
Guilherme Moraes
Em Rebecca, A Mulher Inesquecível, uma jovem – cujo o primeiro nome nunca é revelado – e o viúvo, Maxim de Winter (Laurence Olivier), se conhecem, apaixonam e, rapidamente, se casam. Após o noivado, esta garota começa a ser conhecida por Segunda Sra. de Winter (Joan Fontaine), e é assombrada pela memória muito viva da primeira Sra. de Winter: Rebecca. A figura da mulher morta não é novidade no Cinema de Alfred Hitchcock, a maioria sempre irá se lembrar de Vertigo (1958) como o filme mais marcante nesse sentido. Entretanto, já em 1940, sob outro contexto cinematográfico, sem o peso da própria história, o maior nome do suspense do Cinema já lidava com esse mesmo tropo.
Se no texto de Laura (1944) há a comparação entre a obra de Otto Preminger com o clássico de 1958, concebendo a ideia de que Hitchcock poderia ser de fato um maneirista – um cineasta que sente o peso da história do Cinema e busca ‘refilmar’ as grandes obras a sua maniera –, este vai por um lado diferente. Observar sobre o ponto de vista do maneirismo, requer olhar de frente para trás – pensar como uma imagem tem outra, antecessora, por baixo –, porém, agora a linha de pensamento é de trás para frente, ou seja, como esse tema parece ser ‘aperfeiçoado’ na Sétima Arte.
Rebecca, A Mulher Inesquecível (1940), Laura (1944) e Vertigo (1958) lidam com a figura da mulher morta, cada um de uma forma diferente. Rebecca é quase um fantasma que possui os corpos de Mrs. Danvers (Judith Anderson) e Jack Favell (George Sanders); a memória de Laura (Gene Tierney) atormenta todos os homens do filme e Madeleine (Kim Novak) é revelada como uma personagem, ou seja, nunca viveu de fato. Nesse sentido, é quase um ‘aperfeiçoamento’ desse tropo narrativo, até chegar ao auge em Vertigo. A conclusão de que a obra protagonizada por Kim Novak é o ápice se dá pelos longas subsequentes, como Trágica Obsessão (1976), Vestida para Matar (1985) e Instinto Selvagem (1992), três obras que bebem claramente de Um Corpo que Caí (em tradução livre), escavando e deformando essas imagens.

Entretanto, é muito simplório encontrar valor em Rebecca, A Mulher Inesquecível apenas a partir de seu peso histórico. Como na maior parte da filmografia de Hitchcock, a encenação e a condução da trama são o que a tornam tão genial. O engano e a distração são ferramentas muito utilizadas pelo cineasta, geralmente de forma magistral. A cena inicial, em que o casal principal se conhece, suscita no público a ideia de que Max amava sua falecida esposa Rebecca, e, ao longo do enredo, a tese é reforçada a partir do ponto de vista de vários outros personagens. Nesse sentido, o Mestre do Suspense resguarda o ‘POV’ do viúvo, para que na meia hora final solte um plot twist que irá ressignificar toda a narrativa e tensionar as cenas subsequentes.
A não aparição – nem sequer em um flashback – de Rebecca a transforma em uma figura indecifrável, cada menção ao seu nome causa uma sensação diferente: temor, respeito, admiração e leveza. O diretor permite que o público vá criando mentalmente sua própria versão dela, porém, esse fluxo narrativo é parte da sua ideia, pois, irá dar maior peso para a grande revelação – uma de suas marcas registradas –, e, a partir dela, já não será mais possível enxergá-la sob outras perspectivas diferentes da do Sr. de Winter.

É muito significativo como a personagem principal não tem seu nome revelado, enquanto Rebecca, não apenas dá nome ao filme, como também é sempre mencionada. Ela vira a figura central, mesmo sem aparecer um minuto sequer. Dessa forma, Hitchcock transforma a própria protagonista em uma intrusa, e o fantasma de sua antecessora se torna mais vivo do que ela.
O jogo de luz e sombras, os planos de George Barnes, a construção cênica (Lyle Wheeler) e toda a mise-en-scène são pensados para dar vida a uma pessoa morta, ou, de maneira mais macabra, dar um aspecto fúnebre àquilo que está vivo. A residência Manderley se torna quase um personagem, mudando o tom da obra quando aparece. A mansão é quase que um castelo assombrado, sempre imponente, escuro e com capacidade de isolar seus personagens, mesmo estando sempre lotado. Nessa mesma pegada, Rebecca converte-se em um fantasma que vaga pelo castelo, possuindo o corpo de Mrs. Danvers, principalmente pela forma como Hitchcock e Barnes captam a empregada: pouco iluminada, de forma que não dê para ver o seu rosto, apenas o contorno do seu corpo.
Ainda que a tríade Psicose (1960), Janela Indiscreta (1954) e Vertigo sejam as mais celebradas do diretor, Rebecca, A Mulher Inesquecível vem logo atrás junto com tantas de suas obras. Como já dito anteriormente, talvez seja possível inferir que o longa foi uma espécie de busca, do Cinema, pela narrativa perfeita sobre a figura da mulher morta. Entretanto, com o passar dos anos, é perceptível que, na realidade, Rebecca também é e sempre foi, perfeita.
