Podcasts no Emmy: o rumo das narrativas sonoras no universo do audiovisual

Cena da série Morrendo por Sexo. Molly, loira e de cabelos curtos veste um cachecol roxo e um gorro verde escuro e segura uma pasta azul enquanto olha para sua amiga. Na direita, Nikki, vestindo um casaco verde sorri para Molly. As duas estão sentadas em uma sala de espera de um hospital.
Adaptação de Morrendo por Sexo garante a presença dos podcasts na 77.ª edição do Emmy Awards (Fonte: Disney+) 

Mariana Bezerra 

Desde o início da história do cinema, as adaptações se tornaram um ponto marcante das produções audiovisuais. Os livros nunca pararam de virar filmes – ou séries, como vem acontecendo nas últimas décadas. No entanto, o surgimento de outros suportes midiáticos também passaram a chamar atenção dos criadores de produções seriadas. Grandes serviços de streaming como Apple TV e Amazon Studios, começaram a transformar os podcasts em seriados. Em 2025, quem ganhou destaque e garantiu presença no Emmy foi Morrendo por Sexo (Disney +), com nove indicações, incluindo as categorias de Melhor Atriz, Melhor Ator em Série Limitada e Melhor Série Limitada

O cinema surgiu oficialmente na França em 1895, pouco tempo depois, o romance de George du Maurier,  Trilby e o Pequeno Billy (1896), se tornou o primeiro título a ser adaptado para as grandes telas. Depois desse, outros clássicos literários também se tornaram filmes, como: As Viagens de Gulliver Entre os Liliputianos e os Gigantes (1902), O vento levou (1939) e Branca de neve (1937). Esse projeto adaptativo se formou com o objetivo de propiciar ao público o contato com grandes histórias de modo que pudessem conhecê-los despertando outros sentidos. Ou seja, era apenas uma questão de tempo até que histórias feitas para os nossos ouvidos, despertassem os interesses dos nossos olhos.

O advento dos podcasts faz parte de uma sociedade extremamente apegada a velocidade e a ideia da multitarefa, ou seja, a tentativa de realizar várias atividades ao mesmo tempo. No livro Sociedade do Cansaço, o filósofo coreano, Byung Chul-Han, essa realidade é um retrocesso, uma vez que o ser humano não consegue se dedicar plenamente a mais de uma função. A sociedade se revela contraditória: ao mesmo tempo em que são criadas séries no formato de podcasts, esses ganham imagem e viram videocasts como se fossem programas de televisão. De qualquer forma, uma única tarefa que exija a ativação de mais de um sentido, é capaz de forçar uma maior concentração e de despertar diferentes possibilidades para um conteúdo. E a verdade é que o público está comprando essa ideia. 

Fotografia em preto e branco dos irmãos Lumière, homens brancos de cabelos curtos e grisalhos. Ambos estão virados para a direita. Vestem casacos e gravatas pretas. Ao fundo, apenas um cenário neutro.
Os irmãos Auguste e Louis Lumière realizaram a primeira projeção de cinema da história, na França, em 1985 (Fonte: Reprodução) 

Assim surge Dying for Sex (no original), uma série de oito episódios inspirada no podcast homônimo de 2018, narrado pelas amigas Molly Kochan e Nikki Boyer. Molly foi diagnosticada com câncer de mama em 2011 e passou por um longo processo de quimioterapia até a sua cura. Quando, quatro anos depois, recebeu a notícia de que seu câncer havia voltado em forma de metástase (espalhado por todo corpo), Molly decide deixar o marido e começar o seu despertar sexual com 41 anos e câncer estágio IV. 

As duas amigas viveram o inimaginável juntas, desde o desabafo sobre experiências sexuais, às consultas médicas desconfortáveis até verdades difíceis de encarar sobre o quadro de Molly. Essa história dolorosa, aventureira e, principalmente, prazerosa, de uma mulher que decidiu seguir viva até seu último segundo, levou a criação do podcast com os relatos intimistas da dupla, que, certamente, inspiraram muitas outras mulheres. 

A narrativa em primeira pessoa é uma ótima oportunidade para a adaptação de uma história tão particular. Ainda mais quando se fala, literalmente, da voz dessa pessoa. Além disso, Morrendo por Sexo chegou ao streaming com as incríveis performances de Michelle Williams e Jane Slate, que interpretam Molly e Nikki respectivamente. O roteiro não precisou ousar, porque Kochan e Boyer já o fizeram suficientemente. Sem tabus, ao mesmo tempo que, sem a necessidade de criar a imagem de uma super-heroína em um pedestal, a produção consegue emocionar e entreter com uma história que subverte os padrões por si só. 

Selfie do Instagram de Nikki Boyer. À esquerda, Nikki, de cabelos mais escuros e batom rosa sorri com a cabeça encostada em Molly, que usa óculos de grau e tem cabelos curtos e loiros e também sorri na foto.
Nikki Boyer participou da minissérie como produtora executiva (Fonte: Instagram / Nikki Boyer)

A adaptação concede ao público mais uma chance de entrar em contato com relatos fascinantes sob uma perspectiva diferente. No entanto, é preciso expandir e ir além de uma simples reprodução. Aproveitar material original, mas saber adicionar e aproveitar com excelência os elementos necessários para uma boa produção audiovisual. Até porque, a variedade de estilos de podcasts é enorme e, enquanto uns são pautados em uma narrativa linear, quase teatral, com efeitos sonoros elaborados – como em A mulher da Casa Abandonada (2022) –, outros se estruturam de forma espontanea, a partir de um bate-papo entre amigas, a exemplo de Morrendo por Sexo. 

A nova era exige – e ao mesmo tempo propicia – um exercício criativo dos produtores, que podem ampliar o leque de sua curadoria. A pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Podcasters (Abpod) estima que, no Brasil, há 31,94 milhões de ouvintes de podcast. Diante disso, os estúdios podem se aproveitar de públicos já consolidados para as novas produções, o que pode não garantir, mas possibilita um engajamento prévio significativo. Esse foi o caso da série documental A mulher da casa abandonada (2025), que aborda o caso investigado e apresentado pelo jornalista Chico Felitti em uma narrativa sonora de mesmo nome. 

Os nove episódios contam a história de Margarida Bonetti, procurada pela justiça estadunidense por ter, juntamente com seu marido, submetido uma brasileira a trabalho análogo à escravidao enquanto morava nos Estados Unidos. A produção de 2022 foi um sucesso. No entanto, por ser um caso criminal que não gerou penalização, o documentário foi ainda mais longe – literalmente, para os Estados Unidos – e trouxe informações e relatos não explorados no podcast. Em coletiva de imprensa, Chico Felitti afirmou que “só faria sentido [ a série ] se fosse além do podcast”. 

Cena do documentário A Mulher da Casa Abandonada. Fotografia de Hilda dos Santos, uma mulher negra de cabelo curto e branco, vestindo uma blusa azul, segurando um telefone sem fio próximo ao ouvido. No fundo, aparece um abajur ligado e alguns itens de decoração.
A série documental do Prime Video trouxe, pela primeira vez, relatos inéditos da vítima, Hilda dos Santos (Foto: Prime Video) 

Pensando em podcasts como ‘materiais’, é importante discutir como eles se inserem no universo digital. A ideia de que a internet é ‘terra de ninguém’ deixa de fazer sentido à medida que a legislação avança. Assim, esse formato pode ser registrado como marca e considerado propriedade intelectual. Diante disso, é preciso pontuar que o ímpeto do ser humano em se comunicar, bem como o seu talento, vem abrindo portas e gerando inovações. 

Em 2023, aconteceram as greves dos roteiristas e atores em Hollywood, que questionavam a desvalorização e precarização do trabalho na indústria do entretenimento. O período atual também é marcado por discussões sobre a possível substituição de funções pela inteligência artificial. Com o advento de mais uma forma de fazer Arte, fica claro que a força criativa humana está está mais viva do que nunca e pronta para usar novas tecnologias ao seu favor.

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