
Davi Marcelgo
Entre as discussões sobre as produções da Marvel Studios, há aquelas que apontam o cinismo como principal característica dos longas. Um desprezo em abraçar o estilo cafona e ingênuo dos gibis, material base dessas adaptações. Ao contrário de Kevin Feige, chefe por trás do maquinário, o diretor Sam Raimi é alguém que jamais renegou a natureza barata das histórias de super-heróis, presente, principalmente, na sua obra mais popular: a trilogia Homem-Aranha. Porém, 12 anos antes do lançamento da primeira teia, o americano criou seu próprio (anti) herói e assumiu o espírito cartunesco como ninguém em Darkman – Vingança sem Rosto (1990).
Na trama, o cientista Peyton (Liam Neeson) pesquisa uma fórmula que seja capaz de criar pele artificial, mas tudo muda quando ele é atacado por uma gangue, que o deixa com cicatrizes no rosto. Agora ele é Darkman, um ser deformado em busca de vingança. Inspirado no personagem radiofônico O Sombra, que logo virou estrela da literatura pulp dos quadrinhos, a história escrita por Raimi segue à risca o modelo de criação de um mito: um trágico acidente que dá poderes ao indivíduo, porém com um preço a ser pago. Peter Parker sobe as paredes, no entanto, carrega a culpa da morte de inocentes; Bruce Banner possui força sobre-humana e convive com um duplo monstruoso, por exemplo. Peyton teve seus sentidos ampliados, inclusive a força; o revés, sua aparência.
Diante disso, fica bem claro o que o cineasta quer reproduzir: as convenções dos quadrinhos. Para transpor isso para a tela, ele faz – como todo bom profissional – pela forma e conteúdo. Porém, para entender as inspirações dele, é preciso considerar as condições de trabalho do início da filmografia de Sam Raimi, assim como sua própria infância. O artista teve uma proximidade ferrenha com as publicações de banca quando criança, o que ocasionou o interesse nas transposições para o Cinema.

Aos 19 anos, o jovem alucinado por Terror, concebeu seu curta-metragem Within the Woods (1978) e, a partir daí, suas produções seriam marcadas pelo baixo orçamento durante um período. Essa característica foi incorporada por ele, mesmo quando associado a um estúdio maior, criando um estilo de artesanato nas obras. Em Evil Dead (1981), por exemplo, uma bicicleta era usada como apoio de câmera; já em Darkman – Vingança sem Rosto, o stop motion (já familiar nas obras de Raimi) surge em uma cena e sempre há a presença de efeitos práticos, como próteses e maquiagens.
Aqui, não se trata de um argumento vazio sobre a superioridade deste tipo de trabalho e a inferioridade do CGI, até porque a funcionalidade das escolhas artísticas depende do contexto e de que maneira se alinham à unidade do filme. Justamente pelo cenário, que a forte presença dos aparatos físicos se torna um ponto bom, uma vez que a impressão que o longa quer passar é o sentimento de uma literatura mais barata e simples. Sobretudo, é uma produção que acredita fielmente em seu material e nas emoções que quer passar ao público, por mais piegas que possa soar.
Em uma cena, Darkman diz “Lar” de uma forma extremamente séria e melancólica para um galpão sujo e escuro, logo após perder sua casa e a vida anterior. A construção da cena dramatiza o sentimento através da composição de Danny Elfman e do plano aberto de Raimi, que impacta por meio do vislumbre da aparência do ambiente. Dessa forma, a fita acredita no que as personagens sentem e assim, o espectador também. É o tipo de abordagem que os filmes de super-heróis atuais costumam ignorar – ou tratam como piada, a exemplo de Thunderbolts*, com a casa do Guardião Vermelho (David Harbour). Até James Gunn, que mergulhou em uma ingenuidade ao trazer cores e a presença do cachorro Krypto para seu Superman (2025), não conseguiu renunciar o cinismo em algumas cenas.

O filme é estruturado para transmitir a ideia do pulp e da honestidade. Seja na fotografia sombria, que remete ao noir de O Sombra, ou nos cenários precários, como becos ou instalações e moradias comuns. Peyton é um cientista pobre, com seu laboratório anexado no segundo andar de outro estabelecimento, e seus inimigos são ricos canastrões, que querem fazer uma limpeza na cidade para criar outra. O protagonismo, centrado em personagens de classe baixa, evoca a forma.
Por mais que as linhas de texto dita pelos atores e cada atitude caricata dos vilões que possuem um visual com a cara dos 1990, com suas jaquetas de couro e visual de frequentadores de bar de motoqueiros possa ser irreal, a direção, fotografia, trilha, entre outros elementos em cena, estão dispostos a crer. Afinal, como se compadecer com o herói trágico, se quem está por trás das câmeras não tiver o mesmo sentimento? Eles adotam a sensibilidade excessiva para gerar emoções que a ensaísta Susan Sontag vai definir como camp, pois é um filme que acredita em absolutamente tudo que está em tela, sem querer soar engraçadinho com o ridículo e o exagerado.
Darkman – Vingança sem Rosto não quer corresponder a uma lógica mercadológica pensada por uma corporação. Ele está mais interessado na história, personagens e nos quadrinhos que se inspira, e claro, no brega e na excessividade que estão em torno desse tipo de contar história. Sam Raimi cresceu em uma época de heróis coloridos e momento em que o Batman, como no filme de 1966, enfrentava tubarões e carregava uma bomba prestes a explodir na mão. O cineasta firmou seu estilo de filmar no sub gênero trash. No contexto atual, o longa surge como a perfeita antítese de tudo feito depois que Christopher Nolan trouxe sua visão realista e sóbria ao homem-morcego.
