
Guilherme Moraes
Assim como na edição anterior, o que não falta na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo são filmes escondidos que podem surpreender positivamente. Este não é o caso de A Árvore do Conhecimento, dirigido por Eugène Green e que fez parte da seção Perspectiva Internacional. A obra portuguesa se apega à fantasia e à comédia escrachada para fazer críticas à extrema direita mundial – especialmente a norte-americana –, porém as piadas não conseguem ir além do deboche.
Na trama, Gaspard (Rui Pedro Silva), um adolescente de Lisboa, é sequestrado por Ogre (Diogo Doria), um homem que fez um pacto com o Diabo e agora detém o poder de transformar pessoas em animais. O vilão utiliza suas habilidades com os turistas para depois matá-los. Em dado momento, o protagonista se apega a um burro e um cachorro – ambos transfigurados – e para salvá-los, ele decide fugir.
Apesar de ser contextualizada em Portugal, a fita parece muito mais relacionada com questões estadunidenses. Ogre é uma clara representação de Donald Trump; a caricatura, a exposição ao ridículo e o apelo à violência são sempre elementos presentes nas críticas ao atual presidente dos EUA. Enquanto isso, os problemas com os estrangeiros abordados no longa se assemelha aos mexicanos e seus vizinhos de cima. Não é um defeito absorver temáticas estrangeiras, ainda mais nesse caso, que é algo discutido no mundo inteiro diariamente, porém, Eugène Green não traz nenhuma perspectiva diferente, nada que suceda uma visão particular de alguém que olha de outro continente. Está muito mais para um repeteco de ideias e formas norte-americanas, dentro de um Cinema mais característico do europeu contemporâneo – um pouco mais lento e com mais simbolismos.

Diferente do seu conterrâneo Ubu (2023), que participou da Mostra de 2024, A Árvore do Conhecimento não consegue utilizar a sua comédia com objetividade. A obra de Paulo Abreu fazia da teatralidade e da ridicularização uma maneira de reimaginar o Teatro Shakespeariano e utilizar como resistência a aristocracia histórica. Por outro lado, as representações de Green são muito debochadas e pouco construtivas. São piadas feitas para ‘convertidos’, ou seja, para quem já tem ideais parecidos. Mas então, onde fica a reflexão?
Nesse sentido, é possível pensar em Clint Eastwood. Seu conservadorismo e republicanismo não são segredo – ele próprio já declarou apoio a Donald Trump na eleição de 2016. Contudo, mesmo com suas posições polêmicas, ele ainda é um dos maiores cineastas vivos, e não se engane em pensar que seus ideais não estão em seus filmes, pois eles estão. Todavia, ele não se fecha no que acredita, está disposto a discutir e refletir criticamente sobre tudo. Não por acaso, ele disseca o sistema judiciário americano e o expõe como falho em Jurado N°2 (2024), ou repensa sobre racismo e construções sociais em Gran Torino (2008), ou até mesmo mudou o seu voto em 2020, apoiando um democrata. Clint discute e tenta conciliar lados opostos a partir da crítica e da materialidade. A Árvore do Conhecimento, em nenhum momento se propõe a fazer algo assim, parece sempre se sentir numa posição de intelectualmente superior ao ‘outro lado’. Não tem abertura para consonância entre os diferentes, é só deboche superficial e pueril.
Ainda que a Mostra seja um evento mercadológico antes do que qualquer coisa, ela ainda é muito rica e particular pela quantidade de filmes de diferentes lugares, épocas (com os remasterizados) e contextos. Na edição de 2024, o Cinema Indiano estava em peso e mostrou pontos de vistas e problemáticas únicas. Entretanto, é uma pena que o longa de Eugène Green não consiga ser minimamente original e recorra à tosquice de maneira vazia. Afinal, até para as obras mais fracas a particularidade é sempre um bom caminho.
