Em Nada, Adriano Guimarães transforma o invisível em presença

Imagem do filme Nada. A cena é observada do exterior de uma casa, através de uma janela retangular dividida por duas colunas de madeira pintadas de azul vivo. No interior, três mulheres estão reunidas em torno de uma mesa coberta por uma toalha estampada com motivos florais vermelhos e verdes. Uma lâmpada incandescente pendurada no teto ilumina a cena. À esquerda, uma mulher com cabelos curtos e óculos veste um casaco vinho sobre uma blusa clara. Ao centro, de costas para o observador, outra mulher com cabelos castanhos curtos veste um suéter branco texturizado. À direita, uma terceira mulher com cabelos escuros presos veste uma camisa listrada em tons de rosa e branco e parece estar escrevendo ou lendo algo sobre a mesa. Sobre a mesa, notam-se objetos como copos, jarras e um recipiente com alimento.
Silêncios, gestos mínimos e atmosferas carregadas constroem a narrativa subjetiva de Nada (Embaúba Filmes)

Arthur Caires

Com seu olhar intensamente sensorial, o experiente diretor de teatro brasiliense, Adriano Guimarães, estreia na ficção com Nada, um filme que aposta em pausas e silêncios de uma presença quase tátil. Distribuído pela Embaúba Filmes, o longa já passou por diversos festivais internacionais e foi premiado no Festival de Brasília nas categorias de Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor Edição de Som. 

Propondo uma experiência contemplativa que rejeita narrativas tradicionais, a obra acompanha o reencontro entre duas irmãs após décadas afastadas, em uma fazenda onde o tempo parece suspenso e o real se dilui sob a presença da misteriosa Antena. Em vez de respostas, Guimarães oferece sensações, e faz do estranhamento uma chave para acessar memórias, lutos e aquilo que nos escapa.

Inspirado em referências literárias como Manoel de Barros e Samuel Beckett, Nada se distancia da linearidade convencional para se entregar a uma incursão profunda na subjetividade das personagens. Com roteiro de Emanuel Aragão, o filme não busca fechar tramas ou explicar eventos, mas sim explorar as fragilidades emocionais e a poética do silêncio e do invisível. O enredo é menos um caminho com destino certo e mais uma travessia abstrata, onde a percepção e o tempo se dilatam, pedindo que o espectador contemple o que geralmente fica nas entrelinhas.

Imagem do filme Nada. Uma mulher de meia-idade, com cabelos curtos e grisalhos, veste um vestido claro com pequenas estampas florais e está sentada na beirada de uma cama coberta por um tecido vermelho intenso. Suas mãos estão repousadas no colo e seu olhar é fixo. Ela está no centro de um quarto com paredes pintadas em um tom terroso avermelhado, iluminado por uma única lâmpada pendente no teto, criando sombras suaves. À sua esquerda, sobre uma pequena prateleira fixada na parede, há uma imagem sacra, um pequeno frasco e um objeto não identificável. À direita da cama, uma porta de madeira escura está parcialmente visível. A composição da cena é fortemente simétrica, com a mulher no ponto focal. Um elemento decorativo branco em formato floral adorna a parede acima da cabeceira da cama.
A composição simétrica e os planos estáticos criam uma sensação de paralisia e confinamento (Embaúba Filmes)

A direção de arte é um dos pilares que sustentam sua atmosfera única. Ambientado em uma fazenda rural de Goiânia, o longa utiliza planos cuidadosamente compostos, muitas vezes simétricos e estáticos, que reforçam a impressão de tempo suspenso e confinamento emocional. A câmera permanece majoritariamente imóvel, funcionando como um observador distante, o que intensifica o sentimento de paralisia e estranhamento. 

Quando a câmera se move, geralmente em momentos de tensão ou incerteza, esse movimento causa alerta, rompendo a rigidez visual e mergulhando em um desconforto sutil. Em um plano-sequência memorável, a câmera assume o ponto de vista subjetivo de Ana, que sai à procura de sinal de celular, aproximando-nos ainda mais da história.

O design sonoro de Guile Martins é uma peça fundamental na construção do universo de Nada. A ambientação, rica em sons naturais da fazenda – o vento, os insetos, os passos sobre a terra – cria uma textura que envolve o espectador. O silêncio, por sua vez, não é vazio, mas um elemento ativo da história, capaz de revelar o oculto e carregar um peso emocional. Nesse jogo entre som e quietude, o filme revela seu ritmo próprio, onde cada ruído mínimo ganha significado, transformando-se quase em um personagem essencial para sustentar o clima de suspense e inquietação.

Imagem do filme Nada. Duas mulheres estão em um vasto campo arado, com terra de coloração avermelhada e pouca vegetação visível ao fundo. A mulher à esquerda, com cabelos curtos e óculos, veste uma blusa azul clara e uma saia cinza, e está sentada em um pequeno banco de madeira escura, olhando para a mulher à sua frente. A mulher à direita, com cabelos curtos castanhos e vestindo uma camiseta cinza escura, calças jeans azuis e botas marrons, está sentada em outro banco de madeira, posicionada atrás de uma câmera profissional montada em um tripé preto.
Ana e Tereza, duas irmãs separadas pelo tempo, reencontram-se em um espaço carregado de silêncio e passado (Embaúba Filmes)

No centro da narrativa está o reencontro delicado entre as irmãs Ana (Bel Kowarick), artista plástica que vive na cidade, e Tereza (Denise Stutz), que permanece na fazenda da infância, marcada por uma doença e estados alterados de consciência. Décadas de afastamento moldaram uma relação feita de silêncios, gestos truncados e uma comunicação marcada pela ausência de palavras explícitas. Essa conexão distante, mas profundamente enraizada, é revelada com sutileza, evitando explicações óbvias e nos convidando a sentir as tensões imateriais que permeiam seu vínculo.

O contraste entre o que foi vivido e o que permanece não dito cria um espaço para a fragilidade e o mistério que permeiam esse vínculo. A decisão de Ana de documentar os eventos estranhos por meio de entrevistas gravadas adiciona uma camada metalinguística e reflexiva, tensionando as fronteiras entre o real, o ficcional e o subjetivo.

Imagem do filme Nada. Em um interior de paredes brancas e rústicas, com vigas de madeira escura aparentes no teto, uma mulher de cabelos curtos e escuros está sentada à mesa. Ela veste uma blusa magenta e parece estar comendo em uma tigela branca. Ao seu lado, à esquerda, um grande cachorro preto está com a cabeça abaixada dentro de outra tigela, também comendo. A luz ambiente é fraca, proveniente de uma lâmpada incandescente pendurada no teto. A mesa, coberta por uma toalha clara com uma estampa discreta, contém outros objetos como um pano branco, um copo e um pote. Ao fundo, parcialmente visível, há uma pintura emoldurada pendurada na parede e uma porta de madeira escura.
O cenário rural reforça o estranhamento e a atmosfera suspensa do filme (Embaúba Filmes)

A presença enigmática da Antena, instalada pelo governo e sem uma explicação clara, é o núcleo simbólico que permeia Nada. Ela atua como uma força intangível que distorce a realidade e afeta os moradores da região de formas diferentes e inexplicáveis. A Antena se torna metáfora para o imaterial – algo que não se vê, mas se sente, como diz um personagem morador das redondezas: “Você não vê o vento, mas o vento existe. A gente está falando de energia. Tudo é energia”. Essa reflexão sobre o invisível eleva a produção a uma esfera quase metafísica, onde o mistério e a tensão psicológica se entrelaçam, lembrando o clima de paranoia e desestabilização presente em Mother! (2017).

O longa de Adriano Guimarães é um convite a escutar os silêncios, perceber o desconhecido e aceitar que nem tudo precisa ser explicado para existir. Repleto de pausas, ruídos mínimos e emoções suspensas, Nada exige entrega e paciência – e oferece como recompensa uma reflexão sobre memória, ausência e o tempo que escapa. É uma obra que transforma o vazio em presença e a ausência em conexão, revelando que, às vezes, aquilo que parece faltar é justamente o que nos une.

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