Lorde morre simbolicamente em Virgin só para experimentar a ressurreição

 

A capa do álbum Virgin é uma imagem de raio-X em tons de azul, mostrando uma pelve humana feminina em posição frontal. No centro da imagem, há um zíper e uma fivela metálica sobrepostos digitalmente à imagem anatômica, além da presença de um DIU (dispositivo intrauterino) visível no útero. A composição evoca temas de feminilidade, exposição e controle do próprio corpo, reforçando o caráter visceral e simbólico do álbum.
Corpo como território, imagem como manifesto (Foto: Republic Records)

Arthur Caires

Existe algo desconfortável – e, por isso mesmo, vital – em se olhar no espelho com sinceridade. Não o reflexo rápido do dia a dia, e sim aquele olhar demorado, que tenta entender não só o que mudou, porém o que ainda pulsa por baixo da pele. Às vezes, esse exercício traz mais dúvidas do que respostas. O corpo pesa, a cabeça gira, e o que era certeza vira angústia. Ainda assim, há algo de libertador em se permitir esse mergulho: abandonar o automático, a complacência. O caos, quando acolhido, pode ser mais revelador do que qualquer solução conveniente.

É nesse lugar entre o instinto e a exposição que Virgin, o novo álbum de Lorde, habita. Um projeto que soa como um grito íntimo, daqueles que não precisam de plateia, mas que, quando ouvidos, arrepiam. Ao invés de reconstruir uma imagem, a cantora a desmonta por completo. Sem buscar finais felizes ou metáforas rebuscadas, ela entrega um disco cru, tenso e, por isso mesmo, profundamente humano. Não é sobre ser pura, e sim sobre estar viva.

Lorde, mulher branca, posa parcialmente despida contra um fundo azul suave e etéreo. Seu cabelo escuro está preso em um rabo de cavalo baixo, e ela usa um brinco longo e prateado em formato de espiral. Com os braços dobrados à frente do corpo e os olhos fixos na câmera, sua expressão transmite introspecção, força e uma certa melancolia. A iluminação azulada acentua a atmosfera sensorial e aquática que permeia o conceito visual de Virgin.
Lorde se desfaz para renascer do caos e da carne (Foto: Republic Records)

Após quatro anos de reclusão artística, a neozelandesa retorna em um momento de ruptura e reinvenção pessoal. Desde o lançamento polarizador de Solar Power – descompassado com as ideias da época –, a artista passou por um período de profunda transformação. O que parecia distanciamento, na verdade, era ebulição interna: ela enfrentou o fim de um relacionamento, reconheceu um transtorno alimentar e passou a explorar com mais fluidez sua identidade de gênero. Não é surpresa, portanto, que Virgin chegue como um trabalho denso e emocionalmente exposto.

Um dos estopins criativos dessa nova fase foi sua inesperada participação no remix de Girl, so confusing, de Charli XCX. Mais do que uma colaboração no álbum brat, a faixa serviu como catalisador de um novo desejo artístico: criar algo eletrônico, dançante e ao mesmo tempo confessional. A influência da britânica paira em Virgin, mesmo sem estar diretamente nos créditos. Desta vez, Lorde deixou de lado a parceria habitual com Jack Antonoff e escolheu trabalhar com Jim-E Stack – produtor conhecido por colaborações com nomes como Caroline Polachek e Bon Iver. A troca trouxe consequências diretas para o som do álbum: mais texturizado, dissonante e desprovido do polimento típico do pop mainstream.

O primeiro indício dessa nova direção surgiu com What Was That, single de estreia do álbum. A faixa marcou o reencontro de Lorde com os sintetizadores eletrônicos de Melodrama, mas agora com ainda menos controle e mais caos. As letras lembram a franqueza adolescente de Pure Heroine, no entanto, agora reconfigurada por uma maturidade que se expressa por meio de reações quase primitivas: “Estamos em uma tempestade de areia e isso me nocauteia”. A artista faz disso uma exposição sem filtros, pulsante, contraditória e quase animalesca.

Apesar de soar provocativo à primeira vista, o título Virgin está longe de reforçar noções tradicionais de pureza. Lorde deixa isso claro em diversas faixas – em Clearblue, por exemplo, ela canta sem rodeios: “Eu sentei em você até eu chorar”. A ideia de virgindade aqui é ressignificada: aponta para um estado de descoberta, onde o instinto guia mais do que a razão, e onde o corpo, as emoções e os impulsos são ferramentas de aprendizado. 

Essa entrega aparece simbolicamente na capa e no encarte do disco, que exibe um raio-X de uma pélvis adornada com zíper, fivela e um DIU. A imagem, desconcertante e direta, sintetiza o espírito do álbum: corpo como território, feminilidade como força bruta. A metáfora visual conversa com a própria fala de Lorde sobre o processo criativo: “Este álbum me quebrou e me transformou em uma nova criatura. Tenho orgulho de estar diante de vocês como ela”.

A busca por experiência e expressão plena de identidade aparece já na faixa de abertura, Hammer, quando ela canta “Alguns dias eu sou uma mulher, outros dias eu sou um homem”. Essa fluidez – de gênero, de emoção, de linguagem – atravessa todo o álbum e ganha corpo na belíssima Man Of The Year, um dos momentos mais introspectivos e reveladores do projeto, em que Lorde se questiona “Quem irá me amar desse jeito?”. 

Virgin é, de certa forma, o ponto de interseção entre os caminhos que Lorde percorreu ao longo de sua discografia. Se Pure Heroine a apresentou como uma observadora precoce e cética do mundo ao seu redor, Melodrama a transformou em cronista das emoções adultas com uma intensidade quase operática e Solar Power tentou encontrar uma espécie de fuga: menos sobre sentir, mais sobre respirar. Porém, foi no quarto disco da cantora que todas essas versões finalmente colidiram – não para formar uma síntese pacífica, mas para abrir espaço ao conflito. 

Esse sentimento aparece com força em faixas como Favourite Daughter e Shapeshifter. Na primeira, Lorde canta sobre sua relação com a mãe, a poeta Sonja Yelich, e questiona se sua carreira seria, no fundo, a realização dos sonhos maternos: “Ataque de pânico só para ser sua filha favorita”. Há uma doçura ali, porém também uma exaustão que parece ecoar as pressões invisíveis da performance afetiva. Já em Shapeshifter, parente próxima de The Path, ela escancara a desconexão com a própria imagem pública: “Eu estive no pedestal, mas esta noite eu só quero cair”. Em ambas, o que emerge é o peso de sustentar papéis – de filha exemplar, de artista bem-sucedida – e a vontade de simplesmente poder ser, mesmo sem forma definida.

Lorde, mulher branca, aparece em close-up, vestindo um moletom cinza com capuz puxado sobre a cabeça. Seu cabelo preto está levemente bagunçado pelo vento e seus olhos encaram diretamente a câmera, transmitindo uma expressão séria e vulnerável. O fundo metálico e prateado cria um contraste frio com o tom da sua pele clara, reforçando a estética crua e intimista associada à era Virgin.
“Estou orgulhosa e com medo deste álbum, não há onde se esconder” (Foto: Republic Records)

Nessa nova fase, Lorde abandona a postura de quem tem todas as respostas para assumir a dúvida. Aos 28 anos, já distante da adolescente sabe-tudo de Pure Heroine, ela se apresenta mais vulnerável do que nunca. “Estou pronta para sentir que não tenho as respostas”, declara, abrindo um disco que não busca soluções, e sim a liberdade de sentir sem censura. O álbum revela uma artista que não teme mais se perder – e que entende que o inacabado também tem valor.

Em If She Could See Me Now, ela se orgulha dessa coragem: “Eu nado em águas que afogariam tantas outras”. Há beleza no desconforto, e Virgin é, antes de tudo, um retrato de quem escolhe continuar mesmo sem saber o destino. Como escreveu Clarice Lispector em A Hora da Estrela sobre a personagem Macabéa: “Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho”.

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