Entre dores herdadas e futuros possíveis: Há 10 anos, Emicida lançava Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa

Lançado em 2015, o segundo álbum de Emicida foi profundamente influenciado por uma viagem do artista a países africanos como Cabo Verde e Angola (Foto: Laboratório fantasma)

Ryan Rodrigues

Dez anos se passaram desde que Emicida, através de sua obra, nos fez revisitar sonhos, medos e memórias da infância. Lançado em agosto de 2015 e indicado ao Grammy Latino de 2016, na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa continua sendo um abraço nas dores. É uma forma sensível de enxergar os encantos e desafios do crescimento e principalmente a beleza da ancestralidade carregada em nossa história brasileira.

Com 14 faixas, o disco carrega em si temas como identidade, memória e pertencimento, costurando o pessoal e o coletivo. Emicida transita desde a infância no espaço de aprendizado, dor e construção de afeto, como também as diversas críticas claras ao racismo brasileiro, conectando o presente do país à sua herança escravocrata.

Emicida citou que o título de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa remete à linguagem e à estrutura de livros infantis. (Foto: Júlia Rodrigues)

O artista mostra muito bem seu lado mais poético nessas faixas, deixando claro o quanto sua trajetória pode interligar às memórias de tantas outras pessoas, especialmente se relacionadas à vivência negra. Emicida sempre foi conhecido por trazer músicas com temas densos e letras marcantes, e isso não estaria de fora em seu segundo álbum. Já na faixa introdutória, Mãe, ele traz sua marca, onde sentimos através de suas rimas a ligação com suas origens e principalmente com o carinho pela sua figura materna. Ao mesmo tempo, expõe a realidade e o desafio que muitas mães solos enfrentam no Brasil em seu dia a dia. 

Ainda com a identidade estética, o cantor apresenta na faixa dez a música Boa Esperança, onde ele abandona qualquer suavização poética para expor, sem filtros, a violência carregada na história brasileira contra a cultura africana e a população negra. J. Ghetto, artista de hip-hop, fica responsável pelo refrão, onde mostra, através de metáforas, a ligação entre passado e futuro desses desafios.

Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o X da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão

Bomba relógio prestes a estourar –  J. GHETTO em Boa Esperança

Emicida consolidou em sua primeira mixtape, Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, até que Eu Cheguei Longe (2009) sua essência artística, contudo, aqui, ele também demonstra que é possível abordar dificuldades com sensibilidade e leveza poética. Na sétima faixa, Passarinhos, em parceria com Vanessa da Mata, o ele constrói uma reflexão sentimental com uma sonoridade leve sobre a exaustão da vida moderna e a necessidade de preservar a humanidade em meio ao caos social e ambiental.

Para muitos, seu segundo álbum foi um divisor de águas em sua carreira, expandindo sua relevância na cena do Hip-Hop Brasileiro (Foto: José de Holanda)

Com tanta bagagem referencial em sua arte, nem o interlúdio aqui é despercebido. Em Sodade, com participação de Neusa Semedo, líder das Batucadeiras do Terreiro dos Órgãos, Emicida constrói um momento de profunda reflexão sobre a diáspora africana. A presença da língua crioulo cabo-verdiano e das percussões que remetem ao som do mar e de embarcações, evocam a travessia forçada de povos africanos, dando a nós, ouvintes, a sensação e o sentimento dos mesmos.

Outras músicas, principalmente inspiradas em sua viagem para Angola e Cabo Verde, reforçam o valor da cultura africana e como ela é importante na construção de identidade, fé e resistência. Essa inspiração se mostra em faixas como Baiana e Madagascar, que mostram o lado do cantor mais sensível e afetuoso de uma forma mais madura, sempre carregando em suas letras referências culturais africanas.

A turnê de seu álbum passou por mais de 8 países e durou mais de dois anos (Foto: José de Holanda)

A principal marca do álbum é certamente o caminho de construção entre o passado e o contemporâneo, entre a história e seu espelho no presente. Emicida fez isso bem, trazendo conexões e críticas a um país marcado pela escravidão. Celebrar os dez anos dessa obra é reconhecer um marco do rap e da música brasileira, que atravessou uma geração e segue atual, conscientizando sobre temas que ainda precisam ser compreendidos e enfrentados cotidianamente.

O disco, em essência, nos lembra da importância de lutar contra o racismo no Brasil, de contar nossas próprias narrativas, de reconhecer nossas raízes e origens como fonte de força para enfrentar desafios e de compreender o que é necessário para sorrir, crescer, amar e viver em meio a essa guerra cotidiana. Celebrar essa década é reconhecer que Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa é uma arte que ensina, toca, inspira e fortalece. Dez anos depois, ela segue viva, necessária e contínua transformadora.

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