
Marcela Jardim
Cinco anos atrás, em julho de 2020, Taylor Swift surpreendia o mundo ao lançar folklore, um disco inesperado em todos os sentidos. Lançado sem anúncio prévio, no auge do isolamento pandêmico, o álbum marcava uma guinada radical em sua estética musical e narrativa. Longe da grandiosidade colorida de Lover (2019) ou da pulsação icônica de Reputation (2017), folklore é cinza, úmido e contido. Um mergulho no íntimo. Em meio ao silêncio coletivo que marcava aquele momento da história, Swift parecia responder com um disco que não gritava, mas sussurrava. Que não seduzia com batidas, mas encantava com palavras, texturas e histórias fragmentadas. A obra é, antes de tudo, um disco de escuta – não para tocar no carro em movimento, e sim para ouvir como quem lê um diário escondido entre folhas velhas.
Ao lado de Aaron Dessner (The National) e Jack Antonoff, Swift trocou os refrões brilhantes por melodias etéreas e minimalistas. Os arranjos soam como se estivessem sendo tocados dentro de uma cabana de madeira, entre ecos e passos lentos. O piano é o protagonista discreto de muitas faixas, acompanhado por cordas delicadas e sintetizadores ambientes que criam um clima de suspensão. Em vez da intensidade emocional à flor da pele, folklore trabalha com a memória, com a ausência, com o que foi e não volta. A ausência de espetáculo visual e a estética cottagecore ajudaram a cimentar a imagem de um disco feito fora do tempo e das exigências da indústria. Entretanto, por trás dessa escolha está também um gesto artístico: Taylor Swift deixa de se colocar no centro e escolhe contar histórias – às vezes suas, às vezes de personagens imaginados, e muitas vezes uma mistura de ambos.

Esse impulso narrativo ganha forma exemplar no núcleo mais comentado do disco: o triângulo amoroso formado pelas faixas cardigan, august e betty. Nas três músicas, Swift constrói uma mesma história sob diferentes pontos de vista, como se pedisse ao ouvinte que montasse o quebra-cabeça com as peças que ela oferece. Em cardigan, temos a jovem Betty, traída e melancólica, lembrando como foi descartada e depois procurada de novo. A canção é um lamento doce, com um piano melódico que acompanha o ressentimento contido da personagem.
Já em august, a narrativa muda: agora ouvimos a voz da garota com quem James – o elo do triângulo – viveu um caso de verão. Ela não é a vilã: é apenas alguém que acreditou em promessas não ditas, alguém que se entregou à ilusão com os pés descalços na areia. Por fim, betty apresenta o lado de James, em uma tentativa de desculpas juvenil, marcada por insegurança, culpa e nostalgia. É uma canção country-pop que parece resgatar a loirinha adolescente dos primeiros discos, mas com a maturidade narrativa de uma artista que agora compreende a complexidade emocional de todos os envolvidos.
Ao construir esse triângulo, Swift rompe com a lógica binária das relações afetivas – não há heróis ou vilões, apenas pessoas tentando lidar com as consequências de seus atos. Essa escolha revela um amadurecimento não apenas lírico, como também ético. A cantora, que antes narrava suas relações com clareza autobiográfica, agora opta por ficcionalizar, e, ao fazer isso, amplia o escopo de sua arte. Mais do que expor suas dores, ela oferece ao ouvinte a experiência de habitar outras subjetividades. É um gesto que exige escuta e empatia. folklore, portanto, não é apenas um disco sobre sentimentos, é sobre perspectivas, sobre a instabilidade das verdades afetivas e sobre a beleza de contar histórias que nunca podem ser totalmente lineares.
Da mesma forma, há duas faixas centrais de folklore que dialogam com as ideias de narrativa, ficcionalização e crítica social: mad woman e the last great american dynasty. Ambas revelam uma faceta sagaz de Taylor Swift: a da cronista que observa estruturas de poder, gênero e memória com ironia e precisão. Em mad woman, ela retoma um dos temas mais recorrentes de sua obra – a demonização da mulher raivosa –, porém aqui o faz com sutileza e veneno contido. A música é um sussurro ácido sobre a forma como a raiva feminina é sempre lida como loucura, enquanto a violência masculina é banalizada ou justificada.
Já the last great american dynasty é, talvez, o experimento narrativo mais ousado do álbum. Inspirada na vida de Rebekah Harkness, antiga proprietária da mansão comprada por Swift em Rhode Island, a música transforma uma figura histórica marginalizada em personagem de uma pequena epopeia feminista. A canção narra os escândalos que marcaram a vida de Rebekah com um tom quase jornalístico até que, no fim, a intérprete vira a lente para si mesma e traça um paralelo entre elas. Ao se colocar como herdeira simbólica daquela mulher ‘difamada’, a compositora afirma a continuidade de um ciclo: mulheres que ousam viver fora das regras continuam sendo chamadas de ‘erradas’ e ‘problemáticas’. Essas duas canções, portanto, não apenas aprofundam o caráter literário de folklore, mas também o politizam.

Ainda assim, há espaço para autorreferência e introspecção, marcas que Taylor Swift nunca abandonou, mesmo em sua fase mais ficcional. Em mirrorball, ela se revela como uma artista frágil, refletindo as expectativas alheias como uma bola de espelhos que só existe enquanto gira. A metáfora é clara: Swift vive da performance constante, moldando-se ao olhar do público, ainda quando isso fere sua própria identidade. this is me trying amplia essa exposição emocional. Nela, a narradora – talvez um personagem, talvez ela mesma – confessa arrependimentos profundos, como quem carrega o peso de seu potencial desperdiçado. É uma canção sobre o esforço silencioso de continuar, na mesma forma quando tudo parece perdido, e sua atmosfera rarefeita transmite um cansaço emocional difícil de nomear.
Já my tears ricochet mergulha em um território ainda mais sombrio, frequentemente lido como um lamento direcionado à antiga gravadora da cantora, após a disputa pelos direitos de suas masters. Mas, Swift transforma esse conflito empresarial em um funeral simbólico, onde ressentimentos ganham forma poética. A música não trata apenas de rupturas profissionais, e sim de de traições profundas, da dor de ter sua história tomada e recontada por outros. Juntas, essas faixas formam um eixo mais íntimo dentro de folklore, um espaço onde a artista deixa que suas próprias falhas, mágoas e cicatrizes apareçam – mesmo que envoltas por sussurros e metáforas. São momentos em que a ficção recua, e a vulnerabilidade se impõe.

Entre as canções mais comoventes de folklore, epiphany se destaca por seu tom quase sacral e sua carga simbólica. A faixa é uma das mais atmosféricas e lentas do álbum, construída sobre camadas etéreas de sintetizadores e vocais distantes, como se estivesse sendo cantada de dentro de um sonho. Aqui, Taylor Swift costura duas narrativas: a do avô materno, Dean Swift, que lutou na Batalha de Guadalcanal na Segunda Guerra Mundial, e a dos profissionais de saúde que atuavam na linha de frente da pandemia de COVID-19. Segundo a própria artista, a canção foi escrita como uma homenagem àqueles que, em tempos de guerra ou de crise sanitária, encaram o sofrimento humano com coragem silenciosa, muitas vezes sem reconhecimento.
Em versos como “Only twenty minutes to sleep / But you dream of some epiphany / Just one single glimpse of relief,” ela traduz o esgotamento físico e emocional de médicos e enfermeiros, capturando com delicadeza a solidão e a carga psíquica desses profissionais durante o colapso hospitalar de 2020. Ao fazer essa conexão entre gerações e formas de cuidado, Swift amplia o escopo temático do disco, mostrando que folklore também é uma crônica do tempo em que foi criado, e que mesmo nas canções mais etéreas, pulsa um comentário agudo sobre o mundo real.
Por outro lado, exile e illicit affairs, são dois dos momentos mais pungentes de folklore, explorando diferentes formas de distanciamento afetivo. Em exile, um dueto com Justin Vernon (Bon Iver), Swift constrói uma conversa entre dois ex-amantes que já não se entendem mais, como se falassem línguas diferentes. A troca de vozes, quase teatral, transforma a canção em um confronto resignado, em que mágoas antigas são ditas com frieza. Já illicit affairs é uma narrativa contida, delicada, sobre o desgaste de um romance clandestino, onde o amor dá lugar à vergonha e ao autoapagamento. A canção começa suave, quase cúmplice, entretanto culmina em um dos momentos mais intensos do álbum, quando Swift canta com amargura: “Don’t call me kid / Don’t call me baby.” Ambas as faixas falam de relações condenadas, cada uma à sua maneira – uma como fim inevitável, outra como ruína emocional.

Em novembro de 2020, Taylor Swift deu um passo além com a estreia de folklore: The Long Pond Studio Sessions no Disney+. Dirigido e produzido por ela, este documentário-concerto íntimo foi gravado no Long Pond Studio, no interior de Nova York. O projeto apresenta versões acústicas de todas as 17 faixas originais, intercaladas por conversas descontraídas entre Swift, Aaron Dessner e Jack Antonoff, seja à beira de lareira ou com whisky e vinho à mão, revelando detalhes inéditos do processo de composição e produção. Além disso, durante a gravação, a artista aproveitou o momento para escrever novas músicas fora das câmeras, que mais tarde seriam incluídas em evermore, seu álbum lançado logo em seguida.
Cinco anos depois, folklore segue como uma das obras mais reverberantes da discografia de Swift, não apenas pelo impacto imediato que teve, como o Grammy de Álbum do Ano, por exemplo, mas por sua permanência afetiva e estética. É um disco que envelhece como uma carta escrita à mão: quanto mais o tempo passa, mais ele parece dizer. Sua influência estética também foi profunda: abriu caminho para obras como evermore e inspirou outras artistas a adotarem uma postura mais narrativa, melancólica e silenciosa em meio ao ruído constante da era digital.
folklore é, enfim, um marco de reinvenção, não apenas como movimento estratégico de carreira. Ele representa uma inflexão emocional, uma pausa no ritmo, um retorno à escuta. Ao trocarem o palco iluminado por uma cabana de lembranças, Taylor Swift e seus personagens nos ensinaram que a ficção também pode ser uma forma de dizer a verdade. E que, muitas vezes, há mais honestidade em um sussurro bem contado do que em um grito confessional. É por isso que, meia década depois, ainda ouvimos o disco como quem entra devagar em uma casa antiga: sabendo que ali, no meio do silêncio e da madeira, há histórias que continuam pulsando.
