Depois, a Névoa revela o que resta quando o tempo se dissolve

Um plano médio de César (Pablo Limarzi) no filme 'Depois, a Névoa'. Ele é um homem de meia-idade com barba e cabelo grisalhos, vestindo um casaco de couro escuro e um cachecol marrom grosso. Ele olha diretamente para a câmera com uma expressão séria, em um ambiente externo à noite, com luzes de rua ou carros desfocadas ao fundo.
A travessia de César é também a travessia do olhar (Foto: Punto de Fuga Cine)

Arthur Caires

Há algo de ritualístico em Depois, a Névoa, segundo longa-metragem de Martín Sappia, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Competição Novos Diretores. O filme se inscreve na tradição do cinema cordobês – vertente argentina que há anos busca capturar a serenidade e o isolamento de personagens mergulhados em paisagens interiores tanto quanto geográficas. No entanto, Sappia não apenas revisita esse território: ele o observa como se fosse a primeira vez, como se cada névoa, cada pedra e cada sopro de vento ainda tivessem algo a revelar sobre o que significa existir no mundo.

Nos primeiros minutos, acompanhamos César (Pablo Limarzi), um segurança de uma fábrica de produtos químicos, imerso na repetição silenciosa de uma rotina que já dura mais de duas décadas. O longa começa na escuridão da madrugada, quando as luzes industriais se acendem e o corpo já trabalha, maquinal, dentro de um tempo que parece suspenso. A quietude se rompe quando ele recebe uma carta da irmã informando que o terreno da família nas montanhas foi vendido, e com ele, o local onde estão as cinzas de Elena, uma mulher de seu passado. O gesto de partir, então, é inevitável: César deixa o emprego e se lança em uma jornada que só poderia ser feita a pé.

Um plano geral de César (Pablo Limarzi) no filme 'Depois, a Névoa'. Ele é visto de costas, caminhando sozinho para longe da câmera por uma longa estrada de terra que sobe uma colina. A estrada é ladeada por uma floresta densa de pinheiros e vegetação rasteira seca.
Cada passo de César parece pesar como a lembrança de um tempo perdido (Foto: Punto de Fuga Cine)

A caminhada é o eixo que move Depois, a Névoa. O corpo, antes enclausurado na rigidez da fábrica, torna-se o instrumento do luto. Cada passo é uma tentativa de reorganizar o tempo; cada paisagem, um espelho do que foi perdido. O filme compreende que o luto não existe sem o corpo, que é preciso sentir a dor para atravessá-la. Ao longo da jornada, a voz da irmã surge como um eco, entre cartas e memórias, costurando passado e presente enquanto César percorre estradas, cidades e campos onde a infância já não encontra abrigo. 

Sappia e o diretor de fotografia Ezequiel Salinas criam uma câmera que parece respirar junto ao protagonista: rasteja entre as ervas, ergue-se às copas das árvores, aproxima-se do fogo e de suas brasas. Não há pressa em narrar, há desejo em observar. Os planos longos e o ritmo letárgico compõem uma espécie de comunhão sensorial. Assistir a Depois, a Névoa é compartilhar esse estado de presença: estar junto de outros seres, consciente da coexistência.

Conforme o filme avança, as figuras humanas deixam de ocupar o centro da narrativa e começam a fazer parte de um horizonte maior (Foto: Punto de Fuga Cine)

Talvez o poder oculto da obra resida justamente em sua capacidade de dissolver fronteiras: entre o humano e o não humano, entre o corpo de César e a matéria da paisagem. Há algo mineral em seus olhos rochosos, algo de vegetal em sua quietude. Sappia reconhece o peso das dores humanas, mas também as inscreve num horizonte mais amplo. À medida que o longa se expande, as figuras humanas deixam de ser o centro e passam a integrar um ciclo que as inclui e as ultrapassa.

Depois, a Névoa é um filme maduro e, por isso mesmo, silencioso em seus triunfos. É delicado e simples, não busca ostentar suas descobertas. Flui como quem entende que a profundidade não precisa de ruído, e que a melancolia pode ser também um modo de reconciliação. No fim, resta a sensação de que o cinema de Sappia alcança aquilo que muitos perseguem: transformar o olhar em gesto, e o gesto em permanência.

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