Aviso: imagens sensíveis

Pedro Domênico
2025 marca uma virada de página no Cinema contemporâneo. A pandemia forçou estúdios e distribuidoras a pensarem como reverter o esvaziamento das salas de cinemas – e aquilo que parecia um problema, aparece como um aliado inesperado. O streaming, antes visto como um dos principais responsáveis, tornou-se o espaço ideal para garantir o retorno do público às telonas. Para as animações, histórias bem sucedidas nas plataformas chegam às salas com arrecadações recordes. O sucesso de Demon Slayer: Castelo infinito (2025) e, mais recentemente, de Chainsaw Man: Reze Arc indicam um caminho promissor de investimento tanto para os estúdios de animação quanto para o mercado exibidor.
Ambas as produções citadas são continuações de seus respectivos animes. Chainsaw Man foi lançado como animação em 2022 e rapidamente conquistou um público fiel – parte formada por otakus que conheceram a obra pela animação e parte oriunda do material original, o mangá de 2018. Criada pelo autor japonês Tatsuki Fujimoto (no original, Fujimoto Tatsuki), a história foi publicada na revista semanal Weekly Shōnen Jump. A produtora japonesa MAPPA assina tanto o anime quanto o filme. Chainsaw Man chegou ao Brasil primeiramente através dos scans – modelo digital de distribuição não oficial dos capítulos.
Esta prática, largamente difundida em sites piratas de mangá pelo mundo todo, consiste em uma cadeia de digitalização e tradução feita por fãs: os capítulos são escaneados diretamente das revistas japonesas e, a partir daí, traduzidos e redistribuídos em diversas línguas. Grupos otakus de diversos países traduzem de forma independente as páginas escaneadas, seja diretamente do japonês ou intermediadas pelos scans em língua inglesa. Seu método clandestino é responsável por uma enorme distribuição e democratização dos mangás no mundo inteiro. No entanto, por se tratar de traduções não oficiais, as escolhas linguísticas variam de interpretações cuidadosas a versões carregadas de preconceitos.

A comunidade masculinista – também conhecida como incel ou red pill – foi pioneira na tradução do mangá no Brasil, e seus preconceitos acabaram marcando as versões mais consumidas da obra. Um exemplo emblemático é o uso da palavra “judeu” para traduzir o adjetivo japonês kechi (ケチ), que significa ‘avarento’ ou ‘mão-de-vaca’. Mesmo após o lançamento oficial pela Panini, em 2021, muitos termos consagrados nas versões scan permaneceram no vocabulário dos fãs de Chainsaw Man. As tensões entre as traduções piratas e a edição oficial atingiram seu ponto mais polêmico com a demissão de Guilherme Briggs da equipe de dublagem do anime, após uma enxurrada de críticas dos fãs à escolha de termos oficiais em detrimento dos não oficiais.
As leituras red pill, de viés masculinista, acabaram por infestar a recepção da obra, afastando muitos leitores do verdadeiro trabalho de Tatsuki Fujimoto. Surge então a pergunta: há outra forma de ler Chainsaw Man? Esta crítica parte do princípio de que sim. Reze Arc trata, de maneira contundente, de questões centrais da sociedade japonesa contemporânea – como a falta de perspectiva das gerações mais jovens diante de um mercado de trabalho hipercompetitivo. Makima (Tomori Kusunoki), nesse contexto, pode ser lida como uma representação simbólica do controle rígido exercido por esse sistema, que se apoia no conceito de giri (義理) para cercear até mesmo o mais humano dos desejos.
Findada essa longa introdução, o leitor é convidado a dar uma chance ao mangá, ao anime e ao filme – à obra de Tatsuki Fujimoto em sua totalidade. Permita-se enxergar, nesse caos de demônios, motosserras e adolescentes reprimidos, uma forma de beleza: um olhar agudo sobre temas sensíveis e simbolismos que discutiremos a seguir.

Reze Arc é uma proposta ambiciosa. O anime destacou-se por uma animação ímpar, transições rápidas, enquadramentos inventivos e uma sensibilidade rara para respeitar o ritmo mais lento quando necessário. Essas qualidades se mantêm na película, agora com um destaque especial para a cadência mais contemplativa. O arco de Reze é, de fato, um dos mais reflexivos da obra – algo que nasce das próprias escolhas de Fujimoto em dedicar páginas inteiras a detalhes de cenário e pequenos gestos das personagens.
Kensuke Ushio (Ushio Kensuke) nos presenteia com uma trilha sonora singular, versátil, que sobe o tom e a intensidade na hora do conflito – muito consciente de quando esse conflito é físico e quando é emocional. O destaque vai para a favorita do público, in the pool, executada no instante mais singelo e puro. Uma verdadeira viagem sonora, – nos levando para a delicadeza, a divisa da realidade e da fantasia, o crescente embate da paixão – e audiovisual – nos despindo, mergulhando de cabeça, totalmente imersos, um luar que brilha sobre o feminino, um conto de aranhas e borboletas.
No polo mais ativo do longa, a ação é desenfreada – animada com uma diversidade de ângulos que somente o cine-olho pode proporcionar. O estilo visual varia, revelando o desejo do estúdio de escolher, a cada sequência, a estética mais adequada para reduzir ao máximo qualquer ruído entre espectador e personagem. Os embates são barrocos, animações que se desdobram dentro de outras animações pulsando cores, um preto-de-branco de alto contraste, tintas espirradas na tela, linhas retas, negativo – uma experiência audiovisual que exige que o espectador mal pisque. Esgotados meus adjetivos e metáforas para a parte sem spoilers, passemos ao enredo.

Logo no início, é demarcado um traço essencial do gênero: o espectador está em um cinema, assiste a um filme, e, de repente, é presenteado com uma abertura: IRIS OUT, de Kenshi Yonezu (Yonezu Kenshi). As primeiras cenas são repletas de referências a diversos clássicos da história do Cinema, brincando com a própria linguagem – um Cinema dentro do anime. A escolha é acertada: incorpora um elemento muito querido pelos fãs e funciona quase como uma palavra de conforto – ‘você está prestes a assistir a um episódio de Chainsaw Man com uma hora e quarenta de duração’.
Outra decisão acertada é evitar explicações excessivas ou flashbacks destinados a contextualizar quem não assistiu ao anime. A história funciona de forma autônoma, mas perde-se parte dos detalhes do antes e, sobretudo, da explicação sobre o funcionamento daquele mundo – o que pode desorientar espectadores iniciantes. Trata-se, contudo, de uma perda calculada pelos estúdios: a intenção é levar os fãs às salas de cinema, e não o contrário – das telonas para as telinhas.
Reze Arc retoma a história de onde a animação de 2022 parou, logo após os eventos do arco do demônio da katana. Denji (Kikunosuke Toya) se mostra muito animado por poder experimentar um primeiro encontro com Makima, porém a sensação é frustrante – como quase tudo o que ele deseja e, de algum modo, conquista: o primeiro beijo, o primeiro toque, o primeiro peitinho. O protagonista é cercado de sensações meia-bomba, um eterno correr para voltar para um lugar sem muito entusiasmo. E a sensação do Cinema, de primeiro momento, parece mais uma delas. Ninguém espera que o primeiro encontro ideal seja assistir a dez filmes seguidos, intercalando-os com breves comentários – a não ser um cinéfilo curioso interessado por sites de crítica.

No entanto, em meio a diversos filmes considerados entediantes, o último surpreende. Denji chora, e Makima também, o que o surpreende – apesar de tão apático quando ela, ainda há nele um olhar às reações das pessoas ao redor, tentando encontrar uma referência para como se sentir. Nesse choro compartilhado, Denji questiona se possui um coração, e é Makima quem o informa, é ela quem a todo momento afirma para o garoto de 16 anos uma parte de sua identidade.
A partir desse momento, Denji se convence de que, ao doar e ajudar os outros, ele possui um coração! Como agradecimento, recebe uma flor. Começa a chover. Refugiando-se em uma cabine telefônica, uma moça desastrada o conhece, simpática e bem preocupada. Eles trocam poucas palavras. Ele a faz rir, e ela o convida para visitá-la em seu trabalho numa cafeteria próxima. Tomada por uma repentina vontade de revê-la, lá está Denji no café esperando por Reze (Reina Ueda). Parece um roteiro de um romance bem água com açúcar, e, de fato, é exatamente isso que o autor deseja que o leitor experimente: sem demônios, sem esquemas, sem a insana vida de um homem motosserra. Somente paz.
O coração de Denji divide-se entre amar Makima e amar Reze. Contudo, Makima é distante, fria, certeira. Não parece que nela há um amor genuíno. Por outro lado, Reze ri das suas graças, senta perto dele, insiste em saírem juntos para visitar uma escola abandonada à noite, pois Denji confessa nunca ter ido à escola. Durante o encontro, encontramos um dos símbolos mais fortes, evocado pela fábula de Esopo: do rato da cidade e do rato do campo. A dualidade é clara: o rato da cidade desfruta das melhores comidas, mas vive em constante perigo de ser morto por gatos ou humanos. Já o rato do campo não desfruta de todas as benesses urbanas, mas vive em paz. Reze deseja ser o rato do campo, e Denji, o rato da cidade; para ele, a vida vale a pena quando podemos aproveitar o que há de bom nela, mesmo diante de um fim iminente.

Logo após o diálogo, os dois saem para nadar. Numa bela cena repleta de simbolismos, Denji se entrega totalmente, submerso em Reze. Em sua última luta contra o instinto de amar Makima, ele tira suas roupas – está completamente desnudo para Reze; não há vestuário, máscaras, desejos ou paixões que interfiram entre ele e sua entrega. Ele se despede de tudo de si para se vestir inteiramente dela. Cenas de uma borboleta presa em teias de aranha intercalam os momentos na piscina – seria uma armadilha? Para quem sabe os acontecimentos dos próximos 30 minutos de filme, a resposta é óbvia. Porém, ela traz uma ressalva: Reze se entrega também. As notas de pureza na trilha sonora são, antes de tudo, um profundo desejo por ser um rato do campo, um desejo de se afogar na calmaria da água, um desejo de paz.
Várias pistas colocam em dúvida quem é Reze: ela derrota sozinha um assassino de aluguel enquanto finge ser indefesa, mata-o cantando uma canção de ninar em russo, e um demônio a reconhece, ficando sob suas ordens. Quem é Reze? Eis a revelação: o demônio da bomba. Seu objetivo é capturar o coração de Denji – o demônio da motosserra. A essa altura da história, já conhecemos o enorme interesse do demônio por Denji, embora ainda ignoremos o motivo. Reze é mais uma que deseja, mas, no final, tinha olhos para a motosserra, não para Denji.
Reze é uma espiã soviética; Denji, um adolescente de coração partido. Por que ele a salva de se afogar? Por que ela não o matou logo quando se conheceram? Em perguntas tão fundamentais a resposta está além do raciocínio lógico aprendido em sala de aula. Nenhum dos dois nunca pode ir para a escola. Reze era uma criança órfã submetida desde a tenra idade à testes na União Soviética para formar espiões demônios. Eles eram conhecidos como ratos. Se o demônio da bomba reconhece sua derrota perante o demônio da motosserra, Reze reconhece seu amor por Denji.

Denji uma vez exitou em fugir com ela por um senso de dever – na verdade, um disfarce para sua paixão por Makima. Agora ele está pronto para se entregar a esse desejo. No Japão, giri (義理) e ninjō (人情) governam as decisões. O primeiro é o senso de dever social, o papel de cada um perante a sociedade. O segundo representa o desejo, a emoção, o senso de querer individual. Giri é o necessário para ocupar posições na hierarquia social, empresarial ou burocrática, como em um departamento de segurança pública. Ninjō é o desejo de apertar os peitos de Makima. A todo momento seus desejos são frustrados perante uma vida de obrigações, perante um mercado. Esse mesmo trabalho fornece uma boa cama, três refeições. Mas, pergunta Reze, esse não deveria ser o básico para todos?
Apesar do profundo desejo (ninjō) de Denji se relacionar com Makima, ela encarna o giri. Ela o mantém na linha e controla até seus próprios desejos É a subjugação do ninjō ao giri, são seus desejos castrados pelo trabalho. Reze representa o verdadeiro desejo de Denji, seu ninjō mais puro e radical – o querer abandonar essa subjugação. E Reze também vive isso: seu papel de espiã é uma obrigação imposta desde cedo. Sociedades coletivistas, sejam capitalistas ou socialistas, possuem, na visão japonesa, um giri. Reze é resultado dessa vontade coletiva. O desejo dessa menina chamada de ‘rato’ é simplesmente poder estar no campo.
Quando Reze abandona o trem de sua fuga, ela aceita seu desejo. Denji e Reze agora podem ser ratos do campo, abraçando suas vontades verdadeiras sob o desejo de realizarem suas potências. Porém, não há ratos do campo ou da cidade – só existe Makima. Ela controla os ‘ratos’ e suas narrativas. Makima, encarnação da vontade de manter o controle do giri, mata Reze. A morte do ninjō.

Um estudo realizado pela Nippon Foundation em 2024, com jovens abaixo de 18 anos, revelou que o Japão apresenta a pior expectativa de futuro entre os países analisados. Somente 15% esperam uma melhora, enquanto 29% acreditam que será pior. O país atravessa um período em que sua juventude antecipa um futuro cada vez mais difícil e infeliz, e o arco de Reze em Chainsaw Man reflete as dores dessa população, incapaz de enxergar alegria mesmo em um futuro em que ser um salary man garante uma boa cama e três refeições diárias.
Não é por acaso que, ao superar o demônio da bomba, Denji se vê pronto para abraçar seu verdadeiro desejo. Essa superação pode ser lida como uma metáfora para o Japão pós-Segunda Guerra Mundial: ao aceitar o trauma que moldou sua sociedade, a juventude ainda pode recuperar a perspectiva de ser senhora de seus próprios desejos, vivendo seu ninjō em um novo giri. É impensável imaginar uma situação em que bomba e motosserra funcionem juntas; isso exigiria um controle absoluto. Fujimoto, porém, sugere que o caminho mais viável é justamente abrir mão desse controle.
