
Arthur Caires
Com seu olhar intensamente sensorial, o experiente diretor de teatro brasiliense, Adriano Guimarães, estreia na ficção com Nada, um filme que aposta em pausas e silêncios de uma presença quase tátil. Distribuído pela Embaúba Filmes, o longa já passou por diversos festivais internacionais e foi premiado no Festival de Brasília nas categorias de Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor Edição de Som.
Propondo uma experiência contemplativa que rejeita narrativas tradicionais, a obra acompanha o reencontro entre duas irmãs após décadas afastadas, em uma fazenda onde o tempo parece suspenso e o real se dilui sob a presença da misteriosa Antena. Em vez de respostas, Guimarães oferece sensações, e faz do estranhamento uma chave para acessar memórias, lutos e aquilo que nos escapa.
Inspirado em referências literárias como Manoel de Barros e Samuel Beckett, Nada se distancia da linearidade convencional para se entregar a uma incursão profunda na subjetividade das personagens. Com roteiro de Emanuel Aragão, o filme não busca fechar tramas ou explicar eventos, mas sim explorar as fragilidades emocionais e a poética do silêncio e do invisível. O enredo é menos um caminho com destino certo e mais uma travessia abstrata, onde a percepção e o tempo se dilatam, pedindo que o espectador contemple o que geralmente fica nas entrelinhas.

A direção de arte é um dos pilares que sustentam sua atmosfera única. Ambientado em uma fazenda rural de Goiânia, o longa utiliza planos cuidadosamente compostos, muitas vezes simétricos e estáticos, que reforçam a impressão de tempo suspenso e confinamento emocional. A câmera permanece majoritariamente imóvel, funcionando como um observador distante, o que intensifica o sentimento de paralisia e estranhamento.
Quando a câmera se move, geralmente em momentos de tensão ou incerteza, esse movimento causa alerta, rompendo a rigidez visual e mergulhando em um desconforto sutil. Em um plano-sequência memorável, a câmera assume o ponto de vista subjetivo de Ana, que sai à procura de sinal de celular, aproximando-nos ainda mais da história.
O design sonoro de Guile Martins é uma peça fundamental na construção do universo de Nada. A ambientação, rica em sons naturais da fazenda – o vento, os insetos, os passos sobre a terra – cria uma textura que envolve o espectador. O silêncio, por sua vez, não é vazio, mas um elemento ativo da história, capaz de revelar o oculto e carregar um peso emocional. Nesse jogo entre som e quietude, o filme revela seu ritmo próprio, onde cada ruído mínimo ganha significado, transformando-se quase em um personagem essencial para sustentar o clima de suspense e inquietação.

No centro da narrativa está o reencontro delicado entre as irmãs Ana (Bel Kowarick), artista plástica que vive na cidade, e Tereza (Denise Stutz), que permanece na fazenda da infância, marcada por uma doença e estados alterados de consciência. Décadas de afastamento moldaram uma relação feita de silêncios, gestos truncados e uma comunicação marcada pela ausência de palavras explícitas. Essa conexão distante, mas profundamente enraizada, é revelada com sutileza, evitando explicações óbvias e nos convidando a sentir as tensões imateriais que permeiam seu vínculo.
O contraste entre o que foi vivido e o que permanece não dito cria um espaço para a fragilidade e o mistério que permeiam esse vínculo. A decisão de Ana de documentar os eventos estranhos por meio de entrevistas gravadas adiciona uma camada metalinguística e reflexiva, tensionando as fronteiras entre o real, o ficcional e o subjetivo.

A presença enigmática da Antena, instalada pelo governo e sem uma explicação clara, é o núcleo simbólico que permeia Nada. Ela atua como uma força intangível que distorce a realidade e afeta os moradores da região de formas diferentes e inexplicáveis. A Antena se torna metáfora para o imaterial – algo que não se vê, mas se sente, como diz um personagem morador das redondezas: “Você não vê o vento, mas o vento existe. A gente está falando de energia. Tudo é energia”. Essa reflexão sobre o invisível eleva a produção a uma esfera quase metafísica, onde o mistério e a tensão psicológica se entrelaçam, lembrando o clima de paranoia e desestabilização presente em Mother! (2017).
O longa de Adriano Guimarães é um convite a escutar os silêncios, perceber o desconhecido e aceitar que nem tudo precisa ser explicado para existir. Repleto de pausas, ruídos mínimos e emoções suspensas, Nada exige entrega e paciência – e oferece como recompensa uma reflexão sobre memória, ausência e o tempo que escapa. É uma obra que transforma o vazio em presença e a ausência em conexão, revelando que, às vezes, aquilo que parece faltar é justamente o que nos une.
