
Guilherme Moraes
No final da década de 1970, até o início dos anos 1990, uma tendência começou a tomar conta do Cinema (em especial, no norte-americano e europeu), alguns jovens cineastas da época iniciaram suas carreiras retomando obras de seus ícones, ao pensar nos clássicos e trazer sua própria versão deles. Não eram as mesmas histórias exatamente, mas os diretores partiam de um filme já concebido e o deformavam. Nesse sentido, um dos artistas que mais chamou a atenção foi Brian De Palma, grande fã de Alfred Hitchcock. Se Trágica Obsessão (1976) foi a sua versão de Vertigo (1958), então Vestida para Matar (1980) é seu próprio Psicose (1960).
65 anos atrás, Marion Crane (Janet Leigh) roubou 40 mil dólares do seu patrão e fugiu para encontrar com seu namorado. No meio de sua jornada ela se arrepende e decide voltar e devolver o dinheiro, porém, antes que conseguisse retornar, ela é assassinada, marcando para sempre a história do Cinema. 20 anos depois, Kate Miller (Angie Dickinson) é morta no elevador de um prédio, de maneira similar a Marion: Mulher estranha com um objeto cortante colocando a vítima contra a parede. As duas tragédias modificam por completo o enredo, mudando o protagonismo para outros personagens. No clássico de 1960, a trama aparentava ser um jogo de gato e rato pelo dinheiro, enquanto o ‘remake’ estava focado na libido de Kate Miller. Contudo, ambas as obras enganaram o espectador, pois o desenrolar da história se volta para a questão mais básica do suspense: quem é o assassino?

Na realidade, Vestida para Matar está mais preocupada em como a sociedade pune o desejo. Aqueles que têm uma relação complexa com ele – Kate Miller e Dr. Elliot (Michael Caine) – irão expurgá-lo de maneira devassa ou violenta, por outro lado, a prostituta – Liz (Nancy Allen) –, que lida melhor com sua sexualidade, sobrevive. Provavelmente em um slasher, Liz Allen teria sido a primeira a morrer, porém, o diretor a transforma em uma heroína.
Como de costume do cineasta, a introdução já consegue trazer o tema central. O maneirista abre o filme com Kate Miller se masturbando no chuveiro, passando a mão sobre seu corpo e olhando para seu marido sem camisa se barbeando no chuveiro. Entretanto, em determinado momento um homem vem ao fundo e a violenta. Logo em seguida, somos jogados a uma cena de sexo entre a personagem de Angie Dickinson com seu cônjuge, porém, diferentemente da cena do chuveiro – note a relação com Psicose –, essa não tem tesão algum, é burocrática. Esse corte é essencial para entendermos que a abertura era apenas um sonho de Kate, e que ela via aquele desejo como errado. A excitação feminina era – e ainda é – tabu.

A questão sexual do vilão merece um parágrafo à parte para se ater aos erros de Brian De Palma, e específicamente nesse caso, vale falar sobre defeito na obra de uma posição ‘superior’, afinal ele mostrou ignorância sobre os conceitos de desejo e sexualidade, de forma que possa soar até ofensivo. Mas antes de entrar nesse tópico, é bom olhar como o diretor colocou como protagonistas uma prostituta e um adolescente nerd (cujo o audiovisual sempre tratou como uma figura patética e com problemas sexuais). Apesar de suas figuras estarem sempre ligadas à vulgaridade, as suas interações não poderiam ser mais puras, não há faísca entre eles, é apenas uma amizade se formando. É claro que a fita evidência como o desejo faz parte da experiência humana, no entanto, essa ligação entre os dois também deixa claro que existe mais do que isso.
Vestida para Matar – assim como Psicose – mostra como um Whodunnit deve ser feito, pois, a revelação final não tenta ser grandiosa e megalomaníaca, não é sobre grandes plot twists – ainda que sejam por natureza –, mas sim sobre concatenar uma ideia fílmica. Não é atoa que Hitchcock é considerado o mestre do suspense, a conclusão do clássico expõe Norman Bates como assassino, porém, o diretor estava mais interessado na exploração da relação entre ele e sua mãe. Brian De Palma, por sua vez, refilma essa história a partir da depravação dos personagens.

O grande algoz de Liz e Peter Miller (Keith Gordon) é revelado nos minutos finais como o personagem de Michael Caine. A motivação por trás dos assassinatos está em sua dupla personalidade – novamente remetendo à Psicose. O Dr. Elliot estava em processo de mudança de gênero e foi assim que sua mente se fragmentou em duas personas: Elliot e Bobbi. No longa, quando o psicólogo se sente atraído por alguma mulher, sua versão feminina assume e mata aquela mulher, como forma de ‘eliminar’ a heterossexualidade. Contudo, já na época essa relação entre sexo (no sentido fisiológico mesmo) e desejo já se mostrava equivocada. Identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. Todavia, o que se pode dizer em sua defesa – sem ir em direção aquelas defesa simplórias de “Era algo daquela época” – é que De Palma está interessado mesmo em falar sobre Hitchcock. Era um filme sobre outro filme e que pouco lida com questões de gênero. Muito mais importante do que ‘cancelar’ ou ‘passar pano’ é pensá-lo criticamente, entendendo seu contexto de produção e intenção, para entender o resultado.
Vestida para Matar é um olhar para o que há de mais depravado no Cinema de Hitchcock, o que se torna uma marca de Brian De Palma. Se em Trágica Obsessão o diretor trabalha com uma relação incestuosa ao fazer a releitura de Vertigo, neste, ele encontra a promiscuidade em lugares inesperados e, ironicamente, onde a sociedade veria vulgaridade, há apenas amizade.
