Sepideh Farsi comprova a existência de um filme antiguerra em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe

Cena do filme Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe.Na imagem, há um celular em chamada de vídeo com Fatima Hassouna. O celular está apoiado em uma mesa de madeira e atrás dele há uma outra tela, logada em um e-mail. Hassouna é uma mulher palestina, na faixa dos 25 anos. Ela usa óculos arredondados, o lenço de sua cultura chamado de hijab, na cor verde, e uma roupa estampada. Ela está sorrindo.
O documentário foi exibido no Festival do Rio (Foto: Filmes do Estação)

Davi Marcelgo

Em uma aula no segundo ano da graduação, minha professora de Jornalismo Textual disse que os materiais utilizados durante uma entrevista são fundamentais para o afastamento ou a aproximação entre repórter e personagem. Uma câmera, um notebook ou qualquer outro aparelho distante da realidade documentada pode ser um instrumento de poder. Em Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe, a diretora iraniana Sepideh Farsi constrói afinidade com Fatima Hassouna, fotojornalista da Palestina, para saber seu ponto de vista sobre os ataques de Israel na Faixa de Gaza. 

Essa aproximação não tem a ver com qual aparato tecnológico Farsi usa para filmar sua personagem, que logo se tornaria amiga, mas com o fato de que ambas as mulheres são do Oriente Médio e possuem países atravessados por períodos históricos violentos. O que vai coincidir com a fala da minha professora é que as condições em que Gaza e Hassouna se encontram aludem a uma carência de liberdade, alimentos, moradia, limitações de deslocamento e outras mazelas que ferem os direitos humanos, portanto o documentário também está desprovido de qualquer enfeite ou equipamentos robustos: para gravar, basta um aparelho celular captando outro dispositivo móvel. Essa conversa guiada pelo telefone, sem uma equipe presente em um set, estimula o encontro.  

O último filme da cineasta foi uma animação, The Siren (2021), que aborda a guerra Irã-Iraque. A disparidade entre essa forma de contar uma história e a de seu lançamento revela um traquejo diverso em fazer Cinema por gêneros, processos e formatos diferentes. Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe se adapta à realidade, para além de uma barreira geográfica provocada por uma guerra, e confronta o pensamento de François Truffaut sobre a não existência de um “filme antiguerra”. 

Cena do filme Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe.Na imagem, Fatima Hassouna está no canto direito, sentada em uma cadeira. O ambiente é o interior de um prédio, que foi destruído por bombardeios. Há vários escombros no chão. Hassouna é uma mulher palestina, na faixa dos 25 anos, ela usa uma roupa inteira preta, mochila preta nas costas e está sentada com as pernas cruzadas. Nos pés, usa um tênis branco. Suas mãos estão apoiadas no joelho e em uma delas há uma câmera. Na cabeça, usa um lenço de sua cultura chamado de hijab, na cor branca e estampado. Hassouna olha para a frente, encarando a câmera.
O filme foi indicado para o Gotham Awards 2025 na categoria de Melhor Documentário (Foto: Filmes do Estação)

Para o francês, as obras que abordam a guerra, a relação dos soldados e tudo o que há de violento nesse universo, de alguma forma, criam prazer naquelas imagens. De fato, isto acontece. Vejamos 1917 (2019), que ao pretender gravar em plano sequência, cria uma mística em torno da batalha, fazendo um espetáculo – por mais crítico ao confronto que ele queira ser. Sepideh Farsi não faz um documentário que ovaciona os atentados e os crimes cometidos por Israel, tampouco eles são exibidos. Tudo o que cruza o cotidiano de Fatima Hassouna, ou seja, sua ótica e seu mundo – isto é confirmado quando a diretora utiliza fotografias feitas pela fotojornalista para compor as cenas – é o que será visto sobre o conflito. 

Contudo, a cineasta não vai reduzir Hassouna a uma vítima ou uma pessoa que só convive com a destruição. A amizade delas será tema central e, o que elas possuem em comum, a família da palestina, seu apreço por fotos, entre outras características do que compõe ser uma pessoa, são temas fundamentais tanto para a aproximação de entrevistador e entrevistado, quanto para o espectador se conectar com a personagem. Por exemplo, após Farsi elogiar os olhos da amiga, ela não aparece mais usando óculos nas chamadas de vídeo. Assim, sem precisar mostrar corpos mortos, a oscilação da conexão, a dificuldade em entrar em contato, o barulho constante de hélices de helicóptero e o rosto abatido pela fome e tristeza, identificados por haver acesso ao jeito de Fatima Hassouna, são maneiras do público perceber e compreender os enfrentamentos da cidade. 

Fatima Hassouna foi morta, junto à família, em um ataque coordenado por Israel no dia 16 de abril de 2025, um dia após ser informada por Farsi de que o documentário tinha sido selecionado para o Festival de Cannes. Elas planejavam ir juntas para a França. Este último contato foi inserido no corte final. O assassinato de Hassouna só é mencionado no longa em seu desfecho, fazendo com que Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe não manifeste uma romantização de um final trágico, mas a transformação em objeto de denúncia e memória da amiga por meio das características já mencionadas anteriormente. O sorriso quase inabalável da fotojornalista ficou eternizado nas imagens caseiras de Farsi. 

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