Há 5 anos, Ted Lasso era aplaudido pela torcida com sua maturidade e otimismo

Frame de Ted Lasso, homem branco de cabelo liso castanho tapado pela viseira branca e bigode alinhado, em meio a seus companheiros Beard, homem branco de cabelo e barba ruivos, e Nate, homem baixo e moreno, todos vestindo um uniforme azul marinho e celeste com listras vermelhas. Ao fundo, uma arquibancada cinza com cadeiras vermelhas em um centro de treinamento com grama.
Ted Lasso recebeu 20 indicações ao Emmy em sua primeira temporada, quebrando o recorde quantitativo de indicações anterior de 19, com Glee em 2011 (Foto: Apple TV+)

Livia Queiroz

Ted Lasso (Jason Sudeikis) apareceu pela primeira vez na tela do esporte muito antes de ter sua própria série, lançada em agosto de 2020. Tudo começou em 2012, com uma propaganda de TV para promover a Premier League na NBC Sports, na qual o técnico representava uma comédia americana estereotipada para atrair público dos EUA. Até então, esse era o único plano para o personagem: uma promoção da liga inglesa. Em vez disso, ele encantou fãs de futebol do mundo todo com a premissa esquisita, porém inovadora – e especialmente engraçada –, ganhando um novo comercial um ano depois. Posteriormente, começou-se a planejar algo maior e com mais protagonismo para Ted Lasso. 

Porém, a ideia só saiu do papel quando Jason Sudeikis apresentou o trabalho para Bill Lawrence, que tornou-se produtor executivo da obra. Ted Lasso é, sem dúvidas, uma coletânea de lições de vida intercaladas com piadas e muito carisma. A partir da mistura do clássico e humor constrangedor de Ted e Beard, junto do humor ácido dos personagens da Grã-Bretanha, a série conta uma história impraticável na realidade esportiva, mas muito original e bem adaptada para a ficção. Ela traz um frescor narrativo para a indústria audiovisual atual, que não apresenta novos contextos e sempre copia algumas estruturas de Hollywood; as ‘receitas para o sucesso’ que começam a cansar os consumidores.

Frame de Roy Kent, homem branco, de cabelo e sobrancelha preta, barba e bigode por fazer, vestindo a camisa de treino com o escudo azul do time do AFC Richmond cinza com mangas em detalhes vermelhos e linhas azuis junto de um patrocínio da Dubai Air – marca fictícia –, em meio a seus dois companheiros de equipe, à esquerda um homem branco de cabelo, bigode e barba castanhos e à direita um homem negro de cabelo raspado, com a mesma tonalidade de roupa.
Durante a escalação dos atores, era necessário que os interessados exibissem tanto sua atuação quanto suas habilidades futebolísticas em vídeo (Foto: Apple TV+)

O ambiente escolhido para representar a narrativa foi o do futebol, entretanto esse é somente um plano de fundo para uma história mais madura que a luta pelo não rebaixamento de AFC Richmond. O principal ponto provado por Ted é que o otimismo não está ligado à inocência ou ignorância, mas à coragem, e, em uma realidade tão superficial como a qual vivemos no meio esportivo, ele incomoda justamente por ligar-se à tolerância e à humildade. Quando o técnico realiza sua primeira coletiva de imprensa, é recebido com deboche pelos jornalistas, que interpretavam sua gestão como um desastre agendado, porém responde que devemos assumir nossos defeitos, desde que com vontade de aprender com eles e substituí-los por habilidades. 

Outro conhecimento traduzido nas entrelinhas da série é sobre amizade. A adorável dinâmica entre Keeley (Juno Temple) e Rebecca (Hannah Waddingham) é um presente para os espectadores. A forma como apoiam uma a outra, comemoram conquistas e se constroem no meio futebolístico é linda por mostrarem que o esporte não deve ser tomado pela masculinidade inflexível nem usado como mecanismo de proliferação de rivalidade feminina. Os Diamond Dogs também trazem essa perspectiva. Entre as cenas do grupo, é apresentada uma vulnerabilidade masculina dificilmente evidenciada, quebrando o tabu da pressão pela toxicidade e autossuficiência masculina dentro desse ambiente por muitas vezes amargo. 

Além disso, a obra aborda temas mais sérios presentes na sociedade, como o machismo. AFC Richmond é propriedade da diretora Rebecca Welton, e, portanto, é uma mulher em um cargo altíssimo de poder dentro do esporte. A partir disso, ela sofre frequentemente ataques da imprensa, que atribui suas conquistas ao seu ex-casamento, insultando seu trabalho, sua aparência e até mesmo praticando etarismo. Muitas vezes a personagem responde à altura com a discriminação de gênero tanto no âmbito administrativo quanto no esportivo – já que trata-se ainda de um ambiente tomado pela masculinidade –, mas durante os episódios fica claro o quanto esses comentários afetam sua autoestima e segurança no trabalho, uma realidade da parcela feminina que se encontra nessa atmosfera.

Frame de Rebecca Welton, mulher branca, alta, de cabelos brancos e olhos verdes, vestindo uma blusa branca drapeada na gola e saia preta, sentada em sua cadeira branca corporativa que segura seu blazer creme em meio a sua mesa branca que apoia seu Macbook, sua bolsa branca, alguns jornais e papéis avulsos e sua xícara de chá de cor laranja.
Hannah Waddingham fingiu que os biscoitos de Ted eram deliciosos, afirmando que era apenas “um pedaço de pão de ló seco que foi deixado no seu banheiro em uma caixinha rosa” (Foto: Apple TV+)

Nos aspectos técnicos da cinematografia, comandada por David Rom e John Sorapure, o futebol tem uma qualidade mediana e não convence os fãs do esporte. As cenas se assemelham aos jogos de videogame da FIFA, com vários ângulos não convencionais, exagerando no jogo de câmeras e espelhamento. Além disso, a atuação para jogadas, acidentes e até emoções dentro de campo são ineficientes e muito artificiais. Apesar das negatividades, a série mantém uma narrativa coesa, sem placares impossíveis e, principalmente, sem viradas heróicas na tabela de times, com Richmond apenas lutando para evitar o rebaixamento – e não conseguindo.  

Em geral, a atuação é descontraída e não muito exigente, porém, Jason Sudeikis se destaca. Ao trazer uma humanidade genuína em cada ato do personagem, desde sua modéstia com todos ao seu redor até seu humor constrangedor, o ator desenvolve nos espectadores um carinho por Ted e transparece alegria, tranquilidade e otimismo – traço que o torna tão querido e com a capacidade de mudar a opinião de pessoas que não gostavam dele. Entretanto, nem só de coisas boas vive o personagem e Sudeikis soube manejar os extremos muito bem, entregando energia e expressão quando a série alerta sobre ataques de pânico, ansiedade e tristeza junto de sua persona.

Fotografia de Ted Lasso, homem branco, sorridente e com rugas na testa, olhos morenos e cabelo e bigode castanhos lisos bem penteados, vestindo uma blusa social branca por debaixo de um suéter azul marinho de gola redonda enquanto segura um pires e xícara de chá brancos com uma listra dourada.
Brett Goldstein foi inicialmente contratado como roteirista da série, porém, ao escrever o personagem de Kent, disse que se apegou ao papel e insistiu no papel para si próprio (Foto: Apple TV +)

Apesar de não precisar ser um conhecedor de futebol para assistir a série, ela se baseia nesse mundo e nada mais justo que refletir sobre o esporte em si. Por isso, o atleta mexicano Dani Rojas (Cristo Fernández) aparece para refletir uma frase de muitos significados: “football is life” (futebol é vida, em livre tradução). A vida é composta por diversas alegrias, decepções, desconfianças e até raiva, e no futebol não é diferente. Por que choramos depois de nosso time ganhar títulos? Por que nos arrepiamos com algum lance de jogo? Por que sentimos gratidão por ter presenciado algum atleta jogar? Por que nos sentimos pertencentes a uma torcida e a um clube? E essas respostas são complexas, mas podem ser resumidas em uma única e tão bonita frase, afinal, futebol é vida. 

Nesse sentido, Ted Lasso é leve e positiva porém sabe abordar com muita maturidade assuntos de grande dimensão. A partir disso, a produção mostra que a bondade é contagiosa e não custa muito para ser praticada, especialmente por estar incluída nos mais pequenos atos diários, como um “Bom dia, chefe!”, da mesma forma que Ted se apresenta a Rebecca todos os dias com deliciosos biscoitos. Em essência, apesar dos erros no futebol serem evidentes, eles são facilmente apagados pela humanidade e humor que a série oferece, cumprindo seu objetivo principal – trazer alegria mesmo quando não estamos no melhor momento –, afinal, assim como o protagonista afirma, é preciso manter a esperança, “believe (acredite).

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