
Davi Marcelgo
Mariel Mariscot foi um policial corrupto e uma celebridade dos anos 1960 e 1970 no Rio de Janeiro. Ele se envolveu com tráfico de drogas, assassinato, extorsão e outros golpes, exterminando bandidos e pessoas pobres. Fez parte da organização Scuderie Le Cocq, um ‘esquadrão da morte’ responsável por vários atentados durante suas décadas de atividade. Mariscot ganhou fama, frequentava lugares finos e se relacionou com personalidades célebres, atrizes e modelos. Para retratar essa história complexa e violenta, em O Homem de Ouro, Mauro Lima (diretor), Valéria Costa (diretora de Arte) e Fernando Young (diretor de Fotografia) mergulham nos signos que tornaram o criminoso um ímã para a sociedade burguesa brasileira.
O filme, que faz parte da seção Mostra Brasil na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, vai construir a persona do fluminense por meio de um estilo pomposo e rico, uma ideia de um passado chique e elegante – mas cunhado em corrupção e sangue. A partir da aparência de Mariscot, interpretado por Renato Góes, homem alto, branco e forte, o padrão de beleza embutido pela indústria cultural americana no Brasil vai servir como uma forma de convencimento para legitimar as ações do policial contra vítimas de estaturas menores, mulheres ou pessoas de pele negra. Lima e Young vão enquadrar Góes como se estivessem esculpindo David de Michelangelo.
É um personagem que domina tanto a cena quanto a lei do Rio de Janeiro. A câmera fica hipnotizada por cada pose, cada figurino vestido por ele, que transmite não apenas ares de galã, como também cria uma atmosfera que embeleza a década em que a história acontece. Em uma cena, o protagonista faz sexo com uma mulher desconhecida, e enquanto está na cama com ela, o marido entra no quarto, porém o que acontece em seguida não é a dinâmica de costume. O homem se junta à dupla, fazendo um ménage. O corpo e a feição de Mariscot convidam qualquer um a se despir (em vários sentidos).

O passado é embargado por figuras históricas e célebres, como a atriz Darlene Glória (Luisa Arraes), que vive com amigos gringos, é artista de rádio, teatro e Cinema; canta e dança, além de ser rodeada por itens de pluma e cor de ouro: vestidos, anéis e outras joias. Contudo, o glamour apenas enfeita o estilo de vida destrutivo da estrela, que possui um comportamento agressivo e abusa de drogas lícitas e ilícitas. As contradições entre aparências e a realidade argumentam a hipocrisia da elite e da classe média carioca, o que envolve policiais, políticos e outros poderosos.
Assim, os ilustres hotéis e as badaladas casas de show ficam afastadas da violência exercida por Mariscot e o esquadrão da morte. Elas ocorrem em ruas residenciais ou em um porto de barcos, afastado da população. Esses locais são destituídos de graciosidade. Desta forma, a direção de Mauro Lima consegue causar impacto com os disparos de tiros e com o espaço cru, direto, que não precisa esconder a corrupção que habita ali, se afastando da romantização e exaltação da brutalidade. A pergunta que cada cena indaga ao espectador é: mesmo com toda pompa, o que esse passado reluz é ouro?
Diferente de Tropa de Elite (2007), a produção de O Homem de Ouro consegue articular suas ideias sem se contradizer. Apesar da beleza embutida nos personagens e nos cenários, há sempre uma podridão presente e pessoas que saem machucadas. A trama de Mariscot não finaliza com ele no topo, mas em declínio. Existe uma união entre os segmentos de cada linguagem do Cinema para transmitirem os significados que Mauro Lima deseja: o passado vendido pelos saudosistas da Ditadura Militar Brasileira como melhor que o presente e dos falsos ouros que compõem a história brasileira.
