem diferente e essa mudança dividiu os fãs na época.
Apesar de ser um dos nomes mais importantes da literatura inglesa, Jane Austen já teve seus livros adaptados para diversas telas e com resultados bem variados. Títulos como Emma, Razão e Sensibilidade e Persuasão ganharam versões tanto clássicas quanto modernas – sim, As Patricinhas de Beverly Hills é baseada em Emma. Mas nenhuma obra foi tão revisitada quanto Orgulho e Preconceito. Antes do longa de 2005, a adaptação mais famosa era a minissérie da BBC de 1995, estrelada por Jennifer Ehle e Colin Firth, que é até hoje um marco para os fãs mais puristas.
Comparando as duas, a minissérie é como uma leitura mais fiel e detalhista do livro. Com quase seis horas de duração, ela recria praticamente tudo o que Austen escreveu, com diálogos textuais, ritmo mais lento e uma ambientação contida. Já a versão de 2005 é feita para ser sentida, não apenas compreendida. Ela condensa a trama, elimina subtramas e aposta em sensações – nos olhares, nos silêncios, nos gestos que falam mais alto do que as palavras. Enquanto a série é uma aula de fidelidade histórica, a produção de Joe Wright é uma experiência emocional e cinematográfica poderosa. E é justamente isso que o torna tão inesquecível.
Duas décadas depois, Orgulho e Preconceito continua sendo aquele tipo de filme que você apresenta para alguém especial, assiste em uma tarde chuvosa com cobertor ou coloca na lista de comfort movies ao lado de clássicos modernos. Ele provou que romance de época pode ser inteligente, bonito, envolvente e, absolutamente, eterno.
