Brian De Palma encontra o que há de mais depravado em Hitchcock nos 45 anos de Vestida Para Matar

Cena de Vestida para Matar. Retrato em close-up de Liz, uma mulher loira com cabelos volumosos e cacheados, adornados com uma presilha brilhante. Ela veste um casaco de textura felpuda na cor roxa vibrante. A iluminação é dramática, destacando seus olhos claros e lábios pintados, com luzes de cidade desfocadas ao fundo.
Nancy Allen e Brian De Palma já foram casados (Foto: Filmways Pictures)

Guilherme Moraes

No final da década de 1970, até o início dos anos 1990, uma tendência começou a tomar conta do Cinema (em especial, no norte-americano e europeu), alguns jovens cineastas da época iniciaram suas carreiras retomando obras de seus ícones, ao pensar nos clássicos e trazer sua própria versão deles. Não eram as mesmas histórias exatamente, mas os diretores partiam de um filme já concebido e o deformavam. Nesse sentido, um dos artistas que mais chamou a atenção foi Brian De Palma, grande fã de Alfred Hitchcock. Se Trágica Obsessão (1976) foi a sua versão de Vertigo (1958), então Vestida para Matar (1980) é seu próprio Psicose (1960).

65 anos atrás, Marion Crane (Janet Leigh) roubou 40 mil dólares do seu patrão e fugiu para encontrar com seu namorado. No meio de sua jornada ela se arrepende e decide voltar e devolver o dinheiro, porém, antes que conseguisse retornar, ela é assassinada, marcando para sempre a história do Cinema. 20 anos depois, Kate Miller (Angie Dickinson) é morta no elevador de um prédio, de maneira similar a Marion: Mulher estranha com um objeto cortante colocando a vítima contra a parede. As duas tragédias modificam por completo o enredo, mudando o protagonismo para outros personagens. No clássico de 1960, a trama aparentava ser um jogo de gato e rato pelo dinheiro, enquanto o ‘remake’ estava focado na libido de Kate Miller. Contudo, ambas as obras enganaram o espectador, pois o desenrolar da história se volta para a questão mais básica do suspense: quem é o assassino?

Cena de Vestida para Matar. Kate Miller é uma mulher loira, ela está usando um casaco branco e olha horrorizada para sua própria mão, que apresenta um corte sangrento. À direita, em primeiro plano, uma mão usando luva de couro preta segura uma navalha ensanguentada, sugerindo um ataque recente.
Além de Vestida para Matar, Angie Dickinson trabalhou em outros projetos históricos de Hollywood, como Onde Começa o Inferno (1959) [Foto: Filmways Pictures]
Antes de falar sobre o grande mistério de ambos os longas, é preciso investigar sobre a misé-en-scène. Brian De Palma não se limita a recontar a história, mas deixa evidente que é uma refilmagem e que está se aprofundando no original. O diretor encontra uma natureza depravada nos personagens de Hitchcock, todavia, em nenhum momento ele julga as pulsões destes, muito pelo contrário.

Na realidade, Vestida para Matar está mais preocupada em como a sociedade pune o desejo. Aqueles que têm uma relação complexa com ele – Kate Miller e Dr. Elliot (Michael Caine) – irão expurgá-lo de maneira devassa ou violenta, por outro lado, a prostituta – Liz (Nancy Allen) –, que lida melhor com sua sexualidade, sobrevive. Provavelmente em um slasher, Liz Allen teria sido a primeira a morrer, porém, o diretor a transforma em uma heroína. 

Como de costume do cineasta, a introdução já consegue trazer o tema central. O maneirista abre o filme com Kate Miller se masturbando no chuveiro, passando a mão sobre seu corpo e olhando para seu marido sem camisa se barbeando no chuveiro. Entretanto, em determinado momento um homem vem ao fundo e a violenta. Logo em seguida, somos jogados a uma cena de sexo entre a personagem de Angie Dickinson com seu cônjuge, porém, diferentemente da cena do chuveiro – note a relação com Psicose –, essa não tem tesão algum, é burocrática. Esse corte é essencial para entendermos que a abertura era apenas um sonho de Kate, e que ela via aquele desejo como errado. A excitação feminina era – e ainda é – tabu.

Cena de Vestida para Matar. Liz posa deitada de forma provocante. Ela usa lingerie preta e meias transparentes. O cenário é interno e mal iluminado, com uma luz azulada vinda da lateral que destaca sua pele e o brilho de seus brincos de cristal.
Nancy Allen também esteve no elenco de Carrie, a Estranha (1976), dirigido pelo próprio Brian De Palma (Foto: Filmways Pictures)

A questão sexual do vilão merece um parágrafo à parte para se ater aos erros de Brian De Palma, e específicamente nesse caso, vale falar sobre defeito na obra de uma posição ‘superior’, afinal ele mostrou ignorância sobre os conceitos de desejo e sexualidade, de forma que possa soar até ofensivo. Mas antes de entrar nesse tópico, é bom olhar como o diretor colocou como protagonistas uma prostituta e um adolescente nerd (cujo o audiovisual sempre tratou como uma figura patética e com problemas sexuais). Apesar de suas figuras estarem sempre ligadas à vulgaridade, as suas interações não poderiam ser mais puras, não há faísca entre eles, é apenas uma amizade se formando. É claro que a fita evidência como o desejo faz parte da experiência humana, no entanto, essa ligação entre os dois também deixa claro que existe mais do que isso.

Vestida para Matar – assim como Psicose – mostra como um Whodunnit deve ser feito, pois, a revelação final não tenta ser grandiosa e megalomaníaca, não é sobre grandes plot twists – ainda que sejam por natureza –, mas sim sobre concatenar uma ideia fílmica. Não é atoa que Hitchcock é considerado o mestre do suspense, a conclusão do clássico expõe Norman Bates como assassino, porém, o diretor estava mais interessado na exploração da relação entre ele e sua mãe. Brian De Palma, por sua vez, refilma essa história a partir da depravação dos personagens.

Cena de Vestida para Matar. No primeiro plano, à direita, Liz olha para o lado com expressão de apreensão ou surpresa. Ao fundo, à esquerda, uma figura misteriosa com óculos escuros e casaco brilhante a observa das sombras em um ambiente mal iluminado com luzes desfocadas.
Brian De Palma gosta de filmar personagens em planos diferentes, de forma que esses planos se tornem quase uma barreira (Foto: Filmways Pictures)

O grande algoz de Liz e Peter Miller (Keith Gordon) é revelado nos minutos finais como o personagem de Michael Caine. A motivação por trás dos assassinatos está em sua dupla personalidade – novamente remetendo à Psicose. O Dr. Elliot estava em processo de mudança de gênero e foi assim que sua mente se fragmentou em duas personas: Elliot e Bobbi. No longa, quando o psicólogo se sente atraído por alguma mulher, sua versão feminina assume e mata aquela mulher, como forma de ‘eliminar’ a heterossexualidade. Contudo, já na época essa relação entre sexo (no sentido fisiológico mesmo) e desejo já se mostrava equivocada. Identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. Todavia, o que se pode dizer em sua defesa – sem ir em direção aquelas defesa simplórias de “Era algo daquela época” – é que De Palma está interessado mesmo em falar sobre Hitchcock. Era um filme sobre outro filme e que pouco lida com questões de gênero. Muito mais importante do que ‘cancelar’ ou ‘passar pano’ é pensá-lo criticamente, entendendo seu contexto de produção e intenção, para entender o resultado.

Vestida para Matar é um olhar para o que há de mais depravado no Cinema de Hitchcock, o que se torna uma marca de Brian De Palma. Se em Trágica Obsessão o diretor trabalha com uma relação incestuosa ao fazer a releitura de Vertigo, neste, ele encontra a promiscuidade em lugares inesperados e, ironicamente, onde a sociedade veria vulgaridade, há apenas amizade.

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