Em Sincerely, Kali Uchis expõe suas vulnerabilidades com lirismo denso, mas não foge da estética habitual

Na capa do álbum, Kali Uchis, mulher latina de 30 anos, aparece deitada sobre uma superfície rosa e brilhante que se assemelha a uma flor. Ela usa uma lingerie de cetim e sapatos que lembram sapatilhas de bailarina. Está com o cabelo solto. Ao fundo, uma tela exibe uma versão ampliada de sua expressão facial no momento da foto, como um reflexo projetado.
“Sincerely”, álbum lançado dia 9 de maio de 2025 (Foto: Capitol Records)

Talita Mutti

Uma garota que, aos 17 anos, foi expulsa de casa pode não ter muitas perspectivas de um futuro de sucesso. Afinal, viver sem a família, dormindo no banco de trás de um carro, não parece uma situação propícia para formar um gênio da música. No entanto, para quem sonha e entende seu propósito no mundo, isso pode ser apenas mais um obstáculo da vida. Se Kali Uchis, aos 23 anos, disse em Isolation, álbum lançado em 2018, que precisamos ser nossos próprios heróis e esperar o sol nascer depois da tempestade, hoje, aos 30, com uma carreira consolidada e sua própria família formada, ela prova que as flores cresceram em Sincerely, lançado em 9 de maio de 2025.

No vídeo promocional do seu quinto trabalho, Kali aparece de camisola, com bobs no cabelo, numa estética sensual e refinada, escrevendo uma carta intitulada Sincerely. O projeto segue essa linha confessional. Da primeira até à última faixa, somos imersos em seus pensamentos mais sinceros, expressos de forma vulnerável, mas corajosa. A essência dela sempre destoou dos nomes tradicionais do pop. Os temas abordados em suas músicas fogem do lugar-comum. Não que falar de amor romântico seja irrelevante, porém a vida vai além disso. Aqui, a densidade lírica é um ponto alto, contrastando com uma estética sonora que, por vezes, beira a repetição. Ainda assim, a artista explora nuances profundas e genuínas.

Karly-Marina Loaiza, seu nome de origem, construiu sua carreira reafirmando autoconfiança e ideais. Ao voltar para casa em 2012, lançou a mixtape Drunken Babble, que chamou a atenção de nomes como Snoop Dogg e Tyler, the Creator, com quem colaboraria mais tarde. Em entrevista à BBC, ela afirmou que, mesmo com algumas músicas viralizando sem alcançar o mainstream, isso nunca a incomodou. Bastava o apoio dos fãs fiéis para que continuasse compondo. Talvez essa ausência de desespero por fama e o apego genuíno à arte a tenham levado onde está hoje.

Em seu projeto mais recente, é possível percorrer cada aspecto da sua vida,  especialmente o fato de ter se tornado mãe. Já no início do álbum, com Heaven Is a Home, a performer expressa o desejo de deixar a Terra e escapar da realidade — não como desistência, mas como vontade de viver em paz. Em Lose My Cool, a compositora mostra seu desapego pelo terreno e repúdio por pessoas falsas dizendo: “Eles sorriem e posam para fotos até a imagem desaparecer [..] Eu odeio o mundo hoje, mas não será a minha morte. Diga às crianças para fazerem o que quiserem e nunca se importarem com a aparência. Eu sou uma romântica da velha guarda, me chame de louca se quiser.”

A cantora sempre foi o tipo de artista que valoriza seu desenvolvimento pessoal e amor próprio. Antes mesmo de formar uma família, já transparecia autoconfiança dentro e fora das músicas. Não é difícil entender como Uchis cresceu na carreira. Para ela, produzir é uma forma de afastar os males e enaltecer o que realmente importa. Contudo, nem sempre foi assim. Ainda em Heaven Is A Home, ela diz: “Esta é a história de uma garota que já foi aprisionada por sua própria mente — e a liberdade nunca foi tão boa”.

Em diversos momentos do álbum, a compositora critica a cultura da atenção e a falsidade das relações modernas. Em Territorial, Kali assume o papel de protetora da família, de mãe e de mulher forte. Diferente de muitos, a performer valoriza o que conquistou em sua trajetória como cantora e sabe reconhecer falsas intenções. E não é preciso muito para despertar seu lado territorial: “Por que eu agiria respeitosamente enquanto você me desrespeita? Minhas garras saem rápido quando tentam invadir meu território. Veja, eu sou uma amante, mas vou entrar em guerra pelo que é meu. Vou usar seu rosto para limpar o chão”, afirma na faixa.

Em uma foto em preto e branco, Kali Uchis, mulher latina de 30 anos, aparece com cabelo castanho solto. Ela usa um vestido listrado verticalmente em preto e branco e salto alto preto. Está sentada de lado em uma cadeira, com o braço direito apoiado sobre a cabeça e o esquerdo posicionado no quadril. O fundo da imagem é branco com uma vinheta.
Kali Uchis para o photoshoot de seu novo álbum (Foto: Amaury Nessaibia)

Apesar das temáticas densas, Uchis ainda mantém o toque romântico que sempre dominou ao usar metáforas e comparações profundas que dão sentido ao amor que vive. Em Fall Apart, a artista versa sobre um amor que move montanhas, resiste às fases e se mantém firme. Paixão verdadeira, vivido por inteira. Ela reflete sobre ser amada, não apenas por sua aparência ou perfeição, mas também por sua “mente, alma e coração”. Em Silk Lingerie, a cantora vive o romance desejado: simples, leve e sem necessidade de manutenção constante. Apenas sentimento puro e forte, que resiste ao ódio do mundo.

Um ponto de desejo de evolução para Kali talvez esteja na sonoridade. Sua estética permanece fiel ao que sempre apresentou, algo positivo por sua coerência artística, mas que por vezes soa repetitivo. Grande parte do álbum mantém o mesmo tom vocal e melódico. No entanto, em faixas específicas, a colombiana-americana se arrisca. Em For:You, por exemplo, o início é marcado por um sintetizador para geração de acordes, parecido com o The Orchid, criado e utilizado por Kevin Parker. Já em Is Just Us, a presença da banda dá protagonismo às guitarras, com riffs marcantes e inventivos.

Em entrevista antes do lançamento, a voz de Moonlight contou que busca formas alternativas de produzir música, criando um dinamismo entre suas influências e sua identidade. Citou Fiona Apple, Amy Winehouse e Cocteau Twins como referências. Lose My Cool carrega fortemente essas inspirações. Sua voz se aproxima da cantora de jazz e a segunda parte da canção remete à atmosfera etérea da banda britânica.  

Kali Uchis está sentada à direita da imagem, sobre uma cama com lençóis brancos. Acima da cama, há uma cruz com a figura de Jesus. À esquerda da imagem, vê-se uma cômoda azul bebê com quatro gavetas; sobre ela, um espelho pequeno e redondo. Ao lado da cômoda, há uma cadeira branca posicionada próxima a uma janela com cortinas brancas. A cantora usa uma camisola branca de cetim, justa ao corpo.
Visualizer de ILYSMIH, uma carta de amor para o filho de Kali Uchis (Foto: Capitol Records)

Ao final dessa carta sonora, se olharmos seus altos e baixos, desejos e conquistas, encontramos o que realmente a move: o amor, especialmente o de ser mãe. O tema é mencionado ao longo do álbum, mas é em ILYSMIH que a emoção atinge o ápice. A compositora se comove ao falar sobre o carinho incondicional que sente pelo filho, como se nada mais importasse. É um sentimento tão profundo que dói, e nós ouvintes, sentimos como se estivéssemos no momento em que ela deu à luz. “Pela primeira vez na minha vida, eu não estou mais sozinha Meu coração tinha um sonho de fazer parte de uma família. […] Ele é a prova viva de que os sonhos se tornam realidade”, canta Kali. Em seguida, ouvimos a risada do recém nascido, que a chama carinhosamente de ‘mamãe’.

O fato de Uchis não ter promovido uma ruptura estética não diminui a força desse trabalho. Pelo contrário: sua sinceridade está justamente em manter-se fiel ao que é. A densidade lírica eleva o disco, com comparações, metáforas e epifanias, como ela diz em Sunshine & Rain, que mostram o que a move como artista. No fim, admiramos a maneira como Karly-Marina expõe seu lado vulnerável, mas feliz.

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