
Isabela Nascimento
Em maio de 2020, no meio da pandemia do coronavírus, a cantora britânica resolveu criar um álbum e documentar o processo criativo inteiro, enquanto relatava sobre a experiência de estar isolada da sociedade. “Como eu estou me sentindo agora“, tradução do título em português, contém 11 faixas que navegam em seus sentimentos mais íntimos. O reacender de uma paixão, a insegurança consigo mesma e com a sua carreira e as aflições de estar sozinha. Esse seria o primeiro disco que a artista abordaria de maneira profunda suas emoções, dando início a uma nova era de produções mais pessoais e cruas da Charli XCX.
Charli XCX: Alone Together, documentário lançado em 2021, mostra a criação do trabalho, ao mesmo tempo, que a compositora desabafa sobre o isolamento social e as sensações que começaram a aflorar nesse período. Ela conta em um dos seus relatos que trabalhar é a única coisa que a faz se sentir bem. Como estava cansada de ficar em casa sem fazer nada, Charlotte Aitchison começou a idealizar uma obra em cinco semanas como forma de se desafiar e de se ocupar naquele momento atípico.
Além de retratar a produção do álbum, o projeto também mostra vários desabafos da performer, muitos deles são sobre seu relacionamento com o desenvolvedor de videogames, Huck Kwong. A voz de Von Dutch, revela que, em sete anos de namoro, aquela foi a primeira vez que eles estavam vivendo juntos e como a pandemia fez com que eles se aproximassem mais. Antes disso, a britânica sentia que o relacionamento estava acabado, mas a chama foi acendida novamente.
how i’m feeling now foi lançado com uma temática bem definida, se destoando dos seus trabalhos anteriores. A obra é focada nas fases do amor, nas suas vulnerabilidades e também a vontade de festejar com seus entes queridos. O quarto disco de estúdio de Charli XCX é mais reflexivo, profundo e intimista, pois navega de uma forma única em seus sentimentos e expõe de maneira crua as dificuldades de seu antigo relacionamento.
No primeiro single, a cantora deixa essas emoções bem claras, já mostrando como o projeto seria. forever tem uma sonoridade eletrônica e com alguns elementos de Hyperpop. Na letra, a artista se declara para ex-namorado, dizendo que mesmo se um dia o romance acabar, ela o amará para sempre. Ela, também, desabafa sobre esse quase fim do romance e como estava em um lugar feliz naquele momento.
“Sim, agora precisamos esquecer isso/Dirigi o carro para fora da estrada/Preciso te dar tempo para amadurecer/Você não é um fantasma, você está na minha cabeça/Eu sempre vou te amar (te amar)/Eu vou te amar para sempre” – forever
A produção é encabeçada por Dijon, Bj Burton, Benjamin Keating e seu produtor de longa data, A. G. Cook. Charli e o profissional colaboram desde 2017, quando a britânica lançou a sua primeira mixtape, Number 1 Angel. A coisa mais interessante sobre a parceria é que mesmo depois de uma década trabalhando juntos, os amigos continuam fazendo músicas únicas e atemporais. A canção que deixa isso perceptível é party 4 u.
Agora, no começo de 2025, depois de cinco anos do seu lançamento oficial, a composição começou a ganhar uma popularidade que nenhuma faixa do álbum tinha até então. Nos últimos meses, party 4 u ganhou mais de 50 milhões de streamings nas plataformas digitais, sem contar as trends e os vídeos criados nas redes sociais. O sucesso inédito pode ser surpreendente para os novos fãs, mas essa balada é uma antiga conhecida dos seus seguidores mais fiéis.

A primeira versão foi produzida por Sophie, e tocada no Nylon Japan’s 13th Anniversary Party, no Japão em 2017. Charli XCX contou em uma entrevista a Apple Music que em todos os projetos depois de sua criação, ela e seu produtor consideravam adicionar em seus trabalhos. “Toda vez que nos reunimos para fazer um álbum ou uma mixtape, ela é sempre levada em conta, mas nunca tinha achado um momento certo, até agora. Por mais bobo que pareça, era hora de dar algo em troca”, disse a performer.
A canção é fascinante do começo ao fim, pois narra o sentimento da artista de estar desesperadamente apaixonada por alguém, e só querer fazer uma festa a essa pessoa e ser amada por ele, mas não ter esse amor correspondido. As súplicas nos versos finais e o toque de A. G. Cook, tornaram party 4 u atemporal, complexa e com uma carga emocional que apenas os dois poderiam nos trazer. O hit orgânico faz ainda mais sentido quando se olha por esse lado.
Em comemoração ao aniversário do álbum, a britânica lançou um clipe digno para a composição. O vídeo foi criado quatro dias antes de ser divulgado, com os elementos do disco aniversariante, o visual intimista, uma filmadora e a vulnerabilidade acompanhada de detalhes atuais, fazendo com que seus fãs se sentissem mais uma vez próximos dela. A compositora finaliza o vídeo destruindo um outdoor com sua cara, talvez, indicando o fim do Brat summer, ou expondo o cansaço da fama recente.
Mas não é só de melancolia que how i’m feeling now é composto. Em entrevista ao Zane Lowe em 2024, a cantora contou que Brat seria um parente próximo desse álbum. Quando escutamos a música de abertura, pink diamond, inspirada no anel de Jennifer Lopez, não podemos concordar mais com a afirmação dela. A escolha dessa faixa para iniciar o trabalho dá uma pista aos seus projetos futuros e, ao mesmo tempo, explora o desespero de estar presa em casa.

Com uma batida pesada, digna de um Boiler Room, é a canção mais dançante do disco. É notável o toque de club music, com elementos mais experimentais, algo que a britânica gosta de misturar. Em seus versos, a artista repete como só queria estar em um clube e dançar com seus amigos a noite inteira. É impossível ficar parado ouvindo. Embora sua produção mais recente seja inspirada em baladas e festas, ela tem o seu lugar ao sol na playlist de clube da cantora.
how i’m feeling now explora sons agressivos e dançantes. Apesar de boa parte não fazer mais sentido, já que a compositora terminou com seu ex-namorado e a pandemia acabou, as faixas ainda fluem de uma maneira gostosa. anthems tem uma base animada, mas com um toque existencial. claws e 7 years exploram o mesmo tema, a paixão, porém se distanciam na sonoridade. A primeira é mais animada com uma repetição de palavras, marca registrada da cantora, e a segunda é mais melancólica, tendo uma batida mais eletrônica desconstruída. Esses são os maiores exemplos da atemporalidade do disco.
Mesmo tendo sido lançado há meia década e em um momento atípico do mundo, o quarto álbum de estúdio de Charli XCX segue sendo um de seus maiores trabalhos. A obra é um conjunto único, que se destaca magnificamente. A presença de aspectos pessoais, algo que a performer não tinha feito antes e que veríamos em trabalhos futuros, trouxe um ar mais fresco e cativante. O projeto não só mudou as impressões das pessoas sobre ela, mas também alterou a forma como a própria iria produzir.
