Em Everybody Scream, o sucesso é a bênção e a maldição de Florence + The Machine

Capa do álbum Everybody Scream da banda Florence + The Machine. Na imagem, com efeito “olho de peixe”, Florence Welch, mulher branca, cabelos ruivos, roupa escura, botas pretas, está encostada em uma cama, de pernas abertas, e envolta por diversos tipos de tecido. Ao seu lado direito, um candelabro sustenta duas velas apagadas. A parede ao fundo tem um aspecto rústico de madeira.
Everybody Scream teve a maior estreia de um álbum na semana de seu lançamento no Spotify (Foto: Republic Records)

André Aguiar

Qual o real custo da fama? Que nem tudo é brilho e glamour, todos sabem, mas que o mesmo sucesso que te leva ao topo, pode te levar ao túmulo, é uma verdade que poucos conhecem tão intimamente quanto Florence + The Machine em Everybody Scream, seu sexto álbum de estúdio. Depois de passar por severas complicações médicas durante a turnê do aclamado antecessor Dance Fever, Florence Welch, líder do projeto que leva seu primeiro nome, renasce do que foi um dos episódios mais vulneráveis de toda a sua carreira, totalmente coberta por resquícios de um aborto espontâneo arriscado, raiva feminina, um cinismo amargo direcionado à indústria musical e consumida por um desejo instintivo e incontrolável pela performance.

As composições de Florence não apenas transmitem uma aura mística como realmente aparentam possuir uma presciência muito da vida da artista. Em King, faixa do Dance Fever, uma das linhas profetiza quase exatamente o que de fato ocorreu à cantora. “Nunca imaginei que meu assassino viria de dentro” surgiu como uma premonição da gravidez ectópica que interrompeu violentamente sua turnê de 2023. Dez dias após a cirurgia de aborto espontâneo, a vocalista estava de volta aos palcos, porém totalmente diferente, mergulhando de cabeça numa avalanche criativa irresistível, a qual se desencadearia em um novo álbum: Everybody Scream.

Fotografia de Florence. Na imagem, Florence Welch está sentada contra a luz de pernas abertas na janela de um corredor de aparência antiga e sombria. A artista veste um conjunto branco similar a um pijama. No chão, próximo às suas pernas, alguns vasos de cerâmica com bordas onduladas. As paredes de madeira ao redor estão descascadas em algumas extremidades.
Durante um dos shows de 2023, Florence quebrou o pé, e mesmo prosseguindo até o final nessa condição, a Rolling Stone deu quatro estrelas à apresentação (Foto: Autumn de Wilde)

A faixa inicial, homônima e primeiro single, Everybody Scream, já sintetiza os sentimentos gerais do álbum: raiva, amargura e delírio. Produzida pelos principais colaboradores da cantora nesta era – Mark Bowen (IDLES) e Aaron Dessner (The National) – e composta com a parceria de Mitski, a canção se inicia com um canto lírico e um órgão tímido até explodir em um shuffle que carrega com peso a atmosfera horripilante da faixa. No videoclipe, dirigido por Autumn de Wilde, Florence se junta a um grupo de bruxas que invadem uma mansão e praticam uma espécie de exorcismo coletivo, evocando o terror dos anos 1970 e 1980.

Welch enxerga a performance como uma experiência transcendental e, até mesmo, espiritual. É um espaço não apenas de liberação emocional durante o processo criativo, como também um antídoto infalível, inclusive fisicamente. O palco é um lugar seguro, onde ela se percebe plenamente viva e, mesmo que tenha causado suas dores mais intensas, é ali onde ela pertence. “Olhem para mim ficando exausta / Sangue no palco / Mas como posso deixá-los quando estão gritando meu nome?” Esse paradoxo guia a linha temática do disco e aproxima o ouvinte da atual mentalidade da performer quanto ao seu trabalho.

Fotografia de Florence. Na imagem, Florence Welch está com as mãos sobre a cabeça e usando um vestido branco. A imagem mostra a artista do peito para cima na frente de um plano de fundo bege e dá destaque para algumas tatuagens no braço esquerdo de Florence. O olhar da cantora é sereno e se direciona ao horizonte.
Sonoramente, o álbum não arrisca trazer muitos elementos inéditos ao catálogo da artista, mas passa um filtro macabro e gótico no folk-pop que já era familiar aos fãs (Foto: Linda Brownlee)

One Of The Greats é um ponto alto de Everybody Scream. A canção começou como um poema – assim como grande parte do projeto – sendo a letra um destaque perante toda a discografia da compositora. Aqui, ela obedece seus pensamentos intrusivos mais sombrios e exprime em alto e bom som tudo aquilo que sempre a assombrou durante seus quase 20 anos de carreira, em um fluxo de consciência de se ouvir boquiaberto. “Deve ser legal ser um homem e fazer música entediante só porque você pode” e “É engraçado como os homens não acham o poder muito sexy”, por exemplo, explicitam a acidez e a amargura dos dilemas de gênero que enfrentam a artista face a face sendo uma mulher bem-sucedida no mercado do entretenimento. Nesta faixa, Florence reconhece que a grandeza é uma barganha, e assume que é “feminina demais para operar” de acordo com os termos a ela propostos.

Ao canalizar toda essa raiva feminina nas composições de Everybody Scream, a britânica executa um uso assertivo do recurso linguístico do zoomorfismo. Em linhas como “Não há ninguém mais monstruoso do que eu” (Witch Dance), “Criatura das profundezas, eu te assombro nos seus sonhos? / Meus tentáculos tão carinhosos enquanto acaricio sua bochecha” (Kraken) e “Um instinto animal recomeçando” (The Old Religion), a artista realiza uma mutação quando referencia a si mesma como uma fera indomada e insaciável, seja faminta pelo prazer das apresentações ou frustrada pelas regras injustas do jogo da indústria. Com um vocabulário visceral e, por vezes, anatômico, a compositora finalmente vomita para fora de si a besta enjaulada que, por anos, engoliu seco.

Fotografia de Florence. Na imagem, também com o efeito “olho de peixe”, Florence Welch veste um longo vestido preto e usa o cabelo solto. A artista está em pé no que parece ser um corredor ou um saguão. As paredes são esverdeadas com algumas manchas pretas. Florence encosta sua mão direita na parede e, com a esquerda, segura o quadril. Ao seu lado esquerdo, um grande vaso de rosas vermelhas, com pétalas caídas em sua base.
Em entrevista para a Apple Music, Florence revelou que fez uma pesquisa extensa no Instituto Warburg, em Londres, sobre simbolismos e imagens para construir a estética bruxesca do álbum (Foto: Autumn de Wilde)

Sonoramente, o álbum tem uma camada mais fina que mostra o lado da monstruosidade ambígua que devora os relacionamentos de Florence Welch. Em Buckle (também co-escrita com Mitski) e Music by Men, a compositora lamenta a volatilidade que acompanha seus interesses românticos durante a turbulência da vida entre coxias e quartos de hotel. Ela culpa a si mesma por não sustentá-los, assumindo que “se apaixona por qualquer um que a diga que ela é bonita”. Entretanto, em Music by Men, a metade cheia do copo, ela sabe bem que a paixão da sua vida não está escondida no coração de alguém, mas no mesmo lugar que, vez após vez, foi sua casa. “Que não seja um holofote sozinho / Correndo de volta ao único amor que eu poderia controlar”.

Se para Florence + The Machine a Arte é uma profecia, em outra nuance de Everybody Scream a artista busca manifestar um futuro bonançoso e feliz com amor incondicional. Sympathy Magic, produzida por Danny L Harle (Caroline Polachek, Dua Lipa, Charli XCX), é um estrondo eufórico e épico que tem o gosto hínico de Dog Days Are Over unido às tendências eletrônicas do colaborador. Com percussões fortes, vocais dinâmicos da cantora, orquestra e coral, a faixa soa como a trilha sonora de um trailer de filme de ação com um dos melhores refrões do disco: “Eu não tento mais ser boa / Isso não me ajudou como disseram que ajudaria”. Analisando essa canção sob a perspectiva da narrativa do álbum, ela seria o estágio de cura que a compositora experimenta ao se entregar de uma vez por todas à realidade que, antes, a apavorava. Ela está pronta para mais uma batalha.

“Então venha, venha, eu aguento!

Me dê tudo o que você tem

O que mais? O que mais?” – Sympathy Magic, Florence + The Machine

A faixa And Love conclui com uma atmosfera serena e um arranjo de harpas angelicais, envolvendo ternamente as lições aprendidas por Florence sobre o amor na estrada irregular que guia as demais músicas. É a última súplica da artista antes de encarar seus próximos fantasmas. Aqui a autoconsciência da compositora é tão potente que, estando à beira dos 40 anos de idade, reconhece suas conquistas e erros ao longo da vida e se coloca à postos para o próximo passo com um coração totalmente renovado. “E o amor não era o que eu pensava / Mais como um animal rastejando profundamente para uma caverna / Do que uma heroína de um romance sendo levada embora / Mais como se render a algo”.

Everybody Scream marca um ponto chave na carreira de Florence Welch, em que suas percepções e motivações são batizadas nas sagradas águas do seu amor pela performance. Este álbum é um testamento de que a cantora e compositora não deixará a música tão cedo e que a adrenalina consumidora dos seus anos iniciais na música é o combustível inesgotável que a mantém intensa em cada palco que pisa. Ao som de epopeias cadenciadas e palavras afiadíssimas, Florence + The Machine se torna um poder definitivo da música alternativa, um monumento de legado indiscutível e um espelho para qualquer artista que almeja trilhar as rotas tortuosas da fama.

 

Deixe uma resposta