Luísa Sonza faz um bom trabalho em Bossa Sempre Nova, mas prestígio não se ganha com tanta facilidade

A imagem é a capa do álbum Bossa Sempre Nova. Luísa Sonza aparece deitada de forma elegante em uma espreguiçadeira de design curvo com assento de palha, vestindo um longo vestido de cetim roxo escuro. Ela apoia a cabeça na mão direita e olha diretamente para a câmera. Ao fundo, vê-se uma paisagem litorânea paradisíaca com mar azul, ilhas ao longe e folhas de palmeira no canto direito. No topo, em tipografia retrô, lê-se o título do álbum e, no rodapé, os nomes: Roberto Menescal, Luísa Sonza e Toquinho.
Capa de Bossa Sempre Nova busca evocar a sofisticação e o imaginário cosmopolita do gênero (Foto: Pam Martins)

Arthur Caires

A Bossa Nova sempre foi mais do que um gênero musical. É um ideal de sofisticação e elegância que remonta os primórdios da música e do nosso contexto social. Desde que surgiu, carrega consigo a promessa de um Brasil cosmopolita, delicado e exportável – um imaginário que atravessou décadas e segue sendo sinônimo de credibilidade artística. É a partir desse desejo que Bossa Sempre Nova se apresenta. Para além de um disco, o álbum se impõe como uma estratégia: a de uma cantora pop contemporânea que decide vestir essa herança, buscando nela um repertório e, principalmente, um reposicionamento. A pergunta que paira, então, não é apenas se Luísa Sonza canta bem bossa nova, porém o que significa, hoje, querer caber dentro dela.

A carreira de Luísa é marcada por muitos altos e baixos. Em seu início, era claro uma tentativa de se inserir no mercado do pop nacional seguindo as fórmulas já conhecidas do grupo Hitmaker e da dupla Umberto Tavares e Jefferson Junior – compositores dos grandes sucessos de Anitta, Ludmilla, Lexa e diversos outros artistas brasileiros. Com o lançamento de DOCE 22 (2021), a gaúcha iniciou um processo de importar as características da indústria internacional, traduzindo-as para o nosso contexto, o que funcionou por um bom tempo.

A grande questão que faz o ouvinte médio se afastar do trabalho de Luísa Sonza é a sua persona. A cantora já se provou capaz de entregar músicas de qualidade e ao mesmo tempo comerciais, no entanto seus posicionamentos e atitudes causam certa aversão. Seja o caso de racismo que a assombra até hoje, as polêmicas envolvendo ex-namorados, porém, principalmente, as suas tentativas extensas de se promover como subversiva e extraordinariamente artística. O problema da autopromoção é exatamente esse: não se ganha prestígio dizendo que é bom, mas fazendo algo bom.

Foto em plano médio de Luísa Sonza. Ela está de costas, virando o tronco e o rosto para olhar a câmera por cima do ombro esquerdo. Seus cabelos são loiros, longos e com franja. Ela veste uma blusa de manga longa com listras verticais em verde e preto, que deixa as costas nuas, revelando pequenas tatuagens. O fundo está levemente desfocado, mostrando o mar azul, céu claro e vegetação tropical à esquerda.
Apostando em uma estética clássica, a cantora busca um reposicionamento de sua persona pública (Foto: Pam Martins)

É nesse impasse – entre capacidade técnica e um desejo de legitimação – que Bossa Sempre Nova começa a fazer sentido. O mercado pop brasileiro vive um momento particularmente receptivo a projetos de resgate e celebração de gêneros nacionais, especialmente quando mediados por artistas já consolidados. Trabalhos como Batidão Tropical (2021) ou Numanice (2020) mostram como esses ‘desvios de rota’ funcionam tanto como homenagem quanto como diversificação de repertório.

Soma-se a isso um dado geracional recente: a MPB – e, por extensão, a Bossa Nova – voltou a circular com força entre jovens de 18 a 24 anos, impulsionada sobretudo pelo streaming e pelas dinâmicas de redescoberta promovidas pelo TikTok. Segundo dados do Spotify, o consumo do gênero cresceu 47% entre 2022 e 2024, e essa mesma faixa etária respondeu por 64% desse aumento. Nomes como ANAVITÓRIA, Liniker, Seu Jorge e Marisa Monte figuram entre os mais ouvidos pelos jovens, enquanto fusões com rap e funk – como nos trabalhos de Criolo, Emicida e Djonga – ajudam a atualizar essas referências.

Luísa Sonza e Roberto Menescal sentados confortavelmente em um sofá de couro bege claro. Eles estão em uma sala com uma grande janela de vidro ao fundo, que oferece vista para o mar e ilhas. Luísa, à esquerda, usa o vestido roxo da capa e sorri olhando para a frente. Roberto Menescal, à direita, veste uma camisa marrom e uma boina; ele segura um violão de madeira no colo e olha para a paisagem externa com um leve sorriso.
A produção do disco se apoia na presença histórica de Roberto Menescal (à direita), que divide os arranjos com Douglas Moda e Toquinho (Foto: Pam Martins)

Quando finalmente chegamos ao disco, Bossa Sempre Nova entrega exatamente o que promete, e talvez esse seja tanto seu mérito quanto sua limitação. São 14 faixas que seguem à risca o estereótipo do LP desse gênero: standards já revisitados inúmeras vezes, como O Barquinho e Onde Anda Você, algumas escolhas menos óbvias e apenas uma canção inédita, Um Pouco de Mim, assinada pela própria cantora. 

A produção é elegante e detalhada, escorada nos violões, arranjos e na presença histórica de Roberto Menescal e Toquinho, que dividem a coprodução com Douglas Moda. Luísa, por sua vez, canta bem, talvez melhor do que nunca. Sua voz soa mais confortável, menos tensionada como anteriormente. O projeto flui, é agradável, bem-acabado e tecnicamente irrepreensível. Funciona. Mas é aí que surge o ‘porém’. É justamente nesse excesso de cuidado que Bossa Sempre Nova começa a travar. 

A reverência à tradição é tanta que o disco evita qualquer gesto de risco. A seleção do repertório e a execução se mantêm sempre em terreno seguro. Ao longo da história da MPB, álbuns de releitura também funcionaram como reinterpretações propriamente ditas, capazes de tensionar o passado a partir de uma assinatura autoral muito clara. É o caso de Fina Estampa (1994), de Caetano Veloso, Gal Bossa Tropical (2002), de Gal Costa, e As Canções que Você Fez para Mim (1993), de Maria Bethânia – trabalhos que dialogam com a tradição sem abdicar de uma leitura pessoal. Na obra de Luísa, essa assinatura se dilui. Não há atualização, fricção geracional ou ponto de vista que justifique revisitar canções já regravadas inúmeras vezes.

Esse apego à tradição ganha contornos ainda mais contraditórios quando colocado em diálogo com a imagem pública recente de Luísa Sonza. Em 2025, a cantora esteve no centro da polêmica envolvendo Sina de Ofélia, versão abrasileirada de The Fate of Ophelia, de Taylor Swift, criada com o uso de inteligência artificial sem autorização, que reproduzia a voz de Luísa. A faixa viralizou rapidamente no TikTok, e chegou a atingir números suficientes para figurar no top de singles do Brasil e de Portugal, sendo posteriormente banida pela Associação Fonográfica Portuguesa por violação de direitos autorais. 

Luísa, longe de ignorar o fenômeno, reagiu publicamente com bom humor, brincou com a versão em vídeos e ajudou a amplificar sua circulação, mesmo diante das implicações éticas e legais do caso. Em entrevista para a NovaBrasil FM, durante o evento de divulgação de Bossa Sempre Nova, ao ser questionada se a Inteligência Artificial na Música a preocupa, a cantora defendeu a ideia de um “disco orgânico, artesanal e feito praticamente ao vivo” como sua resposta simbólica à automatização da criação artística. Mesmo assim, sua fala se perde entre a naturalização de um produto gerado por IA que instrumentaliza sua própria voz e um álbum que se ancora no passado mais canonizado da música brasileira como prova de autenticidade.

No fim das contas, o projeto cumpre a função a que se propõe, ainda que essa função seja mais estratégica do que artística. O disco ajuda a reposicionar Luísa Sonza, suaviza arestas da sua imagem pública e reafirma uma competência vocal que nunca esteve exatamente em dúvida. Como gesto de carreira, faz sentido; como obra, fica aquém do que poderia ser. No esforço de soar elegante, Bossa Sempre Nova acaba esquecendo que prestígio não se clama, se recebe.

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