Há 5 anos, Charli XCX mostrava seus sentimentos mais profundos em how i’m feeling now

 

Foto da capa do álbum how i’m feeling now da Charli XCX. Ela está deitada em uma cama com lençóis brancos, usando roupas íntimas brancas, segurando e olhando para uma câmera de filmagem. No canto esquerdo está escrito o nome do álbum verticalmente.
Em 2024, Charli XCX ganhou seu primeiro Grammy com seu último álbum Brat (Foto: Warner Music UK Limited)

Isabela Nascimento 

Em maio de 2020, no meio da pandemia do coronavírus, a cantora britânica resolveu criar um álbum e documentar o processo criativo inteiro, enquanto relatava sobre a experiência de estar isolada da sociedade. “Como eu estou me sentindo agora“, tradução do título em português, contém 11 faixas que navegam em seus sentimentos mais íntimos. O reacender de uma paixão, a insegurança consigo mesma e com a sua carreira e as aflições de estar sozinha. Esse seria o primeiro disco que a artista abordaria de maneira profunda suas emoções, dando início a uma nova era de produções mais pessoais e cruas da Charli XCX.

Charli XCX: Alone Together, documentário lançado em 2021, mostra a criação do trabalho, ao mesmo tempo, que a compositora desabafa sobre o isolamento social e as sensações que começaram a aflorar nesse período. Ela conta em um dos seus relatos que trabalhar é a única coisa que a faz se sentir bem. Como estava cansada de ficar em casa sem fazer nada, Charlotte Aitchison começou a idealizar uma obra em cinco semanas como forma de se desafiar e de se ocupar naquele momento atípico.

Além de retratar a produção do álbum, o projeto também mostra vários desabafos da performer, muitos deles são sobre seu relacionamento com o desenvolvedor de videogames, Huck Kwong. A voz de Von Dutch, revela que, em sete anos de namoro, aquela foi a primeira vez que eles estavam vivendo juntos e como a pandemia fez com que eles se aproximassem mais. Antes disso, a britânica sentia que o relacionamento estava acabado, mas a chama foi acendida novamente.

how i’m feeling now foi lançado com uma temática bem definida, se destoando dos seus trabalhos anteriores. A obra é focada nas fases do amor, nas suas vulnerabilidades e também a vontade de festejar com seus entes queridos. O quarto disco de estúdio de Charli XCX é mais reflexivo, profundo e intimista, pois navega de uma forma única em seus sentimentos e expõe de maneira crua as dificuldades de seu antigo relacionamento.

No primeiro single, a cantora deixa essas emoções bem claras, já mostrando como o projeto seria. forever tem uma sonoridade eletrônica e com alguns elementos de Hyperpop. Na letra, a artista se declara para ex-namorado, dizendo que mesmo se um dia o romance acabar, ela o amará para sempre. Ela, também, desabafa sobre esse quase fim do romance e como estava em um lugar feliz naquele momento.

“Sim, agora precisamos esquecer isso/Dirigi o carro para fora da estrada/Preciso te dar tempo para amadurecer/Você não é um fantasma, você está na minha cabeça/Eu sempre vou te amar (te amar)/Eu vou te amar para sempre” – forever

A produção é encabeçada por Dijon, Bj Burton, Benjamin Keating e seu produtor de longa data, A. G. Cook. Charli e o profissional colaboram desde 2017, quando a britânica lançou a sua primeira mixtape, Number 1 Angel. A coisa mais interessante sobre a parceria é que mesmo depois de uma década trabalhando juntos, os amigos continuam fazendo músicas únicas e atemporais. A canção que deixa isso perceptível é party 4 u.

Agora, no começo de 2025, depois de cinco anos do seu lançamento oficial, a composição começou a ganhar uma popularidade que nenhuma faixa do álbum tinha até então. Nos últimos meses,  party 4 u ganhou mais de 50 milhões de streamings nas plataformas digitais, sem contar as trends e os vídeos criados nas redes sociais. O sucesso inédito pode ser surpreendente para os novos fãs, mas essa balada é uma antiga conhecida dos seus seguidores mais fiéis.

Uma foto Polaroid da Charli XCX e A. G Cook no estúdio. Ele segurando um microfone, enquanto olha para a tela de um laptop, a cantora está inclinada na mesa, e também olhando para a tela. A mesa está com aparelhos de produção de música.
Em 2024, Charli XCX anunciou The Moment, um filme inspirado em uma ideia original dela dirigido por Aidan Zamiri, tendo uma trilha sonora original produzida por A. G. Cook (Foto: Henry Redcliffe)

A primeira versão foi produzida por Sophie, e tocada no Nylon Japan’s 13th Anniversary Party, no Japão em 2017. Charli XCX contou em uma entrevista a Apple Music que em todos os projetos depois de sua criação, ela e seu produtor consideravam adicionar em seus trabalhos. “Toda vez que nos reunimos para fazer um álbum ou uma mixtape, ela é sempre levada em conta, mas nunca tinha achado um momento certo, até agora. Por mais bobo que pareça, era hora de dar algo em troca”, disse a performer.

A canção é fascinante do começo ao fim, pois narra o sentimento da artista de estar desesperadamente apaixonada por alguém, e só querer fazer uma festa a essa pessoa e ser amada por ele, mas não ter esse amor correspondido. As súplicas nos versos finais e o toque de  A. G. Cook, tornaram party 4 u atemporal, complexa e com uma carga emocional que apenas os dois poderiam nos trazer. O hit orgânico faz ainda mais sentido quando se olha por esse lado.

 Em comemoração ao aniversário do álbum, a britânica lançou um clipe digno para a composição. O vídeo foi criado quatro dias antes de ser divulgado, com os elementos do disco aniversariante, o visual intimista, uma filmadora e a vulnerabilidade acompanhada de detalhes atuais, fazendo com que seus fãs se sentissem mais uma vez próximos dela. A compositora finaliza o vídeo destruindo um outdoor com sua cara, talvez, indicando o fim do Brat summer, ou expondo o cansaço da fama recente.

Mas não é só de melancolia que how i’m feeling now é composto. Em entrevista ao Zane Lowe em 2024, a cantora contou que Brat seria um parente próximo desse álbum. Quando escutamos a música de abertura, pink diamond, inspirada no anel de Jennifer Lopez, não podemos concordar mais com a afirmação dela. A escolha dessa faixa para iniciar o trabalho dá uma pista aos seus projetos futuros e, ao mesmo tempo, explora o desespero de estar presa em casa.

Charli XCX está deitada em uma cama com lençóis brancos, usando roupas íntimas da mesma cor, posando para foto. No reflexo do espelho que está atrás dela, vemos as costas da cantora e seu ex-namorado tirando foto com o flash ligado.
Em 2023, Charli XCX anunciou seu novo relacionamento com o baterista George Daniel (Foto: Huck Kwong)

Com uma batida pesada, digna de um Boiler Room, é a canção mais dançante do disco. É notável o toque de club music, com elementos mais experimentais, algo que a britânica gosta de misturar. Em seus versos, a artista repete como só queria estar em um clube e dançar com seus amigos a noite inteira. É impossível ficar parado ouvindo. Embora sua produção mais recente seja inspirada em baladas e festas,  ela tem o seu lugar ao sol na playlist de clube da cantora. 

how i’m feeling now explora sons agressivos e dançantes. Apesar de boa parte não fazer mais sentido, já que a compositora terminou com seu ex-namorado e a pandemia acabou, as faixas ainda fluem de uma maneira gostosa. anthems tem uma base animada, mas com um toque existencial. claws e 7 years exploram o mesmo tema, a  paixão, porém se distanciam na sonoridade. A primeira é mais animada com uma repetição de palavras, marca registrada da cantora, e a segunda é mais melancólica, tendo uma batida mais eletrônica desconstruída. Esses são os maiores exemplos da atemporalidade do disco.

Mesmo tendo sido lançado há meia década e em um momento atípico do mundo, o quarto álbum de estúdio de Charli XCX segue sendo um de seus maiores trabalhos. A obra é um conjunto único, que se destaca magnificamente. A presença de aspectos pessoais, algo que a performer não tinha feito antes e que veríamos em trabalhos futuros, trouxe um ar mais fresco e cativante. O projeto não só mudou as impressões das pessoas sobre ela, mas também alterou a forma como a própria iria produzir.

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