
Davi Marcelgo
Antes da sessão de Nouvelle Vague na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começar, um medo pairava no ar: Richard Linklater conseguiria respeitar ou se equivaler ao Acossado (1960) de Jean-Luc Godard? A resposta para essa pergunta tampouco importou durante os 105 minutos que rolaram no projetor, porque muito foi sentido na exibição. O diretor americano demonstra saudosismo pelo movimento francês, mas sem se ‘masturbar’ perante a genialidade de Godard, Truffaut ou Varda.
O cineasta optou pelo oposto da bajulação, pois há uma certa comicidade no ar sisudo do francês, seu vício em fumar e os óculos escuros característicos. Existe um caráter zombeteiro aos cinéfilos performáticos que adotam uma postura de altar para falarem de Cinema, que mimetizam os trejeitos de Godard e acham que escrevem para a Cahiers du Cinéma, quando na verdade, é só um trecho no Letterboxd. Se o precursor da ‘nova onda’ rompeu e desrespeitou os mestres que o fizeram amar a Arte, Linklater vai fazer o mesmo com essa figura mítica construída sobre a imagem ‘God-Art’ e esse estrelismo, que afasta muita gente de seus filmes. A negação desta divindade seria algo que Godard aprovaria – ele, inclusive, tinha desprezo por Tarantino, que sempre demonstrou admiração pelo trabalho de Jean-Luc.
O americano poderia se contentar com os jump cuts e outros aspectos formais da obra seminal, porém dá preferência de pôr em tela as personalidades excêntricas da equipe de produção e as ideias vanguardistas do artista europeu de forma humorada, celebrando os 20 dias de filmagens do clássico. Os personagens são caracterizados com uma leveza que se assemelha ao improviso e espontaneidade em seu método de filmar, seja nas cenas em que Jean Seberg (Zoey Deutch) e Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin) dançam juntos ou nas alfinetadas da musa em Godard (Guillaume Marbeck). É um longa que não quer simular Godard e sim traduzir o sentimento de assistir à Arte dele, um grande aceno à cinefilia que gosta dos cineastas e todas as picuinhas envolvidas no meio – para cada referência ácida ao comportamento de um dos popstars, gargalhadas rompiam o silêncio da plateia.

Nesse sentido, o roteiro de Vince Palmo, Holly Gent, Laetitia Masson e Michèle Pétin vai criticar o método tecnicista e industrial do Cinema de 1960, uma vez que a Nouvelle Vague vai se caracterizar como um movimento que contraria as lógicas de Hollywood. No entanto, ao colocar essa parte fundamental do pensamento dos artistas daquele tempo, os profissionais acabam por falar do nosso tempo, culminando em uma reflexão sobre a necessidade de cineastas transgressores e a ausência de Godard na Sétima Arte. O Cinema feito do improviso com inspiração, sem possuir um deadline ou um calendário definido de produções para os próximos cinco anos, é uma realidade distante no cenário capitalista atual, quanto mais de se tornar um clássico.
Assim, Nouvelle Vague é um filme que retoma a filmografia de Richard Linklater, que, de sua forma, consegue romper com uma lógica capitalista de produção desenfreada. Sua trilogia Before (1995-2013) tem um espaçamento de nove anos entre os filmes e Boyhood: Da Infância à Juventude (2014) demorou 12 anos para ser finalizado. Porque ambos têm como propostas de enredo esse efeito do tempo: o envelhecimento dos personagens (e dos atores reais) era necessário para o que o artista tinha como objetivo, como a mudança dos cenários e das temáticas. Uma experiência do que é viver. Os longas protagonizados por Ethan Hawke e Julie Delpy partilham inclusive dos métodos de gravação do movimento francês, como a utilização de cenários reais, longe dos sets.
A Arte de Godard e Linklater surge do improviso, de um fazer artístico que fica à mercê do mundo real. Afinal, no intervalo de mais de uma década, alguém poderia morrer e o americano teria que traçar uma nova rota. Tal como em determinado momento de Nouvelle Vague, em uma conversa com Rossellini enquanto dirige, o diretor francês precisa mudar de caminho.
