
Arthur Caires
Sob o velho outdoor do “There’s no way like the American way”, Napoli–New York, escolhido para abertura da 20ª edição do Festival De Cinema Italiano, encontra o seu ponto de partida: entre a promessa estampada e a fome que a moldura insiste em esconder. Inspirado em uma história original dos cineastas italianos Federico Fellini e Tullio Pinelli, e dirigido por Gabriele Salvatores, o longa revisita o pós-guerra com um olhar colorido e melancólico, de quem acredita que a esperança ainda pode nascer entre escombros.
Em 1949, Carmine (Antonio Guerra) e Celestina (Anna Lucia Pierro), duas crianças órfãs de uma Nápoles devastada, decidem embarcar clandestinamente em um navio rumo aos Estados Unidos, em busca de uma irmã que vive no Bronx. O enredo é simples, quase pueril, mas carregado de ecos universais: o impulso de fugir, o desejo de recomeçar e a ingenuidade como forma de resistência. A jornada é contada pela altura do olhar infantil – um mundo visto de baixo, onde os adultos falam demais e as crianças apenas sobrevivem. Dessa forma, Salvatores resgata a fábula inacabada de Fellini e a transforma em uma travessia entre o realismo e a fabulação.
O diretor, fiel à sua natureza inquieta, faz de Napoli–New York um híbrido improvável: metade neorrealismo, metade conto de fadas. Há humor chaplinesco, como na cena em que os protagonistas fogem de um bolo roubado; há também melancolia, lembrando os becos úmidos de Paisà (1946), de Rossellini, símbolo do pós-guerra italiano. O resultado é um filme que transita entre inocência e artifício, sempre consciente de que o Cinema – como a infância – é feito de mentira e encantamento em doses iguais.

Entre as ruínas napolitanas e os arranha-céus de Nova York, o ‘american dream’ surge como miragem. “Você não é estrangeiro, você é apenas pobre”, fala que sintetiza a ironia que atravessa a narrativa. A produção até se aventura a discutir classe, imigração e gênero – especialmente quando a irmã mais velha, Agnese, é julgada por um crime passional –, mas tudo permanece na superfície, como se Salvatores preferisse não ferir demais a delicadeza de seu conto. A cena do tribunal, inclusive, parece deslocada, mais interessada em arrancar aplausos do que em aprofundar dilemas.
Visualmente, o longa alterna entre o deslumbramento e o exagero. A fotografia de Diego Indraccolo aposta em cores saturadas e digitalmente polidas, o que às vezes trai a rusticidade do tema. As grandes cenas – navios, portos, a própria Nova York dos anos 1950 – têm um ar de colagem, como se tudo fosse parte de um sonho febril. A trilha sonora reforça esse efeito: tudo soa como uma jukebox da nostalgia.
Napoli–New York é o típico ‘filme-cartão-postal’ que, por algum motivo, funciona. Tem moralismo, tem romance forçado e tem final açucarado – e por isso mesmo entretém. É uma obra que sabe ser pastiche, e que não se envergonha disso. As atuações das crianças sustentam o encanto, e Salvatores, mesmo em seus tropeços, mantém viva a crença de que o Cinema ainda pode ser um abrigo para sonhadores.
