
Guilherme Moraes
A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que elas se interligam de maneiras inimagináveis. Mirrors No. 3, dirigido por Christian Petzold, é um longa alemão sobre pessoas superando o luto. Por outro lado, Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, tem como foco principal um grupo de ex-prisioneiros políticos iranianos que encontram, possivelmente, o seu antigo torturador. Apesar das temáticas diametralmente distintas, ambas se aproximam por sentimentos basilares do ser humano: a dor e o trauma.
Em Mirrors No. 3, Laura (Paula Beer) está perdida no mundo, infeliz, sem saber o porquê. Durante uma viagem com seu namorado, eles sofrem um acidente que culmina na morte dele. A ajuda vem de uma mulher chamada Betty (Barbara Auer), que mora nas redondezas de onde ocorreu o fato. Logo de cara, ocorre uma conexão entre as duas que é mediada pelo olhar, como se elas já se conhecessem. A partir do ocorrido, a protagonista começa a ficar sob os cuidados da família de Betty, entretanto, conforme a trama avança, às atitudes deles ficam cada vez mais estranhas e suspeitas. Ao final, nos é revelado que Laura estava sendo tratada como uma substituta da caçula da família que já tinha falecido.
Já em Foi Apenas um Acidente, Vahid (Vahid Mobasseri) sequestra Eghbal (Ebrahim Azizi), um homem que ele acredita ser a pessoa que o torturava enquanto estava preso. Contudo, sem a certeza de que estava com a pessoa certa, ele decide ir atrás de outros antigos prisioneiros para confirmar. Assim, se forma um grupo com Shiva (Mariam Afshari), uma fotógrafa; Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr), um homem com uma personalidade impulsiva; Golrokh (Hadis Pakbaten), uma noiva que coloca o seu casamento em espera para resolver essa pendência e Ali (Majid Panahi), o noivo que acompanha a sua mulher nessa empreitada. Depois de sofrer diversas humilhações, Eghbal confessa que realmente era o homem que torturava todos eles, e assim, Vahid e Shiva permitem que ele viva, pois já não queriam mais deixar o passado consumí-los. Jafar Panahi encerra a obra com um plano de Vahid de costas, ouvindo passadas metálicas, característica marcante de Eghbal, deixando a pergunta: ele voltou para perpetuar o ciclo de violência?

O que conecta essas duas tramas é o trauma. Seja pela guerra, para o iraniano, ou a perda de um ente querido, para o alemão. Todavia, a grande questão é como cada um vai lidar com essas angústias e o que isso vai significar para o encerramento de cada personagem. Em Mirroirs No. 3 (no original), Betty, Richard (Matthias Brandt) e Max (Enno Trebs) – respectivamente, marido e filho de Betty – tentam superar a partir do amor e carinho com Laura. Ainda que Petzold mostre como essa relação era doentia e não poderia perdurar, a protagonista finaliza sua jornada mais completa e feliz, enquanto a família conseguiu se reconciliar.
Por outro lado, It Was Just an Accident (título original) coloca o seu quinteto em situações bizarras e condenáveis. O filme se assemelha a Anora (2024) com sua pegada cômica, de forma que esconde as aflições e os abusos dos personagens e potencializa o final, em que tudo é extravasado. As dores que eles sentem são respondidas na mesma moeda e isso gera um impacto contrário do que acontece com os de Mirrors No. 3.
No iraniano, o desfecho é aberto e interpretativo. O próprio Panahi falou depois da exibição da fita na Mostra, que o som metálico poderia ser real ou imaginário, porém, qualquer uma das duas hipóteses não leva para um caminho feliz. Se o que Vahid ouviu for real, seu algoz retornou para perpetuar o ciclo de violência, caso esteja em sua cabeça, demonstra que o protagonista não conseguiu superar o trauma. É o embate entre amor e ódio que define o destino dos personagens nas duas obras.
Ainda que os dois longas tenham temáticas e objetivos distintos, ambos se encontram pelo lado humano. Durante a 49° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Panahi participou de discussões relacionadas à sua filmografia, o longa, à sua história e o que ele pensa do Cinema no geral, e o diretor comentou sobre como todos os tipos de filmes estão ligados à humanidade. “Quando olhamos para qualquer tema no cinema social, ele tem tudo o que tem no cinema político, e tem temas como a humanidade também”.
O cineasta foi homenageado e recebeu o Prêmio Humanidade durante o evento, pela sua história e paixão pelo Cinema. Entretanto, essa sua fala pode dizer mais sobre o motivo dele ser merecedor, não de um prêmio, e sim de carinho, atenção e admiração que ele recebeu. Apesar da perseguição que sofreu do governo iraniano por sua Arte, ele ainda enxerga algo positivo no mundo. É irônico como isso se revela na trama, pela comicidade, e é ainda mais curioso, como essa obra triste é mais bem humorada do que o carinhoso filme de Petzold. Seja para o político-social Foi Apenas um Acidente, ou para o traumático Mirrors No. 3, sempre haverá uma conexão no Cinema: o lado humano, inescapável.
