Aviso: O texto contém alguns spoilers

Guilherme Machado Leal
Histórias com animais que são agentes secretos ou vigaristas não são novas no formato. No entanto, em um cenário marcado pelo excesso de CGI em obras animadas ou grandiosidades técnicas sem, de fato, uma narrativa para contar, o arroz com feijão pode servir como um respiro. É o caso de Missão Pet, filme francês comandado por Benoît Daffis e Jean-Christian Tassy. Na obra, Falcão (Damien Ferrette) é um guaxinim que ajuda a vizinhança, embora não seja o ser vivo com a moral mais correta.
Pronto para mais uma missão, o protagonista precisa utilizar um trem para chegar até o seu destino final. Além dele, outros seres de estimação estão com os respectivos donos, que são levados a evacuarem o meio de transporte após um aviso. Na armadilha perfeita, formulada por Hans (Frantz Confiac), o grupo que irá carregar o longa de 86 minutos fica em apuros, já que o veículo percorre o trajeto em alta velocidade sem qualquer tipo de controle.
Além do medo dos próprios pets, os seres humanos também ficam aflitos: o medo de um possível acidente com os bichos acarreta em uma mobilização que vai dos jornais aos transeuntes da cidade. Por meio dessa abordagem, a produção francesa retrata a espetacularização da mídia ao utilizar a enrascada vivida pelos personagens principais, como a sede por audiência a partir de uma cobertura jornalística altamente sensacionalista.

Marcas como a Disney e a Pixar usam aos montes a tecnologia disponível para contar suas histórias – desde as mais básicas até aquelas que marcam gerações. Aqui, entretanto, menos é mais: o foco narrativo se concentra majoritariamente no trem, através da tentativa de impedir que o transporte bata quando chegar ao fim. Animação tradicionalmente para crianças, os mais vividos experienciam alguns momentos de humor no texto que tem autoria da dupla de cineastas e conta com a participação de Eric Tosti e David Alaux.
A sensação de que algo ruim pode acontecer, todavia, não espanta nem aos pequenos: fica claro, desde o início, que o grupo será salvo. Por isso, quando se concentra em fazer críticas à maneira como os seres humanos lidam com os acontecimentos à sua volta, a história de Daffis e Tassy amplia, ainda que de maneira mínima, a sua temática. De fato, assim como no mundo animado, a apreensão deu lugar ao espetáculo e o sentimentalismo perdeu voz em meio à apelação provocada pelas grandes mídias de comunicação.
Embora perpasse superficialmente por essas questões, Missão Pet é um filme que já nasceu antigo. Bobinho, algumas vezes engraçado, em outras nem tanto, o longa francês tem um final feliz em sua trajetória, mas sua missão é falha fora das telas. Após a experiência, o gosto amargo é o que caracteriza o término de sua narrativa. Com um protagonista fraco, sem identificações com o público que o assiste, a obra faz companhia às demais produções animadas ‘despretensiosas’, que evidenciam o desgaste do formato a trazer algo genuinamente divertido ou interessante.
