Nada de neve nem pijamas combinando: O Natal dos Silva mostra como o brasileiro realmente celebra o espírito natalino

Uma mulher negra mais velha, usando um vestido vermelho, segura e exibe um quadro com uma fotografia antiga em preto e branco de duas meninas. Ela sorri enquanto outra mulher ao seu lado olha para a foto. Ao fundo, um homem idoso de camisa polo cinza está sentado, observando a cena. O ambiente é um pátio iluminado por luzes de Natal.
Bel, o eixo emocional que tenta manter a família unida, segura um retrato que evoca a presença da matriarca ausente (Foto: Filmes do Estação)

Arthur Caires

Em todo 24 de dezembro, existe uma coreografia que se repete na maioria dos lares brasileiros: pratos empilhados na mesa; cadeiras puxadas às pressas e pessoas que não se veem há meses comprimidas numa mesma foto anual. É um ritual feito de afeto e atrito, tão nosso quanto a farofa que nunca falta ou o parente inconveniente que sempre chega atrasado. Curiosamente, essa experiência coletiva quase nunca encontra espaço no audiovisual nacional – e, quando encontra, raramente tem a cor, o sotaque e a geografia do país que de fato celebra essa data. 

O Natal dos Silva vem para ocupar justamente essa lacuna. Se Marte Um (2022) já havia confirmado Gabriel Martins como uma das vozes proeminentes do cinema brasileiro atual, sua nova produção expande esse gesto para a TV – a primeira investida da Filmes de Plástico no formato. Exibida no Canal Brasil e no Globoplay Premium, a minissérie nasce de um esforço coletivo – Martins assina o primeiro e o último episódios, enquanto Maurílio Martins e André Novais Oliveira conduzem o miolo da história.

Um plano aberto mostrando um grande grupo de cerca de dez adultos reunidos em um quintal ou laje à noite. Alguns estão sentados ao redor de uma mesa redonda com garrafas de cerveja, enquanto outros estão de pé conversando. O local é decorado com varais de luzes coloridas e enfeites natalinos simples.
Com um elenco numeroso onde cada presença é necessária, a produção abraça o caos natalino brasileiro (Foto: Filmes do Estação)

Na trama de O Natal dos Silva, a morte recente da matriarca dona Zelina paira como um motor que nunca aparece em cena, mas move tudo ao redor – um luto que reverbera nos gestos e nas brigas pequenas demais para serem só brigas. Bel, filha de Zelina e vivida com entrega absoluta por Rejane Faria, é o eixo emocional que tenta costurar as pontas soltas da família – ainda que o faça com mãos trêmulas e um humor azedo que nasce mais da dor do que de convicção. Dividida entre a tradição que herdou e a perda que ainda não sabe nomear, ela encarna a figura da mãe brasileira que tenta manter a casa de pé enquanto tudo ao redor ameaça ruir. 

Se Bel representa o fio tenso da tradição, Lin – interpretada com delicadeza por Aisha Brunno – chega como a rachadura que faz a estrutura inteira tremer e revelar o que sempre foi mantido em silêncio. Sua presença escancara a naturalização do preconceito como uma perturbação diária, que se manifesta em olhares tortos, comentários ditos ‘no privado’ e uma hospitalidade que nunca é plena. A dinâmica com Luciano (Robert Frank), filho de Bel, mistura afeto, vergonha e tentativa de mediação, enquanto a série se recusa a transformar a transfobia em espetáculo: ela existe, porém não define Lin. 

Quatro adultos negros estão de pé em uma área externa à noite, sob luzes pisca-pisca azuis e brancas desfocadas. Uma mulher de vestido vermelho no centro está de braços cruzados e expressão séria, olhando para a esquerda, assim como os dois homens ao seu lado. A tensão é visível em seus rostos.
Sob a sombra do luto recente pela matriarca Dona Zelina, a dinâmica familiar dos Silva oscila constantemente (Foto: Filmes do Estação)

Quanto ao tom narrativo, O Natal dos Silva abraça o caos natalino, oscilando entre humor e drama com a mesma naturalidade com que uma família alterna piadas internas e discussões amargas em questão de minutos. É aí que a série mais acerta e, às vezes, tropeça: o humor, suave e de cantos arredondados, conversando com tensões profundas que nem sempre encontram o melhor equilíbrio. Ainda assim, a direção aposta numa estética do detalhe e constrói cenas em camadas, onde o segundo plano revela tanto quanto o diálogo em destaque. O episódio 2, inteiramente em plano-sequência, cristaliza essa proposta: a câmera passeia pela casa como se estivesse se esgueirando por uma reunião de família real, ouvindo conversas picotadas e testemunhando afeto e descontrole no mesmo fôlego. 

E, se a casa nunca para, é porque a série nunca deixa de ser atravessada por gente – muita gente. Com um elenco que ultrapassa vinte atores, a produção faz com que cada presença pareça necessária. Não há sensação de figuração perdida no fundo; todos estão construindo o mesmo cenário. Esse dinamismo constante reforça a percepção de que estamos diante não apenas de uma minissérie, mas de uma reunião familiar que transborda para fora da tela.

A direção de arte, feita por Rimenna Procópio, de O Natal dos Silva é um dos primeiros convites para entrar na casa, e talvez o mais caloroso. A abertura, cheia de textura, ritmo e inventividade, já anuncia que este é um Natal brasileiro: a toalha de mesa que já viveu outras festas, o pisca-pisca que insiste em falhar e os enfeites que parecem saídos de uma lembrança infantil. Nada aqui é estetizado como um cartão-postal importado. 

Uma família negra brasileira, composta por um homem sentado, uma mulher de pé e duas crianças, está reunida ao redor de uma mesa de jantar modesta. Sobre a toalha estampada vermelha, há pratos de comida e uma pequena árvore de Natal decorativa vermelha no centro. A mulher de pé olha para a criança sentada à direita.
A direção de arte da série aposta em uma estética realista, longe dos clichês importados (Foto: Filmes do Estação)

Como estreia no formato seriado, a produção acerta muito mais do que erra, e seus méritos são visíveis desde os primeiros minutos: há originalidade na forma de filmar o Natal. Mas, também há limitações – um desequilíbrio ocasional de tom, momentos em que o humor mina a tensão ou em que o drama pesa além do necessário. No entanto, nada disso diminui a força do conjunto. Ao final da ceia – e da série – voltamos à imagem inicial do Natal como união: essa reunião anual em que as diferenças se tornam mais nítidas, porém onde, por alguma razão, insistimos em permanecer. 

O Natal dos Silva funciona como registro íntimo de uma família ficcional que, por metonímia, ecoa tantas outras famílias brasileiras, especialmente aquelas que enfrentam um país que nem sempre lhes oferece espaço. Filmá-lo hoje é, de certo modo, desafiar o apagamento: é dizer que essas histórias importam, que esses corpos e esses afetos também merecem estar na tela. E, ao fechar a porta da casa dos Silva, fica a pergunta que carregamos para a próxima ceia: que memórias e sentimentos vão permanecer quando o caos baixar?

 

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