Na pele de Marjorie Estiano, Ângela Diniz não pede para ser amada, mas exige liberdade – assim como todas as mulheres

Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Ângela, uma mulher de pele clara aparece em ambiente externo, durante o dia. Ela tem cabelo castanho ondulado e solto. Ela sorri enquanto ergue um dos braços, parecendo estar dançando. Na outra mão, segura uma taça com Champagne. Usa um vestido bege com listras brilhosas, sem mangas e com decote profundo, além de brincos grandes e um cordão. Ao fundo, há outras pessoas desfocadas e árvores e plantas que compõem a paisagem.
A série foi inspirada na história de Ângela Diniz, a socialite a frente de seu tempo vítima de feminicídio (Fonte: HBO Max)

Mariana Bezerra

O final de 2025 foi marcado por um clima de luto. Enquanto as festividades se aproximavam, as histórias de alguns nomes femininos começaram a ocupar as redes sociais e ganharam mais tempo de audiência nos jornais. Infelizmente, os comentários e matérias não se tratavam do sucesso profissional dessas mulheres, ou de alguma história curiosa ou cativante de suas vidas; não ouvimos sobre o brilho delas ou sobre suas paixões. Isso só foi ouvido depois, e das bocas dos amigos e familiares que, em busca de justiça, relembram a coragem, os sorrisos e sonhos daquelas mulheres que tiveram as vidas roubadas pelo feminicídio.

No mesmo período, estreou Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. A série retrata a história da socialite brasileira conhecida como ‘A Pantera de Minas’, que nos anos 1970 ocupava os tabloides com narrativas sobre a sua beleza avassaladora e seu jeito livre de ser. A produção é baseada no podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, cujo título carrega o nome do local onde o brilho de Ângela (Marjorie Estiano) chegou ao fim. Em 30 de dezembro de 1976, ela foi assassinada pelo namorado Raul Fernando do Amaral Street (Emílio Dantas) com quatro tiros na Praia do Ossos, na Armação de Búzios, no Rio de Janeiro. 

A Pantera teve sua história interrompida pela maldade e possessividade do companheiro, mas, ainda que não parecesse ter consciência disso, construiu um legado eterno; a lembrança de sua figura irreverente foi marcante no julgamento do crime: mais determinado a condená-la por seu estilo de vida do que em punir de forma efetiva o seu assassino. Sem metáforas ou eufemismos: em um tribunal cujo juiz era homem, os advogados eram homens e a maior parte do júri também, a defesa, baseado na legislação da época, afirmou que Doca matou Ângela em um ato de legítima defesa de sua honra, como se ela fosse a verdadeira culpada.

Cena de Ângela Diniz: Assassinada e condenada. Ângela, uma mulher de pele clara está próxima a uma porta azul. Ela tem cabelo castanho escuro, veste um biquíni e apresenta uma expressão tensa, olhando para um homem à sua frente. Doca, de costas para a câmera, tem cabelo escuro e veste uma camisa marrom escuro. O cenário inclui alguns móveis e objetos ao fundo.
O roteiro faz um bom trabalho ao criar uma narrativa completa sobre a relação violenta de Ângela e seu assassino, afim de esclarecer a sequência de abusos que termina em tragédia (Fonte: HBO Max)

Cinco décadas depois, pensando com otimismo, era de se esperar que a série ressoasse como um olhar ao passado, uma lembrança do que não se pode repetir. No entanto, o luto e a revolta que ainda levam milhares de mulheres às ruas, especialmente nos últimos meses de 2025, mostraram que a misoginia enfrentada por Ângela – ainda em vida e após a sua morte – segue mais viva do que nunca. Diante disso, a pertinência da produção seria suficiente para instigar os espectadores, contudo, além disso, de antemão, o elenco da obra agregou um grande valor a ela. Mais uma vez, Marjorie Estiano entrega uma performance da mais alta qualidade, acompanhada de nomes como Emílio Dantas, Camila Mardila, Renata Gaspar, Thiago Lacerda e Antônio Fagundes. 

A série, dividida em 6 episódios, é absolutamente honesta, não deixa nada de fora; as polêmicas, as atitudes intempestivas, as festas, os casos, o divórcio e a sede por diversão e liberdade de Ângela. Ao fazer isso, o roteiro de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares e a direção de Andrucha Waddington – que dirigiu Marjorie no filme Sob Pressão (2016) – constroem uma narrativa extremamente coerente, que nos fazem compreender todo o contexto que tornava a protagonista persona non grata no imaginário social coletivo conservador e tradicional da época. 

Logo no primeiro episódio, Quero Me Separar, é retratado o divorcio da protagonista, que representou uma significativa ruptura dos padrões da época. Para Ângela, não era importante manter as aparências, mas sim ser genuinamente feliz, e é claro que ela pagou as consequências emocionais e sociais pelo pensamento à frente de seu tempo. Nesse sentido, a ambientação e as discussões trazidas foram delicadamente pensadas para construírem a atmosfera do período e a complexidade de Ângela, sem deixar que a sua imagem caísse no discurso estereotipado que assassina repetidamente as vítimas de violência de gênero mesmo após a sua morte.

Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Duas mulheres estão em um ambiente interno bem iluminado, com quadros pendurados na parede ao fundo. À esquerda, Ângela, uma mulher de pele clara e cabelo castanho ondulado preso lê um livro, olhando para baixo. Ela usa um vestido azul-marinho sem mangas. À direita, um pouco mais ao fundo, outra mulher de pele clara e cabelos castanhos curtos observa a leitura. Ela usa óculos e veste uma camisa clara com um colete em tons de vermelho e laranja. No fundo, aparece uma parede branca com quadros pendurados.
Renata Gaspar interpreta Gilda Ribeiro, uma amiga de Ângela, intelectual e feminista, que representa a diferenca entre uma suposta imagem militante com a verdadeira figura da protagonista (Fonte: HBO Max)

Ela era livre, e também era uma mãe, filha e amiga apaixonada; ela era tudo isso, e, ao mesmo tempo, também era intempestiva e, pode ser vista como insensível pelas esposas dos homens casados com os quais se envolveu. Era independente, no entanto, também foi refém de uma relação essencialmente abusiva. Ângela é uma revolução, que vivia sua sexualidade livremente, como queria e com quem queria, mas não era uma feminista convicta, não se importava com a teoria, ou com as intelectuais que discutiam o porque mulheres como ela mesma podiam viver como viviam. Apenas queria viver conforme desejasse.

A genialidade do roteiro, diga-se de passagem, é acompanhada de uma curadoria musical feita a dedo, que embala a narrativa assertivamente. Além disso, o figurino (Marcelo Pies) também merece destaque. Desde o glamour das festas no Rio de Janeiro até a funebridade do julgamento de Doca – ou de Ângela. Tudo colabora para que essa seja uma produção primorosa e quase resolutiva para a protagonista e para todas as mulheres: criou-se uma imagem poderosa e repleta de camadas para a personagem de Marjorie, contudo, nunca pejorativa, e ainda, sem se dar ao trabalho de forjar uma figura imaculada. O que Ângela Diniz: Assassinada e Condenada diz, ou melhor, grita tão alto quanto as vítimas de violência é: por que a sua régua moral determina se eu merecia morrer ou não?

Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Grupo de mulheres reunidas em protesto em frente a um prédio com colunas. Ao fundo, uma grande faixa com os dizeres "Quem ama não mata". No centro, uma mulher abraça outra emocionada. Algumas manifestantes aplaudem e uma segura um cartaz escrito ‘Eu não quero ser a próxima’ em vermelho.
A série recria cenas de protestos organizados nos anos 1980 (Fonte: HBO Max)

Quando Doca Street saiu do Tribunal de Cabo Frio após o primeiro julgamento em 1979, o fez como um homem livre, pois já havia cumprido um terço da pena decretada pelo juiz. Cinco anos depois, o Ministério Público recorreu e Doca e o novo veredicto foi uma pena de 15 anos que foi cumprida em sua totalidade. Nessa época, o movimento feminista, fortemente atuando e em processo de organização, foi essencial para essa decisão. Elas carregavam o lema “Quem ama, não mata”, uma referência à tese jurídica do crime passional. Na série, Camila Márdila e Renata Gaspar entregam performances emocionantes, carregadas de dor e revolta, como amigas de Ângela que estariam à frente de manifestações. 

Angela Diniz: Assassinada e Condenada – e os boletins de ocorrência brasileiros – escancaram que, na realidade em que vivemos, toda e qualquer mulher pode ser considerada merecedora de sofrimento e que não há nenhuma tentativa de rendição aos padrões que possa salvá-la. Machado de Assis, em 1899, no clássico Dom Casmurro, já nos alertava sobre isso: em uma história narrada por homens, é fácil criar a imagem da “cigana dos olhos de ressaca”. Ou seja, é urgente celebrar a liberdade, parar de tentar justificar o injustificável e tomar as rédeas do ponto de vista.

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