
Gabriel Quesada
Exibido na seção Competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Perros, do diretor uruguaio Gerardo Minutti, é um filme-crônica que acompanha a tensão latente entre duas famílias do subúrbio de Montevidéu e escancara uma série de contradições sociais da classe média latino-americana. Quando os Perna saem de férias para Punta del Este, seus vizinhos, os Saldaña, aceitam cuidar da casa e de seu cachorro Ficha – até que o desaparecimento do animal coloca uma família contra a outra.
Apesar de se tratarem com muita cordialidade – e dividirem o mesmo muro –, há muito mais que separa as duas famílias. Jorge (Néstor Guzzini) e Mirta Saldaña (María Elena Pérez) são o retrato de uma classe média que vive à sombra do privilégio alheio: não são pobres, porém, estão longe de viver uma vida estável. Já os Perna desfrutam de um conforto e tranquilidade que só o dinheiro pode comprar. Ao viajarem para o principal destino de veraneio da elite uruguaia, deixam para os Saldaña não apenas as chaves da sua casa, mas uma ideia tentadora de estabilidade.
Com a desculpa de buscar ideias para uma reforma que nunca sai do papel, os Saldaña passam uma noite na casa dos Perna. Abrem o whisky importado, ligam a TV de 60 polegadas, tomam banho na banheira e dormem juntos na cama do casal (a maior que já viram). Por algumas horas, vivem o que sempre sonharam: uma realidade emprestada. O desaparecimento do cachorro, enquanto Jorge cortava a grama de sua casa com o cortador dos vizinhos, é apenas o ponto de ruptura entre dois mundos que nunca foram iguais.

O subtexto do filme pode ser bem familiar para quem é brasileiro – ainda mais se você mora no interior. Assim como no Uruguai, a classe média brasileira vai de A a Z, e é muito comum encontrar um bairro com famílias muito diferentes convivendo. Todo mundo conhece (ou já ouviu falar) de encrencas entre vizinhos que nunca levaram a lugar algum, tampouco resolveram alguma coisa – a não ser por um olhar feio quando saem de casa ao mesmo tempo.
A fotografia de Matías Lasarte é um dos pilares da narrativa, apostando em enquadramentos horizontais amplos, que permitem capturar a casa dos Saldaña e dos Perna em uma mesma moldura na telona, sempre trabalhando o contraste entre as famílias. Outro conceito muito interessante é o uso de planos-sequência, como no momento em que os Saldaña exploram a casa dos vizinhos, permitindo que o público descubra o espaço simultaneamente aos personagens.
O longa também conta com atuações bastante sólidas, com destaque para a performance de Mirta Elena Pérez, vencedora do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Cinema de Málaga, atuando justamente como um ponto de lucidez diante das reações desmedidas dos maridos: “Eles têm carinho por seus cães, mas, acima de tudo, uma incapacidade de se comunicar com outros seres humanos”, afirmou Néstor Guzzini ao Infobae.
O Persona conversou com Gerardo Minutti após a sessão no Instituto Moreira Salles. O diretor, nascido em Montevidéu, inspirou o bairro do filme no lugar onde cresceu e afirmou que “não é do perfil desses personagens levar esse conflito adiante… São humanos acima de tudo. Não existem heróis ou vilões aqui”. No fim do dia, são apenas cidadãos comuns vivendo suas vidas em um capitalismo cada vez mais esmagador.
Se você está esperando por um suspense de tirar o fôlego, dê meia volta. Perros é um recorte sútil e humano de uma sociedade contraditória. Por trás dos gestos cotidianos há um abismo silencioso sustentado por hierarquias invisíveis. A obra não aponta culpados – nem se propõe a resolver nenhum desses conflitos –, apenas reflete a dificuldade de coexistir em um mundo onde até a vizinhança é um espelho das desigualdades.
