O Agente Secreto: o Brasil dos anos 70 e o atual em um só retrato

Cena do filme O Agente Secreto. Marcelo. Um homem de barba e cabelo escuro, aparece de pé ao ar livre, com expressão séria . Ele veste uma camisa azul-clara com bolso do lado esquerdo do peito, parcialmente aberta. Ao fundo há um campo verde e céu com nuvens claras. Ao seu lado, aparece um fusca amarelo.
Wagner Moura está entre os favoritos para ser indicado ao Oscar de Melhor Ator (Foto: Vitrine Filmes)

Mariana Bezerra

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vem percorrendo o mundo com uma campanha de sucesso, que já conquistou premiações e indicações internacionais, as quais podem ser vistas como termômetros da temporada de premiações, como o Gotham Awards e o Festival de Cannes. A estreia do filme subverteu a lógica dominante do eixo Rio-São Paulo. Foram os recifenses, conterrâneos do cineasta e cuja cidade serviu de base para muitos de seus trabalhos, que assistiram ao longa pela primeira vez. Já a sessão de estreia no estado de São Paulo aconteceu na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Apresentação Especial.

O roteiro de Kleber Mendonça, mais uma vez, traz um retrato da cidade como algo crucial. Aqui, o Recife de 1977 é um conjunto vivo de memórias e histórias que compõem o que era a ditadura militar no Brasil. Isso é feito diante do reconhecimento de que é impossível contar a história do país sem assumir as particularidades e as diversidades de experiências presentes do Oiapoque ao Chuí. 

A alusão a Ainda Estou Aqui parece sempre presente nas discussões, mas apesar de parceiros no sentido de representarem o Cinema nacional em uma jornada no exterior, não cabe comparação. Afinal, KMF conta a história de pessoas comuns, sem muito contato com a violência militar em si. O que fica claro é que existe uma parte do Brasil que sentiu na pele a conjuntura política e social permeada por desigualdades e abusos de autoridade que sempre a deixou à margem.

Cena do filme O Agente Secreto. Um grupo de seis pessoas está reunido em uma sala de estar. Elas estão sentadas em volta de uma mesa com garrafas e copos, enquanto um homem segura um violão ao fundo. O ambiente é de uma casa, com cortinas estampadas, móveis de madeira e garrafas de cerveja em cima da mesa de centro.
Apesar de haver personagens protagonistas, todos conseguem transmitir uma história e marcar presença no filme (Foto: Vitrine Filmes)

No filme, Marcelo – que na verdade é Armando – é interpretado brilhantemente por Wagner Moura. O personagem retorna para Recife e se hospeda em um prédio onde vivem várias outras pessoas ‘refugiadas’ como ele. Nunca fica claro o que fizeram ou por que estão fugindo, mas isso não é necessário; elas desempenham um papel simbólico essencial na narrativa. 

É nesse cenário que surge Dona Sebastiana, uma senhora quase matriarca desses inquilinos. É uma figura divertidíssima, cujo texto é carregado de ironia e de uma potência que a interpretação da atriz Tânia Maria evoca. Esse ambiente no qual as pessoas escondem seus nomes e suas vidas passadas revela o peso que ser chamado por outro nome carrega. A necessidade de rompimento com a própria história foi mais uma das agressões que aquele contexto político brasileiro impôs sobre seu povo. 

Nesse sentido, o texto se faz genial ao contar essa história através do resgate de sua memória; duas jovens, Flávia (Laura Lufési) e Dani (Isadora Ruppert), décadas depois, pesquisam em jornais e escutam fitas gravadas na época. Aqui, a montagem revela sua sutileza e estratégia enquanto as mulheres mergulham nesse passado tentando compreendê-lo e seus personagens. Por vezes, quando a década de 1970 retorna à tela, é possível que o espectador esqueça que tudo aquilo não se passa no presente – tamanha a força expressiva e a fidelidade na representação, que são resultados de um excelente trabalho da direção de arte de Thales Junqueira.

Fotografia. Elenco e equipe do filme O Agente Secreto posam juntos para fotos em frente a um painel preto com o título do filme em letras brancas, que inclui logotipos de apoiadores e patrocinadores. As pessoas sorriem e se abraçam enquanto os jornalistas fotografam a cena com celulares e câmeras.
O Persona esteve presente na Coletiva de Imprensa do filme em São Paulo (Foto: Stephanie Nascimento)

Durante a coletiva de imprensa do filme em São Paulo, o diretor, diversas vezes, expressou seu desejo de que o filme instigasse o público nacional a voltar seus olhares para o próprio país e pontuou que o Brasil tem grandes questões com a manutenção da memória de seu passado. “Eu tenho um desejo muito especial de que esse filme seja descoberto por gente muito jovem, estudantes, meninos e meninas. Que eles vão ao cinema ver um filme brasileiro, que conta uma história brasileira e que talvez, como estudantes, como jovens, possam descobrir alguma coisa nova, algum ponto de vista interessante sobre o nosso país”. 

As conversas gravadas nas fitas ocorrem em um cenário marcante no longa: um Cinema que não existe mais, localizado no que, hoje, se conhece como o Recife Antigo. Novamente, a ambientação é feita com primor em uma obra de Kleber Mendonça. No documentário Retratos Fantasmas (2023), o artista se aprofunda na história dos lugares que não existem mais e que outrora lhe foram familiares. Em O Agente Secreto, seu roteiro fantasia sobre o que mais pode ter acontecido nesses lugares, quais outras histórias fantásticas, além da sua, podem ter se materializado nesses edifícios históricos. Mendonça, inclusive, teve a sensibilidade de trazer para ficção a personagens como o de Seu Alexandre (Carlos Francisco), o sogro de Marcelo e avô de seu filho, que foi, de fato, um projetista que trabalhou no antigo Cine Art Palácio na capital pernambucana.

Assim, a narrativa propõe que os cenários participem como peças vivas da história e, a partir disso, valoriza as expressões culturais do ambiente sobre o qual se debruçam. Dessa forma, a música, o frevo, o sotaque e o folclore constroem com profundidade e intimidade a história do filme. É aí que entra a estória da ‘perna cabeluda’, que se torna uma atração à parte. A partir de um curioso incidente, os jornais se voltam para contar a lenda local de uma figura assombrada: uma única perna que vaga pela noite chutando e ferindo fortemente as pessoas. Com isso, o cineasta se recusa a fazer um gênero puro e se aventura na fantasia pernambucana – com uma construção visual brilhante, diga-se de passagem. A tal da perna se apresenta como mais uma forma de abordar o fantasma – muito real – da violência impune que marcou esse período.

Cena do filme O Agente Secreto. Dona Sebastiana, uma mulher idosa de pele branca e cabelos castanhos caminha sozinha em uma calçada arborizada. Ela usa um vestido estampado com flores em tons de vermelho, marrom e bege, chinelos e óculos escuros. Na mão esquerda, ela segura um cigarro.
O primeiro contato de ‘Dona Tânia’ com a atuação foi durante as gravações de Bacurau (2019), outro filme de Kleber Mendonça Filho (Foto: Vitrine Filmes)

Ainda sob essa perspectiva, o texto resgata a figura do Coronel, que foi extremamente marcante no Brasil, principalmente na Primeira República. No entanto, esse símbolo, nos anos 1970, surge como o delegado e seus parceiros de trabalho, que se impõem sobre toda a estrutura social e política da região. O Doutor Euclides (Robério Diógenes) rouba a cena, tanto na tela quanto no Recife. Seu sobrenome, Cavalcanti, evoca a aristocracia pernambucana, que chegou ao Brasil no século 16 e sobre a qual criou-se o ditado popular: “Quem nasceu em Pernambuco, há de estar desenganado: ou se é um Cavalcanti ou se é um cavalgado”. 

É a partir da lógica de explorar o factual como ponto de partida para a criação da ficção, que o roteiro se debruça sobre a história de seus personagens. Agora, uma outra antiga família de descendência italiana entra em jogo, mas uma de São Paulo; um poderoso empresário entra em conflito com os interesses de Marcelo e decide encerrar as atividades do projeto de pesquisa em que atuava na universidade. Aqui, os discursos entoados pelos dois lados têm muito peso, a visão xenofóbica vem acompanhada de racismo e misoginia e escancaram os males da história brasileira com maestria.

Uma das cenas mais marcantes do filme é justamente a reação de Fátima (Alice Carvalho) ao comportamento do empresário. Nesse momento, a personagem coloca a sua herança regional e questionamentos sobre machismo e relações de poder na mesa. A atriz, que interpreta a falecida esposa de Marcelo, tem pouco tempo de tela, mas uma performance e um texto que ganham destaque de qualquer forma. “Fiquei muito feliz de ele [Kléber] ter me enxergado como essa figura à altura dessa personagem que ele escreveu para comunicar essa mensagem dela, como uma mensagem na garrafa que chega na encosta de uma ilha”, comentou Carvalho em entrevista ao Persona

Portanto, esses atravessamentos culturais que a narrativa aborda chegam aos brasileiros e nordestinos de forma tão impactante justamente porque os atores, muitos deles nordestinos – que carregam essa mensagem na garrafa em seus corpos – certamente foram bem preparados para desempenharem seus papéis. Diante disso, Kleber Mendonça Filho e seu incrível elenco e equipe constroem algo pulsante e necessário, que fala com o país como um todo – e com seu passado e presente – colocando o Nordeste no centro. O Agente Secreto convida o Brasil a enxergar a si mesmo, contudo, nunca como uma fotografia única e homogênea, e sim como várias colagens, que, combinadas, podem formar um complicado retrato de resistência.

 

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