O rock and roll nunca morre, mas Damiano David não será o responsável por mantê-lo vivo

 

O fundo da imagem é preto com margens brancas quadradas. No centro está Damiano David com uma expressão séria e a boca levemente aberta. Há dois desenhos abaixo de seus olhos: um coração partido e uma estrela, ambos simulando lágrimas. Na margem branca inferior há o título do álbum, o nome do cantor e as faixas enumeradas.
Damiano David transforma seu manual para lidar com medos em música (Foto: Sony Music Entertainment)

Vitória Mendes

FUNNY little FEARS, lançado em 16 de maio de 2025 pela Sony Music Italy, é o álbum que marca o início da carreira solo de Damiano David. Nessa produção, o jovem artista enfrenta seus medos e, em uma tentativa de provar que pode ser mais do que uma estrela do Rock, se aventura em novos estilos, melodias e estéticas. Surpreendendo aqueles que o acompanharam nos últimos anos através do grupo Måneskin, Damiano não se intimida e faz o Pop imperar neste disco.  

Nos últimos oito anos, seu estilo musical era essencialmente rock e hard rock, ambos sendo explorados em todas as nuances e alternativas. Durante sua época no grupo e em momentos decisivos como o Eurovision Song Contest de 2021, Damiano reforçava que “o rock and roll nunca morre”, mas hoje aproveita a oportunidade para se afastar do gênero e experimentar outras opções, começando com o Pop comercial. 

Para os fãs antigos, esse é o tipo de álbum que você ama ou odeia. Durante 48 minutos, o artista nos apresenta 14 faixas com algumas similaridades, mas sem uma narrativa interligada. Apesar disso, cada faixa é bem construída dentro de sua proposta individual. FUNNY little FEARS revela o propósito de Damiano de falar sobre os medos incomuns e irracionais que atingem profundamente aquele que o sente, causando uma sensação de desespero que marca presença na maior parte das músicas em contextos distintos.

Em uma combinação de instrumentos e ritmos já vistos em outras produções do Pop mainstream, Damiano explora a liricidade e a harmonização. O artista é capaz de realçar os sentimentos enraizados no âmago do ser humano, evidenciando o medo, a dor de um coração partido, a luta pela superação e a veneração de um amor profundo. Intrínseco a isso, há a constante insegurança e desejo de ser aceito e amado apesar de todas as vulnerabilidades, aversões e de suas tentativas de autossabotagem retratadas em Born With a Broken Heart e Perfect Life.

Em cada frase e refrão, é possível sentir a intensidade de cada sensação. Desde ser assombrado pelo fantasma de um relacionamento que tinha o potencial de dar certo em Voices e Next Summer, até a completa devoção para com a pessoa amada aponto de que nem mesmo uma divindade ou a extinção da humanidade têm o poder de afetar a conexão tão apreciada em The First Time e Mars. Toda essa urgência reflete e é desenvolvida na musicalidade e nos acordes vocais, que condizem e emocionam.

Para complementar a produção e trazer um toque único, Damiano também se uniu a nomes promissores da indústria musical como Suki Waterhouse, d4vd e Labrinth. Outra presença marcante, apesar de não ser considerada colaboradora direta, é Dove Cameron no último refrão de Zombie Lady, que trouxe um toque leve e romântico contrastando com a aspereza do italiano.

A imagem está em preto, branco e tons de cinza. No lado esquerdo está Damiano David sorrindo com um cigarro na mão abaixada. No lado direito ao fundo, está um quadriciclo, uma árvore e atrás dela um carro. Ao fundo há elevações na terra.
“Eu finjo que estou bem, mas estou perdido e com medo / E ninguém realmente entende / Mas, agora estou dançando ao som de uma banda / Com todos os demônios na minha cabeça” (Foto: Damiano David)

Em sua própria individualidade, Damiano caminha por seus temores e sua dificuldade em consertar aquilo que, em uma visão insegura, está quebrado. Com isso, traz também um tom calmo, melancólico e dramático para as últimas faixas do álbum. O artista nos faz refletir sobre a importância de compreender os próprios medos e convida o ouvinte a ouvi-lo e entendê-lo em Solitude (No One Understands Me).

Desde o primeiro contato, prevalece a nostalgia do Pop mainstream dos anos 2010 com músicas vibrantes e energizantes. Apesar da similaridade instrumental das faixas, principalmente no refrão, a obra completa funciona bem. Contudo, a identidade de Damiano como artista solo ainda não está consolidada. Pela exploração de um novo estilo e o distanciamento das produções passadas, é justificável realizar uma mudança de público de forma lenta e constante. O italiano não se arriscou e ficou no básico, mas é preciso lembrar que o básico também funciona.

É evidente que a composição não é inovadora, mas possui significados e uma boa liricidade. Também são complementadas com trocadilhos, ditados populares, referências a acontecimentos e falas em público, e até mesmo a personagens de A Noiva Cadáver de Tim Burton e da série Friends. A cada início de faixa, há uma expectativa de se destoar da anterior, mas com o passar dos segundos, acontece o oposto. Apesar de se encaixar na proposta, impediu que faixas como Tango saíssem do genérico.

No entanto, não é possível negar que Damiano provou que sabe unir o instrumental com o sentimento de cada faixa e provocar uma onda de emoções ao público. A intensidade colocada nas palavras é admirável e combina com o vocal amplo e poderoso do cantor, que tenta diminuir a aspereza que utilizou por anos no hard rock e deixa a voz mais limpa, clara e sólida durante toda a produção. 

FUNNY little FEARS proporciona a entrada de Damiano David no Pop e oferece a margem necessária para que ele se aventure no universo musical. Com seu alto apelo emocional e com as diversas mensagens que traz a cada faixa, o álbum é bem construído e entrega exatamente o que promete: uma nova versão do artista que o público não conhecia.

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